Quem tem medo de Inteligência Artificial nos processos de recrutamentos?
Entre março e maio de 2026, busquei intensamente um estágio na minha área de formação. Se antigamente era necessário entregar pessoalmente o seu currículo na empresa ou somente enviar seu portfólio por e-mail, atualmente é necessário passar por muitas etapas e driblar sistemas de inteligência artificial para conseguir, no mínimo, uma entrevista. Afinal, os processos de recrutamento estão se tornando cada vez mais artificial?
Não é incomum encontrar reclamações em relação a essas plataformas nas redes sociais. Um usuário anônimo respondeu que nunca conseguiu passar da segunda fase nessas plataformas. Não se sabe se o motivo está relacionado ao preenchimento incorreto de informações, falta de palavra-chave específica ou por não ter “mentido”.
O profissional alega que só conseguiu avançar nos processos seletivos por indicações de terceiros que já conheciam o seu trabalho, as suas habilidades e sabiam que ele seria capaz de desempenhar bem as atribuições da vaga. Outro mecanismo utilizado para avançar nos processos seletivos foi o contato direto com recrutadores no LinkedIn, seja recebendo ou enviando uma mensagem.
O usuário aponta que os contatos humanizados se tornam cada vez menos frequentes. Ele nota que os recrutadores não o procuram como há três ou quatro anos atrás. À medida que as conversas pessoais são substituídas por mensagens automáticas, cria-se um contexto preocupante. A troca das interações humanas pelos algoritmos torna-se um sintoma da desumanização dos processos seletivos.
O usuário pontua que é cada vez mais raro este tipo de contato. Atualmente, não recebe contatos diretos dos recrutadores como costumava receber há três ou quatro anos. A situação se torna mais preocupante pois ao invés de receber conversas humanas, o que chega são mensagens automáticas de plataformas de recrutamento e processos seletivos.
As mensagens automáticas não são novidade. Todas que recebi online nos processos seletivos realizados nestes site são genéricas e sempre seguem o mesmo padrão de “Agradecemos a sua candidatura e neste momento optamos por um outro candidato alinhado com a vaga”. Este tipo de feedback não é produtivo pois não permite que os candidatos compreendam exatamente o porquê não foram contratados e busquem melhorar o seu currículo, as suas habilidades ou apresentação.
O tempo para receber um retorno, muitas vezes genérico, corrobora a angústia dos candidatos. Enquanto as vagas ficavam abertas nas plataformas, ora acreditava que ainda poderia ter alguma chance de passar, ora estava angustiada por não obter nenhuma resposta. A falta de uma resposta contribui para um processo de tortura e delirio mental prolongado.
No contexto digital, os candidatos passam a focar em “driblar” o algoritmo em detrimento a mostrar suas qualificações. A tese de doutorado “Artificial intelligence in the hiring process: uses and consequences ”, escrita por Humberta Silva, explica que este cenário é equivalente aos consumidores que usam ferramentas tecnológicas para obter dados e enganar formulários para conseguir melhores promoções.
Este cenário amplifica um desequilíbrio de poder entre os recrutadores e os candidatos, pois quem está procurando emprego geralmente não entende como esta IA decide. Por exemplo, até hoje não compreendo qual é a lógica e os tipos de algoritimos utilizados nas plataformas. As empresas não são transparentes em relação a este uso de Inteligência Artificial e algoritmos. Assim, isso dificulta a busca por emprego atualmente.
A utilização destas tecnologias traz vantagens e desvantagens para os recrutadores. Por um lado, os processos se tornam mais ágeis e flexíveis. Por outro, os dados dos candidatos ficam nas mãos de empresas terceirizadas, o que se torna uma desvantagem para as mesmas pessoas. Por exemplo, a Gupy compartilha os dados dos usuários com as empresas cadastradas e não se responsabiliza pelo que pode acontecer com estas informações. Assim, os usuários podem entregar
A partir do momento em que os processos seletivos se tornam mais dependentes de ferramentas de IA, é necessário fazer uma dupla checagem dentro da plataforma. Em sua tese, Humberta Silva explica que esses sistemas não estão imunes a falhas, vieses ou erros inesperados. Assim, a utilização da IA sem supervisão humana pode acarretar a torna menos confiável.
Tudo aponta para que os processos continuem a ser cada vez mais automatizados. O que mais observo dentro dessas plataformas são o aumento de mais etapas, testes e entrevistas para conseguir uma vaga de emprego. Um processo que cada vez menos utiliza recursos humanos e desumaniza quem está na busca por emprego.

