Por Vanessa Keppel
Em novembro de 2025, a liquidação extrajudicial do Banco Master acionou o maior ressarcimento da história do Fundo Garantidor de Créditos (FGC), com o pagamento de R$ 41 bilhões a 1,6 milhão de credores. Enquanto o controlador da instituição, Daniel Vorcaro, era preso pela Polícia Federal, as telas do TikTok ofereciam uma abordagem diferente sobre o caso. Uma imersão laboratorial de 70 minutos na plataforma revelou que, sob a lógica do algoritmo, o interesse público e o fato técnico foram fragmentados em conteúdos focados em fofocas, ostentação e entretenimento rápido.
O avanço sobre o Judiciário e a distribuição digital
As investigações da Polícia Federal também atingiram a cúpula do Poder Judiciário. A Agência Pública detalhou que o ministro Dias Toffoli assumiu a competência do caso, trazendo as decisões para o Supremo Tribunal Federal (STF), e decretou sigilo total sobre o processo. A medida ocorreu após vir à tona que o magistrado havia viajado em um jatinho privado com o advogado de um dos diretores investigados. A publicação revelou ainda que o escritório de Viviane Barci de Moraes, esposa do ministro Alexandre de Moraes, firmou um contrato de honorários de até R$ 129 milhões para coordenar a defesa dos interesses da instituição perante tribunais e órgãos federais.
Diante de uma trama financeira e política desse tamanho, resta entender como um assunto tão complexo é distribuído para a sociedade no ambiente digital.
A barreira do algoritmo e o sumiço do jornalismo
O primeiro impacto do experimento laboratorial foi a dificuldade para encontrar informações oficiais da imprensa. Na plataforma, o sistema de recomendação operou em uma espécie de compasso de espera: foi necessário passar por 12 publicações de temas aleatórios até que a inteligência artificial reconhecesse o interesse na busca pelos termos do caso e começasse a entregar o conteúdo.
Quando o fluxo sobre o Banco Master finalmente se estabeleceu, as notícias profissionais já haviam sido empurradas para as margens do feed. Em uma amostragem de mais de 50 postagens recomendadas na aba For You, apenas dois veículos de imprensa tradicional apareceram. O G1 surgiu na 30ª posição da rolagem, seguido pelo Jornal da Band na 31ª. Na prática, o desenho da rede exige que o cidadão consuma quase três dezenas de vídeos de entretenimento e especulação antes de ter acesso a qualquer dado checado sobre o rombo de R$ 41 bilhões.
A plataformização e o desmonte do interesse público
Esse cenário joga luz sobre o processo de plataformização do jornalismo: a necessidade de moldar a produção de notícias à lógica comercial e de engajamento rápido das redes sociais. Na aba For You, o algoritmo atuou como um prisma, fragmentando um crime financeiro grave em nichos de apelo emocional:
- Ostentação e Voyeurismo: Em vez de dar espaço para a perda financeira sofrida por milhares de pequenos investidores, perfis de criadores de conteúdo como Jupy e Guilherme Risone ganharam engajamento ao expor a vida privada de Daniel Vorcaro e os bastidores até de uma festa de 15 anos.
- Humor e despolitização: Nos arquivos obtidos pela apuração jornalística, a Polícia Federal interceptou mensagens de Vorcaro afirmando que “esse negócio de banco é igual máfia”. Na rede social, contudo, o perfil de Larissa Cavalcante converteu os vazamentos sérios no meme das “frases da peleleca”, esvaziando a gravidade das denúncias e transformando os investigados em personagens folclóricos da internet.
A esse esvaziamento soma-se um risco técnico do aplicativo: a perda da noção de tempo. Como o TikTok omite a data original das postagens no fluxo principal de recomendação, vídeos gravados antes da falência da instituição são entregues como se fossem atuais, gerando desinformação em um cenário econômico e político altamente volátil.
Ao transformar a maior fraude bancária recente do país em um espetáculo de memes e fofocas privadas, os sistemas de recomendação das Big Techs deixam um alerta incômodo: na era dos algoritmos, o interesse público é o primeiro que deixa de ser recomendado.

