Por Nicole Rohers

A pergunta pode soar exagerada, mas basta observar as manchetes do último ano para perceber que existe uma espécie de fascínio permanente pelo tema. Toda semana surge uma nova descoberta. Um novo risco. Uma nova promessa. Um novo estudo capaz de mudar tudo o que sabíamos antes. É um relacionamento curioso. Em alguns momentos, parece até desajustado.
Em junho de 2025, pesquisadores do MIT Media Lab publicaram o estudo “Your Brain on ChatGPT: Accumulation of Cognitive Debt when Using an AI Assistant for Essay Writing Task”. A pesquisa investigava os efeitos do uso de modelos de linguagem em tarefas de escrita e apontava resultados que, segundo os próprios autores, ainda exigiam aprofundamento e novas investigações.
Mas não foi assim que grande parte do público conheceu o estudo.
Nos meses seguintes, veículos brasileiros publicaram manchetes afirmando que o ChatGPT poderia prejudicar o desenvolvimento cognitivo, causar dependência e até provocar uma suposta “atrofia cognitiva”. Em abril de 2026, quase um ano após a divulgação da pesquisa, uma publicação nas redes sociais da newsletter The News dizia: “Uma geração inteira pode sofrer de atrofia cognitiva”.
A questão não é discutir se a inteligência artificial representa riscos ou benefícios, nem contestar a importância da pesquisa realizada pelo MIT. O que me interessa é outro movimento: como um estudo preliminar se transforma em uma narrativa recorrente e por que o jornalismo continua retornando a ela mesmo quando não existem novos resultados científicos a apresentar.
O estudo do MIT não foi o primeiro a alertar sobre os efeitos da IA ao cérebro, e provavelmente não será o último. Mas a forma como foi abordado revela um padrão que se repete sistematicamente na cobertura brasileira de tecnologia. O termo “atrofia cognitiva”, por exemplo, não aparece no trabalho original. Uma das autoras do estudo, a pesquisadora Nataliya Kosmyna destaca o uso da expressão “cognitive debt”, dívida cognitiva, para descrever a redução temporária no engajamento neural.
A diferença entre os dois termos não é só semântica. “Dívida cognitiva” sugere algo que pode ser pago, trabalhado. “Atrofia cognitiva” evoca degeneração, perda irreversível, dano estrutural. Em temas tão recentes e ainda pouco compreendidos, cada escolha de palavra constrói sentidos que acabam sendo reproduzidos e ampliados na circulação da notícia.
Mas o uso de termos mais fortes do que aqueles presentes na pesquisa não é o único aspecto que chama atenção. Há também uma questão relacionada à temporalidade dessa cobertura. O estudo foi publicado em junho de 2025. O que explica, então, sua recirculação prolongada?

Os números ajudam a visualizar este interesse. Em uma busca feita no site do jornal, levantamento realizado nos últimos 12 meses, a Folha de S.Paulo publicou mais de 4 mil matérias relacionadas à inteligência artificial. Para efeito de comparação, no mesmo período foram identificadas apenas 255 matérias sobre reciclagem e cerca de 2 mil sobre direitos humanos. Evidentemente, os temas possuem naturezas diferentes e não disputam necessariamente o mesmo espaço editorial. Ainda assim, a diferença chama atenção e sugere que a IA deixou de ser apenas uma pauta tecnológica para se tornar uma das grandes narrativas do jornalismo contemporâneo.
Essa estratégia tem um efeito colateral: a naturalização do alarmismo. Quando um estudo é repetido o suficiente, ele deixa de ser tratado como uma investigação preliminar e passa a ser visto como fato estabelecido. A “atrofia cognitiva” deixa de ser uma construção midiática e se torna, na percepção do público, uma verdade científica.
Quando um estudo complexo é reduzido a uma manchete de 10 palavras, algo se perde. E não é apenas nuance. Perde-se a capacidade de pensar criticamente sobre a tecnologia. O leitor que lê “IA causa atrofia cognitiva” não sai sabendo como o estudo foi feito, quantas pessoas participaram, quais foram suas limitações metodológicas, o que a pesquisadora realmente disse sobre as interpretações dos resultados ou mesmo se outros estudos chegaram a conclusões semelhantes.
O resultado é um público que sabe que IA é perigosa, mas não sabe por quê ou em que medida. Esse público torna-se mais propenso ao alarmismo ou à rejeição automática da tecnologia. E ambos os extremos dificultam um debate público qualificado sobre regulação, uso ético e políticas públicas.
A pesquisadora Nataliya Kosmyna, no site do MIT, alertou contra interpretações exageradas como “IA está tornando pessoas burras”. Mas esse alerta raramente aparece nas matérias. O que fica é o alarme.

Resposta da pesquisadora retirada do site oficial da pesquisa.
Por que o jornalismo notícia tanto a Inteligência Artificial?
Volto à pergunta inicial. Acho que a resposta é dupla.
Primeiro: a IA é um tema que nunca se esgota. Toda semana há um novo modelo, uma nova aplicação, um novo risco, uma nova promessa. Para um veículo que precisa produzir conteúdo diariamente, isso é ouro.
Segundo: a IA é um tema que pergunta ao leitor sobre si mesmo. “Seu cérebro está enfraquecendo?” “Você está dependendo demais da tecnologia?” “Você vai perder seu emprego para uma máquina?” Essas perguntas geram clique porque geram reflexão incômoda. E reflexão incômoda gera engajamento.

No último ano, os principais jornais do país publicaram mais de 15 mil matérias sobre inteligência artificial.
Para onde isso nos leva?
O estudo do MIT é um exemplo interessante porque mostra justamente essa tensão. Enquanto os pesquisadores falavam em limitações, investigações futuras e possíveis interpretações, parte da cobertura já falava em atrofia, dependência e declínio cognitivo. Em algum ponto do caminho, a dúvida científica deu lugar à afirmação.
Isso não significa que pesquisas sobre inteligência artificial não devam ser noticiadas. Pelo contrário. Diante do impacto que essas tecnologias têm na educação, no trabalho e na comunicação, é natural que ocupem espaço permanente no noticiário. O problema surge quando a necessidade de publicar sobre IA se torna maior do que a necessidade de compreender aquilo que está sendo publicado. Talvez seja por isso que um estudo preliminar consiga permanecer circulando por tanto tempo. Ele não responde apenas a uma curiosidade científica. Ele alimenta uma discussão que interessa ao público, gera engajamento e oferece novas formas de contar a mesma história.
No caso do estudo do MIT, a história que permaneceu não foi a da dívida cognitiva. Foi a da atrofia cognitiva. E essa diferença diz tanto sobre a inteligência artificial quanto sobre o próprio jornalismo.
Se a IA promete transformar a forma como trabalhamos, aprendemos e nos comunicamos, o jornalismo tem uma responsabilidade igualmente importante: garantir que essa transformação seja acompanhada por um debate público informado. Talvez sua principal tarefa seja oferecer aos leitores acesso a conhecimento científico traduzido de forma acessível, contextualizada e fiel às evidências. Porque para compreender uma tecnologia exige informação suficiente para que a sociedade possa decidir, de forma consciente, o que fazer com ela.

