O crescimento do neonazismo no Brasil e suas origens

por Ernesto Miguel Luzardo de Souza

Um levantamento realizado pela Fundação Getúlio Vargas (FGV) revela que mais de 35 mil usuários brasileiros acessam grupos neonazistas apenas no Telegram.

Ergon Cugler, pesquisador responsável pelo levantamento, destacou em entrevista dada ao The Intercept Brasil que “A plataforma permite que esses espaços estejam visíveis, acessíveis e organizados, como se não houvesse nada irregular”, sendo possível encontrar grupos com imagens, frases e material ideológico nazifascista publicado de forma acessível para qualquer um ver, com apenas alguns cliques de distância.

A análise mostra que o auge deste tipo de atividade foi durante a pandemia de COVID 19, muito em decorrência de grupos antivacinas, nos quais teorias da conspiração sobre o vírus eram comumente propagadas, que hora ou outra acabavam respingando em conspirações de raíz antissemita, servindo de funil para grupos nazifascistas. 

Porém, a coisa piorou muito quando o Telegram introduziu os “canais recomendados”, onde aqueles grupos com conteúdo parecido são apresentados para o usuário pela própria plataforma, sem que seja necessário a divulgação orgânica desses grupos dentro de outros, e como se não bastasse, o Telegram ainda tem um plano premium, por R$ 15,90 ao mês, que aumenta ainda mais o número de recomendações. Ou seja, além de hopedar conteúdo ilegal, a aplicativo lucra com ele!

Muito disso se deve a uma brecha legal que existia no Marco Civil da Internet, que estabelecia no artigo 19 que empresas na internet só poderiam ser responsabilizadas pelo conteúdo publicado nelas caso descumprisse decisão judicial de remoção. Essa brecha já foi corrigida pelo Supremo Tribunal Federal, que considerou o artigo inconstitucional, por ser considerado insuficiente para casos em que são propagados atos antidemocráticos, terroristas ou discriminatórios nas redes. A mudança, portanto, obriga as plataformas a agirem ativamente contra a publicação desse tipo de conteúdo.

A história do fascismo no Brasil

Talvez cause surpresa a descoberta de que a doutrina nazista é tão difundida no nosso país, mesmo que seja criminalizada pela nossa constituição (diferentemente dos Estados Unidos, por exemplo, onde até hoje grupos supremacistas como a Ku Klux Klan existem abertamente). Entretanto, a existência de correntes ideológicas como esta não é novidade no Brasil, pois na verdade, nosso país foi sede do maior partido nazista fora da Alemanha.

De acordo com a historiadora Ana Maria Dietrich (1), o partido foi fundado cinco anos antes de Hitler chegar ao poder, em Santa Catarina, surgindo inicialmente como um braço do partido na Alemanha, num esforço para angariar fundos entre descendentes alemães em outros países. Mas, assim que o Terceiro Reich se instalou, a atuação se voltou para o recrutamento de apoiadores, com o partido propagandeando materiais antissemitas e de defesa do regime por meio de jornais, eventos e até em escolas dentro das comunidades alemãs. Se aproveitando bastante do fato de que estas comunidades ainda preservavam a cultura do país de origem, não só com a língua e festas, mas até com a religião, que era protestante.

Mesmo com a exigência de que seus filiados fossem alemães “de raça pura”, o partido nazista do brasil chegou a ter cerca de 2900 filiados com núcleos em 17 estados. Aqueles que não se encaixassem nos critérios étnicos poderiam se filiar á Ação Integralista Brasileira (AIB), partido do movimento integralista, abertamente inspirado em Mussolini, que tinha uma relação de irmandade com o partido nazista, com os dois até mesmo compartilhando suas sedes, uma do lado da outra, como mostra a foto abaixo (esta especificamente ficava no Rio Grande do Sul). Ambos os partidos, que até então operavam legalmente, viriam a ser banidos no final da década de 30, com o acirramento da Segunda Guerra Mundial e o posicionamento do governo brasileiro aos Aliados, com o então presidente Getúlio Vargas chegando até a proíbir o idioma alemão no país para evitar o espalhamento de ideais e espionagem nazistas.

foto: reprodução

Entretanto, como explica o historiador João Fábio Bertonha (2), mesmo com o banimento oficial durante o Estado Novo, a ideologia fascista desses movimentos continuou forte no nosso país, tanto é que o próprio integralismo retorna com uma nova sigla após a morte de Vargas, conquistando espaço durante o governo de Juscelino Kubitschek e elegendo seus membros. Em seguida, o integralismo apoiou o golpe militar de 1964 e se integrou ao ARENA (Aliança Renovadora Nacional), partido oficial dos militares, permanecendo influente durante a maior parte do regime, isto até a morte de seu líder fundador Plínio Salgado em 1975, que provocou uma desorganização do movimento. 

Com o fim da ditadura, essa velha extrema direita volta a tentar se organizar na redemocratização, encontrando representantes em figuras como Enéas Carneiro, abertamente reacionário e elitista, que embora nunca tenha conseguido a presidência, foi o deputado mais votado por São Paulo em 2002 e se reelegeu na eleição seguinte, mandato que ele não completou devido a sua morte em 2007. Já o partido de Enéas, o PRONA (Partido de Reedificação da Ordem Nacional), que havia absorvido a maioria dos integralistas que restavam na época, se fundiu ao que hoje é o Partido Liberal (PL) em 2006, e calma, já vamos chegar em quem você está pensando.

A partir dos anos 2000, a internet passa a se tornar cada vez mais popular no mundo inteiro, inclusive no Brasil, trazendo diversos adventos como a possibilidade de reunir várias pessoas de todo o mundo em um mesmo lugar, algo muito bom, mas que tem um lado nefasto, pois pessoas adeptas da ideologia fascista encontram no meio virtual um lugar pra construir espaços de radicalização. Alguns desses sites inclusive são de grande circulação, como o infame 4chan, fórum estadunidense criado ainda no final dos anos 90, inicialmente para discutir assuntos relacionados a cultura pop, mas que devido a características como o anonimato dos usuários, com o tempo virou um antro para a extrema-direita daquele país, com todo um linguajar específico criado lá dentro e o espalhamento de diversas teorias conspiratórias, como a que gerou o incidente do ‘pizzagate’, que daria todo um artigo à parte, sendo um dos elementos que levou a primeira eleição de Donald Trump.

No Brasil algo não muito diferente aconteceu, com a extrema-direita nacional seja criando sites diretamente inspirados nos gringos, como o finado 55chan, cujo criador Konrad Scorciapino inclusive trabalha no Brasil Paralelo e Nubank hoje em dia (3); ou se infiltrando em sites mais gerais, como foi com o antigo UOL Jogos ou com o Orkut, onde neste último se formatou o culto ao finado Olavo de Carvalho, supostamente filósofo, mas que no fim só importava e adaptava para o Brasil a ideologia produzida pela extrema-direita ianque. 

Tal substrato fascista só precisava de um nome que representasse seus interesses, e ele surgiria na figura de Jair Bolsonaro, até então um deputado federal de pouca relevância na mídia, com algumas participações aqui e ali em programas de auditório ou de humor duvidoso, mas que ganhou projeção ao discursar em memória do General Ustra, notório por seus crimes de tortura durante a ditadura, durante o impeachment da então presidente Dilma Rousseff. A partir daí, Bolsonaro teve seu nome impulsionado, não só pela base fascistizada que já o acompanhava (4), mas também com muito recurso financeiro do empresariado brasileiro e técnicas ilegais como disparos em massa em aplicativos de mensagens, crescendo principalmente em cima do discurso “contra a corrupção” criado pela Lava-Jato. 

Eu poderia neste texto falar sobre o governo Bolsonaro em si, mas o foco aqui era narrar a história do que levou a ele e não ele em si, fora o fato de que esse arco histórico ainda não se encerrou, pois estou escrevendo na mesma semana em que ele acabou de ser preso preventivamente pela Polícia Federal, e é necessário um certo distanciamento antes que uma melhor análise dos fatos possa ser realizada. Agradeço á sua paciência ao ler este longo texto em um mundo onde a atenção está cada vez mais escassa, obrigado!

Referências

1) https://www.teses.usp.br/teses/disponiveis/8/8138/tde-10072007-113709/publico/TESE_ANA_MARIA_DIETRICH.pdf 

2) https://seer.ufu.br/index.php/historiaperspectivas/article/view/19372/10419 

3) https://apublica.org/2024/06/diretor-da-brasil-paralelo-criou-forum-chan-que-promovia-crimes-de-odio/ 

4) https://noticias.uol.com.br/politica/ultimas-noticias/2011/04/06/neonazistas-ajudam-a-convocar-ato-civico-pro-bolsonaro-em-sao-paulo.htm 

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