{"id":1347,"date":"2026-06-26T10:46:00","date_gmt":"2026-06-26T13:46:00","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ufrgs.br\/daulab\/?p=1347"},"modified":"2026-06-26T10:46:00","modified_gmt":"2026-06-26T13:46:00","slug":"o-cinema-fora-das-telonas-pirataria-como-alternativa-de-acesso-ao-audiovisual","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufrgs.br\/daulab\/2026\/06\/26\/o-cinema-fora-das-telonas-pirataria-como-alternativa-de-acesso-ao-audiovisual\/","title":{"rendered":"O cinema fora das telonas: pirataria como alternativa de acesso ao audiovisual"},"content":{"rendered":"\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A aus\u00eancia de salas de cinema em mais de 40% dos munic\u00edpios brasileiros e o custo elevado dos servi\u00e7os de streaming ajudam a explicar a perman\u00eancia da pirataria digital como alternativa de consumo de filmes no pa\u00eds<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>Por Evelise Machado e Marina Terres<\/em><\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"576\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/daulab\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/CAPA-1024x576-1.png\" alt=\"A imagem atual n\u00e3o possui texto alternativo. O nome do arquivo \u00e9: CAPA.png\" class=\"wp-image-1550\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/daulab\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/CAPA-1024x576-1.png 1024w, https:\/\/www.ufrgs.br\/daulab\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/CAPA-1024x576-1-300x169.png 300w, https:\/\/www.ufrgs.br\/daulab\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/CAPA-1024x576-1-768x432.png 768w\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Quando os <strong>irm\u00e3os Lumi\u00e8re<\/strong> exibiram <em>A Sa\u00edda dos Oper\u00e1rios da F\u00e1brica Lumi\u00e8re<\/em>, em 1895, foram justamente trabalhadores comuns que ocuparam o centro da tela. Mais de um s\u00e9culo depois, o <strong>cinema<\/strong> continua sendo uma das formas de arte mais popular do mundo, mas o acesso a ele est\u00e1 longe de ser universal. Em meio aos altos custos de assinatura dos servi\u00e7os de streaming e ao desaparecimento de obras dos cat\u00e1logos digitais, muitas pessoas recorrem \u00e0 <strong>pirataria<\/strong> para assistir a filmes que, paradoxalmente, deveriam ser mais facilmente acessados. Alvo de debate sobre <strong>direitos autorais, preserva\u00e7\u00e3o audiovisual e democratiza\u00e7\u00e3o da cultura,<\/strong> a pirataria permanece consolidada como uma das principais formas de circula\u00e7\u00e3o do cinema na era digital.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A rela\u00e7\u00e3o entre cinema e pirataria \u00e9 marcada por contradi\u00e7\u00f5es morais e legais. Segundo o <a href=\"https:\/\/static.poder360.com.br\/2025\/06\/ANUARIO-2025-ABCF.pdf\">Anu\u00e1rio de<\/a> <a href=\"https:\/\/static.poder360.com.br\/2025\/06\/ANUARIO-2025-ABCF.pdf\">Falsifica\u00e7\u00e3o<\/a>, publicado em 2025 pela Associa\u00e7\u00e3o Brasileira de Combate \u00e0 Falsifica\u00e7\u00e3o (ABCF), o setor audiovisual sofreu um<strong> preju\u00edzo<\/strong> de 4 bilh\u00f5es de reais em 2024 no Brasil devido a<strong> atividades ilegais<\/strong> relacionadas ao contrabando de conte\u00fados. Ao mesmo tempo, o mercado do streaming segue em expans\u00e3o: apenas no primeiro trimestre de 2026, a <a href=\"https:\/\/www.cnnbrasil.com.br\/economia\/negocios\/netflix-supera-previsao-de-lucro-e-receita-mas-decepciona-em-guidance\/\">Netflix registrou lucro l\u00edquido de US$ 5,28 bilh\u00f5es e receita de US$ 12,25 bilh\u00f5es.&nbsp;<\/a><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Entretanto, a pr\u00e1tica segue sendo uma alternativa para parte do p\u00fablico acessar obras que n\u00e3o chegam com facilidade a determinadas regi\u00f5es do pa\u00eds. O<a href=\"https:\/\/www.gov.br\/ancine\/pt-br\/oca\/publicacoes\/mercado-audiovisual-brasileiro\/cinema\/arquivos-pdf\/informe-mercado-cinematografico-2025.pdf\"> Informe Anual do Mercado Cinematogr\u00e1fico 2025<\/a>, publicado pela Ag\u00eancia Nacional do Cinema (<strong>ANCINE<\/strong>), aponta que 40,6% da popula\u00e7\u00e3o brasileira ainda reside em <strong>munic\u00edpios sem salas de cinema<\/strong>. Nas regi\u00f5es Nordeste e Norte, esse \u00edndice ultrapassa 50%, evidenciando as <strong>desigualdades regionais no acesso \u00e0s salas de exibi\u00e7\u00e3o.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Nas palavras do professor de Realiza\u00e7\u00e3o Audiovisual da Unisinos e cr\u00edtico de cinema <strong>Milton do Prado<\/strong>, h\u00e1 pessoas que \u201cn\u00e3o teriam acesso \u00e0queles filmes, porque moram muito longe dos lugares de difus\u00e3o\u201d. O professor ainda afirma que a forma\u00e7\u00e3o de <strong>repert\u00f3rio cinematogr\u00e1fico<\/strong> frequentemente passa por canais informais de distribui\u00e7\u00e3o. &#8220;Eu conhe\u00e7o cr\u00edticos de cinema do Brasil hoje em dia que vieram de cidades pequenas e tiveram toda a sua forma\u00e7\u00e3o baixando filmes&#8221;, relata.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\"><strong>Valor de acesso<\/strong><\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Al\u00e9m da dist\u00e2ncia geogr\u00e1fica, o custo tamb\u00e9m \u00e9 um crit\u00e9rio consider\u00e1vel. Com a expans\u00e3o dos <strong>servi\u00e7os de <\/strong><strong><em>streaming<\/em><\/strong><em>, <\/em>filmes e s\u00e9ries passaram a ser distribu\u00eddos em diferentes plataformas, exigindo m\u00faltiplas assinaturas para acessar<strong> cat\u00e1logos variados<\/strong>. Um levantamento publicado pela <a href=\"https:\/\/exame.com\/invest\/mercados\/quanto-custa-assinar-as-5-principais-plataformas-de-streaming-do-brasil\/\">Revista Exame<\/a> em mar\u00e7o de 2026 aponta que o custo m\u00ednimo para obter acesso \u00e0s cinco principais plataformas de streaming do Brasil est\u00e1 em R$ 128,59 mensais nos planos mais simples e limitados. O valor corresponde a cerca de 8% do sal\u00e1rio m\u00ednimo vigente em 2026. Nesse contexto, \u201cquem \u00e9 que pode pagar todos os pacotes mensais?\u201d, questiona Prado. Para o cr\u00edtico, a dispers\u00e3o das obras entre diferentes servi\u00e7os de streaming acaba empurrando parte dos espectadores para meios alternativos de acesso.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Realizamos uma sondagem, por meio de formul\u00e1rio online, com 48 moradores de Porto Alegre e da Regi\u00e3o Metropolitana para compreender seus h\u00e1bitos de consumo audiovisual e suas percep\u00e7\u00f5es sobre a pirataria. Ao serem questionados sobre os motivos que tornam a pr\u00e1tica t\u00e3o comum no Brasil, um dos participantes apontou o alto custo dos servi\u00e7os legais como fator determinante.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u201cSe tornou uma pr\u00e1tica comum devido aos pre\u00e7os abusivos cobrados pelos servi\u00e7os legais. O acesso a diversas plataformas de assinatura representa um custo muito elevado e, em um pa\u00eds onde o sal\u00e1rio m\u00ednimo \u00e9 de R$ 1.621,00, acaba se tornando inacess\u00edvel para muitas pessoas. Enquanto isso, um servi\u00e7o de <strong>IPTV<\/strong>, por exemplo, oferece tudo isso por cerca de R$ 30 mensais. A pirataria, apesar de ilegal, acaba sendo o \u00fanico meio de acesso a esses conte\u00fados\u201d, afirmou.<\/p>\n\n\n\n<div class=\"flourish-embed flourish-chart\" data-src=\"visualisation\/29434255\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/public.flourish.studio\/visualisation\/29434255\/thumbnail\" width=\"100%\" alt=\"chart visualization\" \/><\/div>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A percep\u00e7\u00e3o do entrevistado encontra respaldo nos dados da sondagem: 79,2% dos participantes afirmaram recorrer a <strong>conte\u00fados pirateados<\/strong> com frequ\u00eancia devido ao custo elevado das plataformas legais.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\"><strong>Nem todo filme est\u00e1 no streaming<\/strong><\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Mesmo quem possui acesso \u00e0s diversas <strong>plataformas de <\/strong><strong><em>streaming<\/em><\/strong><em> <\/em>encontra obst\u00e1culos para assistir determinadas produ\u00e7\u00f5es. <strong>Filmes independentes, produ\u00e7\u00f5es de pa\u00edses n\u00e3o hegem\u00f4nicos e obras restauradas<\/strong> permanecem ausentes dos cat\u00e1logos mais populares. Prado avalia que os cat\u00e1logos das grandes plataformas s\u00e3o limitados \u00e0 l\u00f3gica comercial, que prioriza conte\u00fados com maior potencial de audi\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Nesse contexto, a pirataria desempenha um papel essencial na constru\u00e7\u00e3o de repert\u00f3rio cinematogr\u00e1fico. \u201cN\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel hoje em dia um <strong>cin\u00e9filo <\/strong>que est\u00e1 come\u00e7ando, querendo <strong>expandir o seu repert\u00f3rio<\/strong>, n\u00e3o recorrer \u00e0 pirataria\u201d, avalia o professor. Para ele, muitos espectadores desfrutam dos meios ilegais para ter acesso a filmes que n\u00e3o est\u00e3o dispon\u00edveis em plataformas oficiais.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-16-9 wp-has-aspect-ratio\"><div class=\"wp-block-embed__wrapper\">\n<div class=\"ast-oembed-container \" style=\"height: 100%;\"><iframe title=\"Filme indispon\u00edvel em plataformas de streaming\" width=\"500\" height=\"281\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/U6zaywnwqEI?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/div>\n<\/div><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A percep\u00e7\u00e3o \u00e9 refletida nos dados levantados para esta reportagem. Entre os participantes, 50% apontaram a indisponibilidade de determinados conte\u00fados nos servi\u00e7os legais como principal motiva\u00e7\u00e3o para consumir conte\u00fados pirateados.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\"><strong>Circula\u00e7\u00e3o encontra alternativa em projetos independentes<\/strong><\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Foi justamente a dificuldade de encontrar determinadas obras que motivou a cria\u00e7\u00e3o de um projeto de compartilhamento de filmes hospedados no Google Drive e divulgados por meio da plataforma X. Jonas*, idealizador da iniciativa e morador de uma cidade de porte m\u00e9dio do sul do Brasil, conta que come\u00e7ou reunindo t\u00edtulos pouco conhecidos em um HD pessoal durante a pandemia. Com o tempo, o acervo passou a ser compartilhado com outras pessoas interessadas em filmes de dif\u00edcil acesso. No in\u00edcio de junho, por exemplo, o projeto divulgou t\u00edtulos como <em>Faster, Pussycat! Kill! Kill!<\/em> (1965), de Russ Meyer, e <em>Johan<\/em> (<em>Johan, journal intime homosexuel d&#8217;un \u00e9t\u00e9 75<\/em>, 1976), do cineasta franc\u00eas Philippe Vallois &#8211; filmes pouco conhecidos e indispon\u00edveis em servi\u00e7os de streaming.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O administrador do acervo afirma que passa horas vasculhando listas de filmes, diretores, g\u00eaneros e cinematografias pouco conhecidas antes de iniciar a busca pelos arquivos. A procura pode lev\u00e1-lo a sites de hospedagem, arquivos digitais, plataformas de v\u00eddeo e comunidades internacionais de compartilhamento. Quando encontra apenas legendas em ingl\u00eas, ele pr\u00f3prio realiza a tradu\u00e7\u00e3o e revis\u00e3o para o portugu\u00eas. \u201cVou vasculhando listas, g\u00eaneros, diretores, pa\u00edses e o que mais eu achar interessante. \u00c0s vezes d\u00e1 bastante trabalho, especialmente em sites n\u00e3o tradicionais ou <em>torrents<\/em>\u201d, explica.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Apesar do esfor\u00e7o, Jonas ressalta que o p\u00fablico desses t\u00edtulos costuma ser reduzido. \u201cMesmo filmes que acabam circulando bastante, seja por conta da nacionalidade, do n\u00edvel de raridade ou da excentricidade da obra, nunca v\u00e3o passar de 1.000 pessoas realmente assistindo aquilo. N\u00e3o deixa de ser importante, n\u00e3o deixa de ajudar na <strong>circula\u00e7\u00e3o<\/strong>\u201d, afirma.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ainda, o administrador rejeita a ideia de que iniciativas como a sua sejam capazes de <strong>democratizar o acesso ao cinema<\/strong>. Para ele, o compartilhamento de filmes de dif\u00edcil acesso cumpre um papel importante na circula\u00e7\u00e3o de obras, mas n\u00e3o resolve as <strong>desigualdades estruturais de acesso \u00e0 cultura<\/strong>. \u201cN\u00e3o concordo muito quando falam em democratiza\u00e7\u00e3o do cinema. Mas essa \u00e9 a palavra que vale mais: pirataria\u201d.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A preocupa\u00e7\u00e3o com a preserva\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m aparece no relato de Joana**, pesquisadora e colecionadora de filmes pirateados. Propriet\u00e1ria de um vasto acervo pessoal armazenado digitalmente, ela conta que sua rela\u00e7\u00e3o com a pirataria come\u00e7ou ainda na adolesc\u00eancia, em uma \u00e9poca marcada por CDs gravados, programas como o <em>Ares <\/em>e outros f\u00f3runs da internet. Diferentemente da l\u00f3gica do consumo imediato, sua cole\u00e7\u00e3o foi constru\u00edda a partir do receio de que determinadas obras se tornem permanentemente indispon\u00edveis.<\/p>\n\n\n\n<iframe src='https:\/\/flo.uri.sh\/visualisation\/29434079\/embed' title='Interactive or visual content' class='flourish-embed-iframe' frameborder='0' scrolling='no' style='width:100%;height:600px;' sandbox='allow-same-origin allow-forms allow-scripts allow-downloads allow-popups allow-popups-to-escape-sandbox allow-top-navigation-by-user-activation'><\/iframe>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A entrevistada tamb\u00e9m chama aten\u00e7\u00e3o para aquilo que define como uma \u201c<strong>\u00e9tica pirata<\/strong>\u201d, baseada no compartilhamento coletivo de arquivos. Para ela, a circula\u00e7\u00e3o de c\u00f3pias digitais n\u00e3o depende apenas de quem baixa, mas tamb\u00e9m de quem as mant\u00e9m acess\u00edveis a outras pessoas. \u201cA pirataria, pelo menos da forma como aprendi a pratic\u00e1-la, sempre me pareceu uma constru\u00e7\u00e3o feita por muitas m\u00e3os, baseada na circula\u00e7\u00e3o e no compartilhamento\u201d, analisa.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Da troca de arquivos aos grandes portais<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A circula\u00e7\u00e3o informal de arquivos antecede os servi\u00e7os de streaming e ganha for\u00e7a no Brasil com o surgimento de comunidades virtuais dedicadas ao compartilhamento de arquivos. Nos anos 2000, programas como <strong>Ares e <\/strong><a href=\"https:\/\/www.emule-project.com\/home\/perl\/general.cgi?l=30\"><strong>eMule<\/strong><\/a><strong> <\/strong>permitiram que usu\u00e1rios compartilhassem arquivos de m\u00fasicas, filmes e s\u00e9ries diretamente entre si. Poucos anos depois, a tecnologia BitTorrent ampliou esse processo ao possibilitar a distribui\u00e7\u00e3o descentralizada de arquivos grandes.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Essas redes tamb\u00e9m impulsionam iniciativas colaborativas voltadas \u00e0 circula\u00e7\u00e3o e preserva\u00e7\u00e3o de obras. Grupos de legendadores volunt\u00e1rios passaram a traduzir filmes e s\u00e9ries que n\u00e3o chegavam oficialmente ao Brasil, tornando produ\u00e7\u00f5es estrangeiras mais acess\u00edveis ao p\u00fablico nacional. Um dos exemplos mais conhecidos foi o <strong>InSUBs<\/strong>, projeto que atuou por quase 13 anos e encerrou suas atividades em 2020, sendo lembrado como uma importante comunidade de tradu\u00e7\u00e3o e compartilhamento de conte\u00fados.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ao longo da d\u00e9cada de 2010, a pirataria audiovisual passou a incorporar grandes plataformas de streaming ilegal. Criado em 2011, o <strong>Mega Filmes HD<\/strong> se tornou o maior site pirata de filmes e s\u00e9ries do Brasil, chegando a registrar cerca de 60 milh\u00f5es de acessos mensais. Em 2015, seus administradores foram presos durante uma opera\u00e7\u00e3o da Pol\u00edcia Federal sob suspeita de viola\u00e7\u00e3o de direitos autorais e associa\u00e7\u00e3o criminosa. \u00c0 \u00e9poca, em <a href=\"https:\/\/g1.globo.com\/sao-paulo\/itapetininga-regiao\/noticia\/2015\/11\/nao-fizemos-mal-ninguem-dizem-donos-do-site-mega-filmes-hd.html\">entrevista ao G1<\/a>, o casal respons\u00e1vel pelo site afirmou que o projeto surgiu como um hobby e que n\u00e3o considerava a atividade um crime.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"576\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/daulab\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/image-13-1024x576.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-1351\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/daulab\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/image-13-1024x576.png 1024w, https:\/\/www.ufrgs.br\/daulab\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/image-13-300x169.png 300w, https:\/\/www.ufrgs.br\/daulab\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/image-13-768x432.png 768w, https:\/\/www.ufrgs.br\/daulab\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/image-13-1536x864.png 1536w, https:\/\/www.ufrgs.br\/daulab\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/image-13.png 1920w\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Mapa ilustrando o processo de circula\u00e7\u00e3o do conte\u00fado pirata em ambientes online.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\"><strong>Implica\u00e7\u00f5es legais<\/strong><\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Embora muitos usu\u00e1rios associem a pirataria digital ao acesso \u00e0 cultura, a pr\u00e1tica continua sendo enquadrada como viola\u00e7\u00e3o dos direitos autorais pela legisla\u00e7\u00e3o brasileira. O <strong>artigo 184 do C\u00f3digo Penal<\/strong> prev\u00ea pena de deten\u00e7\u00e3o de tr\u00eas meses a um ano, ou multa, para a viola\u00e7\u00e3o simples de direitos autorais, podendo chegar a quatro anos de reclus\u00e3o nos casos de reprodu\u00e7\u00e3o, distribui\u00e7\u00e3o ou comercializa\u00e7\u00e3o de obras protegidas com intuito de lucro. O combate \u00e0 pirataria audiovisual ganhou novos instrumentos com a <strong>Lei n\u00ba 14.815\/2024<\/strong>, que ampliou as compet\u00eancias da Ancine para atuar contra a distribui\u00e7\u00e3o n\u00e3o autorizada de conte\u00fados. Em 2026, a Ag\u00eancia regulamentou essas atribui\u00e7\u00f5es por meio da<strong> <\/strong><a href=\"https:\/\/www.gov.br\/ancine\/pt-br\/assuntos\/noticias\/ancine-publica-instrucao-normativa-e-amplia-combate-a-pirataria-audiovisual-na-internet\"><strong>Instru\u00e7\u00e3o Normativa n\u00ba 174<\/strong><\/a>, estabelecendo procedimentos para identificar e bloquear sites, aplicativos e outros servi\u00e7os que disponibilizem obras audiovisuais sem autoriza\u00e7\u00e3o.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">As a\u00e7\u00f5es de fiscaliza\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m v\u00eam sendo intensificadas por meio da <strong>Opera\u00e7\u00e3o 404<\/strong>, for\u00e7a-tarefa coordenada pelo Minist\u00e9rio da Justi\u00e7a e Seguran\u00e7a P\u00fablica para combater crimes contra a propriedade&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">intelectual na internet. Em sua oitava fase, realizada em novembro de 2025, a opera\u00e7\u00e3o resultou no bloqueio de 535 sites e um aplicativo de streaming ilegal, al\u00e9m do cumprimento de 44 mandados de busca e apreens\u00e3o e quatro pris\u00f5es preventivas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Para o diretor de Intelig\u00eancia do <strong>Departamento Estadual de Repress\u00e3o aos Crimes Cibern\u00e9ticos (DERCC), Thiago Albeche<\/strong>, a apar\u00eancia inofensiva da pr\u00e1tica contribui para a sua populariza\u00e7\u00e3o. \u201c\u00c9 um crime que no varejo parece ser inofensivo, mas causa grandes preju\u00edzos&#8221;, afirma.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A percep\u00e7\u00e3o dos pr\u00f3prios praticantes ajuda a ilustrar essa contradi\u00e7\u00e3o. Jonas reconhece o receio constante em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s poss\u00edveis consequ\u00eancias jur\u00eddicas e afirma adotar uma postura mais cautelosa. \u201cEu morro de medo\u201d, resume, \u201cn\u00e3o tenho muitas condi\u00e7\u00f5es financeiras, ent\u00e3o \u00e0s vezes deixo um link para doa\u00e7\u00f5es, geralmente para pagar servi\u00e7os que uso para baixar os filmes. Mas sempre com um receio. Acredito que por ser uma p\u00e1gina que foque em filmes realmente rar\u00edssimos, n\u00e3o tenha muitas quest\u00f5es legais. Mas muitas p\u00e1ginas vivem caindo e voltando em novas. Eu n\u00e3o teria muito essa for\u00e7a de vontade, sou neur\u00f3tico. E nunca enfrentei nenhum problema judicial. Mas uma vez, postei um filme palestino, e uma pessoa chegou at\u00e9 mim pelo X dizendo que a diretora do filme estava entrando em contato com comunidades internacionais de anti-pirataria para tirar do ar, pois era uma c\u00f3pia de festivais, ou algo assim. Eu s\u00f3 apaguei, tenho o arquivo salvo, mas n\u00e3o divulgo. E infelizmente, n\u00e3o h\u00e1 muito o que se possa fazer, faz parte\u201d, confidencia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Joana, por sua vez, afirma nunca ter sentido grande preocupa\u00e7\u00e3o com poss\u00edveis implica\u00e7\u00f5es legais. \u201cTenho consci\u00eancia de que existe uma quest\u00e3o legal envolvida, mas, na pr\u00e1tica, n\u00e3o sinto que estou fazendo algo moralmente errado\u201d.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\"><strong>Servi\u00e7os gratuitos<\/strong><\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ao mesmo tempo em que a pirataria segue sendo uma alternativa para muitos consumidores, iniciativas gratuitas de acesso ao audiovisual t\u00eam buscado ampliar a circula\u00e7\u00e3o de obras de forma legal. Plataformas como o <a href=\"https:\/\/telabrasil.cultura.gov.br\/\"><strong>Tela Brasil<\/strong><\/a><strong>, <\/strong><a href=\"https:\/\/sesc.digital\/home\"><strong>Sesc Digital<\/strong><\/a><strong> <\/strong><strong>e o <\/strong><a href=\"https:\/\/www.itauculturalplay.com.br\/?gad_source=1&amp;gad_campaignid=20918733493&amp;gbraid=0AAAAADHBWJQCR39VhwAFCunz_OEzHKbTb&amp;gclid=CjwKCAjwxITRBhBYEiwA6mZm7TIHaOgqTVU60tpiRmCtzVr8P4Es6ukaqUwUH7TygekHGzDtD8EdTRoCV0YQAvD_BwE\"><strong>Ita\u00fa Cultural Play<\/strong><\/a> disponibilizam filmes nacionais, document\u00e1rios e s\u00e9ries brasileiras e internacionais. Embora seus cat\u00e1logos sejam mais limitados, esses projetos denotam que o debate sobre pirataria passa tamb\u00e9m pela necessidade de ampliar o acesso e a visibilidade de obras audiovisuais.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>* Nome fict\u00edcio. O nome do projeto e o do idealizador foram preservados para garantir o anonimato da fonte.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>** Nome fict\u00edcio.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A aus\u00eancia de salas de cinema em mais de 40% dos munic\u00edpios brasileiros e o custo elevado dos servi\u00e7os de [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":67,"featured_media":1485,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[37,36],"tags":[],"class_list":["post-1347","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-reportagem","category-topo1"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/daulab\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1347","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/daulab\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/daulab\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/daulab\/wp-json\/wp\/v2\/users\/67"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/daulab\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1347"}],"version-history":[{"count":26,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/daulab\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1347\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1551,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/daulab\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1347\/revisions\/1551"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/daulab\/wp-json\/wp\/v2\/media\/1485"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/daulab\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1347"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/daulab\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1347"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/daulab\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1347"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}