“A universidade deve resistir aos tempos de obscurantismo”: confira a entrevista com Céli Pinto – Conferências UFRGS 2019

Professora titular aposentada da Universidade Federal do Rio Grande do Sul e docente do Programa de Pós-Graduação em História, Céli Regina Jardim Pinto é uma defensora das pautas progressistas e da universidade pública há décadas. Em conversa por telefone sobre a palestra que fará no dia 24 de abril às 19h no Centro Cultural para o Conferências UFRGS 2019 – Cultura: Para uma política cultural da UFRGS, Céli Pinto fala sobre a importância da universidade atualmente, a cultura da resistência, entre outros assuntos. Confira:

Difusão Cultural – Qual o tema da sua palestra no próximo Conferências UFRGS?

Céli Pinto – Vou falar sobre Responsabilidades em tempos de (des)democratização.

DDC – A (des)democratização acredito que seja uma crítica aos momentos atuais de ruptura de uma série de conquistas no país, na questão política, desvalorização da cultura…

CP – Quando eu falo isso, falo em algo mais amplo que o Brasil. É sobre o momento do capitalismo internacional, esse neoliberalismo do século XX. Ele esgotou a sua possibilidade de se desenvolver em um regime democrático. É também sobre as manifestações mundiais a respeito da democracia (a sua desvalorização) e o crescimento da extrema direita no mundo.

DDC – O mundo passa por uma luta de valores, entre os neoconservadores das democracias iliberais, como Viktor Orbán, na Hungria, Bolsonaro, no Brasil, Trump, contra os progressistas mundo afora. Aquele grupo alega que representa o resgate de valores judaico-cristãos.

CP – Acho que é pior do que isto. Não é o resgate. Essa nova onda de extrema direita bate de frente com valores liberais. Há uma contradição com o neoliberalismo. Tu tens um discurso político que não é liberal em relação aos direitos e costumes. Quanto a isso, a universidade tem uma importância fundamental de resistência a estes tempos de obscurantismo, de anti-intelectualismo.

DDC – A universidade tem o dever de resistir através de pautas progressistas para barrar movimentos retrógrados?

CP – A universidade não precisa de pautas progressistas, mas simplesmente garantir os direitos conquistados na Constituição de 1988. Nós já temos essas prerrogativas. Devemos mantê-las.

DDC – Até que ponto a política e a perseguição ao fazer artístico nos dias atuais interferem na questão cultural?

CP – Tu vais sempre encontrar uma maior reflexão nas áreas artística, cultural, literatura, área científica, como ciências sociais e história. Portanto, são áreas mais perigosas para o governo, que tem uma reflexão primária sobre diversos assuntos, diria até boba. São áreas do conhecimento que fazem uma crítica qualificada. Nós temos no Brasil um processo educacional cheio de falhas, com uma população pouco letrada, que não tem acesso à cultura. Há um desprezo pela alta cultura. O que mais se aproxima do público mais iletrado é o que a televisão aberta oferece. Se conversarmos com pessoas com menos condições econômicas sobre a UFRGS, boa parte dirá que ela é coisa de filhinho de papai, mesmo que não seja verdade. Elas não consomem peças de teatro ou museus. Não se sentem autorizadas.

Conferências UFRGS 2019 – Cultura: para uma política cultural da UFRGS

♦ Palestra com a professora Céli Pinto
Tema: Responsabilidades em tempos de (des)democratização
Local: Sala Ipê (2º andar do Centro Cultural da UFRGS – Rua Eng. Luiz Englert, 333, Porto Alegre-RS)
Data: 24/04
Horário: 19h
Inscrição (gratuita e aberta ao público): Clique aqui
Veja as próximas palestras: https://www.ufrgs.br/difusaocultural/conferencias-ufrgs-2019/

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