Cenas Mínimas traz espetáculo sobre obra de Hilda Hilst ao Centro Cultural

A obra de uma das maiores escritoras em língua portuguesa do século XX será contracenada por uma dupla de atores de vasta experiência. E, além de tudo, amigos há mais de três décadas. Um dos pontos de convergência dos premiados Marco Fronchetti e Arlete Cunha ao longo de diversas histórias em comum foi a admiração pela obra de Hilda Hilst (1930-2004).

A admiração rapidamente transformou-se em trabalho. Fronchetti escreveu parte de um roteiro e convidou Arlete para a empreitada: mostrar parte da obra da escritora, dramaturga e poetisa. Sobretudo, a fase pornográfica-obscena-erótica da paulista de Jaú.

Seguindo a premissa de apresentar o espetáculo em locais convencionalmente não teatrais, mas ligados à preservação e divulgação da literatura e das expressões artísticas, a peça Obs.cenas será exibida no Centro Cultural da UFRGS nos dias 19 e 20 de agosto, às 19h, dentro do projeto Cenas Mínimas, desenvolvido pelo Centro Cultural, com curadoria de Lígia Petrucci. O espetáculo foi exibido anteriormente na Fundação Iberê Camargo, Biblioteca Pública do Estado, Sala Qorpo Santo da UFRGS e no Theatro São Pedro.

Confira abaixo a entrevista que a equipe do Departamento de Difusão Cultural da UFRGS fez com o ator Marco Fronchetti:

Como surgiu o interesse pela peça?

A ideia era abordar textos da Hilda Hilst. A Arlete [Cunha] já tinha um espetáculo com poesias dela. Eu sou apaixonado pela obra pornográfica da Hilda, ou melhor, pela obra obscena dela. Foi uma época que as suas obras não vendiam. Então, ela resolveu fazer esse tipo de obra. Só que não dá tesão. Dá tristeza! A partir dessa minha vontade, convidei a Arlete para fazer parte do projeto. Fomos então fazer uma residência na Casa do Sol, a residência da Hilda Hilst em Campinas. Com essa ambiência, terminamos o roteiro que eu já havia começado.

Como funciona a Casa do Sol?

Era de fato a casa dela. Lá, ela recebia muitos amigos. Dentre eles, figuras como o Caio Fernando Abreu, que morou um ano lá. E depois da morte dela -2004, virou o Instituto Hilda Hilst. No instituto, você pode fazer uma residência. Ou seja, trabalhar por um período em coisas geralmente sobre ela. Tem até um livro organizado pelo Laerte e pelo Angeli sobre o período em que passaram na residência [projeto idealizado para a revista Baiacu].

E como surgiu o interesse de convidar especificamente a Arlete Cunha para contracenar contigo nesta peça?

A Arlete participou do primeiro espetáculo sobre Hilda Hilst com direção do Roberto Oliveira. Era uma montagem chamada Hilda Enclaustro que acontecia no Hospital Psiquiátrico São Pedro. Depois, ela teve outras participações em recitais no Theatro São Pedro sobre a obra da Hilda. Nós sempre tivemos vontade de trabalhar juntos, mas essa está sendo a primeira vez. E isso que somos amigos há mais de 30 anos.

O que o público pode esperar na performance? Foi feita uma adaptação das obras?

O roteiro é baseado nos textos originais da Hilda. Alteramos somente alguns diálogos, colocando alguns trechos em forma direta, ao invés da indireta. Começamos a peça pelo primeiro livro da obra pornográfica dela – O caderno rosa de Lori Lamby (1990). Passamos pelas Bufólicas (1990), Contos d’escárnio (1990), Cartas de um sedutor (1991) e depois passamos para obras posteriores e anteriores a esta fase da vida dela. A questão carnal sempre foi muito presente. O que é a vida, segundo a Hilda? É uma aventura obscena de tão lúcida. A gente tenta chegar a esse finalmente na peça.

Serviço

Sobre: Cenas Mínimas | obs.cenas, com Arlete Cunha e Marco Fronchetti
Data: 19 e 20 de agosto, às 19h
Ingresso: por ordem de chegada – gratuito e aberto ao público. Haverá doação espontânea diretamente aos artistas
Local: Centro Cultural da UFRGS (Rua Eng. Luiz Englert, 333)

Quem é Arlete Cunha

Atriz, performer, diretora, professora e pesquisadora de linguagens teatrais que atua no cenário cultural gaúcho há mais de 30 anos. Participou de importantes e premiadas montagens teatrais, como: Fim de Partida, Ostal – Rito Teatral, Antígona – Ritos de Paixão e Morte, Dança daConquista, A História do Homem que Lutou Sem Conhecer Seu Grande Inimigo, Dr. Fausto – Missa Para Atores e Público e Se Não Tem Pão, Comam Bolo, todos realizados durante os 12 anos de trabalho com a Tribo de Atuadores Ói Nóis Aqui Traveiz. Atuou também nas peças Os Fuzis da Senhora Carrar de Bertold Brecht, Dorotéia, de Nelson Rodrigues, Espancando a Empregada de Eduardo Kraemer, O Barão nas Árvores de Roberto Oliveira. Recebeu o Troféu Açorianos Especial de Atriz por sua atuação em Fim de Partida (1986), o de Atriz Coadjuvante – Troféu Quero-Quero/Sated/RS por Antígona (1990), o Prêmio de Melhor Atriz de Teatro de Rua no Festival Nacional de Teatro de São José do Rio Preto/SP pela atuação na peça Deus e o Diabo na Terra de Miséria, o Troféu Açorianos de Melhor Atriz de 2004 por sua atuação em Hilda Hilst in Claustro com direção de Roberto Oliveira, além da indicação de Melhor Coadjuvante pela atuação em “Antígona” com direção de Luciano Alabarse. Em 2006, foi premiada com o Troféu Quero-Quero de Melhor Atriz de Teatro Infantil por Pé de Pilão, de Atriz Coadjuvante por Mamãe foi para o Alaska e de Melhor Peça de Teatro de Rua por A Revolução dos Bichos, da qual é a diretora.

Quem é Marco Fronchetti

Ingressou em 1975 no Curso de Arte Dramática da UFRGS. Em 1980, foi um dos formadores do Grupo TEAR, dirigido por Maria Helena Lopes, com ênfase no teatro físico e fez parte de todas as montagens do grupo até 1998. Realiza cursos de mímica, expressão corporal, dança, voz e interpretação. A partir da experiência como ator no TEAR e do contato com outros grupo teatrais (Centro de Pesquisa Teatral de Antunes Filho, Grupo Galpão de Belo Horizonte), estabelece os critérios para continuar sua formação. Desde então, fez cursos e workshops com Bia Lessa (Porto Alegre, 1990), Gerald Thomas (Porto Alegre, 1993), Arianne Mnouchkine (Théâtre du Soleil) (Paris, 1993), Alan Maratrat (ator de Peter Brook) (São Paulo, 1994), Eugenio Barba (Porto Alegre, 1995), Philippe Gaulier (Porto Alegre, 1996), Teatro de Los Andes (Porto Alegre, 2004: Bolívia, 2007), Fernanda Montenegro (Porto Alegre, 2004), entre outros. Com algumas experiências anteriores, a partir de 1999 se estabeleceu como diretor teatral e formou o grupo Teatro de Ensaio, com o qual realizou as montagens de Álbum do Desejo (1999), Ensaio (2000) e Tragikós (2001). Desde 1994, ministra oficinas e workshops de preparação e treinamento do ator. Em 2003, participa da banca examinadora dos trabalhos finais dos alunos do TEPA (Teatro Escola de Porto Alegre); e, em 2004, ministra o Curso de Extensão Laboratório da Interpretação Teatral no Departamento de Arte Dramática da UFRGS. Em 2007, dirigiu Vladimir e Estragon, adaptação de “Esperando Godot” de Samuel Beckett, em 2009, O bairro, com textos de Gonçalo M. Tavares, e em 2011, Do it.

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