Entre os dias 5 e 18 de outubro, o público é convidado a interagir nas dez produções selecionadas a partir do aspecto da câmera ou dos corpos e objetos observados. O entrelaçamento entre olhares e aspectos retratados nos curtas brasileiros escolhidos pelo curador do ciclo, Victor Souza, busca complexificar a objetificação dos corpos a partir do jogo de cena e dos efeitos visuais, além de mostrar a troca entre o que é filmado e o condutor do processo: o diretor.

Câmera Corpo é um ciclo de curtas totalmente online e gratuito com obras brasileiras realizadas ao longo das últimas duas décadas. Cineastas estreantes e veteranos mostram os seus retratos do cotidiano na mostra da Sala Redenção – Cinema Universitário. São eles: Cao Guimarães, Marcius Barbieri, Allan Ribeiro, Ricardo Alves Jr., Michelle Mattiuzzi, Ana Pi, Zezinho Yube e Saskia Peter são alguns dos responsáveis, dentre outros.

Câmera Corpo

Pode um corpo ser real quando é observado através da lente de uma câmera? Sabemos que o cinema é uma arte de aparências, modifica o real conforme posiciona seu olho, entre o observador e o observado. Escolhe o que vai mostrar e nunca é todo o real, só um pedaço dele. Centraliza o que acontece num espaço limitado, assim, enxergamos tudo pela tal quarta-parede, já bastante quebrada pelo cinema nos últimos anos. Ela se coloca como uma janela para um outro mundo, onde observamos espaços e corpos que não “invadem” nossa realidade. O cinema clássico é o principal responsável por essa função distanciadora da câmera, onde quem filma e quem é filmado não interagem, que é consequentemente objetificante.

O lado oposto da lente, o antecampo, vira um espaço escondido e misterioso, ali está não apenas quem assiste, mas quem filma e grava. A máquina que registra é uma parede entre observador e observado, onde um está sempre mais exposto que o outro, objeto de observação, de estudo. Uma relação de poder a serviço da representação. E nesse aspecto sabemos muito bem o papel que o corpo desempenha política e socialmente. Um modo de se fazer presente no mundo, se colocar nesses espaços seja como afirmação ou ruptura, povoar a História.

A função política do corpo portanto é também a função política do olho. O modo como olha, registra e se aproxima desses corpos. A forma como o observador é visto na imagem, como o campo e antecampo se relacionam de forma horizontal, algo que parte de uma intimidade entre a máquina e a presença física de quem performa na sua frente. Todos esses questionamentos são preocupações inerentes do cinema brasileiro contemporâneo, por exemplo, que trabalha para aproximar esses dois mundos fora e dentro do enquadramento.

Muito disso aparece principalmente na forma como quebram com essa janela que separa os mundos. Não procuram esconder a existência da presença dessa câmera, fingir que não existe, mas sim fazê-la parte do mesma realidade que registra. Não simplesmente olhar o mundo pela janela, mas de participar dele fisicamente, dividir o campo de guerra com essas personagens. Expondo a vulnerabilidade desse olho que observa, a câmera pode se tornar presente, para fazer daqueles que são observados presentes também. Uma relação de intimidade que registra momentos de dor, liberdade, agonia, euforia, medo. 

Tanto quem filma quanto a pessoa filmada, constroem juntas o discurso e delimitam o que é representado. Essa característica, no documentário contribui no aspecto discursivo de uma conversa corpo a corpo, filmando aquele que filma, e na ficção isso muitas vezes pode acontecer de forma bem direta: quando a personagem toma as rédeas da câmera que irá registrar esse mundo. Desse jeito uma janela se abre dentro de outra janela. Um jogo de espelhos que se desdobra infinitamente, permitindo que os observados extrapolem seus isolamentos e a si mesmos, suas existências. Uma coisa que não se limita ao aspecto estético afinal são corpos que existem e sangram de verdade.

Não muito sobre a câmera sair pra rua, isso ela já faz desde o início do século passado, é importante que ela ande com todo mundo, todo tipo de gente. Hoje em dia é fato que a intimidade com a câmera é algo cotidiano e não carrega tanto um fetiche pelo ‘desconhecido’ mais. Todo celular tem um olho junto e, ao mesmo tempo que isso normaliza uma existência puramente visual, serve também como outro tipo de janela para novas realidades. São novas vivências que convergem. Vem na cabeça a pergunta se existe empatia nesse emaranhado de olhos e corpos. A cumplicidade da câmera talvez interfira nessas relações, talvez sua presença tenha a capacidade de mudar o significado de uma ação, atenuar as consequências de uma opressão, confrontando quem monopoliza a forma como esses corpos são vistos. Como olhá-los de volta?

Para isso a Sala Redenção convida, entre os dias 05 e 18 de outubro, o público a aproximar essas dez diferentes produções audiovisuais brasileiras feitas nos últimos 20 anos, disponíveis nesse amontoado de janelas, corpos e registros: a internet. Da Janela do meu Quarto (2004) e A Lente e a Janela (2005), Ensaio de Cinema (2009) e Material Bruto (2007), Experimentando o Vermelho em Dilúvio (2016) e Ceci n’est pas une performance (2017), Já me transformei em imagem (2008) e A Gente Luta mas Come Fruta (2006), OUTRA COISA.print (2020) e Na Missão, com Kadu (2016). As duplas permitem algumas aproximações mais diretas, mas não há absolutamente nada que impeça que todos esses trabalhos se encontrem.


Texto: Victor Souza, bolsista na Sala Redenção e curador da mostra.

PROGRAMAÇÃO

DA JANELA DO MEU QUARTO
(Cao Guimarães | 2004 | 5 min – Brasil)

Da janela do meu quarto eu vi uma rua de areia molhada e debaixo da chuva dois corpos de criança brigavam se amando e se amavam brigando.

Assista: https://www.youtube.com/watch?v=UFxK3431I_E&t=172s

A LENTE E A JANELA
(dir. Marcius Barbieri | 2005 | 12 min – Brasil)

Uma menina ganha uma câmera de vídeo no Natal e sua percepção muda através da lente e da janela.

Assista: http://portacurtas.org.br/filme/?name=a_lente_e_a_janela

ENSAIO DE CINEMA
(dir. Allan Ribeiro | 2009 | 15 min – Brasil)

Ele dizia que o filme começava com uma câmera muito suave, com um zoom muito delicado, e avançava em busca de Barbot.

Assista: http://portacurtas.org.br/filme/?name=ensaio_de_cinema

MATERIAL BRUTO
(dir. Ricardo Alves Jr. | 2007 | 17 min – Brasil)

Afora nos corredores do edifício, caminha a mulher-náusea. Adentro, mulher-cabelo, homem-cigarro e homem-música esperam o momento de fuga, um instante para sair de si. Material bruto é um trabalho realizado com pacientes dos centros de convivência da rede pública de saúde mental da cidade de Belo Horizonte. 

Assista: http://portacurtas.org.br/filme/?name=material_bruto

EXPERIMENTANDO O VERMELHO EM DILÚVIO
(dir. Michelle Mattiuzzi | 2016 | 7 min – Brasil)

A performance aqui é um dispositivo para criar contra-narrativas, projéteis, descolonizar a imagem da mulher negra. São imagens violentas, são ações precárias, são pesquisas de pós-graduação, são artigos em revistas e jornais, são contraditórios, são destrutíveis. 

Assista: https://vimeo.com/397136888

CECI N’EST PAS UNE PERFORMANCE 
(dir. Ana Pi | 2017 | 3 min – Brasil)

As chamadas danças urbanas nos informam, em movimento, sobre a história das grandes cidades do mundo desde meados do século XX até os dias atuais. De onde exatamente essas cidades emergem? Essa questão às vezes é esquecida hoje com o poder frenético da era da web, suas redes sociais e suas várias plataformas de compartilhamento. 

Assista: https://vimeo.com/254296307

JÁ ME TRANSFORMEI EM IMAGEM
(dir. Zezinho Yube | 2008 | 31 min – Brasil)

Comentários sobre a história de um povo, feito pelos realizadores dos filmes e por seus personagens. Do tempo do contato, passando pelo cativeiro nos seringais, até o trabalho atual com o vídeo, os depoimentos dão sentido ao processo de dispersão, perda e reencontro vividos pelos Huni kui.

Assista: http://lugardoreal.com/video/ja-me-transformei-em-imagem

A GENTE LUTA MAS COME FRUTA
(dir. Wewito Piyãko, Isaac Pinhanta | 2006 | 39 min – Brasil)

O manejo agroflorestal realizado pelos Ashaninka da aldeia APIWTXA no rio Amônia, Acre. No filme eles registram, por um lado, seu trabalho para recuperar os recursos da sua reserva e repovoar seus rios e suas matas com espécies nativas, e por outro, sua luta contra os madeireiros que invadem sua área na fronteira com o Peru.

Assista: https://www.youtube.com/watch?v=p-D6meHSFuI

OUTRA COISA.PRINT
(dir. Saskia Peter | 2020 | 14 min – Brasil)

Um registro ingênuo. Sobre as manifestações em São Paulo (07/06/2020).

Assista: https://www.youtube.com/watch?v=Z-SB8QHqkPI&t=669s

NA MISSÃO, COM KADU
(dir. Kadu Freitas, Aiano Bemfica e Pedro Maia de Brito | 2016 | 28 min – Brasil)

No maior conflito fundiário urbano da América Latina, companheiras e companheiros da região ocupada da Izidora marcham pela moradia digna. Cineasta e liderança, Kadu, leva sua câmera para a marcha e nela traz de volta alguns registros do dia 19/5. À beira do fogo ele relembra o dia, a luta e o sonho.

Assista: https://vimeo.com/232282418

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