Conferências UFRGS 2019: Marcelo Goldani propõe parcerias entre setor privado e universidades para o fazer cultural

Com uma carreira consolidada na pediatria, chegando ao posto de presidente da Fundação Médica do RS, Marcelo Goldani é um parceiro importante da cultura no Estado, especialmente do Departamento de Difusão Cultural da UFRGS. Ao longo dos anos, o próximo convidado do Conferências UFRGS 2019, em 11 de setembro, contribuiu, através da fundação que geria, para que projetos como o Unimúsica e, mais recentemente, o Solo Piano, tivessem êxito.

Com a expertise de quem tem anos dedicados às parcerias culturais, Goldani mostra como será a sua palestra no ciclo de conversas cujo tema – “Cultura: para uma política cultural da UFRGS” – busca formular uma proposta a ser encaminhada ao Conselho Universitário até o final do ano com o propósito de a universidade ter uma política cultural definida. O tema escolhido pelo conferencista será: “O papel das fundações de apoio na política cultural da UFRGS”.

Sentado no banco do piano do projeto Solo Piano, localizado no 2º andar do Centro Cultural da UFRGS e adquirido recentemente pelo espaço cultural através de uma parceria com o Hospital de Clínicas e Fundação Médica do RS, o professor da UFRGS conversou com a equipe do DDC.

Confira como foi a entrevista:


DDC – Você é pediatra e ex-presidente da Fundação Médica do Rio Grande do Sul, nossa parceira de diversos projetos como o Unimúsica e agora do novo projeto Solo Piano. Qual é a história desse piano que ficará aberto para estudantes de música da UFRGS tocarem?

Goldani  A história desse piano é muito interessante e também está dentro do escopo do que vou falar um pouco dia 11 de setembro [na conferência sobre políticas culturais na UFRGS], ressaltando o compromisso e comprometimento que as fundações de apoio à universidade necessitam apresentar em relação às várias atividades culturais que ocorrem dentro da UFRGS. Nosso objeto lá [na Fundação] sempre foi o apoio à pesquisa, à inovação, ao ensino, à extensão. Fora esse contexto mais cotidiano, nos concentramos também na missão de apoio às atividades culturais da UFRGS e do HCPA, acreditando que não existe nenhum tipo de atividade apartada de uma relação estética, a qual é fundamental para oferecer substância e sentido as outras atividades desenvolvidas pela Fundação. Penso também que o empreendedorismo não pode estar distante de uma referência cultural, entendendo cultura de uma maneira ampla, como a inserção de todos os conhecimentos e comportamentos do ideário social. Nos quais a arte e a questão estética, evidentemente, fazem parte. No caso aqui do piano, cabe como exemplo na música.

DDC – Qual a importância das fundações de apoio nesse momento em que o projeto Future-se do MEC está sendo discutido? O que pode ser pensado em relação à captação de recursos extra orçamentários para as universidades públicas?

Goldani – O Future-se vem com um discurso que utiliza algumas palavras que são caras à universidade, como inovação, empreendedorismo, conhecimento. Ele tenta alinhar todo esse ideário, que foi construído pela universidade à uma figura externa chamada mercado. Nos sabemos que esse discurso é, digamos assim, tolo – para não dizer ingênuo-, porque a universidade tem um compromisso muito mais amplo com a sociedade que vai para muito além do dito “mercado”. Claro que a academia deve estar atenta a todas as demandas do país, mas não se pode ter apenas um norte como política universitária. Fico muito preocupado com as iniciativas no campo da cultura porque todas as medidas e políticas que foram construídas ao longo dos últimos anos, dos últimos 30 anos, estão sendo colocadas em cheque. Esse novo projeto de lei não levou em consideração – pelo menos dentro dessa proposta que o ministério apresentou– que não se pode fazer nada, nem empreendedorismo, nem pesquisa, nem ciência, coma ausência de uma ligação forte com demandas sociais de primeira ordem. Essas demandas têm a ver com arte, com cultura, com comportamento, com lazer, com bem-estar. Isso também pertence como objeto, tanto do ponto de vista prático e quanto teórico, à universidade. Então, além da questão nebulosa do Future-se, eu vejo um esquecimento proposital dos aspectos culturais desenvolvidos pelas universidades. Esquecem esse ligamento primordial da arte e da cultura com a sociedade. Isso me parece absolutamente terrível. Os países do mundo que hoje desenvolvem a grande massa de conhecimento e tecnologia têm uma história e um apreço muito grande às suas políticas culturais. É um investimento maciço em cultura.

DDC – O fazer artístico-cultural, nos próximos anos, pode vir a depender muito de uma vinculação com o setor privado. Como você enxerga o investimento por meio de leis de captação, como a lei Rouanet? 

Goldani – Eu penso que existe, dentro do setor privado, uma grande vontade de participar dessa área. Podemos citar vários tipos de iniciativas realizadas por empresas com grande inserção no Brasil. Tenho certeza que a parceria entre universidade e empresas privadas deveria ser muito bem-vinda e que há um interesse, tanto da universidade, quanto das empresas, em alinhar políticas culturais em comum. É bom para todo mundo.

DDC – Quais são os principais entraves dessa parceria?

Goldani – Acredito que haja cada vez menos tem entraves. Existe uma série de novas regras e leis que foram construídas ao longo desses últimos dez anos as quais permitem e incentivam, sim, que empresas privadas consigam trabalhar em parceria com as universidades, inclusive através das fundações,as quais são vetores, intermediárias desse processo. O que falta é o encontro, ou seja, uma política clara sobre a captação de recursos e, ao mesmo tempo, uma sensibilização de quem está lá fora e quer participar. Não é possível que alguém não queira ter seu nome ligado a um espaço como esse [Centro Cultural da UFRGS]. Os atores estão aí, prontos para colaborarem uns com os outros. Então, o que precisa realmente é tomar a iniciativa. Precisamos ser mais proativos.

DDC – Existe uma certa resistência com o recebimento de recursos privados, pois, a nível geral – não só em relação à cultura –, se teme uma censura à liberdade dentro da universidade. O que você pensa sobre isso?

Goldani – A universidade é muito grande. Tem muitas cabeças, muitas pessoas, muitos atores dentro desse espaço. Há espaço para tudo. Há espaço para demandas específicas das empresas – e isso a UFRGS é campeã, é uma das melhores no país em termos de parcerias com o setor privado. Por exemplo, a UFRGS participou de maneira muito forte no desenvolvimento do Pré-Sal, a partir de convênios com a Petrobrás. O Hospital de Clínicas e a Fundação Médica do RS têm uma série de parcerias importantes e estratégicas, as quais são regradas por leis muito claras, abertas à consulta para qualquer pessoa. Nesse caso, não tem nada de obscuro na relação estabelecida. Ao mesmo tempo, a universidade possui – e temos que defender – sua autonomia. Não acredito em um antagonismo entre privado e público, porque isso poria muita coisa a perder, tanto para um lado quanto para o outro. Nós não podemos  de responder a demandas sociais importantes e, ao mesmo tempo, apresentar soluções interessantes. Na parte cultural é a mesma coisa, o Unimúsica é um grande exemplo disso. É um patrimônio da UFRGS e mostra como a gente pode se aproximar da sociedade em termos de ações no campo da cultura.

DDC – Um dos objetivos do Conferências UFRGS é a elaboração de um documento que será encaminhado para o Conselho Universitário com os caminhos a serem seguidos pelas políticas culturais. O que você enxergaria como primordial para estar nesse documento?

Goldani – Penso que a largada já foi dada. As Conferências já estão postas e várias pessoas de várias áreas estão contribuindo. Esse documento é um marco importante a ser discutido e, evidentemente, vão surgir demandas amplas e peculiares para cada canto da universidade que, provavelmente, tem necessidades culturais também distintas. “Quais são elas?”. Seria leviano tentar enumerar todas, mas é uma estratégia interessante estar buscando entender as necessidades culturais da UFRGS chamando as pessoas para discutir. Na medida em que tivermos um planejamento de médio a longo prazo para a atuação cultural, teremos um portfólio importante para negociar com as diferentes esferas da sociedade. Tendo o documento, podemos colocar na mesa e chamar parceiros. Aí o papel das Fundações de apoio à UFRGS é fundamental, porque elas podem fazer esse meio campo, trazendo benefícios para todo mundo.

Serviço

Conferências UFRGS 2019 – Cultura: para uma política cultural da UFRGS

Palestra: Marcelo Goldani

Tema: O papel das fundações de apoio na política cultural da UFRGS

Quando: 11 de setembro

Horário: 19h

Local: Centro Cultural da UFRGS

Inscrição: https://www.ufrgs.br/difusaocultural/conferenciasufrgs/

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