Exposição Nosso Lugar ao Sol propõe discutir a fetichização e a censura ao corpo feminino

Desenvolvida em três eixos, a exposição Nosso Lugar ao Sol discute uma nova leitura das imagens que serão exibidas a partir de 29 de novembro no Centro Cultural da UFRGS. Por meio das dualidades juventude e impermanência; natural e artificial; desejo e consumação; efêmero e permanente; e vida e morte, a mostra traçará uma perspectiva dos trabalhos desenvolvidos pela fotógrafa Rochele Zandavalli (Garibaldi, RS, 1980), buscando também dialogar sobre a fetichização e outros aspectos do corpo feminino.

O primeiro eixo da exposição terá como mote a série Todos esses novos adoradores do sol, projeto desenvolvido desde 2013 com os princípios da dualidade mencionados e que retratam imagens de um jovem que perambula em meio à vegetação, observando tudo através de uma lupa. No caso, a lupa é a representação da câmera fotográfica. Outra série que abordará a temática será Morangos mofam.

A questão em torno da fetichização da mulher girará em torno da apropriação de fotografias antigas e de uma sequência de intervenções nas imagens, como incisões, cortes, bordados, justaposição a suportes como pequenas toalhas de crochê, além de utilizar esmaltes de unhas como recursos imagéticos. A partir dessas representações, Zandavalli indaga ao espectador o motivo de certos objetos serem valorizados, ao passo que são usados especialmente para embelezar tecidos mortos, como as unhas. Nas palavras da artista, unhas lixadas e pintadas aludem, simbolicamente, às “garras civilizadas”: “Uma camada de falso verniz, um artifício superficial e frágil, que domestica nossas presas animais”, explica.

Em seu último núcleo, a exposição penetra ainda mais na discussão sobre o corpo feminino, através da reprodução do vídeo Freethenipple, um comentário crítico à censura imposta aos mamilos femininos em redes de compartilhamento de imagens. Produzido a partir da captação de centenas de imagens censuradas nas plataformas digitais, o vídeo evidencia como o corpo da mulher vem sendo constantemente violentado. “As intervenções censurantes utilizadas para garantir a circulação das fotografias são muitas, desde poses e objetos em frente aos seios, passando por tarjas, riscos, emojis, pixeis, blur, até o ponto de ocorrer a completa retirada digital do mamilo. Resta um seio artificializado, ultrajado e negado. E isso significa muito”, ilustra Zandavalli.

Nosso lugar ao sol conta com a curadoria da professora do Instituto de Artes Paula Ramos e com realização do Departamento de Difusão Cultural da UFRGS. O vernissage ocorre em 28 de novembro de 2019, às 19h, com entrada livre. A visitação ao público inicia no seguinte e segue até fevereiro de 2020 de segunda a sexta-feira das 9h às 19h no Centro Cultural da UFRGS. A mostra é uma iniciativa desenvolvida através do projeto Unifoto, do Departamento de Difusão Cultural da UFRGS.

Rochele Zandavalli

Rochele Zandavalli (Garibaldi, RS, 1980) é artista visual, graduada em Artes Visuais pelo Instituto de Artes da UFRGS, com mestrado em Poéticas Visuais pelo PPGAV-UFRGS. Professora junto à Unisinos, atuando nos cursos de graduação tecnológica em Fotografia e Cinema e Realização Audiovisual. Fotógrafa da Secretaria de Comunicação da UFRGS. Foi extensionista do Núcleo de Fotografia da mesma Universidade, pesquisando, em especial, aspectos da Fotoquímica.

Também atua como professora na Fluxo – Escola de Fotografia Expandida. Possui obras na Coleção Joaquim Paiva, em comodato com o MAM Rio; na Coleção Pierre Bessard, em Paris; nos acervos do Museu de Arte do Rio Grande do Sul Ado Malagoli (Margs), do Museu de Arte Contemporânea do Rio Grande do Sul (MAC RS) e da Fundação Vera Chaves Barcellos. Sua produção em fotografia destaca-se pelo investimento na materialidade do suporte, na mistura entre técnicas e na coexistência entre tecnologias, operando muitas vezes com processos analógicos em laboratório e processos experimentais.

Serviço - Exposição Nosso Lugar ao Sol

Abertura

  • Data: 28 de novembro de 2019
  • Horário: 19h
  • Local: Centro Cultural da UFRGS

Visitação

  • Período: 29/11/2019 a fevereiro de 2020
  • Horários: de segunda a sexta-feira das 9h às 19h
  • Local: Centro Cultural da UFRGS

Texto curatorial - Paula Ramos, professora do Instituto de Artes da UFRGS

Em algum momento de sua juventude, a mulher com cabelos crespos e vestido estampado posou diante de uma paisagem não tão esmaecida, com sua garrafa de bebida, talvez já vazia, para uma pessoa dotada de equipamento fotográfico. Provavelmente confiante na capacidade do dispositivo tecnológico de não apenas fixar aquele momento de regozijo, mas de vencer o tempo, ela distendeu o corpo, peso apoiado nos braços, pernas semiabertas, em inegável bem-estar; também inclinou a cabeça e lançou o olhar ao longe, desviando tanto do observador presente, por trás da objetiva em prontidão, como do hipotético espectador futuro, diante da cópia em papel. Em seu rosto, o semblante de contentamento e deleite.

Adiante, em algum momento de sua pesquisa poética, a artista se deparou com essa imagem e estabeleceu um diálogo íntimo com a moça de postura e expressão prazenteiras, que insistia em lhe sorrir. Empregando esmalte vermelho, delicadamente insuflou a imaginação quanto às cores do vestido e, por extensão, à personalidade da mulher, ao mesmo tempo em que inseriu um elemento novo e perturbador: uma forma dourada que rasga a composição em diagonal, incidindo sobre a figura feminina. Raio de sol ou relâmpago? Carga ou descarga de energia? Fenômeno físico ou intervenção divina? Ênfase ou aniquilamento?

Diversas tensões atravessam as obras de Rochele Zandavalli e, em especial, as que integram esta exposição. Tensões entre suportes, materiais e suas cargas simbólicas; tensões entre procedimentos, tecnologias e temporalidades; tensões entre formas e figuras, suas sobreposições e camadas de sentido; tensões em torno dos clichês relacionados à mulher, seu corpo e seu comportamento; tensões entre o que se revela e o que parece ser. Reconhecida por se apropriar e ressignificar fotografias antigas e em preto e branco de pessoas anônimas, majoritariamente mulheres, Rochele insere formas, cores, bordados e (mais raramente) palavras, às vezes exclui partes, ao mesmo tempo em que elege materiais e procedimentos que sutilmente indicam suas provocações. Na série A primeira a sumir (2017), por exemplo, contrapõe aos retratos fotográficos recortados e em processo de desaparecimento – seja pela debilidade da emulsão química ou pela fragilidade imposta pela própria artista, ao retalhar a imagem – toalhinhas em crochê, linhas douradas e brincos, elementos tradicionalmente associados ao feminino. Investindo em engenhoso desconforto, ela critica os estereótipos, ao mesmo tempo em que parece perguntar: o que efetivamente permanece?

O uso de esmalte para unhas como matéria de pintura é dominante na série que dá título à exposição. Em Nosso lugar ao sol (2019), pequenas imagens exibindo grupos de mulheres em poses estudadas e feições sorridentes, novamente com incisões, são cobertas por camadas desse verniz índice inequívoco de vacuidade. Associado ao artifício e uma vez mais ao feminino, o esmalte tem, para a artista, um significado carregado de ironia: “Ele domestica nossas presas animais. As unhas coloridas são nossas garras civilizadas e inofensivas”. Simbolicamente, o esmalte dociliza a mulher, ao mesmo tempo em que lhe reveste de características socialmente desejáveis. Afinal, uma “verdadeira dama” não exibe cutículas, ri de forma comedida, cobre-se de cores e maquiagem para tornar-se desejável aos olhos dos outros e jamais constrange a sociedade insinuando ou exibindo, por exemplo, seus mamilos.

Essa é a pauta de Freethenipple (2018), comentário arguto à censura imposta aos mamilos femininos em redes sociais. Associando-se ao movimento mundial que clama a liberdade da mulher de exibir os seios, denunciando a objetificação sexual e defendendo a igualdade de gênero, o vídeo é resultado da apropriação e organização de dezenas de fragmentos de imagens que Rochele acessou em seu instagram, todas bloqueando mamilos femininos, identificados como pornografia. As intervenções passam pelo uso de tarjas, riscos, emojis e pixels, até seu apagamento completo. Nesse processo, restam imagens de seios artificializados, ultrajados, negados. Por extensão, mulheres artificializadas, ultrajadas, negadas.

Natural e artificial, corpo e natureza e, uma vez mais, vacuidade. Desenvolvida desde 2013, a série Todos esses novos adoradores do sol insinua a narrativa de um jovem que cruza um místico portal, perambula em meio à vegetação e passa a observar tudo através de uma lupa. É a lupa – metáfora da própria câmera fotográfica – que lhe revela novas formas e camadas de realidade, num caminho até a quase abstração, sugerindo também o processo de pertencimento e comunhão com o “sagrado universal” representado pela natureza: o corpo humano encontrando-se nos corpos das matérias mineral e vegetal. As imagens exibem uma dualidade constante: juventude e impermanência, simulacro e experiência, desejo e consumação, vida e morte. Aspectos similares atravesssam a série Oculto (2009), em que as peles/camadas humana (performativa), vegetal (projetiva) e fotográfica (técnica) amalgam-se na imagem, assim como, em especial, na série Morangos mofam (2019), vanitas por excelência, escancarando no close-up a enérgica e incontornável ação do tempo, maceração da matéria, da energia, da beleza e, por que não, da imagem.

Em obras diminutas e delicadas ou gritantes e explícitas; em obras calcadas na narrativa ou sugestivas em sua forma e matéria; em obras que dialogam com grandes gêneros artísticos ou que questionam clichês em torno do gênero feminino… em todas elas, Rochele convida o espectador a olhar com vagar, fugindo das percepções ligeiras e das interpretações prontas; em todas elas, reclama o direito à expressão, à liberdade, à luz e ao sol, que tornam real a matéria primeira da fotografia e a nossa própria existência.  

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