Jane Tutikian encerra Conferências UFRGS 2019: “Se eu não respeito a cultura, eu não respeito o povo como ele é”

Vice-reitora e professora de Literatura na UFRGS, Jane Tutikian tem uma vasta trajetória na escrita. Lançou 19 obras e participou como organizadora de outras tantas, dentre elas a clássica Antologia Poética, de Fernando Pessoa (2012, L&PM). Recebeu diversas premiações ao longo de sua carreira. O mais importante deles, o Jabuti, por A cor do azul (1984), alavancou uma promissora trajetória construída com base na literatura infanto-juvenil, contos, ensaios e outros estilos.

Nesta quarta-feira, 13 de novembro, às 19h, Jane Tutikian vai falar no Centro Cultural da UFRGS sobre um tema que conhece como poucas: cultura. Na décima e última conferência com a temática cultural, a vice-reitora da UFRGS fará um apanhado de todas as discussões trazidas. Desde abril deste ano, o Conferências UFRGS debateu, ao longo de nove encontros, a formalização de uma política cultural para a universidade. 

O Departamento de Difusão Cultural conversou com a professora sobre a necessidade de a UFRGS adotar um modelo de cultura que possa perpassar gestões, a importância das universidades na sociedade brasileira e o debate em torno do governo e de projetos polêmicos, como o Future-se. Confira: 

Difusão Cultural UFRGS – Em relação às outras palestras, a senhora fará uma compilação dos temas trazidos nas discussões?

Jane Tutikian – Eu acompanhei todas as conferências. Então, a ideia agora é de recolher aquilo que as pessoas trouxeram para poder delinear uma política cultural para a universidade. A minha palestra vai ter uma parte histórica, onde eu vou mostrar toda a evolução do ponto de vista cultural do Século XX, que foi um século transgressor. Então venho para a parte filosófica, quando a cultura é transformada em indústria cultural, onde falarei sobre a modernidade líquida. Por fim, parto para uma proposta mais prática.


DDC UFRGS – Quão importante é uma política cultural universitária? É um instrumento necessário para uma espécie de proteção caso ocorra uma mudança brusca de rumos da gestão na universidade?

JT – Eu acho fundamental, sobretudo se pensarmos no momento em que estamos vivendo. Eu gosto muito do Octavio Paz (poeta e ensaísta mexicano, 1914-1998) quando ele diz que nós estamos vivendo uma crise geral de valores. Valores éticos, estéticos, políticos, ideológicos, filosóficos e tal. E de fato estamos vivendo essa crise. Quando o Jameson (Fredric Jameson) esteve no Salão de Atos, ele deu um exemplo sobre o que é o nosso tempo. Até o início do século XX, quando você olhava para uma obra, lá estava o criador da obra. Você identificava traços característicos. A partir de meados do século XX, alguma coisa começou a mudar nas artes. E o que muda, segundo o Jameson, é que hoje na arte o artista não é mais o criador. Ele passa a ser um rearranjador de coisas prontas. Ele está falando sobre a instalação. Toda essa mudança de valores traz mudanças de comportamentos. Hoje, somos mais individualistas. Falamos pelo celular. Trocamos o toque humano pela tela do celular. Então, respondendo à sua pergunta. O que nós queremos com uma política cultural, se entendermos que a cultura é toda ação do homem na natureza. Eu vou entender o seguinte: o maior valor que pretendemos resgatar é o próprio homem. É o valor do homem com seus valores pétreos.


DDC UFRGS – Temos novas discussões ao longo das últimas décadas, como as questões LGBT, raciais… Inúmeros assuntos são relativamente novos, como as discussões étnicas pós-Segunda Guerra Mundial, a questão da dignidade humana e direitos humanos com a Declaração Universal dos Direitos Humanos. Essas questões devem estar contempladas na política cultural da universidade?

JT – Sem a menor sombra de dúvida! Como você mencionou, essas discussões começam na Segunda Guerra Mundial, com o conceito de nação. E aparece de uma forma muito forte nas artes e na literatura nos anos 1980. São aqueles que ficavam à margem do poder e que começam a ter voz. É o que chamamos de globalização da economia e multiculturalismo do ponto de vista humano. Mas esse multiculturalismo precisa respeitar a diversidade. Toda a sua amplitude. Embora falemos sobre isso, a xenofobia está em voga, principalmente na Europa. No Brasil, temos o mais alto índice de feminicídio. Então, isso tudo está colocado como aspecto cultural. Quem deve dar conta das migrações do século XXI? É a cultura. Então por isso que eu disse que em última análise é esse resgate do homem em sua essência humana que deve ser buscado.


DDC UFRGS – O governo vem reduzindo de maneira drástica o orçamento universitário e está em voga uma retórica agressiva contra as instituições federais de ensino. Até que ponto a cultura e a extensão de maneira geral são importantes para melhorar a percepção na sociedade da universidade pública?

JT – Eu acho importante a sua pergunta, até porque ela me permite mostrar o que na universidade nós entendemos como cultura. Nós entendemos que cultura é também artística. Mas temos também a cultura científica, que não podemos abrir mão de discutir dentro de uma política cultural. Essa conversa entre esses dois eixos é de responsabilidade da própria universidade. Eu, particularmente, penso que esse governo está totalmente equivocado. Eu acho que ele precisava ter um inimigo para se afirmar como governo. Que melhor inimigo que a própria universidade? Toda universidade é comunista? Não! A universidade, na sua grande diversidade, é pluripartidária. Ela tem diferentes posições ideológicas. Por outro lado, o outro grande inimigo é a cultura. Até por isso, o governo extinguiu o Ministério da Cultura. Eu vejo isso com muita preocupação. Nós tivemos um ano muito difícil, mas como as universidades federais têm um potencial muito grande conseguem segurar [esse ímpeto]. Aquilo que elas fazem é muito maior do que faz um governo. Quando se mata ou se tenta matar a cultura de um povo, tentamos criar artificialmente uma identidade. Se eu não respeito a cultura, eu não respeito o povo como ele é. Sempre que identidades artificiais foram criadas, vivemos em regimes totalitários. Eu vou dar dois exemplos fora do Brasil: Hitler tentou forjar uma identidade ariana. Ela não se sustenta, pode até durar décadas. A mesma coisa fez o Salazar em Portugal (professor Antonio Salazar, ditador do país ibérico entre 1932 e 1968), passando filmes, dizendo que o governo estava cuidando do povo, dando casas, isso e aquilo. Quando temos a ideia de forjar uma outra identidade de um povo, se corre um perigo muito grande, pois pode durar gerações, mas isso termina. E a reconstrução daquilo que nós somos essencialmente é muito difícil. Então, o governo nesse sentido, em vez de fazer o bem para o povo, ele faz um mal. Quando não se reconhece que a universidade faz 95% das pesquisas, não se reconhece que a universidade é responsável pelo desenvolvimento do país. Quando se corta toda a verba – como foi cortada – para a extensão, se desconhece que a universidade é a mentora e a executora de um programa de justiça social que deveria ser do próprio governo. Então, quando você elimina o desenvolvimento com justiça social você não tem muito a esperar de um país. E essa é a grande responsabilidade das universidades.


DDC UFRGS – Há uma discussão acerca da necessidade de as universidades incrementarem as parcerias com as fundações de apoio e a iniciativa privada. O que a senhora pensa sobre isso? Reduziria a autonomia universitária em prol do interesse privado?

JT – A melhor resposta para isso é o Future-se. O primeiro projeto do Future-se colocava uma OS (organização social) para gerir a universidade, desde o que acontece na sala de aula até a alta gestão. Bom, isso é absolutamente inviável. Uma universidade pública tem que ter autonomia de gestão, autonomia didático-pedagógica. Não vejo que um convênio com uma empresa vá trazer alguma dificuldade na autonomia da universidade. Veja, a UFRGS, a PUCRS e a Unisinos estão na aliança, no pacto de Porto Alegre pelo desenvolvimento. Isso faz parte da universidade. Ela deve guardar determinados valores, mas ela tem que acompanhar para poder servir a própria universidade. Eu não vejo como impedimento. A universidade tem convênios com N empresas. Mas sempre resguardando a autonomia. A universidade não é uma empresa privada, e não pode ser uma empresa privada. Se ela se tornar, ela perde toda a autonomia e passa a cobrar como tal. O Future-se tentava transformar a universidade em uma empresa híbrida, público-privada. Isso tira a característica da própria universidade. Se tem uma coisa pela qual não podemos abrir mão é da nossa própria autonomia. E aí não importa se é uma OS, uma fundação ou uma empresa. Se isso interferir na autonomia, não pode passar.


DDC UFRGS – O governo, aparentemente, ataca em várias frentes, seja na questão das OS, do Escola sem Partido, Future-se… Ele pretende minar o poder das universidades em âmbito nacional?

JT – Ele tenta tirar o poder, mas ainda é um pouco pior. Sempre que você tem uma determinação de cima para baixo no Brasil. Ou seja, sem respeitar a autonomia e a diversidade, eu sempre termino pensando no filme Tempos Modernos, do Charles Chaplin. Eu estarei formando pessoas que não precisam pensar, pois o pensamento vem de cima para baixo. Quando o Chaplin está numa fábrica apertando parafusos, ele, subitamente, está apertando no ar. Isso é muito perigoso de se fazer com o povo. Isso significa um atraso em todo e qualquer setor de atividade industrial ou comercial. Para as universidades, também. A válvula de escape acaba sendo a própria universidade. Temos que entender que a universidade é um patrimônio público. Cabe a sociedade – não só aqueles que estão dentro – lutar por um patrimônio que é seu.


DDC UFRGS – A Patrícia Fagundes, por outro lado, disse que seria importante criar e manter um corredor cultural no país através de associações e grupos. Especialmente nesse momento de ataque às IFs seria importante vincular a política cultural delas? Como a senhora pensa que seria possível?

JT – Eu acho que isso é fundamental. O nosso ponto de partido é a América Latina. Chamamos essas redes de Redes Solidárias e Compartilhadas. Vamos pensar na extensão. A extensão coloca a universidade na sociedade e traz a sociedade para a universidade. Ela acolhe os diferentes saberes. Quando você acolhe os diferentes saberes, você modifica o seu próprio saber. Na América Latina, temos uma sintonia que não é completa. Ela só vai se completar se tomarmos como missão essas redes solidárias e compartilhadas. Não somente na questão de justiça social, mas na questão de desenvolvimento científico-tecnológico. A pergunta que se faz é a seguinte: por que em cada país temos que inventar a roda se ela já inventada e melhorada? Então, é o momento se se fazer uma rede.


DDC UFRGS – A cultura tem um papel de resistência e de diálogo entre diversos campos. A gestão de vocês foi uma das que mais valorizou o campo da cultura. Você teme mudanças bruscas de direção a partir do ano que vem?

JT – Eu acho que a universidade é muito forte. Ela é mais forte do que qualquer gestão. Não temo pelo fim da cultura. Temo pela questão orçamentária. Já foi anunciado que ano que vem a verba anunciada será muito menor do que a verba deste ano, e que já foi praticamente insustentável. A extensão não recebe mais nada. Isso me preocupa muito. Agora, seja quem for que esteja aqui, o aspecto cultural está tão consolidado no Museu, Centro Cultural, no DDC-UFRGS, que mesmo que nós possamos a ter limites, isso não vai absolutamente desaparecer. Nós temos talentos na universidade, temos uma força criativa muito grande. Isso vai prevalecer. A nossa necessidade de cultura é muito forte.


DDC UFRGS – A formalização de uma política cultural na UFRGS pode vir a ser um grande legado que essa administração quer deixar? Qual o principal pensamento ou eixo que deve constar obrigatoriamente no documento a ser redigido?

JT – A política cultural, seja ela artística, seja científica, tem que ter uma meta. E essa meta é o homem. O homem é o centro irradiador e o centro que apara a própria cultura. É isso que temos que entender. No momento que nós compreendemos, estaremos contribuindo também para uma mudança na sociedade através da cultura.

Serviço

Conferências UFRGS 2019 – Cultura: para uma política cultural da UFRGS

  • Sobre: palestra com Jane Tutikian, Vice-Reitora da UFRGS
  • Tema: Para uma política cultural da UFRGS
  • Data: 13/11/2019
  • Horário: 19h
  • Local: Centro Cultural da UFRGS
  • Inscriçõeshttps://forms.gle/oyzywkkS7ytoUmoA9

Deixe uma resposta

X