Na segunda parte da mostra Mistérios da Meia-Noite, a Sala Redenção apresenta a obra do Zé do Caixão

A Sala Redenção lança a sua terceira mostra online entre 17 e 23 de julho. O ciclo Mistérios da Meia-Noite, cuja primeira parte apresentou clássicos do gênero do terror, agora investiga a obra do autor maldito José Mojica Marins, mais conhecido pela sua persona mais maldita, Zé do Caixão.

Entre os filmes disponíveis na plataforma SPCine Play, a mostra destaca cinco longas que ilustram esse cinema extremamente particular, pulsante e violento, numa tentativa de não deixar a obra de Mojica Marins cair na obscuridade, ainda que na escuridão resida a sua potencia.

Confira a programação:

À MEIA-NOITE LEVAREI SUA ALMA
(dir. José Mojica Marins, Brasil, 1964, 84 min)

O cruel agente funerário Zé do Caixão vive a obsessão de encontrar a mulher superiora, capaz de gerar o filho perfeito e perpetuar o seu sangue. Para isso, não hesita em matar todos que ousam interferir em se plano.

Disponível em: https://www.looke.com.br/filmes/a-meia-noite-levarei-sua-alma

ESSA NOITE ENCARNAREI NO TEU CADÁVER
(dir. José Mojica Marins, Brasil, 1967, 110 min)

Zé do Caixão continua sua saga para conhecer a mulher superiora, capaz de gerar o filho perfeito. Nessa busca, comete um grave crime e será punido.

Disponível em: https://www.looke.com.br/filmes/esta-noite-encarnarei-no-teu-cadaver

FINIS HOMINIS – O FIM DO HOMEM
(dir. José Mojica Marins, Brasil, 1971, 80 min)

Finis Hominis é um messias moderno, capaz de operar milagres. Uma mulher adúltera e um marido traído são seus maiores seguidores, ao lado de um bando de hippies.

Disponível em: https://www.looke.com.br/filmes/finis-hominis-o-fim-do-homem

A ESTRANHA HOSPEDARIA DOS PRAZERES
(dir. José Mojica Marins, Brasil, 1976, 79 min)

Numa estranha hospedaria isolada, o proprietário misterioso contrata funcionários para que possam receber hóspedes em busca de abrigo. Numa noite de tempestade, aparecem várias pessoas, entre elas um grupo de hippies, um casal de adúlteros, um suicida, um gigolô e alguns empresários corruptos.

Disponível em: https://www.looke.com.br/filmes/a-estranha-hospedaria-dos-prazeres

DELÍRIOS DE UM ANORMAL
(dir. José Mojica Marins, Brasil, 1978, 84 min)

Um psiquiatra, obcecado pela figura de Zé do Caixão, passa a ter delírios nos quais sua esposa é raptada pela malévola criatura.

Disponível em: https://www.looke.com.br/filmes/delirios-de-um-anormal

Confira o evento da mostra: https://www.facebook.com/events/720378442131706/

 

MISTÉRIOS DA MEIA NOITE PARTE II: O COVEIRO (texto curatorial)

Após uma primeira incursão no cinema de horror na primeira parte da mostra Mistérios da Meia-Noite, a Sala Redenção apresenta um segundo olhar para esse gênero, direcionando o foco a fim de apresentar um pouco da obra de José Mojica Marins, o Zé do Caixão. Muitas vezes negligenciado pela nossa cinefilia, o “cineasta do excesso e do crime” tem em sua obra filmes que transcendem o gênero, sem medo de subverter as convenções do horror e de provocar o espectador em uma delirante rejeição da moralidade.

A mostra contempla cinco filmes do diretor/personagem, essa figura stevensoniana que se deixa confundir com a própria criação: começamos pelos dois filmes em que o personagem do Zé do Caixão aparece pela primeira vez, À Meia-Noite Levarei Sua Alma (1964) e Esta Noite Encarnarei no teu Cadáver (1967); em seguida, temos Finis Hominis – O Fim do Homem (1971) e A Estranha Hospedaria dos Prazeres (1976); Delírios de um Anormal (1978) encerra a mostra.

A primeira aparição do Zé do Caixão se dá no mesmo ano do Golpe Militar, em 1964. Depois desse ano todo projeto do Cinema Novo (e cinema nacional num geral) descarrilou para um caminho de absolutas incertezas e desilusões. A figura do coveiro niilista eugenista violento e cruel num contexto específico interiorano de certa forma é uma explosão no que se vinha fazendo no cinema da época, que voltava seus olhos pra essas histórias populares e do interior. Zé do Caixão já como folclore, suas primeiras aparições são conto de cidadezinha afastada, causo insólito que a avó de um amigo diz que viu alguém dizer que viu. Um personagem que representa muito mais do que a morte ou o mal-agouro, ele representa a natureza do indivíduo em conflito com seu meio. Zé do Caixão está sempre testando os outros moradores da cidade, utilizando medos particulares, inseguranças e incertezas como forma de subverter qualquer ideia mais racional. Uma entrega física e psicológica ao desespero que caminha junto de todo brasileiro que observa o mundo real.

“Zé do Caixão é Zé, não é Mister, […] não é Steven. Zé do Caixão é Zé, é nosso, é caboclo” nessas palavras José Mojica Marins introduz seu personagem/entidade no curta O Universo de Mojica Marins (1978), de Ivan Cardoso. Ainda que insistam em transformá-lo em Coffin Joe, atração de estande de convenção de cultura pop, Zé do Caixão é mais do que isso. É interessante como na verdade o personagem acaba se afastando dessa noção sobrenatural com a qual enxergamos ele hoje em dia. As imagens de Mojica são extremamente objetivas, não são símbolos e metáforas, são o sangue, as tripas, o desespero. Mas também não quer dizer que sejam reais. Mojica sabe o valor de sua contribuição para essa discussão e se deixa mergulhar dentro da personagem. Ao longo dos anos foi unificando a imagem de Zé com a de José; tornou-se ele mesmo o pesquisador e o objeto de estudo. A partir do momento que Zé do Caixão passa a vagar pelos centros urbanos, “onde as coisas acontecem de fato”, ele deixa de ser lenda e passa a ser um evento em si. Sua performance é aquele caso real inacreditável que acontece na nossa frente e leva tempo pra sair da nossa cabeça. 

Em seus filmes, Mojica nos apresenta imagens do Mal, as pulsões que tentamos ignorar até que deixem de existir, o abismo nos olhando de volta; não como algo externo, estranho, eliminável, mas sim como uma força natural e inevitável. Livra-se do maniqueísmo tradicional escancarando o que é feio, dizendo o indizível. E é essa ambiguidade que flutua entre o objetivo e subjetivo que torna sua obra algo tão difícil de definir, rotular e analisar. Como se não bastasse isso, a censura da ditadura militar contribuiu para uma dilaceração da autoria de Mojica, fragmentando mais ainda os meios pelos quais esse artista construía seus pesadelos. Voltou à cena popular início dos anos 2000, já passado por diversas ressignificações da sua figura, tornou-se um vulto na cultura brasileira. Hoje é possível identificar algum esforço em atribuir à José Mojica Marins seu valor no cinema nacional, não limitando ao gênero do terror, mas também sem negar esse seu aspecto primordial.

Entre os pesquisadores contemporâneos que investigam seu cinema sem olhares limitadores, está Bernardo Oliveira, que finaliza o seu texto Antiestética da voracidade, publicado na Revista Cinética, parte de um especial com mais de dez textos sobre a obra de Mojica Marins, com a seguinte passagem, que resume a potência da obra do diretor dentro do contexto do nosso cinema: “A filmografia de Mojica apresenta o gênero como suporte para um manancial aparentemente inesgotável de movimento, constituindo um vasto território de invenção que se posiciona em relação a problemas fundamentais do cinema e da política-poética brasileiras: a vertigem do nacional-popular, do “cinema industrial”, da espetacularização da miséria, da estética e da cosmética da fome, da estética do sonho, do cinema como “linguagem”, linguagem como experiência, experiência como relação…”

Texto: Vitor Cunha e Victor Souza, bolsistas da Sala Redenção.

Texto Antiestética da Voracidade, de Bernardo Oliveira: revistacinetica.com.br/nova/mojica-bernardo-oliveira-antiestetica/

Deixe uma resposta

X