Próximo Confraria da Ilustração discute o lugar das mulheres na história da arte a partir do trabalho de Aline Daka

“Me encanta muito o universo da experiência feminina. Principalmente, quando esse universo tem uma tensão, quando ele tem tanta coisa pesada para carregar, quando é tão preso e quando ele escapa. Me encantam muito as formas de escapar”. Essa é a proposição do trabalho de Aline Daka, próxima convidada do projeto Confraria da Ilustração: criar espaços em que, a partir do traço preto e expressivo do desenho, as mulheres possam escapar, fugir do que lhes foi determinado pelas histórias contadas pela sociedade.

Artista visual, ilustradora, quadrinista e educadora, Aline ministra o próximo Confraria, que acontece no dia 26 de setembro, às 18h30, no Centro Cultural da UFRGS. A conversa, intitulada “Ilustração feminina: isso existe? Uma conversa sobre a arte não convencional de mulheres ilustradoras” explora a falta de atenção da história da arte com relação às mulheres, o lugar da ilustração na arte e a produção de mulheres ilustradoras.

Sobre o título escolhido, Aline conta que a ideia de questionar a existência da ilustração feminina foi a de discutir o porquê afirmamos que certas imagens são mais masculinas ou femininas. De alguma forma, o questionamento sobre o gênero de autoria possibilita a reflexão sobre qual é a história da arte que nos é contada e por que restringimos às mulheres artistas determinadas temáticas, formas, gestos e, inclusive, técnicas. A ilustradora relembra que, durante o curso de bacharelado em Artes Visuais na UFRGS, recebia referências apenas de homens quando procurava sobre artistas do século XIX, especialmente dos movimentos simbolista e expressionista. “Eu pensava ‘onde estão as mulheres?’. Comecei a procurar e a descobrir algumas ilustradoras fantásticas, como a Rose O’Neil, uma americana que começou assinando com a sigla C.R.O, para não ser identificada como mulher.”

O ponto de partida do encontro do dia 26 é a dissertação “Mulheres caídas: cacografias da educação”, realizada por Daka na UFRGS em 2018, e considerada pioneira por apresentar dentro da academia uma produção inteiramente na linguagem dos quadrinhos, de forma experimental e fragmentária. Sensível e potente, a artista chama o trabalho de “cacografia”, pois sua atuação é como a de uma compositora, pesquisando e juntando os cacos, isto é, os fragmentos das histórias das mulheres da arte.

Entre quase cem páginas de tamanho A3, o projeto derruba as fronteiras do tempo. Hilda Hilst, Sylvia Plath, Ana Cristina Cesar e Forug Farrokhzad convivem com surrealistas, dadaístas e beatniks. Apesar de não serem contemporâneas, as artistas, na dissertação de Aline, participam de uma mesma narrativa não-linear, que brinca com a ideia de criar ficção a partir da história convencional. O trabalho conta com falas retiradas de poemas, entrevistas e livros dessas artistas.

“Mulheres caídas seriam essas mulheres que, justamente, saem de casa, desse lugar confortável que nos pré-destinaram. Tanto do campo estético, quanto do simbólico.Toda essa parte da imagem, de que imagem de mulher tu deveria ser. E elas saem dessa casa e vão construir outra coisa. Só que essa outra coisa também é cheia de clichês.Então, resolvi brincar com isso. Vamos brincar com o que são essas estruturas, desmontar e ver o que surge”, explica.

A convidada do próximo Confraria da Ilustração conta, ainda, que uma das experiências mais importantes para o desenvolvimento da dissertação foi a residência artística realizada por ela e por outras duas pesquisadoras na Casa do Sol, em Campinas (SP), o lugar em que Hilda Hilst morou durante a maior parte de sua vida. O tempo passado no lugar conectou Aline com a humanidade de Hilda. Os objetos, as anotações de sonhos, os sublinhados nos livros denotavam a luta de uma mulher ordinária e extraordinária para fazer poesia, para ser considerada uma poeta e para ser lida.

“As pessoas que olham meu trabalho não estão só me enxergando, estão enxergando, além delas mesmas, muitas outras mulheres. É uma grande subversão e perversão da mulher quando ela traz esse mundo que é feito por muitas. Tem a Hilda aqui, tem essa força no trabalho porque a [obra de] Hilda está aqui.”

*Foto: Secult de Novo Hamburgo 

Serviço

O que:  Ilustração feminina: isso existe? Uma conversa sobre a arte não convencional de mulheres ilustradoras, com Aline Daka 
Data: 26 de setembro, quinta, 
Horário: das 18h30 às 20h30
Local: Centro Cultural da UFRGS (Rua Eng. Luiz Englert, 333, Campus Central da UFRGS — bairro Farroupilha, Porto Alegre)
Ingresso: entrada franca

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