O que um dos maiores pontos culturais do Brasil nos anos 1970, a Praça Tirandentes, no Rio de Janeiro; a vida dos estivadores, a cultura e prazeres criados em torno do maior porto da América Latina; lendas do Complexo da Maré e um baile de música cubana na periferia de Recife têm em comum? A mostra Territórios à Deriva busca decifrar os meandros da construção cultural e coletiva do cotidiano de oito pontos em cinco cidades brasileiras, com documentários produzidos ao longo de pouco mais de quatro décadas.

Os curta-metragem serão exibidos a partir desta terça-feira, 22 de setembro, a 5 de outubro em diversos links gratuitos disponibilizados por parceiros da Sala Redenção – Cinema Universitário da UFRGS. Em meio a mostra, transmitiremos duas lives com convidados especiais, sempre às quintas-feiras, às 19h, no canal do YouTube do DDC.

 

TERRITÓRIOS À DERIVA

“De 22/09 a 05/10, a Sala Redenção – Cinema Universitário apresenta a mostra Territórios à Deriva, reunindo oito curtas-metragem que, em seu conjunto, propõem uma exploração dos lugares e espaços como locais de afeto e pertencimento.

Em sua abordagem, essa curadoria foi pensada de forma a ser um contraponto, uma segunda visão complementar sobre o tema tratado pelas duas últimas semanas na Sala Redenção com a mostra Territórios Delimitados, que evidenciou as dinâmicas de poder e exclusão presentes no espaço urbano e os conflitos que resultam dessa assimetria entre quem planeja e quem vive a cidade.

O que propomos aqui é uma espécie de deriva: navegaremos por lugares distantes temporal e geograficamente, sem aparentes conexões entre si, em que se formam significados subjetivos para uma ou mais pessoas através de sua história ou apenas de seu convívio. Seja um baile de música cubana na periferia do Recife nos anos 2000 ou uma galeria carioca em 1980, nesses espaços se constroem teias afetivas que os transformam em algo em si, além de sua mera existência física e de funcionalidade no tempo, presente em memórias e registros diversos e interconectados das vivências que lá se deram.

A rota que aqui traçamos passa por diversos momentos no tempo e no espaço: organizados cronologicamente, começamos por dois filmes de José Joffily, Praça Tiradentes 77 (1977) e Curta-sequência – Galeria Alaska (1979), nos levando a dois locais de confluência da boemia carioca do final dos anos 1970; contemporânea a essa obra também temos Porto de Santos (1978), de Aloysio Raulino, que nos leva à região portuária paulista e nos mostra seu cotidiano e suas pessoas.

Podemos pensar também no espaço em seu potencial de construção simbólica através do convívio e das relações que ali se formam, como nos botequins cariocas de Papo de Botequim, de Allan Ribeiro, ou em um baile de música cubana que acontece há mais de década no bairro de Beberibe em Recife, tema do filme A Cubana (dirigido por Andrea Ferraz, Cesar Maia, Leo Crivellare, Marcelo Barreto, Silvia Góes), ambos de 2004. Por outro lado, também olhamos para um vilarejo quase fantasma criado por políticas sanitaristas exclusionárias do governo do Estado, no curta A Cidade (2012), de Liliana Sulzbach.

Contos da Maré (2013), de Douglas Soares, e Milagres (2015), de Adalberto Oliveira, fecham a mostra. O primeiro nos mostra um processo de construção de mitos, histórias contadas de forma geracional, criadas e pautadas em um lugar, suas características e seus moradores; o segundo, um canto de resistência em Olinda, retratando as mulheres que vivem à beira do Mar dos Milagres, sua relação com o espaço e com a transformação do mesmo, resultado de um desenvolvimento excludente, que, através do descaso, afetou negativamente a paisagem e o modo de vida de seus moradores.
Apesar da ordem descrita acima, essa mostra não propõe tanto uma sequência lógica de filmes, mas uma caminhada qa esmo, vagando por esses locais tão importantes para quem os frequenta. Para findar esse texto, recorto um trecho escrito por Guy Debord, um dos fundadores da Teoria da Deriva e da Internacional Situacionista: “Nossa idéia central é a construção de situações, isto é, a construção concreta de ambiências momentâneas da vida, e sua transformação em uma qualidade passional superior.” 

Texto: Vitor Cunha, bolsista da Sala Redenção e curador da mostra.

PROGRAMAÇÃO

PRAÇA TIRADENTES
(dir. José Joffily | Brasil | Documentário | 10 min | 1977)

A Praça Tiradentes, ao longo de sua história, abrigou diversos teatros como o Carlos Gomes e o João Caetano, afirmando-se por muitos anos como o principal ponto político, cultural e artístico carioca. Primeiro filme de José Joffily, o curta-metragem Praça Tiradentes é um olhar sobre a vida noturna e a efervescência cultural de um dos pontos mais importantes e históricos do centro do Rio de Janeiro.

Assista: http://portacurtas.org.br/filme/?name=praca_tiradentes

A CUBANA

(dir. Andrea Ferraz, Cesar Maia, Leo Crivellare, Marcelo Barreto, Silvia Góes | Documentário | 2004 | 13 min)

O documentário fala de um baile de música cubana existente em um bairro da periferia do Recife. Fala também de seus personagens e da paixão que esses bailantes nutrem pelo som da Ilha de Cuba, mesmo sem jamais terem pisado os pés no país de Fidel.

Assista: http://portacurtas.org.br/filme/?name=a_cubana

PAPO DE BOTEQUIM

(dir. Allan Ribeiro | Documentário | 2004 | 20 min)

Documentário bem humorado sobre a importância cultural e democrática dos botequins na cidade do Rio de Janeiro.

Assista: http://portacurtas.org.br/filme/?name=papo_de_botequim

CURTA-SEQUÊNCIA: GALERIA ALASKA

(Dir. José Joffily | Brasil | Documentário | 10 min | 1979)

Num bar em frente à Galeria Alaska, em Copacabana, os atores Anselmo Vasconcelos e Paulo Barbosa interagem com a fauna do bairro carioca. A partir dessa discussão, eles vão envolvendo as pessoas do lugar, que acabam de forma descontraída falando sobre suas vidas e sobre o local.

Assista: http://portacurtas.org.br/filme/?name=curtasequencia_galeria_alaska

O PORTO DE SANTOS

(dir. Aloysio Raulino | Documentário | 1978 | 19 min)

Paisagens e população do Porto de Santos, o maior da América Latina, misturam-se na visão poética do trabalho nas docas e da boemia nas noites no cais.

Assista: https://www.youtube.com/watch?v=QxaST1SN2v0

A CIDADE

(dir. Liliana Sulzbach | Documentário | 2012 | 25 mini)

Distante de outros centros urbanos, Itapuã (RS) é uma comunidade com hábitos bem característicos. A localidade, que abrigou 1454 pessoas durante mais de 70 anos de existência, conta hoje com apenas 35 moradores, todos acima de 60 anos.

Assista: http://portacurtas.org.br/filme/?name=a_cidade

CONTOS DA MARÉ

(dir. Douglas Soares | Documentário | 2013 | 18 min)

Lendas urbanas, memórias de uma família e do local onde moram. Uma história de lobos, cobras e porcos para uma complexa Maré.

Assista: http://portacurtas.org.br/filme/?name=contos_da_mare

MILAGRES

(dir. Adalberto Oliveira | Documentário | 2015 | 20 min)

Através de relatos sobre memórias e vivências marcantes, mulheres compartilham seus vínculos com o mar dos Milagres.

Assista: https://www.youtube.com/watch?v=lLvdTFhs0zU

Deixe uma resposta

X