{"id":287,"date":"2021-06-28T15:30:49","date_gmt":"2021-06-28T18:30:49","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ufrgs.br\/e-psico\/?page_id=287"},"modified":"2021-06-28T15:30:50","modified_gmt":"2021-06-28T18:30:50","slug":"como-e-avaliado","status":"publish","type":"page","link":"https:\/\/www.ufrgs.br\/e-psico\/index.php\/como-e-avaliado\/","title":{"rendered":"Como \u00e9 Avaliado"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Dalgalarrondo (2000) divide as fun\u00e7\u00f5es ps\u00edquicas em consci\u00eancia, aten\u00e7\u00e3o, orienta\u00e7\u00e3o, viv\u00eancias do tempo e do espa\u00e7o, sensopercep\u00e7\u00e3o, mem\u00f3ria, afetividade, vontade e psicomotricidade, pensamento, ju\u00edzo de realidade, linguagem. Al\u00e9m das fun\u00e7\u00f5es ps\u00edquicas compostas, que s\u00e3o consci\u00eancia e valora\u00e7\u00e3o do eu, esquema corporal e identidade, personalidade e intelig\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Dalgalarrondo chama de consci\u00eancia o estado de estar acordado, desperto, vigil. \u00c9 a capacidade do indiv\u00edduo entrar em contato com a realidade, perceber e conhecer os seus objetos. Leo parece n\u00e3o ter nenhuma altera\u00e7\u00e3o em sua consci\u00eancia, durante sua inf\u00e2ncia. Ele apresenta um quadro em que parece manter seu estado de vig\u00edlia sempre ativo, pois o filme nos mostra o personagem desperto a noite escrevendo sentado em sua cama enquanto seu irm\u00e3o mais velho (Fernand) dormia, o que pode se constituir em uma altera\u00e7\u00e3o. Entretanto, em um momento, talvez depois de n\u00e3o conseguir responder psiquicamente a certos acontecimentos, Leo fica catat\u00f4nico. Por\u00e9m, esse fen\u00f4meno n\u00e3o \u00e9 citado como uma altera\u00e7\u00e3o da consci\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A aten\u00e7\u00e3o pode ser definida como a dire\u00e7\u00e3o da consci\u00eancia, o estado de concentra\u00e7\u00e3o da atividade mental sobre determinado objeto. Podemos discernir dois tipos b\u00e1sicos de aten\u00e7\u00e3o: a aten\u00e7\u00e3o volunt\u00e1ria, que \u00e9 aquela onde escolhemos o objeto sobre o qual vamos focar nossa aten\u00e7\u00e3o, e a aten\u00e7\u00e3o espont\u00e2nea, que \u00e9 aquele tipo de aten\u00e7\u00e3o suscitado pelo interesse moment\u00e2neo. Quanto \u00e0 dire\u00e7\u00e3o da aten\u00e7\u00e3o, ela pode ser externa: projetada para fora do mundo subjetivo; ou interna, que se volta para os processos mentais do pr\u00f3prio indiv\u00edduo. Das altera\u00e7\u00f5es da aten\u00e7\u00e3o temos a diminui\u00e7\u00e3o global da aten\u00e7\u00e3o chamada de hipoprosexia, na qual se verifica uma perda b\u00e1sica da capacidade de concentra\u00e7\u00e3o, com fadigabilidade aumentada, o que dificulta a percep\u00e7\u00e3o dos est\u00edmulos ambientais e a compreens\u00e3o. A perda total da capacidade de aten\u00e7\u00e3o denomina-se aprosexia. A distra\u00e7\u00e3o \u00e9 um sinal n\u00e3o de d\u00e9ficit propriamente dito, mas de superconcentra\u00e7\u00e3o ativa da aten\u00e7\u00e3o sobre determinados conte\u00fados ou objetos. A distraibilidade, ao contr\u00e1rio, \u00e9 um estado patol\u00f3gico que \u00e1 caracterizado por uma instabilidade e mobilidade a aten\u00e7\u00e3o volunt\u00e1ria, como dificuldade de se manter em qualquer coisa que implique um esfor\u00e7o produtivo. No filme, o personagem parece apresentar apenas um facilidade de distra\u00e7\u00e3o e n\u00e3o uma distraibilidade propriamente dita, tendo em vista que Leo, apesar de ser sonhador, como ele mesmo diz, escrevia muito, o que requer um esfor\u00e7o produtivo, incapaz de ser dado quando se tem uma distraibilidade.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A orienta\u00e7\u00e3o, para Dalgalarrondo (2000), \u00e9 um elemento b\u00e1sico da atividade mental. A orienta\u00e7\u00e3o \u00e9 a capacidade de situar-se quanto a si mesmo e ao mundo. Temos v\u00e1rios tipos de orienta\u00e7\u00e3o: a orienta\u00e7\u00e3o autops\u00edquica, que \u00e9 a orienta\u00e7\u00e3o do indiv\u00edduo em rela\u00e7\u00e3o a si mesmo; a orienta\u00e7\u00e3o alops\u00edquica, que diz respeito \u00e0 capacidade de se orientar em rela\u00e7\u00e3o ao mundo; a orienta\u00e7\u00e3o temporal, que indica se o paciente sabe em que momento cronol\u00f3gico estamos vivendo (hora do dia, que dia \u00e9 hoje); e a orienta\u00e7\u00e3o espacial, que \u00e9 a capacidade de saber onde est\u00e1, o estado que mora, o pa\u00eds. Quanto \u00e0 orienta\u00e7\u00e3o espacial, temporal e alops\u00edquica, Leo parece muito bem durante a sua inf\u00e2ncia (j\u00e1 que os elementos que aparecem no filme retratam uma \u00e9poca que supostamente est\u00e1 sendo lembrada por um Leo adulto), pois sabe muito bem onde mora, apesar de querer estar na Sic\u00edlia, sabe, tamb\u00e9m em que \u00e9poca est\u00e1, em que dia e m\u00eas se encontra. Por\u00e9m, em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 orienta\u00e7\u00e3o auto ps\u00edquica, poder\u00edamos inferir que Leo apresenta algumas altera\u00e7\u00f5es, uma vez que nega a sua origem (seu pai) e afirma ter um nome diferente (L\u00e9olo Lauzonne) daquele que foi dado por seus pais (Leo Lozeau).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">As viv\u00eancias de tempo e do espa\u00e7o constituem dimens\u00f5es fundamentais de todas as experi\u00eancias humanas. O ser, de modo geral, s\u00f3 \u00e9 poss\u00edvel nas dimens\u00f5es reais e objetivas do espa\u00e7o e do tempo. Leo parece se encontrar muito bem nessa percep\u00e7\u00e3o do tempo e do espa\u00e7o, embora, por vez, o personagem tenha se queixado de como percebia os dias, via-os igual, como uma repeti\u00e7\u00e3o e uma espera, talvez pela morte, ou pela loucura da qual Leo parece querer fugir arduamente. Embora tamb\u00e9m, Leo sente o espa\u00e7o onde vivia como um espa\u00e7o hostil, sempre se sentindo amea\u00e7ado pela loucura que beirava. Uma coisa que aparece no filme que pode nos deixar em d\u00favida sobre a viv\u00eancia de tempo de Leo \u00e9 a de que via, \u00e0s vezes, seus irm\u00e3os j\u00e1 crescidos e, depois, ainda pequenos, sendo que a cena dos irm\u00e3os menores seria a sucess\u00e3o da cena na qual os irm\u00e3os est\u00e3o maiores.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A sensopercep\u00e7\u00e3o \u00e9 a tomada se consci\u00eancia, pelo indiv\u00edduo, do est\u00edmulo sensorial. Atribui-se a sensa\u00e7\u00e3o \u00e0 dimens\u00e3o neuronal, ainda n\u00e3o plenamente consciente, no processo de sensopercep\u00e7\u00e3o. J\u00e1 a percep\u00e7\u00e3o diz respeito \u00e0 dimens\u00e3o propriamente neuropsicol\u00f3gica e psicol\u00f3gica do processo, \u00e0 transforma\u00e7\u00e3o de est\u00edmulos puramente sensoriais em fen\u00f4menos perceptivos conscientes. O elemento b\u00e1sico do processo da sensopercep\u00e7\u00e3o \u00e9 a imagem perceptiva real, ou simplesmente imagem. N\u00e3o podemos confundir a imagem perceptiva real com a representa\u00e7\u00e3o que caracteriza-se por ser apenas uma revivesc\u00eancia de uma imagem sensorial determinada, sem que esteja presente o objeto real que a produziu. A imagina\u00e7\u00e3o j\u00e1 \u00e9 uma atividade ps\u00edquica volunt\u00e1ria, que consiste na evoca\u00e7\u00e3o de imagens percebidas no passado ou na cria\u00e7\u00e3o de novas imagens e ocorre na aus\u00eancia de est\u00edmulos. A fantasia \u00e9 uma produ\u00e7\u00e3o imaginativa, um produto minimamente organizado da imagina\u00e7\u00e3o. O narrador (Leo adulto) afirma que suas lembran\u00e7as mais remotas s\u00e3o marcadas pelo cheiro e pela luz (referindo-se \u00e0 lembran\u00e7a de sua m\u00e3e ensinando-lhe a usar o pinico), o que indica uma certa preserva\u00e7\u00e3o desse processo. A sensopercep\u00e7\u00e3o pode ter altera\u00e7\u00f5es tanto quantitativas como qualitativas, sendo interessantes para n\u00f3s as altera\u00e7\u00f5es qualitativas. Uma dessas altera\u00e7\u00f5es qualitativa \u00e9 a ilus\u00e3o, que \u00e9 a percep\u00e7\u00e3o deformada de um objeto real e presente.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Outras altera\u00e7\u00f5es qualitativas da sensopercep\u00e7\u00e3o s\u00e3o as alucina\u00e7\u00f5es. Alucina\u00e7\u00e3o \u00e9 a percep\u00e7\u00e3o clara, definida de um objeto sem a presen\u00e7a do objeto estimulante real. N\u00e3o estamos certos se poder\u00edamos classificar, por exemplo, o fato de Leolo pensar que Bianca cantava para ele de dentro do roupeiro enquanto ele escrevia como uma alucina\u00e7\u00e3o, como del\u00edrio ou fantasia, pois o filme nos deixa em d\u00favida sobre esse aspecto. Se fosse, realmente, uma alucina\u00e7\u00e3o de Leolo, poder\u00edamos pensar em alguns tipos espec\u00edficos de alucina\u00e7\u00e3o para esse fato. O principal tipo seria de alucina\u00e7\u00f5es combinadas ou sinestesias, que s\u00e3o experi\u00eancias alucinat\u00f3rias nas quais ocorrem alucina\u00e7\u00f5es de v\u00e1rias modalidades sensoriais ao mesmo tempo (j\u00e1 que Leolo ouvia e, \u00e0s vezes, via Bianca cantando para ele). Outro tipo que podemos pensar \u00e9 na alucina\u00e7\u00e3o auditiva em que o indiv\u00edduo geralmente ouve vozes que o insultam (diferente do caso apresentado, em que o paciente escuta a mo\u00e7a cantar), ou ent\u00e3o em alucina\u00e7\u00e3o musical, que \u00e9 descrita como a audi\u00e7\u00e3o de tons musicais e melodias sem o correspondente est\u00edmulo externo. Esse tipo de alucina\u00e7\u00e3o \u00e9 relativamente raro.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A mem\u00f3ria \u00e9 a capacidade de registrar, manter e evocar os fatos j\u00e1 ocorridos. As altera\u00e7\u00f5es quantitativas da mem\u00f3ria s\u00e3o: hipermn\u00e9sias, onde as representa\u00e7\u00f5es afluem rapidamente, ganhando em n\u00famero, por\u00e9m perdendo em clareza e precis\u00e3o; amn\u00e9sias, perda da capacidade de fixar ou da capacidade de manter e evocar antigos conte\u00fados mn\u00eamicos. Altera\u00e7\u00f5es qualitativas da mem\u00f3ria envolvem principalmente a deforma\u00e7\u00e3o do processo de evoca\u00e7\u00e3o de conte\u00fados mn\u00eamicos fixados. S\u00e3o exemplos dessas altera\u00e7\u00f5es as ilus\u00f5es mn\u00eamicas onde h\u00e1 lembran\u00e7a de car\u00e1ter fict\u00edcio, pois h\u00e1 o acr\u00e9scimo de elementos falsos a um n\u00facleo verdadeiro da mem\u00f3ria. Ocorre na esquizofrenia, paranoia, histeria grave e em transtornos de personalidade; as alucina\u00e7\u00f5es mn\u00eamicas s\u00e3o cria\u00e7\u00f5es imaginativas com a apar\u00eancia de lembran\u00e7as ou reminisc\u00eancias e n\u00e3o correspondem a nenhuma lembran\u00e7a verdadeira. Constituem o material b\u00e1sico para a forma\u00e7\u00e3o de del\u00edrio; as fabula\u00e7\u00f5es, elementos da imagina\u00e7\u00e3o, completam artificialmente as lacunas deixadas pela mem\u00f3ria. H\u00e1 incapacidade do doente reconhecer como falsas as imagens produzidas pela fantasia. As criptomn\u00e9sias s\u00e3o um falseamento da mem\u00f3ria na qual as lembran\u00e7as aparecem como fatos novos ao paciente que n\u00e3o as reconhece, vivendo como uma descoberta nova.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Podemos analisar o caso do Leo, j\u00e1 que o filme gera muitas d\u00favidas do que realmente s\u00e3o fatos que realmente aconteceram e o que n\u00e3o passa de \u201ccoisas da cabe\u00e7a do personagem\u201d, como algo relatado muitos anos depois que \u201cacontecera\u201d e n\u00e3o como uma hist\u00f3ria vivida em tempo real. Nesse caso, pode haver no personagem alguma dessas altera\u00e7\u00f5es qualitativas da mem\u00f3ria, j\u00e1 que tr\u00e1s, tamb\u00e9m elementos fant\u00e1sticos em seu \u201crelato\u201d. Poder\u00edamos pensar, principalmente, numa altera\u00e7\u00e3o de mem\u00f3ria do tipo ilus\u00f5es mn\u00eamicas, j\u00e1 que Leo lembra de seu passado amarrado a um fundo de realidade, mas tr\u00e1s muitas lembran\u00e7as, talvez, criadas por ele. Gostar\u00edamos de ressaltar que as especula\u00e7\u00f5es feitas at\u00e9 aqui n\u00e3o passam de hip\u00f3teses do que pode ser pensado no caso analisado.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Afetividade \u00e9 um termo gen\u00e9rico, compreende v\u00e1rias modalidades de viv\u00eancias afetivas como o humor, as emo\u00e7\u00f5es e os sentimentos. Leo n\u00e3o parece uma crian\u00e7a comum na sua afetividade, j\u00e1 que n\u00e3o tinha muitos amigos e parecia um tanto triste com sua vida. Com sua m\u00e3e, Leo se mostra muito afetivo, diz que a ama algumas vezes durante o filme, lhe d\u00e1 alguns abra\u00e7os calorosos. Por isso, talvez n\u00e3o poder\u00edamos dizer que Leo sofre de um embotamento afetivo, j\u00e1 que esse diz respeito a uma perda profunda de todo o tipo de viv\u00eancia afetiva. Talvez pud\u00e9ssemos dizer que Leo sofre de uma certa apatia, que \u00e9 a diminui\u00e7\u00e3o da excitabilidade emotiva e afetiva, na qual os pacientes queixam-se de n\u00e3o poderem sentir nem alegria, nem tristeza, nem raiva. Por\u00e9m, nenhuma dessas hip\u00f3teses pode ser realmente comprovada.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Outras das fun\u00e7\u00f5es ps\u00edquicas em quest\u00e3o s\u00e3o a vontade e a psicomotricidade. Alguns autores identificam a vontade ao desejo. O desejo, segundo Dalgalarrondo (2000), \u00e9 um anseio de natureza consciente ou inconsciente que visa sempre a algo que busca sempre a sua satisfa\u00e7\u00e3o. Uma diferencia\u00e7\u00e3o entre os transtornos de vontade \u00e9 entre os atos impulsivos e os compulsivos. Uma compuls\u00e3o, que talvez seja patol\u00f3gica na inf\u00e2ncia de Leo, \u00e9 sua compuls\u00e3o pela masturba\u00e7\u00e3o, que pode ser chamado de satir\u00edase, que \u00e9 o correspondente no homem da famosa ninfomania que aparece no sexo feminino. Essa compuls\u00e3o \u00e9 um desejo sexual em n\u00edvel extremamente aumentado no qual n\u00e3o \u00e9 raro a compuls\u00e3o pela masturba\u00e7\u00e3o, \u201cvivenciada como a intensa necessidade de realizar atividade masturbat\u00f3ria repetitiva, \u00e1s vezes mesmo praticada com desprazer\u201d (Dalgalarrondo, 2000, p. 116). Podemos ver essa poss\u00edvel compuls\u00e3o em Leo nas cenas em que, quando menino, ele se tranca no banheiro com um peda\u00e7o de carne e algumas revistas pornogr\u00e1ficas, ou tamb\u00e9m nos momentos em que ele fica assistindo Bianca cortando as unhas do p\u00e9 do seu av\u00f4 com os dentes, nos quais o menino se masturba freneticamente. Essa \u00faltima cena que citei, do av\u00f4 com Bianca, n\u00e3o deixa de ser uma cena d\u00fabia quanto a sua veracidade, mais nos parece ser da ordem do del\u00edrio de Leo do que realmente algo que aconteceu, por\u00e9m a masturba\u00e7\u00e3o n\u00e3o deixa de estar presente. J\u00e1 em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s altera\u00e7\u00f5es da psicomotricidade, podemos pensar que no caso do personagem, ao inv\u00e9s de um estado de catatonia, como referimos acima, ele apresenta um estado de estupor que \u00e9 \u201ca perda de toda atividade espont\u00e2nea, que atinge o indiv\u00edduo globalmente, na vig\u00eancia de um n\u00edvel de consci\u00eancia aparentemente preservado e da capacidade sensitivo-motora de reagir ao ambiente. Tipicamente o indiv\u00edduo em estupor fica estrito ao leito, acordado, por\u00e9m sem reagir de modo algum ao ambiente\u201d(Dalgalarrondo, 2000, p. 118).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O pensamento \u00e9 composto pelos conceitos, os ju\u00edzos e o racioc\u00ednio. Podemos pensar no caso de Leo, partindo do pressuposto que ele est\u00e1 nos contando a sua hist\u00f3ria, que ele apresenta um quadro de pensamento vago que \u00e9 caracterizado pela imprecis\u00e3o das rela\u00e7\u00f5es conceituais, a forma\u00e7\u00e3o de ju\u00edzos e a concatena\u00e7\u00e3o desses racioc\u00ednios. Onde o paciente exp\u00f5e um pensamento muito amb\u00edguo, podendo mesmo parecer obscuro, n\u00e3o havendo um empobrecimento do pensamento, mas muito mais uma marcante falta de clareza. Pelo menos, ap\u00f3s ver seu relato, a sensa\u00e7\u00e3o que temos \u00e9 que as coisas ditas n\u00e3o est\u00e3o bem claras, h\u00e1 algo confuso no que Leo nos conta, a temporalidade dos fatos parece estar afetada, justamente pela confus\u00e3o e falta de clareza do discurso do \u201cpaciente\u201d. Durante a sua inf\u00e2ncia, Leo parece apresentar um pensamento m\u00e1gico, por exemplo, na cena da piscina em que diz que seu av\u00f4 tentou mat\u00e1-lo e que viu uma luz branca, al\u00e9m de ter viajado ao fundo do mar e visto tesouros enquanto estava sendo afogado. \u201cO pensamento m\u00e1gico \u00e9 o tipo de pensamento que fere frontalmente os princ\u00edpios da l\u00f3gica formal e tamb\u00e9m n\u00e3o respeita os indicativos e imperativos da realidade. Ele segue os des\u00edgnios do desejo, fantasias e temores do sujeito, adequa a realidade ao pensamento\u201d (Dalgalarrondo, 2000, p. 127).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O ju\u00edzo de realidade \u00e9 mais uma das fun\u00e7\u00f5es ps\u00edquicas. \u201cPelos ju\u00edzos afirmamos nossa rela\u00e7\u00e3o com o mundo, discernimos a verdade do erro, asseguramo-nos da exist\u00eancia ou n\u00e3o de um objeto percept\u00edvel, assim como distinguimos uma qualidade de outra qualidade\u201d (Dalgalarrondo, 2000, p. 132). As altera\u00e7\u00f5es do ju\u00edzo de realidade s\u00e3o tamb\u00e9m altera\u00e7\u00f5es do pensamento. A principal altera\u00e7\u00e3o do ju\u00edzo de realidade \u00e9 o del\u00edrio. O del\u00edrio s\u00e3o ju\u00edzos patologicamente falseados. Deve-se pensar o del\u00edrio como uma constru\u00e7\u00e3o. \u201cTal constru\u00e7\u00e3o est\u00e1 inserida num processo de reorganiza\u00e7\u00e3o do funcionamento mental; o esfor\u00e7o que o aparelho ps\u00edquico do paciente empreende no sentido de lidar com a desorganiza\u00e7\u00e3o que a doen\u00e7a de fundo produz\u201d (Dalgalarrondo, 2000, p. 135). Ao levarmos como verdade o fato de que Leo j\u00e1 adulto est\u00e1 nos narrando a hist\u00f3ria de sua inf\u00e2ncia, poder\u00edamos dizer que o seu del\u00edrio pode ter como mecanismo formador a mem\u00f3ria, constituindo-se assim um del\u00edrio mn\u00eamico. Nesse caso, o del\u00edrio \u00e9 constru\u00eddo a partir de recorda\u00e7\u00f5es e elementos da mem\u00f3ria (verdadeiros ou falsos) que ganham uma dimens\u00e3o delirante. O indiv\u00edduo utiliza determinadas recorda\u00e7\u00f5es para construir seu del\u00edrio. S\u00e3o utilizadas tanto recorda\u00e7\u00f5es verdadeiras como falsifica\u00e7\u00f5es da mem\u00f3ria. Se pens\u00e1ssemos em Leo como um paciente em um consult\u00f3rio narrando sua hist\u00f3ria, poder\u00edamos pensar que ele estivesse organizando seu del\u00edrio a partir dessas mem\u00f3rias, deixando-as com um car\u00e1ter fant\u00e1stico. Por\u00e9m, se partirmos do pressuposto que Leo viveu exatamente o que conta, poder\u00edamos dizer que durante a sua inf\u00e2ncia sofria de del\u00edrios fant\u00e1sticos, onde o indiv\u00edduo descreve hist\u00f3rias fant\u00e1sticas com convic\u00e7\u00e3o plena.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A linguagem \u00e9 fundamental na elabora\u00e7\u00e3o e express\u00e3o dos pensamentos. Temos muitas altera\u00e7\u00f5es da linguagem, por\u00e9m n\u00e3o temos dados suficientes para afirmar que Leo possua uma altera\u00e7\u00e3o de linguagem, pelo menos n\u00e3o quanto a sua forma de falar, pois o filme \u00e9 em franc\u00eas, o que dificulta ver se h\u00e1 alguma caracter\u00edstica marcante na sua fala, ou na sua entona\u00e7\u00e3o de voz.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O conjunto dessas fun\u00e7\u00f5es ps\u00edquicas combinadas forma outras fun\u00e7\u00f5es ps\u00edquicas mais elaboradas, como a consci\u00eancia e valora\u00e7\u00e3o do eu e o esquema corporal e a identidade, por exemplo. Leo, quanto a essas fun\u00e7\u00f5es, parece desenvolver uma n\u00e3o diferencia\u00e7\u00e3o entre o eu e o mundo, ou seja, h\u00e1 uma altera\u00e7\u00e3o de sua consci\u00eancia de oposi\u00e7\u00e3o do eu em rela\u00e7\u00e3o ao mundo, pois, por exemplo, na cena em que Leo vai visitar sua fam\u00edlia inteira no hospital, sup\u00f5e-se que quem, verdadeiramente est\u00e1 no hospital \u00e9 o pr\u00f3prio Leo, que projeta para o mundo externo a sua condi\u00e7\u00e3o. Esse estado de altera\u00e7\u00e3o \u00e9 justamente caracterizado pela proje\u00e7\u00e3o maci\u00e7a no pr\u00f3ximo a sua experi\u00eancia de estado subjetivo. Ocorre, assim a queda da barreira divis\u00f3ria entre o eu e o n\u00e3o-eu.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">J\u00e1 a personalidade \u00e9 uma outra fun\u00e7\u00e3o ps\u00edquica composta. A personalidade pode ser definida como o \u201cconjunto de tra\u00e7os ps\u00edquicos, consistindo no total das caracter\u00edsticas individuais, em sua rela\u00e7\u00e3o com o meio\u201d (Bastos, citado por Dalgalarrondo, 2000, p. 159). Os tra\u00e7os de personalidade podem variar de acordo com a teoria da personalidade adotada para analis\u00e1-los. Vamos utilizar aqui a teoria da personalidade de Jung para analisar a personalidade do personagem do nosso filme. Jung organiza sua teoria a partir de dois aspectos fundamentais da personalidade: o movimento e dire\u00e7\u00e3o da libido, que ir\u00e3o caracterizar os aspectos b\u00e1sicos da personalidade, divididos em introvers\u00e3o e extrovers\u00e3o, e as fun\u00e7\u00f5es ps\u00edquicas b\u00e1sicas, que o indiv\u00edduo utiliza para se adaptar ao mundo: sensopercep\u00e7\u00e3o vs. intui\u00e7\u00e3o e pensamento vs. sentimento. Teremos ent\u00e3o, para Jung, oito tipos b\u00e1sicos de personalidade. O tipo sentimento (extrovertido ou introvertido), o tipo pensamento (extrovertido ou introvertido), o tipo intui\u00e7\u00e3o (extrovertido ou introvertido) e o tipo percep\u00e7\u00e3o (extrovertido ou introvertido).Ter\u00edamos uma hip\u00f3tese principal sobre a personalidade de Leo: ele seria uma pessoa que se enquadra no tipo intui\u00e7\u00e3o introvertido, que \u00e9 aquele tipo de pessoa que se volta para experi\u00eancias e intui\u00e7\u00f5es internas, d\u00e1 mais import\u00e2ncia \u00e0s suas ilus\u00f5es, sonhos e fantasias, envolve-se em experi\u00eancias m\u00edsticas pessoais. Isso porque Leo vive escrevendo sobre seus sentimentos, entra em fantasias da sua pr\u00f3pria experi\u00eancia subjetiva. A intelig\u00eancia \u00e9 um conceito fundamental da psicologia moderna, que todos utilizam, mas quase ningu\u00e9m consegue definir o que realmente \u00e9. Ela pode ser definida como \u201ca totalidade das habilidades cognitivas do indiv\u00edduo, o vetor final desses processos\u201d (Dalgalarrondo, 2000, p. 171). As altera\u00e7\u00f5es da intelig\u00eancia s\u00e3o conhecidas como retardo mental. Leo, em sua inf\u00e2ncia (pois os dados fornecidos pelo filme quanto ao personagem referem-se \u00e0 esse per\u00edodo), nos \u00e9 apresentado como um menino sem nenhum tipo de retardo mental, pelo contr\u00e1rio, ele parece ter uma intelig\u00eancia, at\u00e9 um pouco superior \u00e0 dos meninos da sua idade.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Dalgalarrondo (2000) divide as fun\u00e7\u00f5es ps\u00edquicas em consci\u00eancia, aten\u00e7\u00e3o, orienta\u00e7\u00e3o, viv\u00eancias do tempo e do espa\u00e7o, sensopercep\u00e7\u00e3o, mem\u00f3ria, afetividade, vontade<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"parent":0,"menu_order":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","template":"","meta":{"footnotes":""},"class_list":["post-287","page","type-page","status-publish","hentry"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/e-psico\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/287","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/e-psico\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/pages"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/e-psico\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/page"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/e-psico\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/e-psico\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=287"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/e-psico\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/287\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":288,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/e-psico\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/287\/revisions\/288"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/e-psico\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=287"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}