{"id":290,"date":"2021-06-28T15:34:21","date_gmt":"2021-06-28T18:34:21","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ufrgs.br\/e-psico\/?page_id=290"},"modified":"2021-06-28T15:34:22","modified_gmt":"2021-06-28T18:34:22","slug":"como-e-determinado","status":"publish","type":"page","link":"https:\/\/www.ufrgs.br\/e-psico\/index.php\/como-e-determinado\/","title":{"rendered":"Como \u00e9 Determinado"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Diagn\u00f3stico estrutural \u2013 psicose<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Primeiramente, vale dizer a partir do que se parte para um diagn\u00f3stico estrutural. Segundo Calligaris (1989, p\u00e1g. 9),<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>A cl\u00ednica psicanal\u00edtica n\u00e3o \u00e9 uma cl\u00ednica descritiva, nem fenomenol\u00f3gica, mas \u00e9 uma cl\u00ednica estrutural, na medida em que o diagn\u00f3stico se estabelece na transfer\u00eancia. O que n\u00e3o quer dizer que o diagn\u00f3stico seja um diagn\u00f3stico sobre a transfer\u00eancia do sujeito, considerando a transfer\u00eancia que ele organiza como um fen\u00f4meno a mais. N\u00e3o \u00e9 disso que se trata. Trata-se do fato que na transfer\u00eancia que o discurso do paciente organiza, a partir do lugar no qual o paciente coloca o \u201cterapeuta\u201d \u00e9 que um diagn\u00f3stico \u00e9 poss\u00edvel .<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Diante do que esclarece Calligaris, resta, ent\u00e3o, refletir acerca do lugar no qual Leo adulto e narrador coloca o interlocutor a quem endere\u00e7a sua narrativa. No caso da an\u00e1lise do filme, n\u00e3o se tem clareza sobre a quem Leo fala. O espectador fica em uma posi\u00e7\u00e3o de interlocutor mudo, talvez de mero observador das falas do narrador endere\u00e7adas a um analista. Ao longo do filme, percebe-se que Leo contou a sua vers\u00e3o de como foi a inf\u00e2ncia, at\u00e9 a adolesc\u00eancia. A impress\u00e3o que se tem \u00e9 de que ele est\u00e1 tentando constituir um del\u00edrio, usando seu interlocutor para isso; constituir a met\u00e1fora delirante, que o sustenta como sujeito, defendendo-o da Demanda imagin\u00e1ria do Outro, que vai cedendo diante da constru\u00e7\u00e3o do del\u00edrio (Calligaris, 1989). Como se v\u00ea, ainda nas primeiras cenas do filme, Leo conta ao seu interlocutor uma parte do del\u00edrio: \u201caqueles que s\u00f3 acreditam em suas verdades me chamam de Leo Lozeau. Dizem que ele \u00e9 meu pai. Mas eu sei que n\u00e3o sou filho porque esse homem \u00e9 louco, e eu n\u00e3o sou.\u201d Pode-se observar que al\u00e9m de valer-se do interlocutor para contar a sua verdade, fica claro o car\u00e1ter de certeza que a sua interpreta\u00e7\u00e3o idiossincr\u00e1tica do mundo. A certeza possibilita um lugar para o sujeito do inconsciente. \u00c9 Leo que det\u00e9m o saber, o que \u00e9 uma das caracter\u00edsticas do discurso psic\u00f3tico. Com rela\u00e7\u00e3o a isso, Calligaris coloca que<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>sempre h\u00e1, para o neur\u00f3tico, um sujeito suposto cujo dom\u00ednio da situa\u00e7\u00e3o permite descansar. O pai, refer\u00eancia central do saber do sujeito, \u00e9 suposto saber. Da\u00ed uma significa\u00e7\u00e3o \u00e9 garantida ao sujeito sem que um esfor\u00e7o no campo do saber seja necess\u00e1rio: referir-se ao pai \u00e9 suficiente, visto que ele \u00e9 suposto se encarregar do saber. Mas para o psic\u00f3tico, relacionado a um saber sem sujeito suposto, \u00e9 certo que a tarefa de sustentar este saber cabe ao sujeito mesmo. Ele s\u00f3 pode sustent\u00e1-lo assim, com a sua pessoa, ent\u00e3o com a sua certeza eg\u00f3ica. (&#8230;) A problem\u00e1tica psic\u00f3tica \u00e9 autenticamente uma problem\u00e1tica de saber, \u00e9 como percorrer e construir, mesmo que seja com a err\u00e2ncia f\u00edsica, a rede de um saber total.<\/em>&nbsp;(1989, p. 24-25).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E justamente percorrendo e construindo uma met\u00e1fora delirante que Leo conta sua pequena saga. Em uma cena ainda do in\u00edcio do filme, o personagem diz: \u201cn\u00e3o procuro lembrar o que acontece em um livro. Tudo o que pe\u00e7o a um livro \u00e9 que me d\u00ea energia e coragem, que me diga se h\u00e1 mais vida do que posso ter e que me lembre de que \u00e9 urgente agir\u201d. Interessante que o livro que ele utiliza para alimentar-se de \u201cenergia e coragem\u201d \u00e9 o livro que ele mesmo escreve. Ou seja, havia um outro livro, que ele lia. Ele gostava do livro. Mas Leo passa o filme todo escrevendo o seu pr\u00f3prio livro, e fica claro que o que fornece \u201cenergia e coragem\u201d \u00e9 o que ele mesmo escreve, n\u00e3o aquele que ele l\u00ea. Novamente, o seu saber \u00e9 o que ocupa o lugar do suposto saber de um outro sujeito, como se daria na neurose. Isso fica mais evidente em uma outra cena, em que ele fala sobre seus sentimentos ap\u00f3s ter come\u00e7ado o processo de escrita: \u201cComecei a escrever tudo o que me vinha \u00e0 cabe\u00e7a. Minha fam\u00edlia se tornara personagem fict\u00edcia. Eu falava deles como se fossem estrangeiros.\u201d V\u00ea-se que seu livro, que \u00e9 produ\u00e7\u00e3o sua, ganha ares de realidade mesmo se contraposto \u00e0 sua vida.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Uma figura enigm\u00e1tica no filme \u00e9 a de um senhor a quem Leo chama de Domador de Vermes. Dele, Leo diz \u201ccustei a entender que ele era a reencarna\u00e7\u00e3o de Dom Quixote, que estava lutando contra o hilotismo e queria me proteger da minha fam\u00edlia\u201d. Dom Quixote de la Mancha, personagem do livro hom\u00f4nimo de Miguel de Cervantes y Saavedra (1547-1616), remete-nos a del\u00edrios e alucina\u00e7\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em outra cena, que ganha destaque por ser, segundo o narrador (Leo adulto), a primeira vez em que via a \u201cbrancura daquela luz\u201d (uma luz que recorrentemente aparece a Leo), o av\u00f4 tenta mat\u00e1-lo, afogando-o em uma piscina. O que se destaca \u00e9 que Leo n\u00e3o se refere de maneira negativa a esse epis\u00f3dio. Ele diz: \u201cLembro que n\u00e3o tive medo e que sonhei com a beleza do tesouro, talvez porque j\u00e1 soubesse que estava morto\u201d. Em uma situa\u00e7\u00e3o de imin\u00eancia de morte, provavelmente muito desagrad\u00e1vel, de que um neur\u00f3tico certamente tentaria desvencilhar-se, Leo entende que apenas foi a outro lugar, ou seja, descobriu o fundo da piscina (com tesouros). Como ocorre para o psic\u00f3tico fora de crise (aquela era a primeira vez em que via a luz), sup\u00f5e-se que Leo \u201cestaria num mundo no qual existe significa\u00e7\u00e3o. Mas, no final das contas, todas as significa\u00e7\u00f5es s\u00e3o significa\u00e7\u00f5es em si mesmas, n\u00e3o se medem a uma significa\u00e7\u00e3o que distribui as significa\u00e7\u00f5es no mundo\u201d (Calligaris, 1989, p\u00e1g. 12), ou seja, brincar ou ser afogado na piscina t\u00eam o mesmo valor.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Considerando que<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>evocar a foraclus\u00e3o do Nome-do-Pai como processo indutor de psicoses \u00e9 enfatizar o fato da impossibilidade em que se encontra a crian\u00e7a de poder se referir ao Pai simb\u00f3lico. Em consequ\u00eancia, fizer que o Nome-do-Pai est\u00e1 foraclu\u00eddo \u00e9 dizer que o Pai real n\u00e3o emergiu na qualidade e lugar de Pai simb\u00f3lico. (&#8230;) o Nome-do-Pai est\u00e1 foraclu\u00eddo quando este significante \u00e9 renegado no discurso da m\u00e3e\u00a0<\/em>(Dor, 1991, p. 106-107),<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">pode-se analisar trechos do filme em que a m\u00e3e \u00e9 referida, o que pode dar algum entendimento sobre a rela\u00e7\u00e3o imagin\u00e1ria de Leo e sua progenitora.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A m\u00e3e \u00e9 quem salva Leo de ser assassinado pelo av\u00f4. Leo, ao contar isso, diz que \u201cminha m\u00e3e tinha a for\u00e7a de um navio em um mar revolto\u201d, em uma evidente demonstra\u00e7\u00e3o de admira\u00e7\u00e3o. Em outra cena, aparece a grotesca m\u00e3e de Leo, enquanto este afunda o rosto entre seus seios, dizendo que \u201cela era quente e amorosa. Eu adorava me enterrar em sua gordura. O cheiro de suor me acalmava.\u201d Al\u00e9m disso, ao contar sua hist\u00f3ria, Leo coloca a m\u00e3e como a \u00fanica figura de amor, salvo o del\u00edrio com Bianca (de que se tratar\u00e1 mais adiante) e uma \u00fanica cena com a Rainha Rita (sua irm\u00e3).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Sobre o pai, Leo diz que \u201cera um homem comum. Um c\u00e3o que mordia sua desgra\u00e7ada vida. Ele era baixinho, corpudo, com as faces rosadas. Algumas rugas lhe marcavam o rosto. Elas revelavam apenas a sua idade. Algum lugar entre o \u2018bom dia&#8217; e \u2018adeus&#8217;, um meio-dia eterno tocado por um punhado de tempo. Uma testa que se prolongava al\u00e9m do seu queixo, sobre um pesco\u00e7o que emergia de ombros bojudos\u201d. H\u00e1 um n\u00edtido contraste entre a descri\u00e7\u00e3o da m\u00e3e e a do pai. Enquanto a m\u00e3e parece bondosa, quente etc., o pai aparece cobrando-lhe as fezes. Al\u00e9m disso, Leo n\u00e3o aceita que seu pai seja, de fato seu pai. Ele acredita que sua m\u00e3e foi fecundada por um tomate em que estava depositado esperma de um siciliano. Isso, segundo Leo, lhe foi revelado em um sonho. Por seu pai ser italiano, Leo Lozeau muda seu nome para L\u00e9olo Lauzonne, e sempre que lhe chamam de Leo ele grita dizendo que seu nome \u00e9 L\u00e9olo Lauzonne &#8211; L\u00e9olo Lozeau-ne: n\u00e3o Lozeau, o que significa que seu novo sobrenome \u00e9 um \u201cn\u00e3o\u201d ao sobrenome do pai. Pode-se depreender disso que Leo n\u00e3o aceitou a penetra\u00e7\u00e3o da m\u00e3e. A m\u00e3e fora penetrada por um tomate, n\u00e3o por um p\u00eanis. Ela n\u00e3o precisou ser tocada por homem para conceb\u00ea-lo. N\u00e3o houve, ent\u00e3o, desejo da m\u00e3e por homem algum para que Leo fosse gerado. Come\u00e7a a delinear-se o car\u00e1ter sexual do del\u00edrio.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em outra cena, Leo, em uma aula sobre o corpo humano pensava que \u201cningu\u00e9m falava daquilo que inchava entre minhas pernas. N\u00e3o sabia seu nome, nem em ingl\u00eas, nem em franc\u00eas. Durante muito tempo, pensei que os ingleses n\u00e3o o tinham\u201d. Considerando que na cena, Leo j\u00e1 era pr\u00e9-adolescente, fica evidente a falta de diferencia\u00e7\u00e3o sexual que permeava o saber do menino at\u00e9 ent\u00e3o. Pode-se especular uma rela\u00e7\u00e3o entre isso e falta da fun\u00e7\u00e3o paterna, castradora.. Leo, na continua\u00e7\u00e3o da cena, est\u00e1 trancado no banheiro, com revistas pornogr\u00e1ficas e descobrindo a masturba\u00e7\u00e3o. O pr\u00f3prio Leo, adulto, fala sobre essa descoberta: \u201cn\u00e3o percebo mais a cor rosa. O rosa sujo, o rosa morto. N\u00e3o sinto mais minha carne. Estou ausente. Cada vez mais v\u00edtima do prazer (&#8230;) eu estava obcecado\u201d. Salienta-se nessa parte a rela\u00e7\u00e3o entre uma descoberta de sua sexualidade e as altera\u00e7\u00f5es perceptivas descritas por Leo. Calligaris (1989, p. 36) comenta algo sobre a adolesc\u00eancia que merece ser citado<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Sabemos com quanta facilidade crises psic\u00f3ticas se desencadeiam na fase da adolesc\u00eancia, e podemos pensar tranq\u00fcilamente que a adolesc\u00eancia \u00e9 um momento particular no qual o sujeito encontra uma injun\u00e7\u00e3o a situar-se falicamente, a tomar o falo e ir na vida, a referir-se a uma inst\u00e2ncia paterna, a entrar na vida \u201cativa\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ao longo do filme, h\u00e1 uma personagem por quem Leo \u00e9 apaixonado. Uma menina um pouco mais velha que ele, Bianca. Ela cantava, \u00e0 noite, de dentro do arm\u00e1rio de Leo. Um del\u00edrio, obviamente. O garoto escrevia suas anota\u00e7\u00f5es, e ela aparecia. Ele via uma rela\u00e7\u00e3o causal nisso. Ele diz em uma cena: \u201cbastava eu ler e escrever, e ela voltava a cantar para mim\u201d. Essa apari\u00e7\u00e3o era central no del\u00edrio do personagem. Ele importava-se muito com a menina, comparava-a \u00e0 Sic\u00edlia, sua \u201cterra natal\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Mais ao final do filme, Leo passa da masturba\u00e7\u00e3o \u00e0 rela\u00e7\u00e3o sexual com outra pessoa. N\u00e3o com Bianca, mas com Regina, uma prostituta que iniciava sexualmente os garotos do bairro. Ele diz: \u201cEu n\u00e3o tinha coragem de assumir meu amor por Bianca. Eu me contentava com Regina\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Logo ap\u00f3s a inicia\u00e7\u00e3o por que lhe conduziu Regina, o filme mostra Leo, \u00e0 noite, escrevendo, a fim de que Bianca aparecesse. O narrador, ent\u00e3o, diz: \u201c\u00e0s vezes eu passava noites a ler e a escrever dezenas de p\u00e1ginas sem v\u00ea-la. Bianca tornara-se muito exigente. Ela sabia que eu a tra\u00edra com Regina e resolvera me punir\u201d. Leo escrevia, mas Bianca n\u00e3o vinha; sem luzes no arm\u00e1rio, nem Bianca cantando. Sem essa sustenta\u00e7\u00e3o, Leo entra em uma crise catat\u00f4nica.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Analisando, pode-se inferir uma rela\u00e7\u00e3o entre a penetra\u00e7\u00e3o que supostamente realizou em Regina (supostamente porque o filme n\u00e3o mostra explicitamente) e a crise que sucedeu a isso. Calligaris (1989, p. 20) refere que<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">No desencadeamento da crise existe sempre alguma coisa como uma injun\u00e7\u00e3o feita ao sujeito psic\u00f3tico de referir-se a uma amaragem central, paterna. Ele n\u00e3o tem possibilidade de referir-se a esta amaragem que n\u00e3o foi simbolizada por ele, e a partir da\u00ed come\u00e7a uma crise .<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A partir disso, pode-se tentar compreender o que houve com Leo. Para ele, a m\u00e3e n\u00e3o foi penetrada por um homem. O seu pai (o siciliano) jamais penetrou a m\u00e3e. A m\u00e3e n\u00e3o necessitava de homem, a n\u00e3o ser do pr\u00f3prio Leo. Este, ao descobrir a masturba\u00e7\u00e3o, deu sinais de que algo estava ruindo: n\u00e3o via mais a cor rosa e houve mudan\u00e7as cenest\u00e9sicas. Penetrar uma mulher foi percorrer caminhos nunca percorridos pelo pai. Foi ser objeto de desejo de outra mulher, que n\u00e3o a m\u00e3e. Foi usar o membro que inchava entre suas pernas e de que ningu\u00e9m falava. Foi assumir um lugar de homem que Leo n\u00e3o conhecia.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Diagn\u00f3stico estrutural \u2013 psicose Primeiramente, vale dizer a partir do que se parte para um diagn\u00f3stico estrutural. 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