{"id":2425,"date":"2026-07-08T20:25:17","date_gmt":"2026-07-08T20:25:17","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ufrgs.br\/enunciarcotidianos\/?p=2425"},"modified":"2026-07-08T20:26:12","modified_gmt":"2026-07-08T20:26:12","slug":"o-relogio","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufrgs.br\/enunciarcotidianos\/2026\/07\/08\/o-relogio\/","title":{"rendered":"O rel\u00f3gio"},"content":{"rendered":"<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-large\"><a href=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/enunciarcotidianos\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/1000063365-scaled.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"768\" height=\"1024\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/enunciarcotidianos\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/1000063365-768x1024.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-2427\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/enunciarcotidianos\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/1000063365-768x1024.jpg 768w, https:\/\/www.ufrgs.br\/enunciarcotidianos\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/1000063365-225x300.jpg 225w, https:\/\/www.ufrgs.br\/enunciarcotidianos\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/1000063365-600x800.jpg 600w, https:\/\/www.ufrgs.br\/enunciarcotidianos\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/1000063365-1152x1536.jpg 1152w, https:\/\/www.ufrgs.br\/enunciarcotidianos\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/1000063365-1536x2048.jpg 1536w, https:\/\/www.ufrgs.br\/enunciarcotidianos\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/1000063365-113x150.jpg 113w, https:\/\/www.ufrgs.br\/enunciarcotidianos\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/1000063365-151x201.jpg 151w, https:\/\/www.ufrgs.br\/enunciarcotidianos\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/1000063365-scaled.jpg 1920w\" sizes=\"auto, (max-width: 768px) 100vw, 768px\" \/><\/a><\/figure><\/div>\n\n\n<p class=\"has-text-align-center\">&#8220;Silicon valley&#8221;, 1990 &#8211; Err\u00f3<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center has-medium-font-size\"><\/p>\n\n\n\n<p>Aquela latrina, no fundo do quintal, constru\u00edda de t\u00e1buas velhas carcomidas pelo cupim, e que se sustenta desaprumada sobre a fossa, est\u00e1 infestada de aranhas. Est\u00e3o escondidas nas juntas, debaixo dos sarrafos. Sua presen\u00e7a \u00e9 evidente: pequenas patas despontam fora dos esconderijos e revelam o corpo redondo, mole e chato. Savino pensa que as aranhas possam, de improviso, sair das frestas e atacarem. Esta ideia o aterroriza. Dentro da latrina, a luz \u00e9 coada: penetra pelas estreitas frestas de ventila\u00e7\u00e3o abertas em cima e embaixo da porta, e tamb\u00e9m pelos furos do telhado de zinco.<br>Acocorado sobre o assento, Savino apressa-se, acossado pelas aranhas e pelas moscas que, obstinadas, o molestam.<br>Ao descer do banco segurando as cal\u00e7as que lhe escorregam pernas abaixo \u2013 procura n\u00e3o pisar nas sujeiras espalhadas pelo ch\u00e3o \u2013, ouve um baque abafado dentro da fossa. Volta-se e v\u00ea, atrav\u00e9s do buraco do assento, seu rel\u00f3gio desaparecer, lentamente, numa imund\u00edcie espessa, escura, variegada de amarelo-laranja.<br>\u2013 Oh! Meu rel\u00f3gio \u2013 exclama Savino, contrafeito.\u2028Aquele rel\u00f3gio antigo de prata cinzelada \u00e9 a \u00fanica heran\u00e7a que recebeu de sua av\u00f3. N\u00e3o pode perd\u00ea-lo. Por isto, decide reav\u00ea-lo a qualquer custo.<br>Resoluto, mete dentro da fossa uma enxada que encontra no fundo do p\u00e1tio. Ele a mergulha no lugar exato onde viu desaparecer o rel\u00f3gio. Na primeira tentativa, apanha-o. Quando o rel\u00f3gio j\u00e1 lhe est\u00e1 quase ao alcance da m\u00e3o, escorrega da l\u00e2mina da enxada e recai na fossa.<br>Contrariado, Savino torna a introduzir a enxada no buraco, com a esperan\u00e7a de apanh\u00e1-lo uma outra vez. In\u00fatil. Obstinado, rasteia a enxada em todas as dire\u00e7\u00f5es da fossa, tateia com m\u00e3o de pescador experiente, mexe e remexe a merda. De vez em quando, ergue-a com cuidado, devagar, devagar, com a esperan\u00e7a de traz\u00ea-lo \u00e0 superf\u00edcie. N\u00e3o se desencoraja. Continua a sondar e a mexer e remexer. O fedor \u00e9 insuport\u00e1vel. Para n\u00e3o senti-lo, cobre o nariz com um len\u00e7o. E continua a busca. As moscas zumbem dentro da fossa, batem-lhe no rosto, embarafustam-se nos seus cabelos. Embora fatigado, Savino n\u00e3o esmorece. Prolonga a inusitada busca at\u00e9 que a luz do dia se apague. Relutante, transfere-a para o dia seguinte. Excitado, n\u00e3o dorme. A procura continua na mente. Anseia que a noite acabe, mas esta se prolonga lenta, pesada, como jamais em toda a sua vida.<br>Savino vive cada fra\u00e7\u00e3o de tempo fragmentado pelo tique-taque do rel\u00f3gio perdido. Os primeiros raios de sol iluminam sua figura esguia curvada sobre a fossa. Obstinado, continua a remexer na fossa que agora quase transborda, devido \u00e0 chuva da noite. Para tocar o fundo, debru\u00e7a-se sobre o assento, encosta o rosto no buraco, mergulha e agita enxada e bra\u00e7o dentro da merda, que redemunha. Savino, frustrado pelo insucesso da busca, irrita-se. Xinga c\u00e9u e terra. Impaciente raspa aquele fundo escorregadio e bate-lhe com viol\u00eancia com o olho da enxada. As pancadas ressoam abafadas, sem eco. \u00c0s vezes, atola no fundo. Ele a libera com dificuldade. Irritado se exalta, se impacienta. Bate com redobrada viol\u00eancia o fundo da fossa.<br>Ap\u00f3s dois dias de busca incessante, encontra elos da corrente. Estimulado, redobra os esfor\u00e7os e decide esvaziar a fossa. Come\u00e7a a retirar da latrina seu conte\u00fado fedorento, pegajoso, que amontoa sobre folhas de zinco espalhadas pelo p\u00e1tio. No seu vaiv\u00e9m deixa atr\u00e1s um rastro imundo. Ajoelhado, revista minuciosamente cada monte com um graveto, espalhando e separando a merda em pequenas por\u00e7\u00f5es. Examina, apalpa cada fragmento. Na busca, reduz a merda a gr\u00famulos. \u00c0 medida que se demora e que se adentra na busca, a excita\u00e7\u00e3o aumenta. Apaixona-se. N\u00e3o lhe importam mais as aranhas, o nojo e o fedor. Perde todo o escr\u00fapulo: usa as pr\u00f3prias m\u00e3os. Com os dedos esmaga cada caro\u00e7o que encontra. Desfaz, esmi\u00fa\u00e7a \u00e1vido cada n\u00f3 suspeito na avidez de encontrar os preciosos rubis. \u00c0s suas m\u00e3os enredam-se peda\u00e7os de panos apodrecidos. A merda gruda-se aos seus dedos. Seu rosto se umedece de um suor turvo que lhe escorre pelo pesco\u00e7o. A camisa amarelece, uma pasta escura endurece a cal\u00e7a nos joelhos. A postura o cansa, sente as pernas entorpecidas. Para recuperar-se, muda de posi\u00e7\u00e3o: ora de c\u00f3coras, ora de joelho, ou, ent\u00e3o, apoia-se sobre o joelho direito, depois sobre o esquerdo. Circula em torno dos montes e inadvertidamente os pisa. Os p\u00e9s enlameiam-se. Os fragmentos do rel\u00f3gio que encontra, os esconde num len\u00e7o que traz atado \u00e0 cintura.<br>\u2013 Destro\u00e7os, destro\u00e7os \u2013 repete.\u2028Ele tem a inten\u00e7\u00e3o de remontar o rel\u00f3gio. Dia e noite se alternam. Certo dia, encontra o mostrador, depois os ponteiros. \u201cO tempo n\u00e3o para\u201d, pensa. Ao esmiu\u00e7ar a coleta di\u00e1ria, encontra a \u00e2ncora e uma roda. Embevecido, demora-se a examinar aquelas pe\u00e7as, regirando-as entre os dedos. Com os olhos marejados, as envolve com ternura.<br>\u2013 Quero-o como antes, inteiro.\u2028Sobre a enxada enrola-se estranha serpente: um suspens\u00f3rio.<br>Ele o desenla\u00e7a e com arte o estende por terra, desenhando um ipsilone. Encontra tamb\u00e9m um soldadinho de chumbo com a perna quebrada, uma cornetinha e carret\u00e9is. Savino comovido est\u00e1 a ponto de chorar.<br>\u2013 Po\u00e7o encantado, transformas as coisas: estes s\u00e3o os meus brinquedos!<br>Tamb\u00e9m retira da fossa uma botina rota, desbei\u00e7ada, que sacode, que esvazia, que arranca o forro apodrecido. Enfia-lhe a m\u00e3o no bico. Esta se emplasta. Recolhe peda\u00e7os de papel empapados que se desmancham entre suas m\u00e3os. Vasculha cada vinco, os mais mi\u00fados se desfazem. Sobre a palma de sua m\u00e3o, brilha uma medalhinha. Savino faz o sinal da cruz. A merda se estende pelo p\u00e1tio em mont\u00edculos que no decorrer da semana tornam-se grandes e pequenos, mudam de aspecto \u00e0 medida que Savino os revista.<br>As galinhas atra\u00eddas pela imund\u00edcie acorrem: brigam, pisoteiam, trope\u00e7am e escorregam sobre a merda. Esgravatam e bicam. Savino, de c\u00f3coras, agitando os bra\u00e7os as enxota. As galinhas saltam, esvoa\u00e7am com cocoric\u00f3s dissonantes. Ele grita: \u201cDesgra\u00e7adas! Malditas!\u201d. Teimosas retornam em bando. Afundam as patas na merda que agora se estende por toda a parte. Uma delas, fugindo, leva qualquer coisa que balan\u00e7a pendente do bico. As outras a perseguem, disputam para tir\u00e1-la. Algumas se avizinham cautelosas, desconfiadas, parando a cada passo: torcem o pesco\u00e7o como uma mola emplumada que se move a impulsos e o espicham, avizinhando ao ch\u00e3o um olho redondo: este pisca, depois permanece fixo, aberto, e novamente pisca. Savino se enraivece. Persegue a mais teimosa, joga-lhe paus e pedras que encontra. Assustada a galinha corre gambeteando, salta contra a cerca. Procura escapar. O alarido das galinhas assanha o c\u00e3o que, aos tir\u00f5es, tenta se soltar da corrente. Late amea\u00e7ando. Savino ralha:<br>\u2013 Quieto, quieto, A\u00e7afr\u00e3o! \u2013 O c\u00e3o recalcitra em obedecer. Rosna e uiva.<br>Savino retorna ofegante, bra\u00e7os ca\u00eddos, e de novo se p\u00f5e de joelhos junto a um monte e continua a revistar. Ele defende sua coleta. Receia que as galinhas engulam os peda\u00e7os do rel\u00f3gio, misturados \u00e0 imund\u00edcie.<br>Est\u00e1 tamb\u00e9m preocupado com a amea\u00e7a da chuva. Um temporal, frequente no ver\u00e3o e sempre imprevisto, espalharia a merda e poria tudo a perder. S\u00f3 Deus sabe onde iriam acabar as pe\u00e7as do rel\u00f3gio.<br>\u2013 Inimigos, inimigos por toda a parte \u2013 se diz pensativo. \u2013 Como proteger a coleta \u00e0 noite? Talvez cobri-la com um pl\u00e1stico, dormir-lhe ao lado para vigi\u00e1-la.\u2028Por cima da cerca, desponta uma cabe\u00e7a: um guri, um moleque.<br>Junto, aparecem os companheiros, um pequeno bando, sa\u00eddo n\u00e3o se sabe de onde.<br>\u2013 M\u00e3e, vem ver o que faz o vizinho \u2013 grita uma esgani\u00e7ada voz de falsete. Aparece toda a fam\u00edlia. N\u00e3o compreendem o que acontece. Olham estarrecidos.<br>\u2013 Ei! Que faz? \u2013 pergunta um guri mais atrevido.\u2028Savino nem sequer o olha: apenas levanta a m\u00e3o no ar e faz um gesto vago. Insatisfeita, a pequena assist\u00eancia desata numa risada zombeteira. Os guris assobiam. Algumas pedras voam e caem no p\u00e1tio, perto de Savino. Ele n\u00e3o se importa. Est\u00e1 inteiramente absorto a remexer na merda. Fora isto, nada mais conta. Sente na pele a frigidez, a maciez pastosa daquela mat\u00e9ria sovada. Esta amolece, muda a forma, separa-se e aglutina-se ao toque. A cabe\u00e7a de cabelo cor de cobre, o rosto salpicado de sardas, abrasado pelo sol, apoia-se sobre um joelho. As m\u00e3os trabalham dentro da merda. Savino fecha os olhos, dilata as narinas e aperta os l\u00e1bios. Seu rosto ora reflete prazer anelante, ora sofrimento. Um suspiro lhe escapa do peito no instante em que encontra uma das pe\u00e7as do rel\u00f3gio. Ele as limpa na manga da camisa e as guarda no len\u00e7o: v\u00edsceras de a\u00e7o do cora\u00e7\u00e3o do tempo, perdidas e reencontradas na imund\u00edcie.<br>\u2013 \u00c9 preciso recoloc\u00e1-lo em moto. O tempo n\u00e3o para. Atr\u00e1s dele, as risadas continuam. \u2013 \u00c9 louco, louco de atar.<br>\u2013 Eu sempre o achei estranho, diferente \u2013 acrescenta uma mulher.<br>Savino contrai o rosto num esgar. Os moleques n\u00e3o cessam de motej\u00e1-lo:<br>\u2013 Come merda! Co-me-mer-da! Sim, sim, \u00e9 louco.\u2028\u2013 Procura um tesouro escondido \u2013 acrescenta um outro. \u2013 P\u00f5e merda na balan\u00e7a \u2013 diz uma velha, gargalhando.<br>Uma pedrada atinge Savino na face. Ele n\u00e3o a sente. Est\u00e1 preso de um frenesi: contrai o rosto, acende o olhar, e, concentrado, ergue no ar a m\u00e3o crispada como para agarrar qualquer coisa que lhe escapa da mente. E novamente afunda os bra\u00e7os na merda at\u00e9 os cotovelos: esta escapa em fitas entre seus dedos.<br>N\u00e3o pode parar. Sujo, fedorento, exausto, arrasta-se de um a outro monte. Os dias se sucedem. A merda ensolarada enxuga-se e racha. Savino, exaurido, ardendo em febre, se obstina: com as m\u00e3os enrugadas pela umidade, dilaceradas, a pele gretada, queimada pela acidez da fermenta\u00e7\u00e3o, continua a inusitada busca: investe contra os montes, desmancha-os, espalha a merda ao vento, com furor. Ora, a merda se esfarela, se transforma em p\u00f3 entre suas m\u00e3os. As sombras se alongam e escurecem o p\u00e1tio.<br>Agora, nem mesmo a noite o det\u00e9m. Com os bra\u00e7os erguidos e a cabe\u00e7a derrubada sobre o peito, repete desvairado:<br>\u2013 O tempo, o tempo\u2026<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right\"><em>Iber\u00ea Camargo [1959]<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&#8220;Silicon valley&#8221;, 1990 &#8211; Err\u00f3 Aquela latrina, no fundo do quintal, constru\u00edda de t\u00e1buas velhas carcomidas pelo cupim, e que se sustenta desaprumada sobre a fossa, est\u00e1 infestada de aranhas. Est\u00e3o escondidas nas juntas, debaixo dos sarrafos. 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