Durante o mês de agosto e parte do mês de setembro de 2002, a área da escultura do Instituto de Artes reuniu-se em torno de projetos de intervenções urbanas. Buscamos mapear este assunto, observando e discutindo relações entre a Arquitetura e a Arte, através de algumas análises de casos. Iniciamos uma prática de extensão, envolvendo alunos da Graduação das artes visuais e da arquitetura, Artistas externos à universidade e alunos do Mestrado em Artes Visuais. Escolhemos o Campus Central da Ufrgs, como lugar para projetar nossas intervenções. Próximo ao Instituto de Artes, que se encontra em pleno centro de Porto Alegre, o campus central reúne diversas unidades de ensinos e pesquisa, e atividades de extensão, o que o torna um espaço complexo e denso. Alternando belos edifícios de época, hoje monumentos históricos, alguns recentemente restaurados e outros em via de transformação, o campus é um espaço de natureza complexa. Bancos, bibliotecas, salas de aula e laboratórios, cinema, bares e recentemente um museu, são alguns dos espaços funcionais e de lazer que nós mapeamos. Beirando o parque Farroupilha, o campus é cortado por uma avenida de fluxo intenso. Este recorte que divide-o ao meio, dificulta um pouco a integração entre os diversos usuários que ali circulam diariamente. O cercamento do campus, por motivos de segurança, reduziu os acessos ao mesmo e tornou a circulação ainda mais confusa, apesar das inúmeras tentativas de sinalização ali dispostas. Deste sentimento resulta o nome de nosso projeto: Perdidos no Espaço.
Nem tão perdidos, nós fizemos demoradas caminhadas pelo campus. Em grupos e sozinhos, percorríamos caminhos, entrávamos nas diferentes escolas, almoçávamos nos bares, circulávamos fascinados pelos mistérios que este espaço abrigava. Tomados de espanto, pelas relações muitas vazes incongruentes que o mesmo expunha, fazíamos nossos apontamentos de trabalho, fotografando e mapeando situações que nos pareciam importantes de discutir. Fazíamos um reconhecimento sensível da área. O fato do Instituto de Artes ser um satélite deste campus, talvez tenha favorecido o sentimento de estranhamento diante de tantas solicitações visuais e de tantas diferenças. Percorríamos este campus animados pela perspectiva do Instituto de Artes vir a ocupar o atual Prédio do Biociências, num futuro próximo, conforme prometido pela nossa reitora. Nos imaginávamos de uma certa maneira visitando a casa antes da mudança, mas ao mesmo tempo projetando nosso trabalho de artistas à partir da sensibilidade colhida por esta experiência.
O fato é, que as propostas que estamos apresentando aqui devem ser compreendidas como hipóteses visuais de uma intervenção coletiva, que entra numa segunda etapa, onde buscará as formas e os meios para ser concretizada. Cada grupo, cada participante individual, escolheu o lugar, observou as funções destes espaços, e a partir desta escolha desenhou seu projeto. Os resultados até agora obtidos, (alguns ainda estão a caminho) testemunham o envolvimento e o estudo que os gerou. Alguns projetos são destinados a intervenções em áreas abertas, lugares de passagem entre duas unidades e sem uma função clara, propondo assim uma nova percepção destes espaços (Marcos). Outros questionam novas funções, como alternativas poéticas do tempo vago, no intervalo entre, aos usos já indicados na sinalização existente. (Fabiane e Mariana). Andrei nos propõe intervir numa série de objetos que fazem parte dos hábitos e dos habitués do campus, buscando com a inserção de seus espelhos verbais questionar as relações interpessoais, integrando-os ao movimento rotineiro do bar da filosofia: o bar do Antônio. Outros são intervenções que partem de um lugar preciso para dialogar com as atividades ali desenvolvidas, desenhando a passagem do tempo e desvendando a memória destes espaços, como é o caso do Observatório Astronômico e do Chateau. Não se limitando ao ‘campo da escultura’, extrapolam em suas poéticas investindo diversos suportes de veiculação da imagem, (Denise e Neusa) como o espaço do livro e do filme, apresentando-os no espaço mesmo que lhes serviu de referência para as imagens. Operando deslocamentos, alguns participantes trazem ao olhar do passante outros focos de atenção. Encontros marcados entre artistas e arquitetos, projetados sobre o prédio da Arquitetura, acendem um debate crítico, das relações possíveis entre a arte e a cidade (Maria Paula). Os objetos em ferro e em acrílico, desenhados como ampliação das luminárias pré-existentes, veiculando imagens fotográficas de pessoas que gravitam em torno do campus (Márcia). Espelhos colocados a uma altura que impede o passante de se ver revela lugares de passagens, de halls e de corredores do Biociências (Vera).
Alguns projetos, ainda não encontraram a forma exata de sua intervenção, mas ficam para nós, que participamos deste grupo de discussões, como pensamentos sobre o lugar: os panfletos mostrando situações transitórias denunciando a derrotada de uma arquitetura formalista.(Cris). As projeções de passagens e de ligações entre áreas, prédios, como uma via de circulação alternativa aos fluxos (André). Um desejo apenas esboçado, de ampliação do prédio do Biociências para as Artes, como uma atividade projetiva conjunta das Artes e da Arquitetura ( Fernando e Ivone), entre outros tantos....
O que mostramos aqui são sinopses de estudo, alguns bastante avançados, todos quantificados e realizáveis, que propomos ao público como material de trabalho aberto à consulta. Vislumbramos através destas representações (projetos) de intervenções, possibilitar uma transformação real e um enriquecimento crítico da percepção e da vivência de nosso espaço de todos os dias...
Porto Alegre, 24/09;2002
Maria Ivone dos Santos