Qual a relação entre maconha e esquizofrenia?

Por Henrique Untertriefallner, Larissa Ramos, Leticia Hipólito e Luiza Rodrigues


Popularmente conhecida como maconha, a cannabisé uma planta que inclui três espécies diferentes: Cannabis sativa, Cannabis indica e Cannabis ruberallis. Segundo dados de 2016 da OMS (Organização Mundial da Saúde), a cannabis é a droga ilícita mais utilizada no mundo, com mais de 180 milhões de usuários. Seus principais efeitos são relaxamento, euforia, alterações sensoriais e déficits de memória. As consequências do uso contínuo e prolongado da cannabis ainda não estão totalmente elucidadas, mas há diversas evidências indicando a existência de uma relação entre o consumo de maconha e o desenvolvimento de transtornos psicóticos como a esquizofrenia.

A Cannabis sativa contém mais de 100 compostos diferentes conhecidos como canabinoides, sendo os mais abundantes o tetraidrocanabinol (THC) e o canabidiol. Esses compostos modulam o nosso sistema endocanabinoide, que tem receptores em neurônios GABAérgicos e glutamatérgicos presentes em áreas do cérebro relacionadas a cognição, emoções, memória e apetite. Os endocanabinoides são os canabinoides endógenos, ou seja, aqueles produzidos naturalmente no nosso organismo. Após serem sintetizados nos neurônios pós-sinápticos, eles difundem até a fenda sináptica, onde se ligam nos receptores CB1 presentes nos terminais de neurônios pré-sinápticos. A ativação desses receptores, seja por endocanabinoides ou pelo THC presente na maconha, tem efeito inibitório na atividade desses neurônios.

O THC e o canabidiol são formados a partir do mesmo precursor, o canabigerol, e por isso a cannabis com alto conteúdo de THC tem pouco canabidiol e vice-versa. A maior proporção de THC está relacionada com maior potência da planta, e essa proporção tem aumentado consideravelmente com novas técnicas de cultivo, como cruzamento de espécies e bloqueio da polinização. O fato de ser ilegal na maioria dos países incentiva o tráfico preferencial de variedades mais potentes, já que o mesmo efeito pode ser obtido com menor quantidade. Enquanto o THC é o principal responsável pelos efeitos psicoativos de alteração da consciência, o canabidiol parece exercer efeito protetor: quanto maior o conteúdo de canabidiol em relação ao de THC, menor o potencial de dependência e menor o risco de experiências psicóticas. Regular a quantidade de canabidiol portanto pode ser uma estratégia para tornar a maconha mais segura em países onde seu uso é legalizado. Diversas evidências sugerem que o consumo de cannabis de alta potência (mais de 10% de THC) é fator de risco para o desenvolvimento de transtornos psicóticos como a esquizofrenia, além de estar mais relacionado com dependência e déficits cognitivos e educacionais. Os usuários frequentes de cannabis de alta potência têm um risco 5 vezes maior de desenvolver transtornos psicóticos comparado com não usuários. Em pacientes já diagnosticados com esquizofrenia, o consumo pode piorar os sintomas da doença.

A faixa etária da exposição à maconha é uma variável importante, já que a adolescência é um momento crítico para a maturação de vários circuitos neuronais. Os canabinoides presentes na maconha podem atrapalhar a organização do cérebro principalmente durante esse período de desenvolvimento, o que está relacionado ao aparecimento de transtornos psiquiátricos como a esquizofrenia. É por isso que fumar maconha antes dos 25 anos pode ser muito mais danoso do que fumar na vida adulta.

Além disso, vários genes estão envolvidos na relação entre consumo de maconha e esquizofrenia, o que faz sentido já que essa é uma condição de etiologia multifatorial, ou seja, é causada pela interação entre fatores genéticos e ambientais. Assim, indivíduos portadores de certas variantes genéticas que fumarem maconha tem maior predisposição para o desenvolvimento de transtornos psicóticos do que indivíduos não portadores – principalmente se for consumo frequente de maconha de alta potência durante a adolescência. Como nosso DNA não podemos mudar e o sequenciamento do genoma não é uma rotina, o que pode ser feito para prevenir o aparecimento de transtornos psiquiátricos como a esquizofrenia é evitar a exposição a fatores de risco ambientais. Estima-se que de 8 a 24% dos casos de psicose em diferentes países poderiam ser prevenidos se o consumo pesado de maconha fosse evitado.

É importante salientar, no entanto, que nem todas os estudos realizados sobre o tema encontraram a mesma associação. Mas a maioria dos pesquisadores da área concorda que o conjunto das evidências coletadas até hoje aponta claramente para a existência de uma relação causal, e mais estudos estão em andamento para contribuir com o debate. As evidências do contrário podem ser explicadas por questões metodológicas, e explicações alternativas para a associação entre maconha e psicose já foram refutadas. Em caso de dúvida, o melhor remédio é a informação, principalmente a informação baseada em ciência de qualidade. Se você tem alguma dúvida que a ciência pode responder, escreve para a gente!


Fontes:

  1. Englund, A., Freeman, T. P., Murray, R. M., & McGuire, P. (2017). Can we make cannabis safer? The Lancet Psychiatry.
  2. Hamilton, I. (2017). Cannabis, psychosis and schizophrenia: unravelling a complex interaction. Addiction.
  3. Haney, M., & Evins, A. E. (2015). Does Cannabis Cause, Exacerbate or Ameliorate Psychiatric Disorders? An Oversimplified Debate Discussed. Neuropsychopharmacology.
  4. Hill, M. (2015). Perspective: Be clear about the real risks. Nature.
  5. Murray, R. M., & Di Forti, M. (2016). Cannabis and Psychosis: What Degree of Proof Do We Require? Biological Psychiatry.
  6. Murray, R. M., Quigley, H., Quattrone, D., Englund, A., & Di Forti, M. (2016). Traditional marijuana, high-potency cannabis and synthetic cannabinoids: increasing risk for psychosis. World Psychiatry.

11 comentário em “Qual a relação entre maconha e esquizofrenia?

  1. Quer dizer que quem tem esquizofrenia não poderá usar maconha ou que é esquizofrênico poderá usar a maconha como automedicação?

    1. Geovani: o que os estudos indicam é que fumar maconha de alta potência (alto conteúdo de THC) pode piorar os sintomas psicóticos em pessoas com esquizofrenia, logo fumar maconha não é uma forma de automedicação pois os sintomas não melhoram (ao contrário, pioram). Por outro lado, o canabidiol é uma molécula presente na maconha que pode ter efeitos antipsicóticos, mas os estudos sobre isso ainda são preliminares, é preciso investigar melhor a eficácia e segurança do canabidiol em pessoas com esquizofrenia. Mas veja bem: não adianta fumar maconha como forma de administração do canabidiol, pois o efeitos psicótico do THC ultrapassa o potencial efeito benéfico do canabidiol. Se ainda tiver alguma dúvida, entre em contato!

      1. o uso da maconha entra como fator biológico no desenvolvimento da esquisofrênico, e assim potencializando as chance do aparecimento da doença e de outros transtornos mentais. o ideal no período do tratamento é não ter nenhum contato com nenhum tipo de droga e álcool.

    2. A maconha tem o poder de despertar a esquizofrenia que está latente.
      Esquizofrênico, que tem de usar medicação para a doença se fumam maconha, ocorre uma total desestabilização da pessoa, podendo causar surtos psicóticos e o agravamento da esquizofrênia.
      Cristiano Machado. Conselheiro e pós- graduando em ddependência química

    1. Sim! A relação é a mesma para o cigarro: nem todo mundo que fuma tem câncer de pulmão, e nem todo mundo que tem câncer de pulmão fuma. Então nem todo indivíduo com transtorno psicótico fumou/fuma maconha, já que existem outros fatores envolvidos (genética e outros riscos). ;p

    2. sim é possível desenvolver transtorno psicótico sem está usando a maconha, existem outros fatores externos biológicos que também contribui para o desenvolvimento da doença, como lsd e outra drogas que tem essa mesma reação no nosso cérebro, até o abuso do álcool pode sim ser um fator a desenvolver um surto psicótico pra quem já tem a pré disposição genética. o ideal é que esse paciente nesse período tenha paciência e se cuide e buscar novas formas de sentir prazer sem se relacionar com qualquer tipo de droga.

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