{"id":222,"date":"2018-06-24T18:00:28","date_gmt":"2018-06-24T21:00:28","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ufrgs.br\/farmacologica\/?p=222"},"modified":"2018-06-24T18:20:01","modified_gmt":"2018-06-24T21:20:01","slug":"uma-facilidade-perigosa-drogas-da-inteligencia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufrgs.br\/farmacologica\/2018\/06\/24\/uma-facilidade-perigosa-drogas-da-inteligencia\/","title":{"rendered":"Uma facilidade perigosa: drogas da intelig\u00eancia"},"content":{"rendered":"<p><em>Por\u00a0<span lang=\"PT-BR\">Afonso Kopczynski, Gabriel Henrique Hizo, Marcus Vinicius de Lara, Thales Hein<\/span><\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A utiliza\u00e7\u00e3o de drogas e medicamentos por estudantes universit\u00e1rios que buscam uma melhora da performance cognitiva (maior concentra\u00e7\u00e3o) n\u00e3o \u00e9 recente, por\u00e9m parece vir se ampliando com a maior facilidade de acesso \u00e0s drogas, tornando-se assim um tema cada vez mais debatido, com novas descobertas dos poss\u00edveis efeitos indesejados da utiliza\u00e7\u00e3o cont\u00ednua de medicamentos que t\u00eam esse prop\u00f3sito. \u00c9 importante considerar que, na maioria dos casos, essas subst\u00e2ncias foram testadas principalmente em pacientes com transtornos neuropsiqui\u00e1tricos, e n\u00e3o em indiv\u00edduos saud\u00e1veis que buscam melhora de performance.<\/p>\n<p>Um document\u00e1rio recente do Netflix, intitulado <em>Take your pills<\/em>, trata do uso de medicamentos para pacientes com transtorno de d\u00e9ficit de aten\u00e7\u00e3o e hiperatividade (TDAH) e outras s\u00edndromes nas quais os pacientes apresentam dificuldade de concentra\u00e7\u00e3o, hiperatividade e outras condi\u00e7\u00f5es associadas, com destaque para a ansiedade. Esses medicamentos s\u00e3o a Ritalina<sup>\u00ae<\/sup>, cujo princ\u00edpio ativo \u00e9 o metilfenidato, e o Adderall<sup>\u00ae<\/sup>, uma mistura de sais de anfetamina.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/X6Xebo1pngM\" width=\"560\" height=\"315\" frameborder=\"0\" allowfullscreen=\"allowfullscreen\"><\/iframe><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Inicialmente, o metilfenidato come\u00e7ou a ser estudado no in\u00edcio da d\u00e9cada de 60 para diversos fins, por\u00e9m em 1967 foi observada sua a\u00e7\u00e3o na melhora da fala em crian\u00e7as com problemas de comunica\u00e7\u00e3o. A partir dessa observa\u00e7\u00e3o, come\u00e7ou-se a associar o metilfenidato com o neurodesenvolvimento, sendo estudada sua a\u00e7\u00e3o no TDAH. Posteriormente, o conhecimento do mecanismo de a\u00e7\u00e3o desse medicamento foi de vital import\u00e2ncia para o entendimento das bases moleculares envolvidas nessas condi\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>O jornal Folha de S\u00e3o Paulo, em refer\u00eancia ao renomado <em>The New York Times<\/em>, trouxe em 2012 uma mat\u00e9ria a respeito do Adderall<sup>\u00ae<\/sup>, a p\u00edlula da \u201cboa-nota\u201d &#8211; como \u00e9 conhecida no meio estudantil. A mat\u00e9ria relata um caso de um estudante americano que passou sete meses em reabilita\u00e7\u00e3o devido ao uso cont\u00ednuo e abusivo de Adderall<sup>\u00ae<\/sup>. A <em>American Psychiatric Association<\/em> estima que 3 a 7% das crian\u00e7as apresentem TDAH nas escolas americanas, e muitas vezes \u00e9 necess\u00e1rio recorrer \u00e0 farmacologia para o tratamento.<\/p>\n<p>Para poder discutir os pontos abordados no document\u00e1rio, precisamos esclarecer os mecanismos farmacol\u00f3gicos dessas subst\u00e2ncias. Ambas possuem propriedades estimulantes do sistema nervoso central. Acredita-se que o Adderall<sup>\u00ae<\/sup> estimule a libera\u00e7\u00e3o de neurotransmissores como dopamina e noradrenalina na fenda sin\u00e1ptica, principalmente por inibi\u00e7\u00e3o de seus transportadores: o DAT e o NAT, respectivamente. Na mesma linha, estudos sugerem que o metilfenidato atue tamb\u00e9m na inibi\u00e7\u00e3o desses transportadores. Isso significa que esses f\u00e1rmacos aumentam a quantidade de dopamina e noradrenalina em diversas regi\u00f5es do sistema nervoso central, o que deve estar explicar os efeitos terap\u00eauticos e adversos.<\/p>\n<p>Os estudantes que utilizam tais medicamentos relatam diminui\u00e7\u00e3o do tempo gasto em distra\u00e7\u00f5es, maior capacidade de compreens\u00e3o de conte\u00fados, maior energia e disposi\u00e7\u00e3o para a realiza\u00e7\u00e3o de atividade acad\u00eamicas. O document\u00e1rio tamb\u00e9m nos mostra a experi\u00eancia de um atleta de futebol americano que utilizou o Adderall<sup>\u00ae<\/sup> para aliviar os sintomas de les\u00f5es e permanecer capaz de enfrentar treinos e jogos pelo seu time. Entretanto, com o uso prolongado desses medicamentos, os usu\u00e1rios podem come\u00e7ar a apresentar nervosismo, cansa\u00e7o, irritabilidade, ansiedade, perda de apetite e peso, n\u00e1useas, aumento da press\u00e3o arterial e at\u00e9 mesmo sintomas psic\u00f3ticos.<\/p>\n<p>Muito al\u00e9m dos efeitos de tais medicamentos em indiv\u00edduos saud\u00e1veis, que a princ\u00edpio n\u00e3o necessitam de f\u00e1rmacos para desempenharem suas fun\u00e7\u00f5es em n\u00edveis satisfat\u00f3rios, podemos nos perguntar a raz\u00e3o pela qual tais subst\u00e2ncias s\u00e3o cada vez mais procuradas. \u00c9 poss\u00edvel que a resposta para essa pergunta se encontre em um n\u00edvel coletivo e n\u00e3o individual. O modelo de trabalho e produ\u00e7\u00e3o da sociedade em que vivemos preza significativamente para efici\u00eancia e aumento da produtividade, pressionando estudantes e trabalhadores a altos n\u00edveis de competitividade, gerando uma situa\u00e7\u00e3o em que muitos utilizar\u00e3o qualquer recurso dispon\u00edvel para se tornarem mais eficientes, sem reservar tempo para ponderar \u00f4nus e b\u00f4nus da utiliza\u00e7\u00e3o dessas subst\u00e2ncias, e especialmente dos efeitos adversos citados anteriormente. Com essa reflex\u00e3o final, nosso objetivo n\u00e3o \u00e9 simplesmente criticar o uso da Ritalina<sup>\u00ae<\/sup> e do Adderall<sup>\u00ae<\/sup>, e sim apontar para a necessidade de uso adequado ap\u00f3s o diagn\u00f3stico de transtornos que afetam a vida pessoal ou profissional de pacientes.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<hr \/>\n<p>Fontes:<\/p>\n<p>http:\/\/www.cesar.umd.edu\/cesar\/drugs\/ritalin.asp<\/p>\n<p>https:\/\/www.rxlist.com\/adderall-side-effects-drug-center.htm<\/p>\n<p>https:\/\/www.rxlist.com\/ritalin-side-effects-drug-center.htm<\/p>\n<p>https:\/\/www.sciencedirect.com\/science\/article\/pii\/S0149763417308072?via%3Dihub<\/p>\n<p>https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/fsp\/newyorktimes\/50768-a-ascensao-da-pilula-da-boa-nota.shtml<\/p>\n<p>https:\/\/www.sciencedirect.com\/science\/article\/pii\/S193897361300024X?_rdoc=1&#038;_fmt=high&#038;_origin=gateway&#038;_docanchor=&#038;md5=b8429449ccfc9c30159a5f9aeaa92ffb<\/p>\n<p>https:\/\/www.mind-surf.net\/drogas\/amfetamina.htm<\/p>\n<p>https:\/\/jslhr.pubs.asha.org\/article.aspx?articleid=2459317<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por\u00a0Afonso Kopczynski, Gabriel Henrique Hizo, Marcus Vinicius de Lara, Thales Hein &nbsp; A utiliza\u00e7\u00e3o de drogas e medicamentos por estudantes universit\u00e1rios que buscam uma melhora da performance cognitiva (maior concentra\u00e7\u00e3o) n\u00e3o \u00e9 recente, por\u00e9m parece vir se ampliando com a maior facilidade de acesso \u00e0s drogas, tornando-se assim um tema cada vez mais debatido, com novas descobertas dos poss\u00edveis efeitos indesejados da utiliza\u00e7\u00e3o cont\u00ednua de medicamentos que t\u00eam esse prop\u00f3sito. \u00c9 importante considerar que, na maioria dos casos, essas subst\u00e2ncias foram testadas principalmente em pacientes com transtornos neuropsiqui\u00e1tricos, e n\u00e3o em indiv\u00edduos saud\u00e1veis que buscam melhora de performance. 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