{"id":307,"date":"2018-11-29T18:22:13","date_gmt":"2018-11-29T20:22:13","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ufrgs.br\/farmacologica\/?p=307"},"modified":"2019-05-13T18:32:53","modified_gmt":"2019-05-13T21:32:53","slug":"farmacos-na-agua","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufrgs.br\/farmacologica\/2018\/11\/29\/farmacos-na-agua\/","title":{"rendered":"F\u00e1rmacos na \u00e1gua: qu\u00e3o pot\u00e1vel \u00e9 a \u00e1gua que sai das nossas torneiras?"},"content":{"rendered":"<p><em>Por Alef L. Vaz<\/em><\/p>\n<hr \/>\n<p><strong>O consumo crescente de f\u00e1rmacos, horm\u00f4nios e pesticidas no mundo atual gera um grande problema que merece nossa aten\u00e7\u00e3o: a contamina\u00e7\u00e3o de lagos, rios ou dep\u00f3sitos subterr\u00e2neos (mananciais) com res\u00edduos desses produtos. <\/strong><strong>A partir de estudos realizados em mananciais foram encontrados vest\u00edgios de medicamentos e outros produtos qu\u00edmicos, como por exemplo pesticidas e horm\u00f4nios, nos habitats aqu\u00e1ticos. <\/strong><\/p>\n<p>Mas como essas subst\u00e2ncias, denominadas contaminantes emergentes, v\u00e3o parar nos rios, lagos e dep\u00f3sitos subterr\u00e2neos?<br \/>\nGeralmente, ao inv\u00e9s de serem retornados \u00e0s farm\u00e1cias ou outros postos de coleta especializada de medicamentos (que seria o ideal neste tipo de situa\u00e7\u00e3o), comprimidos, c\u00e1psulas, dr\u00e1geas e xaropes s\u00e3o descartados de maneira inadequada e acabam poluindo as \u00e1guas de mananciais.<\/p>\n<p>E ser\u00e1 que somente o descarte inadequado de f\u00e1rmacos \u00e9 suficiente para poluir em grande escala as \u00e1guas de mananciais?<br \/>\nTamb\u00e9m existem outras situa\u00e7\u00f5es que contribuem com esse problema: quando ingerimos algum medicamento, o princ\u00edpio ativo n\u00e3o \u00e9 totalmente degradado no nosso corpo.<br \/>\nEm geral uma parte do medicamento de fato \u00e9 metabolizada, contudo, uma porcentagem acaba sendo eliminada pelas fezes ou pela urina e direcionada \u00e0 rede de esgoto. Uma vez que chega na rede de esgoto, a \u00e1gua contendo res\u00edduos do f\u00e1rmaco \u00e9 submetida \u00e0s esta\u00e7\u00f5es de tratamento de esgoto &#8212; onde n\u00e3o recebe nenhum tipo de tratamento especial para a neutraliza\u00e7\u00e3o desses compostos qu\u00edmicos &#8212; e por fim acaba sendo despejada em um manancial, sendo considerada como \u00e1gua de esgoto j\u00e1 tratada.<br \/>\nEm seguida essa mesma \u00e1gua contendo f\u00e1rmacos, pesticidas e horm\u00f4nios \u00e9 captada pelas esta\u00e7\u00f5es de tratamento para se tornar \u00e1gua pot\u00e1vel, onde tamb\u00e9m n\u00e3o recebe nenhuma esp\u00e9cie de tratamento espec\u00edfico para a remo\u00e7\u00e3o dos compostos qu\u00edmicos presentes nela. Por fim, essa \u00e1gua \u00e9 considerada pot\u00e1vel e \u00e9 distribu\u00edda para a popula\u00e7\u00e3o, ainda que contenha tra\u00e7os desses compostos que n\u00e3o foram totalmente removidos.<\/p>\n<p>Como as concentra\u00e7\u00f5es desses contaminantes s\u00e3o muito baixas (estima-se que algo entre nanogramas a microgramas por litro de \u00e1gua), o risco de toxicidade aguda aos humanos \u00e9 baixo. Entretanto, o impacto cumulativo para a sa\u00fade humana decorrente do consumo cr\u00f4nico de \u00e1gua contaminada com baixas concentra\u00e7\u00f5es de f\u00e1rmacos \u00e9 desconhecido. Al\u00e9m disso, esses contaminantes, que incluem horm\u00f4nios, antibi\u00f3ticos e psicof\u00e1rmacos, podem interferir na fauna presente nesses mananciais, alterando o comportamento de peixes e demais organismos que vivem nesse ecossistema.<\/p>\n<p><strong>Uma das poss\u00edveis consequ\u00eancias da presen\u00e7a de res\u00edduos de f\u00e1rmacos em lagos e rios \u00e9 a diminui\u00e7\u00e3o de algumas esp\u00e9cies de sapos e outros anf\u00edbios que naturalmente s\u00e3o controladores de pragas.<br \/>\nO aumento descontrolado da popula\u00e7\u00e3o de insetos como mosquitos, portanto, pode ser explicado pela quantidade diminu\u00edda de predadores. Se relacionarmos esse fato com a recente crise de zika v\u00edrus, chikungunya e dengue, podemos concluir que uma modifica\u00e7\u00e3o no ecossistema pode resultar em uma crise nacional de sa\u00fade, e o descarte inapropriado de f\u00e1rmacos somado \u00e0 inexist\u00eancia de um tratamento eficiente de remo\u00e7\u00e3o de res\u00edduos pode contribuir para esse quadro.<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<hr \/>\n<figure id=\"attachment_310\" aria-describedby=\"caption-attachment-310\" style=\"width: 1024px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-310 size-large\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/farmacologica\/wp-content\/uploads\/2018\/11\/l\u00e7kl-1024x768.jpg\" alt=\"\" width=\"1024\" height=\"768\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/farmacologica\/wp-content\/uploads\/2018\/11\/l\u00e7kl.jpg 1024w, https:\/\/www.ufrgs.br\/farmacologica\/wp-content\/uploads\/2018\/11\/l\u00e7kl-300x225.jpg 300w, https:\/\/www.ufrgs.br\/farmacologica\/wp-content\/uploads\/2018\/11\/l\u00e7kl-768x576.jpg 768w, https:\/\/www.ufrgs.br\/farmacologica\/wp-content\/uploads\/2018\/11\/l\u00e7kl-750x563.jpg 750w\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-310\" class=\"wp-caption-text\">Aqu\u00e1rios de peixe-zebra no laborat\u00f3rio de psicofarmacologia e comportamento da UFRGS<\/figcaption><\/figure>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Para avaliar o poss\u00edvel impacto da presen\u00e7a de f\u00e1rmacos na \u00e1gua no comportamento e desenvolvimento de animais, pesquisadores da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) utilizam o peixe-zebra (Danio rerio, paulistinha) como organismo modelo.<br \/>\nAssim como os ratos de laborat\u00f3rio, o peixe-zebra \u00e9 uma esp\u00e9cie utilizada em diversos tipos de pesquisa. O grupo liderado pelo professor Angelo Piato, do Departamento de Farmacologia, em colabora\u00e7\u00e3o com o pesquisador Leonardo Barcellos da Universidade de Passo Fundo (UPF), j\u00e1 estudou os efeitos de diversos psicof\u00e1rmacos utilizados para o tratamento de depress\u00e3o, ansiedade e esquizofrenia sobre o comportamento de peixes-zebra em diferentes est\u00e1gios de desenvolvimento.<br \/>\nObservou-se que a exposi\u00e7\u00e3o a esses f\u00e1rmacos, mesmo em concentra\u00e7\u00f5es baixas \u00e9 capaz de alterar o comportamento natural desses animais, al\u00e9m de prejudicar o desenvolvimento de embri\u00f5es e larvas. Na natureza tais efeitos poderiam resultar na maior preda\u00e7\u00e3o desses animais, j\u00e1 que a habilidade de evitar e escapar de predadores pode ser afetada.<\/p>\n<p>Segundo o professor Angelo:<\/p>\n<blockquote><p><strong>\u201cUtilizamos o peixe-zebra para avalia\u00e7\u00e3o do efeito desses compostos em concentra\u00e7\u00f5es encontradas no ambiente, e com isso podemos pressupor o impacto que podem exercer na fauna local e vislumbrar um potencial efeito nocivo aos seres humanos. Entretanto, uma pergunta a ser feita \u00e9 referente ao efeito que d\u00e9cadas de exposi\u00e7\u00e3o a estes f\u00e1rmacos pode causar em um ser humano que consumiu \u00e1gua \u2018pot\u00e1vel\u2019 durante a maior parte de sua vida.\u201d<\/strong><\/p><\/blockquote>\n<p>Atualmente, o professor estuda os efeitos de um antif\u00fangico amplamente utilizado na agricultura sobre o comportamento e estresse oxidativo em peixes-zebra.<\/p>\n<p>Considerando os poss\u00edveis impactos para o ecossistema e para a sa\u00fade humana, ser\u00e1 que n\u00e3o existe nenhuma forma de remover esses res\u00edduos da \u00e1gua?<br \/>\nO tratamento qu\u00edmico realizado atualmente nas \u00e1guas de mananciais \u00e9 de extrema import\u00e2ncia porque ele reduz consideravelmente a polui\u00e7\u00e3o ambiental. Infelizmente, por\u00e9m, n\u00e3o consegue remover totalmente alguns f\u00e1rmacos. Alguns compostos n\u00e3o s\u00e3o totalmente removidos gra\u00e7as \u00e0s suas caracter\u00edsticas f\u00edsico-qu\u00edmicas.<br \/>\nA remo\u00e7\u00e3o completa exige a utiliza\u00e7\u00e3o de equipamentos e processos mais meticulosos, o que implicaria em um custo muito elevado.<\/p>\n<p>Existem pesquisas que estudam poss\u00edveis estrat\u00e9gias capazes de eliminar os res\u00edduos farmac\u00eauticos, por\u00e9m devido ao custo elevado, ainda s\u00e3o invi\u00e1veis para aplica\u00e7\u00e3o em larga escala. S\u00e3o necess\u00e1rios mais investimentos em pesquisa e incentivos governamentais para reduzir o custo dessas tecnologias. Enquanto isso, cada um pode minimizar um pouco o dano ao ambiente e \u00e0 sa\u00fade animal descartando corretamente os medicamentos vencidos ou que sobram na cartela.<\/p>\n<hr \/>\n<p><strong>Saiba mais:<\/strong><\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.ncbi.nlm.nih.gov\/pubmed\/29074994\">Psychotropic in the environment: risperidone residues affect the behavior of fish larvae.<\/a><br \/>\n<a href=\"http:\/\/www.descarteconsciente.com.br\/\">Programa de descarte consciente, ache o posto mais pr\u00f3ximo de sua casa<\/a><br \/>\n<a href=\"http:\/\/www2.portoalegre.rs.gov.br\/dmlu\/default.php?reg=8&amp;p_secao=184\">Informativo sobre rem\u00e9dios vencidos pela prefeitura de Porto Alegre (DMLU)<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Alef L. Vaz O consumo crescente de f\u00e1rmacos, horm\u00f4nios e pesticidas no mundo atual gera um grande problema que merece nossa aten\u00e7\u00e3o: a contamina\u00e7\u00e3o de lagos, rios ou dep\u00f3sitos subterr\u00e2neos (mananciais) com res\u00edduos desses produtos. A partir de estudos realizados em mananciais foram encontrados vest\u00edgios de medicamentos e outros produtos qu\u00edmicos, como por exemplo pesticidas e horm\u00f4nios, nos habitats aqu\u00e1ticos. Mas como essas subst\u00e2ncias, denominadas contaminantes emergentes, v\u00e3o parar nos rios, lagos e dep\u00f3sitos subterr\u00e2neos? Geralmente, ao inv\u00e9s de serem retornados \u00e0s farm\u00e1cias ou outros postos de coleta especializada de medicamentos (que seria o ideal neste tipo de situa\u00e7\u00e3o), [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":316,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[19],"tags":[16,17,15,21,18],"class_list":["post-307","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-toxicologia","tag-drogas-de-abuso","tag-farmacos-na-agua","tag-psicofarmacos","tag-toxicologia","tag-tratamento-quimico"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/farmacologica\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/307","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/farmacologica\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/farmacologica\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/farmacologica\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/farmacologica\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=307"}],"version-history":[{"count":8,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/farmacologica\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/307\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":340,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/farmacologica\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/307\/revisions\/340"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/farmacologica\/wp-json\/wp\/v2\/media\/316"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/farmacologica\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=307"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/farmacologica\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=307"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/farmacologica\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=307"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}