{"id":343,"date":"2019-06-06T14:38:16","date_gmt":"2019-06-06T17:38:16","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ufrgs.br\/farmacologica\/?p=343"},"modified":"2019-06-06T14:42:25","modified_gmt":"2019-06-06T17:42:25","slug":"um-tratamento-revolucionario-contra-a-depressao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufrgs.br\/farmacologica\/2019\/06\/06\/um-tratamento-revolucionario-contra-a-depressao\/","title":{"rendered":"Um tratamento revolucion\u00e1rio contra a depress\u00e3o?"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: left;\"><strong>A escetamina \u00e9 a novidade do momento no tratamento da depress\u00e3o, mas \u00e9 preciso cautela!<\/strong><\/p>\n<p><em>Por\u00a0Giancarlo Tomazzoni, Leonardo Siega, Marcelo Olivera e Thaisla Borella<\/em><\/p>\n<hr \/>\n<p>No dia 5 de mar\u00e7o deste ano, um novo antidepressivo foi aprovado pelo Food and Drug Admnistration (FDA), ag\u00eancia reguladora norte-americana respons\u00e1vel pelo controle de medicamentos. O novo medicamento, que recebeu status de \u201cterapia inovadora\u201d, foi aprovado para depress\u00e3o resistente ao tratamento, ou seja, para aqueles pacientes que n\u00e3o respondem aos f\u00e1rmacos dispon\u00edveis at\u00e9 ent\u00e3o. Trata-se de uma formula\u00e7\u00e3o intranasal de escetamina, que chegar\u00e1 \u00e0s prateleiras dos Estados Unidos sob o nome de Spravato\u2122, comercializado pela empresa Janssen Pharmaceuticals. Mas quais s\u00e3o as vantagens em rela\u00e7\u00e3o aos f\u00e1rmacos atuais? E as desvantagens? Ser\u00e1 que ainda veremos muitos pacientes como o pintado por Van Gogh?<\/p>\n<figure id=\"attachment_344\" aria-describedby=\"caption-attachment-344\" style=\"width: 228px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-344 size-medium\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/farmacologica\/wp-content\/uploads\/2019\/06\/van-228x300.jpg\" alt=\"\" width=\"228\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/farmacologica\/wp-content\/uploads\/2019\/06\/van-228x300.jpg 228w, https:\/\/www.ufrgs.br\/farmacologica\/wp-content\/uploads\/2019\/06\/van-768x1012.jpg 768w, https:\/\/www.ufrgs.br\/farmacologica\/wp-content\/uploads\/2019\/06\/van-777x1024.jpg 777w, https:\/\/www.ufrgs.br\/farmacologica\/wp-content\/uploads\/2019\/06\/van-750x988.jpg 750w, https:\/\/www.ufrgs.br\/farmacologica\/wp-content\/uploads\/2019\/06\/van.jpg 801w\" sizes=\"auto, (max-width: 228px) 100vw, 228px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-344\" class=\"wp-caption-text\">Homem Velho com a Cabe\u00e7a em Suas M\u00e3os, de Vincent Van Gogh<\/figcaption><\/figure>\n<p><strong>Tratamentos atuais<\/strong><\/p>\n<p>Existem diferentes tipos de transtornos depressivos, mas o tipo mais conhecido e geralmente associado ao termo \u201cdepress\u00e3o\u201d \u00e9 o transtorno depressivo maior, caracterizado por apatia ou perda de interesse, humor deprimido, dist\u00farbios alimentares e de sono, fadiga, baixa autoestima e pensamentos suicidas. A efic\u00e1cia dos diferentes f\u00e1rmacos atualmente empregados \u00e9 bastante vari\u00e1vel entre os indiv\u00edduos, sendo que 30% dos pacientes n\u00e3o apresenta melhora ap\u00f3s v\u00e1rias tentativas (transtorno depressivo resistente ao tratamento \u2013 TDR). Al\u00e9m disso, os f\u00e1rmacos utilizados hoje causam diversos efeitos adversos que dificultam a ades\u00e3o ao tratamento. H\u00e1, portanto, uma grande necessidade de desenvolver novos f\u00e1rmacos antidepressivos com maior efic\u00e1cia e menos efeitos adversos.<\/p>\n<p><strong>A esperan\u00e7a<\/strong><\/p>\n<p>Nesse contexto, a escetamina promete tratar os sintomas de pacientes com TDR. Essa mol\u00e9cula \u00e9 derivada da cetamina, que j\u00e1 \u00e9 utilizada na cl\u00ednica como um anest\u00e9sico geral, e vem sendo investigada como antidepressivo desde os anos 2000. Tanto a cetamina quanto a escetamina s\u00e3o antagonistas de receptores de glutamato do tipo NMDA, diferente dos outros antidepressivos, que modulam a neurotransmiss\u00e3o monoamin\u00e9rgica (serotonina, noradrenalina e dopamina). Entretanto, o exato mecanismo de a\u00e7\u00e3o respons\u00e1vel pelos efeitos terap\u00eauticos ainda \u00e9 desconhecido. Apesar disso, a escetamina conseguiu quebrar um jejum de 30 anos sem novas patentes de antidepressivos.<\/p>\n<p>A escetamina tem um grande diferencial: induz efeitos r\u00e1pidos e persistentes com uma \u00fanica administra\u00e7\u00e3o \u2013 melhora os sintomas dentro de poucas horas ao inv\u00e9s de semanas como os antidepressivos convencionais. A administra\u00e7\u00e3o intranasal, al\u00e9m de pr\u00e1tica, permite uma absor\u00e7\u00e3o mais r\u00e1pida do que pela via oral.<\/p>\n<p><strong>O lado negativo<\/strong><\/p>\n<p>Apesar de sua seguran\u00e7a, a escetamina pode causar efeitos adversos significativos como n\u00e1usea, tontura, falta de ar e alucina\u00e7\u00f5es semelhantes a um estado psic\u00f3tico. Como a cetamina \u00e9 tamb\u00e9m uma droga de abuso utilizada principalmente em festas rave, a escetamina n\u00e3o est\u00e1 livre do risco de ser usada indevidamente com fins recreativos. Al\u00e9m disso, a absor\u00e7\u00e3o da escetamina pode ser prejudicada em pacientes com desvio de septo e outras malforma\u00e7\u00f5es da cavidade nasal. Outro problema \u00e9 que os efeitos adversos de sua utiliza\u00e7\u00e3o a longo prazo s\u00e3o desconhecidos. \u00a0O ponto negativo mais imediato, por\u00e9m, \u00e9 o pre\u00e7o exorbitante: o tratamento com Spravato\u2122 pode custar at\u00e9 5 mil d\u00f3lares no primeiro m\u00eas, muito mais do que os antidepressivos convencionais, e muito mais do que a administra\u00e7\u00e3o da pr\u00f3pria cetamina, que tamb\u00e9m tem efeitos antidepressivos r\u00e1pidos.<\/p>\n<p><strong>Importa\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p>N\u00e3o se tem certeza quando ou se a escetamina chegar\u00e1 no Brasil. Para um f\u00e1rmaco novo ser comercializado no Brasil, a ind\u00fastria farmac\u00eautica fabricante deve submeter os estudos de efic\u00e1cia e seguran\u00e7a para a Ag\u00eancia Nacional de Vigil\u00e2ncia Sanit\u00e1ria (ANVISA), que ent\u00e3o decide aprovar ou n\u00e3o a comercializa\u00e7\u00e3o. O fato de j\u00e1 ter sido aprovado nos Estados Unidos aumenta a chance de um parecer favor\u00e1vel no Brasil tamb\u00e9m, mas o processo pode levar anos.<\/p>\n<p><strong>Conclus\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p>Apesar de ser considerada uma \u201cterapia inovadora\u201d e o \u00fanico antidepressivo aprovado nas \u00faltimas d\u00e9cadas, ainda \u00e9 incerto o tamanho do ganho terap\u00eautico e o custo-benef\u00edcio da escetamina. H\u00e1 a necessidade de compreender melhor seus mecanismos de a\u00e7\u00e3o e efeitos a longo prazo, e baratear o seu pre\u00e7o de mercado. \u00c9 preciso, portanto, frear a euforia e o sensacionalismo que coloca a mol\u00e9cula como a cura da depress\u00e3o, uma condi\u00e7\u00e3o muito complexa para a qual n\u00e3o existe uma solu\u00e7\u00e3o simples e milagrosa.<\/p>\n<hr \/>\n<p>Fontes:<\/p>\n<ol>\n<li><a href=\"https:\/\/www.fda.gov\/patients\/fast-track-breakthrough-therapy-accelerated-approval-priority-review\/breakthrough-therapy\">https:\/\/www.fda.gov\/patients\/fast-track-breakthrough-therapy-accelerated-approval-priority-review\/breakthrough-therapy<\/a><\/li>\n<li>Tansey, K.E., Guipponi, M., Hu, X., Domenici, E., Lewis, G., Malafosse, A., Wendland, J.R., Lewis, C.M., McGuffin, P., Uher, R. (2013). Contribution of common genetic variants to antidepressant response. <a href=\"https:\/\/www.ncbi.nlm.nih.gov\/pubmed\/23237317\">https:\/\/www.ncbi.nlm.nih.gov\/pubmed\/23237317<\/a><\/li>\n<li>Cipriani, A,\u00a0Furukawa, TA,\u00a0Salanti, G\u00a0et al (2018).\u00a0Comparative efficacy and acceptability of 21 antidepressant drugs for the acute treatment of adults with major depressive disorder: a systematic review and network meta\u2010analysis. <a href=\"https:\/\/www.ncbi.nlm.nih.gov\/pubmed\/29477251\">https:\/\/www.ncbi.nlm.nih.gov\/pubmed\/29477251<\/a><\/li>\n<li>Quitkin FM, McGrath PJ, Stewart JW, Deliyannides D, Taylor BP, Davies CA, Klein DF: Remission rates with 3 consecutive antidepressant trials: effectiveness for depressed outpatients. <a href=\"https:\/\/www.ncbi.nlm.nih.gov\/pubmed\/15960558\">https:\/\/www.ncbi.nlm.nih.gov\/pubmed\/15960558<\/a><\/li>\n<li>Li, L., &amp; Vlisides, P. E. (2016). Ketamine: 50 Years of Modulating the Mind. <a href=\"https:\/\/www.ncbi.nlm.nih.gov\/pmc\/articles\/PMC5126726\/\">https:\/\/www.ncbi.nlm.nih.gov\/pmc\/articles\/PMC5126726\/<\/a><\/li>\n<li>Browne, C. A., &amp; Lucki, I. (2013). Antidepressant effects of ketamine: mechanisms underlying fast-acting novel antidepressants. <a href=\"https:\/\/www.ncbi.nlm.nih.gov\/pmc\/articles\/PMC3873522\/\">https:\/\/www.ncbi.nlm.nih.gov\/pmc\/articles\/PMC3873522\/<\/a><\/li>\n<li>Andrade C. (2015).\u00a0Intranasal drug delivery in neuropsychiatry: focus on intranasal ketamine for refractory depression. <a href=\"https:\/\/www.ncbi.nlm.nih.gov\/pubmed\/26035196\">https:\/\/www.ncbi.nlm.nih.gov\/pubmed\/26035196<\/a><\/li>\n<li>Daly EJ,\u00a0Singh JB,\u00a0Fedgchin M,\u00a0Cooper K,\u00a0Lim P,\u00a0Shelton RC\u00a0<em>et al<\/em>. (2017).\u00a0Efficacy and Safety of Intranasal Esketamine Adjunctive to Oral Antidepressant Therapy in Treatment-Resistant Depression: A Randomized Clinical Trial. <a href=\"https:\/\/www.ncbi.nlm.nih.gov\/pubmed\/29282469\">https:\/\/www.ncbi.nlm.nih.gov\/pubmed\/29282469<\/a><\/li>\n<li>Daughton, C. G.,\u00a0Ruhoy, I. S. (2013).\u00a0Lower\u2010dose Prescribing: Minimizing \u201cSide Effects\u201d of Pharmaceuticals on Society and the Environment. <a href=\"https:\/\/www.ncbi.nlm.nih.gov\/pubmed\/23201698\">https:\/\/www.ncbi.nlm.nih.gov\/pubmed\/23201698<\/a><\/li>\n<li>Canuso\u00a0CM,\u00a0Singh\u00a0JB,\u00a0Fedgchin\u00a0M, et al. (2018).\u00a0Efficacy and safety of intranasal esketamine for the rapid reduction of symptoms of depression and suicidality in patients at imminent risk for suicide: results of a double-blind, randomized, placebo-controlled study. <a href=\"https:\/\/www.ncbi.nlm.nih.gov\/pubmed\/29656663\">https:\/\/www.ncbi.nlm.nih.gov\/pubmed\/29656663<\/a><\/li>\n<li>D.S.\u00a0Quintana,\u00a0N.E.\u00a0Steen,\u00a0O.A.\u00a0Andreassen. (2018). The promise of intranasal esketamine as a novel and effective antidepressant. <a href=\"https:\/\/www.ncbi.nlm.nih.gov\/pubmed\/29282452\">https:\/\/www.ncbi.nlm.nih.gov\/pubmed\/29282452<\/a><\/li>\n<\/ol>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A escetamina \u00e9 a novidade do momento no tratamento da depress\u00e3o, mas \u00e9 preciso cautela! Por\u00a0Giancarlo Tomazzoni, Leonardo Siega, Marcelo Olivera e Thaisla Borella No dia 5 de mar\u00e7o deste ano, um novo antidepressivo foi aprovado pelo Food and Drug Admnistration (FDA), ag\u00eancia reguladora norte-americana respons\u00e1vel pelo controle de medicamentos. O novo medicamento, que recebeu status de \u201cterapia inovadora\u201d, foi aprovado para depress\u00e3o resistente ao tratamento, ou seja, para aqueles pacientes que n\u00e3o respondem aos f\u00e1rmacos dispon\u00edveis at\u00e9 ent\u00e3o. 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