{"id":437,"date":"2020-11-11T14:32:13","date_gmt":"2020-11-11T17:32:13","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ufrgs.br\/farmacologica\/?p=437"},"modified":"2022-01-24T10:39:56","modified_gmt":"2022-01-24T13:39:56","slug":"benzodiazepinicos-poderosos-populares-e-perigosos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufrgs.br\/farmacologica\/2020\/11\/11\/benzodiazepinicos-poderosos-populares-e-perigosos\/","title":{"rendered":"Benzodiazep\u00ednicos: poderosos, populares e perigosos"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>Por  Gustavo Flores Chapacais, Pedro Augusto Chikoski Albrecht, Sofia Zanini Becker e Stefano Walter Agatti<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Voc\u00ea j\u00e1 tomou clonazepam, diazepam, midazolam ou algum medicamento de nome parecido na caixa? Se a resposta for sim, ent\u00e3o voc\u00ea j\u00e1 ingeriu um <strong>benzodiazep\u00ednico<\/strong>. Esse \u00e9 o nome do grupo de f\u00e1rmacos que provoca uma diminui\u00e7\u00e3o da atividade em v\u00e1rias vias de neurotransmiss\u00e3o do c\u00e9rebro, o que se traduz em percep\u00e7\u00e3o de relaxamento mental, corporal e sono, dependendo do f\u00e1rmaco e da dose ingerida.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Os benzodiazep\u00ednicos se tornaram muito populares desde seu lan\u00e7amento, na d\u00e9cada de 1960, e viraram a classe de f\u00e1rmacos mais vendida no mundo j\u00e1 na d\u00e9cada seguinte. Sua a\u00e7\u00e3o parecia bastante segura para o organismo humano, com baixa toxicidade e menor risco de \u201coverdose\u201d fatal comparado com os barbit\u00faricos \u2014 potentes ansiol\u00edticos e hipn\u00f3ticos conhecidos e prescritos desde o in\u00edcio do s\u00e9culo XX. Muitos problemas como ansiedade, ins\u00f4nia e crises epil\u00e9pticas pareciam ser atenuados pelos benzodiazep\u00ednicos, de modo que, nessa \u00e9poca, era comum pacientes usarem esses f\u00e1rmacos indiscriminadamente por longos per\u00edodos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Entretanto, nos anos 1980, estudos passaram a associar <strong>efeitos adversos e toler\u00e2ncia <\/strong>(redu\u00e7\u00e3o da efic\u00e1cia com o uso por tempo prolongado) ao uso de benzodiazep\u00ednicos. Foram observados, por exemplo, sintomas de depend\u00eancia e s\u00edndrome de abstin\u00eancia com a parada abrupta do tratamento, al\u00e9m de d\u00e9ficits cognitivos e psicomotores, dem\u00eancia, tontura e n\u00e1useas. Tamb\u00e9m se observou que os efeitos negativos eram mais significativos em <strong>idosos<\/strong>, que est\u00e3o justamente entre os pacientes mais propensos a usar benzodiazep\u00ednicos de forma cont\u00ednua.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Dessa forma, campanhas para <strong>desprescri\u00e7\u00e3o<\/strong> (redu\u00e7\u00e3o planejada da dose ou interrup\u00e7\u00e3o das prescri\u00e7\u00f5es) de benzodiazep\u00ednicos come\u00e7aram a surgir na comunidade m\u00e9dica e cient\u00edfica. A fama, entretanto, j\u00e1 havia sido estabelecida, com grande inser\u00e7\u00e3o desses medicamentos tanto nos consult\u00f3rios quanto na sociedade. Essas campanhas n\u00e3o conseguiram frear o aumento no n\u00famero de usu\u00e1rios, que segue alto at\u00e9 hoje. No Brasil, em 2019, estimaram-se mais de <strong>13 milh\u00f5es<\/strong> de usu\u00e1rios. Al\u00e9m disso, dados mostram que 1 em cada 10 brasileiros j\u00e1 se tratou com benzodiazep\u00ednicos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Mais recentemente, os esfor\u00e7os de desprescri\u00e7\u00e3o ganharam um pouco de for\u00e7a com a chegada e populariza\u00e7\u00e3o dos \u201cf\u00e1rmacos Z\u201d \u2014 grupo de f\u00e1rmacos diferentes, mas com efeito similar. Estes compostos passaram a ser muito usados para tratar ins\u00f4nia, pois pareciam causar menos depend\u00eancia (o que igualmente n\u00e3o \u00e9 mais aceito). Exemplos deste grupo s\u00e3o a zaleplona e o zolpidem.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Com o que se sabe hoje, as evid\u00eancias indicam que nenhum dos medicamentos citados acima deveria ser utilizado diariamente para induzir o sono por mais do que <strong>duas a quatro semanas<\/strong> seguidas, sob o alto risco de se desenvolver <strong>depend\u00eancia<\/strong>. Se esse cen\u00e1rio acontecer, jamais deve-se parar de tomar repentinamente: a redu\u00e7\u00e3o gradual da dose \u00e9 o ideal, sempre com <strong>acompanhamento m\u00e9dico<\/strong>.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ali\u00e1s, n\u00e3o \u00e9 seguro iniciar o uso de qualquer benzodiazep\u00ednico sem prescri\u00e7\u00e3o m\u00e9dica. Al\u00e9m de serem medicamentos controlados, m\u00e9dicos s\u00e3o os profissionais capacitados a fazer a indica\u00e7\u00e3o e acompanhamento do uso pelo tempo e do modo corretos, levando em conta v\u00e1rios aspectos, como hist\u00f3rico cl\u00ednico do paciente, estilo de vida, personalidade e fatores ambientais e sociais.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Al\u00e9m dos benzodiazep\u00ednicos, h\u00e1 muitas <strong>alternativas<\/strong> para tratamento da ansiedade e da ins\u00f4nia pontual. H\u00e1 f\u00e1rmacos de classes distintas, como os antidepressivos e os anti-histam\u00ednicos. Mas, principalmente, h\u00e1 tamb\u00e9m muitas interven\u00e7\u00f5es n\u00e3o-farmacol\u00f3gicas, como psicoterapia, atividade f\u00edsica regular e higiene do sono. Estas medidas comportamentais s\u00e3o cada vez mais preconizadas para complementar ou substituir tratamentos farmacol\u00f3gicos.Faz parte do cotidiano humano passar por situa\u00e7\u00f5es ou per\u00edodos de vida positivos e negativos. Portanto, desenvolver <strong>formas saud\u00e1veis<\/strong> de lidar com o estresse psicol\u00f3gico decorrente \u00e9 essencial, como a busca de apoio nas rela\u00e7\u00f5es afetivas ou em atividades de lazer. Ainda assim, ningu\u00e9m deve se sentir culpado se precisar de ajuda <strong>profissional<\/strong>, psicol\u00f3gica ou m\u00e9dica, al\u00e9m das medidas que est\u00e3o sob nosso controle. <\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\"> Mecanismo de a\u00e7\u00e3o<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Os benzodiazep\u00ednicos dificultam a excita\u00e7\u00e3o (e a transmiss\u00e3o de sinais) de neur\u00f4nios que cont\u00eam o receptor GABA<sub>A<\/sub> (assim chamado por funcionar quando o neurotransmissor \u00e1cido gama-aminobut\u00edrico, ou GABA, se liga a ele). Isso se d\u00e1 atrav\u00e9s do aumento da entrada de \u00edons negativos (Cl\u207b) na c\u00e9lula, com consequente hiperpolariza\u00e7\u00e3o entre os meios externo e interno do neur\u00f4nio. A hiperpolariza\u00e7\u00e3o diminui a ativa\u00e7\u00e3o neuronal em diversas vias do sistema nervoso central, muitas das quais est\u00e3o relacionadas com ansiedade e tens\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Trata-se, por\u00e9m, de um efeito mais intenso e complexo que o pretendido para tratar tais sintomas. Exemplo disto \u00e9 o fato de que, atualmente, os benzodiazep\u00ednicos constituem a primeira linha de tratamento em emerg\u00eancias de crises epil\u00e9pticas \u2014 situa\u00e7\u00e3o em que h\u00e1 um intenso desequil\u00edbrio da transmiss\u00e3o sin\u00e1ptica no sistema nervoso, resultando em perda da consci\u00eancia e dos movimentos corporais. Passada a crise, os benzodiazep\u00ednicos devem ser substitu\u00eddos por f\u00e1rmacos mais seguros no tratamento de manuten\u00e7\u00e3o da epilepsia, como carbamazepina e \u00e1cido valproico.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O mecanismo de a\u00e7\u00e3o dos benzodiazep\u00ednicos explica a sensa\u00e7\u00e3o de relaxamento induzida, mas tamb\u00e9m chama aten\u00e7\u00e3o para importantes riscos envolvidos. Mesmo em casos de adequada prescri\u00e7\u00e3o m\u00e9dica, pacientes em uso de benzodiazep\u00ednicos s\u00e3o instru\u00eddos a n\u00e3o executar algumas tarefas, como dirigir ou manejar cargas pesadas na ind\u00fastria. Isso ocorre pelo risco de indu\u00e7\u00e3o de sonol\u00eancia inerente \u00e0 a\u00e7\u00e3o deste f\u00e1rmaco no organismo, o que pode resultar em acidentes.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">J\u00e1 nas situa\u00e7\u00f5es do seu uso indiscriminado ou recreativo, um dos principais perigos envolve o consumo concomitante de bebidas alco\u00f3licas. Tanto o etanol quanto os benzodiazep\u00ednicos atuam deprimindo o sistema nervoso central, resultando em um efeito sedativo sin\u00e9rgico. O mesmo acontece com o uso de outros medicamentos que tamb\u00e9m s\u00e3o depressores do sistema nervoso central, como os analg\u00e9sicos opioides, por exemplo &#8212; nesse caso, o risco de overdose fatal \u00e9 potencializado.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator\"\/>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Fontes:<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><a rel=\"noreferrer noopener\" aria-label=\"Benzodiazepine pharmacology and central nervous system-mediated effects (abre numa nova aba)\" href=\"https:\/\/pubmed.ncbi.nlm.nih.gov\/23789008\/\" target=\"_blank\">Benzodiazepine pharmacology and central nervous system-mediated effects<\/a><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><a rel=\"noreferrer noopener\" aria-label=\"Benzodiazepines I: Upping the Care on Downers: The Evidence of Risks, Benefits and Alternatives (abre numa nova aba)\" href=\"https:\/\/pubmed.ncbi.nlm.nih.gov\/29385731\/\" target=\"_blank\">Benzodiazepines I: Upping the Care on Downers: The Evidence of Risks, Benefits and Alternatives<\/a><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><a rel=\"noreferrer noopener\" aria-label=\"Doctors, Patients Struggle with Benzodiazepine Use (abre numa nova aba)\" href=\"https:\/\/www.webmd.com\/mental-health\/addiction\/news\/20190516\/doctors-patients-struggle-with-benzodiazepine-use\" target=\"_blank\">Doctors, Patients Struggle with Benzodiazepine Use<\/a><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><a rel=\"noreferrer noopener\" aria-label=\"Factors Associated With Long-term Benzodiazepine Use Among Older Adults (abre numa nova aba)\" href=\"https:\/\/pubmed.ncbi.nlm.nih.gov\/30208384\/\" target=\"_blank\">Factors Associated With Long-term Benzodiazepine Use Among Older Adults<\/a><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><a rel=\"noreferrer noopener\" aria-label=\"Landmark drugs: The discovery of benzodiazepines and the adverse publicity that followed (abre numa nova aba)\" href=\"https:\/\/www.pharmaceutical-journal.com\/opinion\/comment\/landmark-drugs-the-discovery-of-benzodiazepines-and-the-adverse-publicity-that-followed\/10978453.article?firstPass=false\" target=\"_blank\">Landmark drugs: The discovery of benzodiazepines and the adverse publicity that followed<\/a><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><a rel=\"noreferrer noopener\" aria-label=\"Prevalence of and pathways to benzodiazepine use in Brazil: the role of depression, sleep, and sedentary lifestyle (abre numa nova aba)\" href=\"https:\/\/pubmed.ncbi.nlm.nih.gov\/30328968\/\" target=\"_blank\">Prevalence of and pathways to benzodiazepine use in Brazil: the role of depression, sleep, and sedentary lifestyle<\/a><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><a rel=\"noreferrer noopener\" aria-label=\"The diagnosis and management of benzodiazepine dependence (abre numa nova aba)\" href=\"https:\/\/pubmed.ncbi.nlm.nih.gov\/16639148\/\" target=\"_blank\">The diagnosis and management of benzodiazepine dependence<\/a><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><a rel=\"noreferrer noopener\" aria-label=\"Treatment of Benzodiazepine Dependence (abre numa nova aba)\" href=\"https:\/\/pubmed.ncbi.nlm.nih.gov\/28617572\/\" target=\"_blank\">Treatment of Benzodiazepine Dependence<\/a><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><a href=\"https:\/\/www.cornerstoneofrecovery.com\/what-are-the-signs-someone-is-addicted-to-benzos\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\" aria-label=\"What are the signs someone is addicted to benzos? (abre numa nova aba)\">What are the signs someone is addicted to benzos?<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Gustavo Flores Chapacais, Pedro Augusto Chikoski Albrecht, Sofia Zanini Becker e Stefano Walter Agatti Voc\u00ea j\u00e1 tomou clonazepam, diazepam, midazolam ou algum medicamento de nome parecido na caixa? Se a resposta for sim, ent\u00e3o voc\u00ea j\u00e1 ingeriu um benzodiazep\u00ednico. Esse \u00e9 o nome do grupo de f\u00e1rmacos que provoca uma diminui\u00e7\u00e3o da atividade em v\u00e1rias vias de neurotransmiss\u00e3o do c\u00e9rebro, o que se traduz em percep\u00e7\u00e3o de relaxamento mental, corporal e sono, dependendo do f\u00e1rmaco e da dose ingerida. Os benzodiazep\u00ednicos se tornaram muito populares desde seu lan\u00e7amento, na d\u00e9cada de 1960, e viraram a classe de f\u00e1rmacos mais [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":438,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[41,15],"class_list":["post-437","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-sem-categoria","tag-benzodiazepinicos","tag-psicofarmacos"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/farmacologica\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/437","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/farmacologica\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/farmacologica\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/farmacologica\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/farmacologica\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=437"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/farmacologica\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/437\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":439,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/farmacologica\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/437\/revisions\/439"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/farmacologica\/wp-json\/wp\/v2\/media\/438"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/farmacologica\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=437"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/farmacologica\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=437"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/farmacologica\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=437"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}