{"id":468,"date":"2022-01-13T17:45:34","date_gmt":"2022-01-13T20:45:34","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ufrgs.br\/farmacologica\/?p=468"},"modified":"2022-01-13T18:03:51","modified_gmt":"2022-01-13T21:03:51","slug":"fertilidade-masculina-e-farmacologia-como-o-uso-de-farmacos-pode-impactar-na-qualidade-seminal","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufrgs.br\/farmacologica\/2022\/01\/13\/fertilidade-masculina-e-farmacologia-como-o-uso-de-farmacos-pode-impactar-na-qualidade-seminal\/","title":{"rendered":"Fertilidade masculina e farmacologia: como o uso de f\u00e1rmacos pode impactar na qualidade seminal?"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>Por Martina Stapenhorst<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em um servi\u00e7o de reprodu\u00e7\u00e3o assistida s\u00e3o atendidos diversos casos todos os anos, com causas, diagn\u00f3sticos e tratamentos variados. Considerando que a infertilidade \u00e9 uma condi\u00e7\u00e3o que atinge cerca de 15% dos casais, e que a demanda por servi\u00e7os de fertiliza\u00e7\u00e3o <em>in vitro<\/em> \u00e9 cada vez maior, precisamos entender as causas de infertilidade e, principalmente, aquelas que podem ser prevenidas ou minimizadas. No laborat\u00f3rio de andrologia, setor no qual eu trabalho, lidamos com os <strong>homens<\/strong>: procuramos, avaliamos e escolhemos espermatozoides. Parece simples, mas vai muito al\u00e9m disso.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Aproximadamente 7% dos homens ao redor do mundo s\u00e3o diagnosticados com infertilidade causada por fator masculino; no laborat\u00f3rio, isso se traduz em 30 a 50% dos casais que est\u00e3o tentando engravidar atrav\u00e9s de tratamentos de reprodu\u00e7\u00e3o assistida. Ou seja, <em>at\u00e9 metade dos casais atendidos tem um diagn\u00f3stico de fator masculino<\/em>. Se pararmos para pensar, \u00e9 um n\u00famero muito significativo, tanto que a infertilidade masculina vem sendo considerada um problema de sa\u00fade p\u00fablica global que precisa de aten\u00e7\u00e3o. Com este quadro, ser\u00e1 cada vez mais comum que m\u00e9dicos e urologistas encontrem em seus consult\u00f3rios pacientes com quest\u00f5es seminais importantes.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Esse assunto foi tratado com brilhantismo no artigo de revis\u00e3o de Tony Chen e colaboradores, publicado em outubro de 2021 na RBMO (<em>Reproductive BioMedicine Online<\/em>), intitulado &#8220;<em>Male infertility as a marker for health<\/em>&#8221; (Infertilidade masculina como um marcador de sa\u00fade), o qual iremos destrinchar, mais especificamente na se\u00e7\u00e3o que entrela\u00e7a a fertilidade com a farmacologia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Na rotina do laborat\u00f3rio, muitas vezes nos deparamos com casos curiosos, e um dos mais comuns \u00e9 oligozoospermia grave (baix\u00edssima concentra\u00e7\u00e3o de espermatozoides no ejaculado) ou azoospermia (aus\u00eancia de espermatozoides no ejaculado) causada por uso de testosterona ex\u00f3gena. Alguns pacientes que apresentavam contagem de espermatozoides normal em coletas pr\u00e9vias &#8220;de repente&#8221; passam a apresentar um dos dois quadros que citei acima. Quando nos deparamos com uma amostra com um decl\u00ednio t\u00e3o abrupto, sempre investigamos e indagamos o paciente. Muitos deles informam, ao final de muito questionamento, que est\u00e3o fazendo uso de testosterona. A maioria n\u00e3o sabe que ela pode afetar a fertilidade, e em alguns casos mais espec\u00edficos, m\u00e9dicos de outras especialidades prescrevem medica\u00e7\u00f5es com a subst\u00e2ncia na f\u00f3rmula e n\u00e3o fazem ideia dos seus riscos. A testosterona ex\u00f3gena afeta o eixo hipot\u00e1lamo hipofis\u00e1rio-testicular e, mesmo ap\u00f3s cessar o uso, a produ\u00e7\u00e3o de espermatozoides pode n\u00e3o retornar. Portanto, se voc\u00ea \u00e9 homem e est\u00e1 tentando ter filhos, <em>n\u00e3o use testosterona <\/em>(esse horm\u00f4nio j\u00e1 foi abordado <a href=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/farmacologica\/2021\/03\/05\/testosterona-possibilidades-e-desafios-dos-tratamentos-com-hormonios-e-analogos\/\">em outra mat\u00e9ria do farmacoL\u00d3GICA<\/a>).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Outra medica\u00e7\u00e3o conhecida por estar relacionada com anormalidades seminais \u00e9 a finasterida, que faz parte de um grupo de f\u00e1rmacos conhecidos como inibidores da 5\u03b1-redutase. Com a inibi\u00e7\u00e3o desta enzima, um dos produtos da via de forma\u00e7\u00e3o da testosterona end\u00f3gena tem sua forma\u00e7\u00e3o comprometida: a diidrotestosterona. A redu\u00e7\u00e3o desta subst\u00e2ncia em n\u00edveis de circula\u00e7\u00e3o sangu\u00ednea pode causar diminui\u00e7\u00e3o da concentra\u00e7\u00e3o total de espermatozoides no ejaculado em at\u00e9 30%. A finasterida \u00e9 comumente utilizada para tratamento de alopecia e hiperplasia prost\u00e1tica benigna.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em rela\u00e7\u00e3o ao tratamento da press\u00e3o alta, os f\u00e1rmacos da classe dos betabloqueadores tamb\u00e9m podem levar a altera\u00e7\u00f5es na qualidade seminal. Um dos estudos citados no artigo comparou o impacto de diferentes f\u00e1rmacos anti-hipertensivos na qualidade seminal e constatou que pacientes em uso de beta-bloqueadores apresentaram uma significativa diminui\u00e7\u00e3o de concentra\u00e7\u00e3o esperm\u00e1tica e motilidade (n\u00famero de espermatozoides m\u00f3veis), enquanto pacientes que utilizaram f\u00e1rmacos de outras classes, como os inibidores da ECA (enzima conversora de angiotensina), bloqueadores do receptor de angiotensina e bloqueadores de canais de c\u00e1lcio n\u00e3o apresentaram altera\u00e7\u00f5es na qualidade seminal. S\u00e3o exemplos de betabloqueadores o carvedilol, o propranolol, o atenolol e o metoprolol.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Entre as subst\u00e2ncias recreacionais, come\u00e7aremos falando sobre o \u00e1lcool. O seu consumo ocasional n\u00e3o \u00e9 considerado um fator de risco importante; entretanto, sua ingest\u00e3o di\u00e1ria j\u00e1 foi consistentemente associada \u00e0 diminui\u00e7\u00e3o do volume seminal e a uma pior morfologia esperm\u00e1tica (forma dos espermatozoides). J\u00e1 o cigarro afeta negativamente a concentra\u00e7\u00e3o esperm\u00e1tica e tamb\u00e9m a morfologia. Al\u00e9m dessas altera\u00e7\u00f5es, existe uma mais sutil que n\u00e3o pode ser detectada atrav\u00e9s de um simples espermograma: a chamada fragmenta\u00e7\u00e3o de DNA esperm\u00e1tico, que consiste em quebras de fita simples ou dupla no DNA dos espermatozoides. \u00cdndices elevados est\u00e3o associados \u00e0 abortos de repeti\u00e7\u00e3o, e foram associados ao consumo di\u00e1rio de cigarros. Ou seja, quanto maior o consumo, maior o \u00edndice de fragmenta\u00e7\u00e3o de DNA esperm\u00e1tico do paciente. Outra subst\u00e2ncia que tamb\u00e9m pode afetar este \u00edndice \u00e9 a cafe\u00edna. Entretanto, enquanto o cigarro afeta outros par\u00e2metros seminais, a cafe\u00edna parece mant\u00ea-los normais.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Por fim, as drogas il\u00edcitas tamb\u00e9m t\u00eam papel importante na fertilidade masculina. Considerando que grande parte dos consumidores s\u00e3o homens em idade reprodutiva, <em>investigar a hist\u00f3ria pregressa do paciente em rela\u00e7\u00e3o a este assunto \u00e9 de extrema import\u00e2ncia.<\/em> Os <strong>opioides<\/strong>, por exemplo, atuam inibindo o horm\u00f4nio liberador de gonadotrofinas, essencial para a produ\u00e7\u00e3o esperm\u00e1tica. Homens que abusam de tramadol, por exemplo, apresentam menor concentra\u00e7\u00e3o e motilidade progressiva, al\u00e9m de n\u00edveis mais baixos de testosterona, segundo um estudo de 2016 (Farag et al.). J\u00e1 a <strong>coca\u00edna<\/strong>, uma droga de abuso que atua bloqueando o transportador de dopamina (DAT), pode causar diminui\u00e7\u00e3o de motilidade, concentra\u00e7\u00e3o e morfologia segundo um estudo publicado em 1990 que investigou pacientes em uso da droga por mais de 5 anos (Bracken et al.).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O manejo da infertilidade masculina deve, portanto, se basear em diversos pilares, dentre eles o que avalia a utiliza\u00e7\u00e3o de f\u00e1rmacos, drogas de abuso e subst\u00e2ncias recreacionais que podem prejudicar a qualidade seminal. Atualmente, a quantidade de subst\u00e2ncias utilizadas pelos pacientes para tratamento de algum tipo de doen\u00e7a \u00e9 enorme, como conseguimos verificar na pr\u00e1tica laboratorial.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Na cl\u00ednica em que atuo, aplicamos um question\u00e1rio para todos os pacientes que realizam coleta seminal e nele h\u00e1 perguntas relacionadas a esse tema, em que o paciente cita se \u00e9 tabagista, com que frequ\u00eancia consome \u00e1lcool, se faz uso de algum medicamento e se consome algum tipo de droga. Dessa maneira, conseguimos comparar a qualidade seminal com os h\u00e1bitos de vida do paciente, e ter uma ideia do impacto que o uso dessas subst\u00e2ncias pode estar causando no s\u00eamen. Casos mais delicados precisam de orienta\u00e7\u00e3o m\u00e9dica especializada, por isso trabalhamos em contato direto com os m\u00e9dicos urologistas, que avaliam todos os casos para que tenhamos a melhor qualidade seminal poss\u00edvel para a forma\u00e7\u00e3o de um embri\u00e3o e, futuramente, um beb\u00ea saud\u00e1vel.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Se voc\u00ea \u00e9 homem e est\u00e1 tentando ter filhos ou pensa em t\u00ea-los algum dia, fique atento. Seus h\u00e1bitos de vida interferem diretamente na qualidade seminal, bem como diversos f\u00e1rmacos e subst\u00e2ncias com as quais voc\u00ea pode estar em contato, como bem destrinchamos por aqui. A farmacologia e a fertilidade, apesar de n\u00e3o imaginarmos, est\u00e3o mais pr\u00f3ximas do que podemos supor.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator\"\/>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Fontes:<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><a href=\"https:\/\/www.rbmojournal.com\/article\/S1472-6483(21)00483-1\/fulltext\">Chen <em>et al<\/em>. Male fertility as a marker for health. RBMO, 2021.<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Martina Stapenhorst Em um servi\u00e7o de reprodu\u00e7\u00e3o assistida s\u00e3o atendidos diversos casos todos os anos, com causas, diagn\u00f3sticos e tratamentos variados. Considerando que a infertilidade \u00e9 uma condi\u00e7\u00e3o que atinge cerca de 15% dos casais, e que a demanda por servi\u00e7os de fertiliza\u00e7\u00e3o in vitro \u00e9 cada vez maior, precisamos entender as causas de infertilidade e, principalmente, aquelas que podem ser prevenidas ou minimizadas. 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