29 de janeiro marca o dia nacional da visibilidade trans

O dia de hoje é reconhecido, desde 2004, como o Dia Nacional da Visibilidade Trans e marca, no país todo, ações voltadas a saúde, segurança e acessibilidade para pessoas transgênero. Estima-se que, no Brasil, haja cerca de 130 mil indivíduos trans. Na UFRGS, embora haja iniciativas como a Política de Uso de Nome Social, não há muitos dados sobre as pessoas trans na Universidade. Pelos corredores da FCE, encontramos a Isabel Klein, 28, estudante de Ciências Econômicas, e conversamos com ela sobre estudo, carreira profissional e visibilidade trans.

Aos 28 anos de idade, Isabel já construiu uma grande caminhada profissional e acadêmica. Técnica em contabilidade, trabalhou na área por cinco anos, enquanto cursava Engenharia Elétrica na UFRGS, onde ingressou em 2008. A descoberta para a área de Ciências Econômicas surgiu com a aproximação de movimentos estudantis durante a graduação em Engenharia. “Percebi que eu não tinha base para debater [economia e política], e me dei conta de que esse negócio era o que eu queria”, explica. Ela decidiu então cursar duas disciplinas de Ciências Econômicas, o que foi determinante para a decisão de fazer um segundo curso.

Por reconhecer o campo da engenharia como uma área de maior prestígio financeiro do que a economia, Isabel se graduou engenheira em 2014. No ano seguinte, ingressou no curso de Ciências Econômicas, o qual tem encarado de modo mais tranquilo por ter mais interesse em compreender os assuntos do que em concluir rapidamente a graduação: “Eu não vou às aulas só para pegar o diploma. Eu vou porque é aquele assunto de brilhar os olhinhos, sabe?”, comenta.

No tempo livre, Isabel gosta de escrever para o blog Campos de morango para sempre, que mantém desde 2007. Estudando no turno da noite, ela concilia as atividades acadêmicas com o trabalho na Companhia Riograndense de Saneamento (Corsan). Na Companhia, aprovada por concurso em 2014, assumiu o cargo de engenheira eletricista do Departamento de Eficiência Energética, e sempre busca traçar uma interface com a Economia no trabalho. Ela conta que a economia lhe dá noções bem mais amplas, que contribuem para a elaboração de projetos de eficiência energética, nos quais aplica, por exemplo, conceitos de econometria.

Questionada sobre a sua impressão de como a economia enxerga a população trans, Isabel destaca a dificuldade de essa discussão se inserir de fato nos espaços porque diz respeito a uma parcela da população invisível, que ainda vive à margem, o que afeta diretamente a existência de registros oficiais e de dados estatísticos. Ela ressalta que muitas questões relativas à área devem começar a surgir daqui a alguns anos, como, por exemplo, a previdência.

Isabel reconhece a educação como o grande mecanismo de mobilidade social, e lembra que seu lugar como mulher trans universitária é exceção entre as pessoas do seu grupo social. “Quando eu ouço coisas como ‘vamos ter cotas para pessoas trans na pós-graduação’, como existem na Universidade Federal da Bahia, penso em quantas pessoas trans concluem o ensino superior. Parece que vem sempre a galinha na frente do ovo, sabe? Tu precisas de educação básica que permita que as pessoas progridam”. A estudante diz que, apesar de também ter enfrentado situações de discriminação no campo profissional e inclusive dentro da universidade, muitos fatores específicos e pessoais permitiram que sua trajetória fosse tão longe, mas sabe que a maioria das pessoas trans não conclui sequer o Ensino Médio.

Isabel, que foi uma das proponentes da Portaria que regula o uso do nome social na UFRGS em 2013, explica que o processo foi longo. Um dos motivos que a fez optar por fazer a formatura do curso de Engenharia Elétrica em gabinete foi justamente por não poder utilizar o nome social na época: “Não queria que lembrassem de mim como uma pessoa que eu não era”. Para fazer a alteração posterior no diploma, Isabel contou com o trabalho do Serviço de Assessoria Jurídica Universitária da UFRGS (SAJU), cujo auxílio ela considerou de extrema importância.

Mesmo que sejam criadas outras políticas que facilitem o uso do nome social, Isabel considera essencial a continuidade de estatutos que permitam o uso do nome social na universidade. “O processo de uma pessoa trans não é linear, como pode parecer às vezes. Existem momentos de repressão e momentos exacerbados, até a pessoa se encontrar nesse caminho. Então, tem que ter esses estatutos pra que a pessoa saiba que pode ingressar como qualquer outra pessoa sem se preocupar”.

Quanto ao Dia Nacional da Visibilidade Trans, Isabel considera que, apesar de a data ter perdido certa força com uma grande dispersão de informações, nem sempre válidas, nas redes sociais, continua sendo importante ter um dia fixo marcado porque estimula as pessoas a buscarem informações e a entenderem uma parcela oprimida da população. Para ela, o que reforça a manutenção de discriminações, que ela relata ter vivenciado de colegas de faculdade, inclusive, é a falta de contato com a realidade da população trans por pessoas cis. Isabel, que compreende que ser uma pessoa trans não é mais central em sua vida e sim apenas mais uma característica componente da sua singularidade, acredita que quem estiver aberto a conhecer de verdade as pessoas trans, certamente será capaz de dar o tratamento que deve ser dado a qualquer pessoa.

 

 

Serviços para pessoas trans na UFRGS

Serviço de Assessoria Jurídica Universitária (SAJU) – engloba o Grupo G8 – Generalizando, grupo temático que trabalha com assessoria jurídica a questões que envolvem gênero e sexualidade, tendo como público-alvo a população LGBT+ e mulheres em situação de vulnerabilidade socioeconômica. Contatos pelo telefone 51 3308.3967, pelo e-mail  g8generalizando@gmail.com ou presencialmente na sede do SAJU (Av. João Pessoa, 80).

Centro Interdisciplinar de Pesquisa e Atenção à Saúde da UFRGS (CIPAS) – órgão auxiliar do Instituto de Psicologia que tem como um de seus programas o Centro de Referência em Direitos Humanos: Relações de Gênero, Diversidade Sexual e Raça (CRDH / NUPSEX). O CIPAS realiza acolhimento e orientação a pessoas em situação de vulnerabilidade por discriminação relacionada a gênero, sexualidade, identidade de gênero e raça. Contatos pelo telefone 51 3308.5453, pelo e-mail cipas@ufrgs.br ou no Anexo I da Saúde (R. Ramiro Barcelos, 2777, sala 314).

Nome social – Na UFRGS, é garantida desde 2015, para estudantes e servidores, a possibilidade de uso e de inclusão do nome social nos registros acadêmicos ou funcionais.

TransENEM – Contando com a participação de muitos estudantes da UFRGS (embora não oficialmente ligado à Universidade), o Coletivo pela Educação Popular TransENEM oferece curso popular gratuito pré-ENCCEJA para mulheres travestis e pessoas trans (binárias e não-binárias), sendo LGB inclusiv.

Foto: Comunicação/FCE

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