{"id":16528,"date":"2020-03-26T14:50:18","date_gmt":"2020-03-26T17:50:18","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ufrgs.br\/fce\/?p=16528"},"modified":"2020-04-22T17:22:28","modified_gmt":"2020-04-22T20:22:28","slug":"sobre-como-a-gestao-economica-pode-alavancar-desastres","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufrgs.br\/fce\/sobre-como-a-gestao-economica-pode-alavancar-desastres\/","title":{"rendered":"Sobre como a gest\u00e3o econ\u00f4mica pode alavancar desastres"},"content":{"rendered":"<p><em>Por Ricardo Dathein, professor do Departamento de Economia e Rela\u00e7\u00f5es Internacionais da UFRGS<\/em><\/p>\n<p>Mike Davis, em seu brilhante e premiado livro Holocaustos Coloniais, descreve como na China transformada em semicol\u00f4nia pela Gr\u00e3-Bretanha desastres ambientais passaram a causar muito mais mortes. A culpa passou a ser creditada \u00e0 natureza, em um contexto malthusiano, segundo os brit\u00e2nicos. No entanto, antes disso, os mesmos desastres ambientais causavam muito menos danos humanit\u00e1rios, pela a\u00e7\u00e3o estatal em termos de irriga\u00e7\u00e3o, drenagens, reflorestamento e armazenamento de gr\u00e3os. A diferen\u00e7a \u00e9 que com a chegada dos brit\u00e2nicos essas capacidades estatais foram destru\u00eddas.<\/p>\n<p>Na It\u00e1lia, entre 1960 e 1989, o PIB <em>per capita<\/em> cresceu em m\u00e9dia 3,5% ao ano. No per\u00edodo seguinte, de hegemonia internacional do neoliberalismo, essa mesma m\u00e9dia foi de apenas 0,6% ao ano, entre 1990 e 2018. A varia\u00e7\u00e3o na produtividade do trabalho, para esses mesmos per\u00edodos, passou de 3,8% para apenas 0,4% ao ano, respectivamente (<em>Groningen Total Economy Database<\/em>). J\u00e1 a distribui\u00e7\u00e3o de renda, segundo o <em>World Inequality Database<\/em>, concentrou-se nesse \u00faltimo per\u00edodo. Entre 1990 e 2016, os 50% da popula\u00e7\u00e3o com menor renda tiveram sua parcela reduzida de 30,6% para 27,2% (menos 3,4 pontos percentuais), enquanto os 10% de maior renda aumentaram sua participa\u00e7\u00e3o de 23,1% para 25,8% (mais 2,7 pontos percentuais), com dados ap\u00f3s os impostos. J\u00e1 o 1% de maior renda aumentou sua participa\u00e7\u00e3o de 6,1% para 7,5% (1,4 ponto percentual a mais), para dados antes dos impostos.<\/p>\n<p>Resultados semelhantes s\u00e3o bastante comuns entre pa\u00edses desenvolvidos e da Am\u00e9rica Latina. Portanto, o resultado econ\u00f4mico e social do neoliberalismo \u00e9 francamente negativo. Esse sistema de gest\u00e3o econ\u00f4mica produz n\u00e3o apenas maior concentra\u00e7\u00e3o de renda, mas tamb\u00e9m menos efici\u00eancia em termos de desempenho macroecon\u00f4mico. Ou seja, muito menor crescimento e constantes press\u00f5es fiscais, de forma que torna \u201cnecess\u00e1ria\u201d a austeridade quase permanentemente. Isso piora as condi\u00e7\u00f5es sociais, pois, ademais da concentra\u00e7\u00e3o de renda, agora somam-se os baixos investimentos sociais e econ\u00f4micos por parte do novo Estado, tendencialmente m\u00ednimo. Os baixos crescimentos do PIB demonstram a insufici\u00eancia dos investimentos produtivos, determinados por uma menor taxa de lucro. E, para compensar o fraco dinamismo da taxa de lucro desse sistema sem Estado ativo, promove-se a concentra\u00e7\u00e3o de renda.<\/p>\n<p>Esses dois efeitos, concentra\u00e7\u00e3o de renda e baixo crescimento, ocorrem concomitantemente, porque, em um sistema de Estado m\u00ednimo, destr\u00f3i-se a participa\u00e7\u00e3o do Estado na economia, que \u00e9 uma caracter\u00edstica intr\u00ednseca em uma economia capitalista. Sem isso, a gest\u00e3o do Estado torna-se fortemente viesada aos interesses de apenas uma classe. As rela\u00e7\u00f5es sociais, portanto, passam a n\u00e3o cumprir adequadamente seu papel positivo ao pr\u00f3prio capitalismo. Desse modo, um agente essencial garantidor de freios e contrapesos \u00e9 bloqueado. Al\u00e9m disso, \u00e9 eliminada do Estado sua autonomia e sua capacidade de elabora\u00e7\u00e3o de projetos (tecnol\u00f3gicos, institucionais e sociais) de longo prazo, suprimindo suas fun\u00e7\u00f5es essenciais geradoras de parcerias e coopera\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A It\u00e1lia, especificamente, passou por uma a\u00e7\u00e3o jur\u00eddica de combate \u00e0 corrup\u00e7\u00e3o que destruiu seu sistema pol\u00edtico da \u00e9poca anterior ao neoliberalismo. Isso abriu caminho na pol\u00edtica a empres\u00e1rios, personalidades da m\u00eddia e oportunistas. Essas pessoas em geral n\u00e3o possuem as capacidades requeridas para gerir o Estado, com uma vis\u00e3o de \u201cteoria econ\u00f4mica de dona de casa\u201d. Nesse caso, quem nada sabe fazer, delega tudo ao mercado.<\/p>\n<p>Como o conjunto da economia, tamb\u00e9m o sistema de sa\u00fade passou a ser gerido segundo o conceito econ\u00f4mico de efici\u00eancia alocativa. Por exemplo, em v\u00e1rios pa\u00edses desenvolvidos leitos hospitalares foram eliminados em massa, para se gerar alta taxa de ocupa\u00e7\u00e3o e maior rentabilidade aos acionistas. Tamb\u00e9m s\u00e3o conhecidas as prioridades lucrativas do setor farmac\u00eautico privado, subinvestindo em rem\u00e9dios e vacinas menos rent\u00e1veis. Essa l\u00f3gica tamb\u00e9m passou a ser usada no setor p\u00fablico, com a vis\u00e3o empresarial do Estado. Nesse \u00faltimo caso, al\u00e9m disso, constrangido quase permanentemente pelas pol\u00edticas de austeridade, ao mesmo tempo em que tinha que assumir a atendimento recusado pelo setor privado.<\/p>\n<p>Essa l\u00f3gica de gest\u00e3o econ\u00f4mica n\u00e3o leva em conta que o conceito de efici\u00eancia alocativa \u00e9 est\u00e1tico, possuindo em geral <em>trade offs<\/em> com a efici\u00eancia din\u00e2mica inovativa e de inser\u00e7\u00e3o nos mercados internacionais. Logo, tamb\u00e9m com o desempenho econ\u00f4mico e social de longo prazo. Os resultados concretos s\u00e3o, portanto, plenamente previs\u00edveis sob an\u00e1lises te\u00f3ricas n\u00e3o liberais. O fraco dinamismo econ\u00f4mico e a concentra\u00e7\u00e3o de renda, a desestrutura\u00e7\u00e3o das estruturas econ\u00f4micas e sociais anteriores, ap\u00f3s as experi\u00eancias fracassadas com os \u201cempres\u00e1rios\u201d na pol\u00edtica, v\u00e3o tamb\u00e9m abrindo caminho para o fascismo. A an\u00e1lise de Karl Polanyi, infelizmente mais uma vez, cabe como uma luva. A sa\u00fade sendo gerida como uma mercadoria e n\u00e3o como um direito social b\u00e1sico de todos amplifica fortemente os desastres aparentemente naturais.<\/p>\n<p>Essa administra\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica, baseada em conceitos est\u00e1ticos ou de curto prazo, em conjunto com a austeridade quase permanente, produz a escassez, gerando desastres no longo prazo. N\u00e3o por acaso, de forma an\u00e1loga ao da China no s\u00e9culo XIX.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Ricardo Dathein, professor do Departamento de Economia e Rela\u00e7\u00f5es Internacionais da UFRGS<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"fifu_image_url":"","fifu_image_alt":"","footnotes":"","_links_to":"","_links_to_target":""},"categories":[438],"tags":[445],"class_list":["post-16528","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-analise","tag-artigo"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/fce\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/16528","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/fce\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/fce\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/fce\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/fce\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=16528"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/fce\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/16528\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/fce\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=16528"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/fce\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=16528"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/fce\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=16528"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}