{"id":16661,"date":"2020-04-06T16:36:02","date_gmt":"2020-04-06T19:36:02","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ufrgs.br\/fce\/?p=16661"},"modified":"2020-04-22T17:22:26","modified_gmt":"2020-04-22T20:22:26","slug":"a-pandemia-cobra-a-autocritica-dos-liberais","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufrgs.br\/fce\/a-pandemia-cobra-a-autocritica-dos-liberais\/","title":{"rendered":"A pandemia cobra a autocr\u00edtica dos liberais"},"content":{"rendered":"<p><em>Por R\u00f3ber Iturriet Avila, professor de Economia da UFRGS<\/em><\/p>\n<p>Desde 2015, a economia brasileira est\u00e1 em recess\u00e3o ou em estagna\u00e7\u00e3o. A narrativa hegem\u00f4nica para tal desempenho \u00e9 a de que o governo havia excedido gastos nos per\u00edodos anteriores e que seria necess\u00e1rio reequilibrar as despesas p\u00fablicas.<\/p>\n<p>A concep\u00e7\u00e3o convencional da economia sugeria que o ajuste fiscal do ent\u00e3o Ministro da Fazenda, Joaquim Levy, seria capaz de aumentar a confian\u00e7a empresarial, trazendo crescimento econ\u00f4mico no segundo semestre de 2015. O fracasso dos resultados foi justificado com a suposta insufici\u00eancia do corte de gastos, mesmo sendo esse o maior registrado no presente s\u00e9culo.<\/p>\n<p>Frente ao insucesso, uma nova alternativa surgiu: a confian\u00e7a dos empres\u00e1rios voltaria a crescer em um novo governo. Com Michel Temer, a gl\u00f3ria vindoura seria obtida atrav\u00e9s da aprova\u00e7\u00e3o de uma emenda constitucional com um teto de gastos p\u00fablicos, a qual devolveria a credibilidade e, assim, traria confian\u00e7a. O efeito <em>crowding out<\/em> geraria uma competi\u00e7\u00e3o de cr\u00e9dito entre o setor p\u00fablico e o privado. Dessa maneira, com menor d\u00e9ficit p\u00fablico, haveria mais cr\u00e9dito ao setor privado. Entretanto, os gastos p\u00fablicos persistiram a contribuir negativamente para a atividade econ\u00f4mica, n\u00e3o recuperando suficientemente a arrecada\u00e7\u00e3o e aumentando o n\u00edvel de endividamento devido \u00e0 retra\u00e7\u00e3o do PIB.<\/p>\n<p>Mais tarde, a reforma trabalhista seria a solu\u00e7\u00e3o para a gera\u00e7\u00e3o de empregos e da retomada da atividade econ\u00f4mica. Contudo, passados dois anos de sua aprova\u00e7\u00e3o, n\u00e3o se observou retomada de crescimento e tampouco de empregos. Em 2019, a salva\u00e7\u00e3o de todos os males seria a reforma da previd\u00eancia, que tamb\u00e9m foi aprovada, mas foi incapaz de gerar crescimento econ\u00f4mico, como prometido.<\/p>\n<p>A despeito de todas as medidas convencionais sugeridas para dinamizar a economia, n\u00e3o houve recupera\u00e7\u00e3o. O n\u00edvel de renda per capita de 2014 deve demorar alguns anos para ser novamente atingido. A conjuntura brasileira j\u00e1 era de uma insufici\u00eancia de demanda, por conta do alto desemprego e do aumento das desigualdades, que impediam a retomada vigorosa do consumo.<\/p>\n<p>Eis que no meio do caminho havia uma pandemia. Mundo afora, as pol\u00edticas fiscais e monet\u00e1rias foram contundentes: o Estado precisava agir fortemente. A primeira rea\u00e7\u00e3o do Ministro Paulo Guedes foi afirmar que a reforma administrativa e a PEC emergencial seriam capazes de fazer a economia retomar. Uma cabal demonstra\u00e7\u00e3o de desconex\u00e3o da realidade.<\/p>\n<p>Ministro esse que afirmava que o \u201cBrasil est\u00e1 quebrado\u201d, \u201co dinheiro acabou\u201d e outras declara\u00e7\u00f5es que deseducam a popula\u00e7\u00e3o e desrespeitam o conhecimento dos economistas, os quais sabem que o Brasil n\u00e3o est\u00e1 quebrado, pois possui reservas internacionais e que o dinheiro n\u00e3o \u201cacabou\u201d. Prova disso \u00e9 que ele reapareceu ap\u00f3s a press\u00e3o pol\u00edtica para uma a\u00e7\u00e3o mais intensa do governo federal.<\/p>\n<p>Em situa\u00e7\u00f5es como a que nos encontramos, o Estado tem que intervir fortemente: para manter a renda, os empregos, a produ\u00e7\u00e3o, as empresas e a vida. Sem uma a\u00e7\u00e3o ativa do Estado, teremos uma depress\u00e3o econ\u00f4mica, desemprego em massa, quebradeira generalizada, mis\u00e9ria crescente, fuga de capitais e mortes em s\u00e9rie.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s anos sucessivos de redu\u00e7\u00e3o de investimentos em sa\u00fade, em pesquisa, na ci\u00eancia, nas universidades e retra\u00e7\u00e3o dos bancos p\u00fablicos, essas s\u00e3o as \u00fanicas alternativas para restringir o impacto do que vem pela frente. Precisamos de Estado como em poucas vezes na nossa hist\u00f3ria. Eis o momento de nossos ilustres liberais admitirem que n\u00e3o apenas os resultados das pol\u00edticas implementadas no passado n\u00e3o surtiram o efeito na atividade econ\u00f4mica, como nos colocaram num quadro muito mais dram\u00e1tico: os cortes efetuados nos cobrar\u00e3o em vidas perdidas.<\/p>\n<p>Do ponto de vista do fluxo de capitais, a compreens\u00e3o liberal nos argumenta que a liberaliza\u00e7\u00e3o \u00e9 capaz de atrair investimentos externos, j\u00e1 que os agentes passariam a confiar mais no Pa\u00eds. Pois nos \u00faltimos dez meses, mesmo antes da pandemia, nossas reservas internacionais perderam mais de US$ 40 bilh\u00f5es. Eis uma cifra que \u00e9 capaz de quebrar, agora verdadeiramente, um pa\u00eds, n\u00e3o fosse o ac\u00famulo pregresso. N\u00e3o \u00e9 a primeira vez na nossa hist\u00f3ria que a ilus\u00e3o liberal viabiliza a fuga em massa. Durante a Segunda Guerra Mundial, o Brasil conseguiu acumular algum volume de reservas. Em 1947, a liberaliza\u00e7\u00e3o cambial do Governo Dutra prometia atrair fluxo de capitais. Apenas dois anos depois, as reservas desapareceram e o Pa\u00eds teve que apelar \u00e0 d\u00edvida externa.<\/p>\n<p>A ilus\u00e3o liberal traz o dogma de que o mercado \u00e9 sempre o melhor arranjo produtivo. Por que produzir tudo, se podemos importar de quem \u00e9 mais eficiente? Podemos importar respiradores e m\u00e1scaras, n\u00e3o \u00e9 verdade? Eis que a pandemia nos prova que n\u00e3o. Que os pa\u00edses ditos liberais s\u00e3o capazes de sequestrar importa\u00e7\u00f5es e impedir exporta\u00e7\u00f5es. O Estado alheio atua e cobra mais vidas brasileiras.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s alguns anos de dom\u00ednio dos liberais nas narrativas no Brasil, seu fracasso se imp\u00f5e. Nunca precisamos de tanto de Estado: sa\u00fade, pesquisa, ci\u00eancia, bancos p\u00fablicos, cr\u00e9dito subsidiado, renda m\u00ednima, controle de capitais, aquisi\u00e7\u00e3o de equipamentos m\u00e9dicos, coordena\u00e7\u00e3o de cadeias produtivas para evitar escassez de produtos b\u00e1sicos etc. A realidade explicita que o Estado \u00e9 fundamental para a sociedade e que o mercado falha nos momentos em que mais precisamos. O alento \u00e9 que em breve chegar\u00e1 a autocr\u00edtica liberal.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por R\u00f3ber Iturriet Avila, professor de Economia da UFRGS<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"fifu_image_url":"","fifu_image_alt":"","footnotes":"","_links_to":"","_links_to_target":""},"categories":[438],"tags":[445],"class_list":["post-16661","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-analise","tag-artigo"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/fce\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/16661","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/fce\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/fce\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/fce\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/fce\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=16661"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/fce\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/16661\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/fce\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=16661"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/fce\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=16661"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/fce\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=16661"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}