{"id":16665,"date":"2020-04-07T14:04:11","date_gmt":"2020-04-07T17:04:11","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ufrgs.br\/fce\/?p=16665"},"modified":"2020-04-22T17:22:26","modified_gmt":"2020-04-22T20:22:26","slug":"um-trilhao-de-arvores","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufrgs.br\/fce\/um-trilhao-de-arvores\/","title":{"rendered":"Um trilh\u00e3o de \u00e1rvores"},"content":{"rendered":"<p><em>Por Duilio de Avila Berni e Adalmir Marquetti, respectivamente, professor aposentado da FCE\/UFRGS e professor da PUCRS<\/em><\/p>\n<p>Em janeiro do ano corrente, os potentados mundiais presentes na reuni\u00e3o de Davos cogitaram de encaminhar a solu\u00e7\u00e3o para os problemas ambientais planet\u00e1rios com a planta\u00e7\u00e3o de um trilh\u00e3o de \u00e1rvores. Projetos semelhantes ainda mais ousados falam em 1,2 trilh\u00f5es. N\u00e3o sabemos se esses dirigentes corro\u00eddos pelo v\u00edrus da cren\u00e7a no estado m\u00ednimo teriam estofo para falar num projeto desta envergadura, dadas suas enormes implica\u00e7\u00f5es sobre o emprego, ou seja, sobre a desigualdade econ\u00f4mica. Ainda assim, tal empreendimento mostra-se cada vez mais urgente e, nos dias que correm, corro\u00eddos que somos pelo v\u00edrus COVID-19, pode ser que a virada estrutural que leve o planeta para uma rela\u00e7\u00e3o mais amig\u00e1vel com seu meio-ambiente, inclusive a fauna humana, esteja mesmo prestes a iniciar.<\/p>\n<p>H\u00e1 in\u00fameras quest\u00f5es econ\u00f4micas que a agora fora de moda an\u00e1lise de custo-benef\u00edcio deveria enfrentar. Mas, mesmo sem ela, podemos compulsar meia d\u00fazia de cifras, a fim de dar uma ideia da enorme abrang\u00eancia e determinadas consequ\u00eancias de tal empreitada. Obviamente a muda de cada \u00e1rvore \u00e9 uma teia de rela\u00e7\u00f5es biol\u00f3gicas e, at\u00e9 mais importante, de trabalho social cristalizado nessa forma. Enorme quantidade de trabalhadores e de outros insumos ser\u00e3o requeridos para o sucesso, orientando o vi\u00e9s igualitarista do projeto, uma vez que o emprego \u00e9 a vari\u00e1vel chave da sociedade igualit\u00e1ria. Al\u00e9m do trabalho, o recurso mais evidente \u00e9 o pr\u00f3prio solo onde as mudas ser\u00e3o plantadas. A fra\u00e7\u00e3o do planeta a ser ocupada montar\u00e1 a qual cifra?<\/p>\n<p>Para balizar a discuss\u00e3o, vamos considerar esses 1,2 trilh\u00f5es referidos pelo Instituto Brasileiro de Florestas. Para responder a quest\u00e3o, precisamos saber qual a \u00e1rea que cada \u00e1rvore vai ocupar. Ficando em nosso tradicional eucalipto, uma \u00e1rvore adulta ir\u00e1 ocupar uma \u00e1rea de cerca de 20 m<sup>2<\/sup>. Se essa flora trilion\u00e1ria requeresse a mesma \u00e1rea, seriam utilizados 24 milh\u00f5es de km<sup>2<\/sup>. Mesmo os maiores pa\u00edses do mundo, R\u00fassia, China, Estados Unidos, Brasil, n\u00e3o disp\u00f5em individualmente de territ\u00f3rio para tal demanda. Em particular, seria necess\u00e1ria a \u00e1rea de quase tr\u00eas Brasis para dar conta dessa carga preciosa.<\/p>\n<p>H\u00e1, entretanto, boas not\u00edcias no <em>front<\/em>, como \u00e9 o da ocupa\u00e7\u00e3o dos desertos, destacando o Saara, que tem 9 milh\u00f5es de km<sup>2<\/sup>, caso seu len\u00e7ol fre\u00e1tico seja acess\u00edvel. Maior que o Brasil, apenas ele j\u00e1 encaminha mais de um ter\u00e7o da quest\u00e3o. Ent\u00e3o h\u00e1 sa\u00eddas, haveria sa\u00eddas mesmo sem usar as terras hoje ocupadas, descontadas as terras devolutas e outras fra\u00e7\u00f5es que n\u00e3o s\u00e3o, mas deveriam ser ocupadas, como \u00e9 o caso das matas ciliares. Al\u00e9m delas e do deserto do Saara, h\u00e1 outros mais distribu\u00eddos por outros locais, como o de Alegrete, da \u00c1sia, da Austr\u00e1lia e dos Estados Unidos. No caso <strong><em>do<\/em><\/strong> Alegrete, fala-se em uma \u00e1rea deserta de cerca de 200ha. Esses 2km\u00b2 d\u00e3o uma contribui\u00e7\u00e3o importante, important\u00edssima, no n\u00edvel dos afetos tel\u00faricos. Al\u00e9m dela, o Brasil tem boa contribui\u00e7\u00e3o a dar, inclusive refazendo a Floresta Amaz\u00f4nica, do mesmo jeito que a Alemanha refez a Floresta Negra depois da II Guerra Mundial e implementando projetos de recupera\u00e7\u00e3o-implanta\u00e7\u00e3o da mata protetora de suas \u00e1guas internas. De fato, talvez gastando boa parte desses 24 milh\u00f5es de km<sup>2<\/sup>, destacamos a arboriza\u00e7\u00e3o da mata ciliar de todo o planeta, ao lado da consorcia\u00e7\u00e3o com cultivos vegetais e animais.<\/p>\n<p>Diz a professora Cristina Bonorino em fascinante defesa da Amaz\u00f4nia que:<\/p>\n<p><em>As \u00e1rvores da Floresta Amaz\u00f4nica funcionam como g\u00eaiseres. Elas retiram a \u00e1gua do solo e a transportam por seus finos capilares para as folhas, que a devolvem para o ar. Esse processo de vaporiza\u00e7\u00e3o cria um rio flutuante, que \u00e9 maior que o pr\u00f3prio Rio Amazonas. Ele pode ser visto do espa\u00e7o \u2013 s\u00e3o 20 bilh\u00f5es de toneladas d\u2019\u00e1gua. Seriam necess\u00e1rias 50 mil Itaipus para gerar a energia capaz de realizar esse feito<\/em>.<\/p>\n<p>Multiplicando esses 20 bilh\u00f5es de toneladas d\u2019\u00e1gua pelo fator adequado, podemos imaginar o manancial que se distribuir\u00e1 praticamente por todo o planeta. Com efeito, parece haver consequ\u00eancias impressionantes do plantio das 1,2 trilh\u00f5es de esp\u00e9cies que dever\u00e3o ocupar mais de quase cinco vezes a \u00e1rea da Amaz\u00f4nia, ou 200 bilh\u00f5es de toneladas d\u2019\u00e1gua. A mudan\u00e7a planet\u00e1ria poder\u00e1 ocorrer num sentido muito mais ben\u00e9volo que o hoje associado \u00e0 defesa do estado m\u00ednimo. Esta vis\u00e3o de mundo, com efeito, vem sendo sepultada depois da rebeli\u00e3o epitomada pelo povo chileno e, especialmente, nos dias que correm, da amea\u00e7a do novo corona v\u00edrus (o Covid-19).<\/p>\n<p>Dada a dimens\u00e3o e implica\u00e7\u00f5es cicl\u00f3picas do projeto, a quest\u00e3o central diz respeito \u00e0 origem dos recursos monet\u00e1rios para financiar toda a atividade. Felizmente, um projeto desse alcance pode ser implementado com tecnologias intensivas em m\u00e3o-de-obra, ali\u00e1s, uma consequ\u00eancia ben\u00e9vola para a transforma\u00e7\u00e3o de um enorme estoque de trabalhadores prec\u00e1rios em trabalhadores formais. Usando um coeficiente estimado de R$ 9.000 para o plantio e os cuidados pela m\u00e3o-de-obra durante o primeiro ano, v\u00e3o-se montes de recursos, em torno de R$ 21,6 trilh\u00f5es de reais, uns 40% a mais que o PIB brasileiro medido em poder de paridade de compra.<\/p>\n<p>Sorte que n\u00e3o \u00e9 responsabilidade brasileira o financiamento exclusivo de todo o trilh\u00e3o de \u00e1rvores. Dada a magnitude do volume de recursos necess\u00e1rios a esse reflorestamento e a sua inevit\u00e1vel propriedade coletiva, chegou a hora da cria\u00e7\u00e3o e implementa\u00e7\u00e3o da chamada Taxa Tobin, digamos cinco por cento do PIB mundial, com as contribui\u00e7\u00f5es de estados nacionais e cobran\u00e7a sobre as movimenta\u00e7\u00f5es financeiras internacionais.<\/p>\n<p>Parece mesmo que o mundo estava esperando amadurecer para poder implementar pol\u00edticas tribut\u00e1rias associadas a outras que sejam geradoras de trabalho decente, voltadas a absorver os enormes excedentes populacionais detentores de escasso estoque de capital humano. Nesse projeto, obviamente, tem-se a oportunidade de adensar esse estoque por todos os rinc\u00f5es do planeta.<\/p>\n<p>Dada a crescente possibilidade de novas pandemias, parece \u00f3bvio que pessoas levando vidas decentes ter\u00e3o mais sa\u00fade e educa\u00e7\u00e3o, mais servi\u00e7os de sa\u00fade p\u00fablica e expans\u00e3o das redes hospitalares. O planeta enfrenta, mais que nunca, a necessidade de a\u00e7\u00f5es voltadas \u00e0 promo\u00e7\u00e3o da sa\u00fade cuidando da \u00e1gua pot\u00e1vel, do saneamento, das favelas e outras moradias prec\u00e1rias, al\u00e9m de acabar com os maus tratos hoje dispensados a doentes e presidi\u00e1rios.<\/p>\n<p>Na lapela do blog Planeta 23, assinado pelo primeiro autor deste artigo, l\u00ea-se que uma sa\u00edda para o reaproveitamento ocupacional das massas de desvalidos distribu\u00eddas por todo o planeta e incrementar-lhes o conte\u00fado de capital humano, emerge de um programa de treinamento que contemple:<\/p>\n<p>_1 tr\u00eas horas de gin\u00e1stica por dia (para manter a coluna ereta),<\/p>\n<p>_2 tr\u00eas horas de aula por dia (para manter a mente quieta) e<\/p>\n<p>_3 tr\u00eas horas de trabalho comunit\u00e1rio por dia (para manter o cora\u00e7\u00e3o tranquilo).<\/p>\n<p>Uma pegada um tanto budista, admitimos, que tem a vantagem de oferecer um tipo de ocupa\u00e7\u00e3o fadada a varrer o excedente de oferta de m\u00e3o-de-obra em todos os segmentos do mercado de trabalho.<\/p>\n<p>Esses empregos de expedientes de nove horas di\u00e1rias claramente devem associar-se \u00e0 institui\u00e7\u00e3o da renda b\u00e1sica universal, que tem recebido crescente ades\u00e3o por alguns pa\u00edses. O Brasil, em 2004, criou a lei 10.835 instituindo-a, mas terr\u00edveis circunst\u00e2ncias impediram-lhe a implementa\u00e7\u00e3o. Uma vez que, como a verdadeira renda b\u00e1sica n\u00e3o se chama nem mesmo de bolsa fam\u00edlia, \u00e9 razo\u00e1vel pensarmos que as atividades produtivas, em particular, a planta\u00e7\u00e3o e os cuidados com a flora, requerem uma remunera\u00e7\u00e3o adicional, engajando os interessados num servi\u00e7o municipal planet\u00e1rio.<\/p>\n<p>No presente est\u00e1gio da vida planet\u00e1ria, a OMS est\u00e1 funcionando como um verdadeiro avatar do governo mundial, ainda que essa tend\u00eancia \u00e0 universaliza\u00e7\u00e3o j\u00e1 se perceba em experi\u00eancias correntes, com a Interpol, o BIS (e a lavagem de dinheiro), a Comiss\u00e3o de Energia Nuclear, a ONU, a federa\u00e7\u00e3o internacional das confedera\u00e7\u00f5es nacionais de futebol, e outras iniciativas no campo esportivo, sem falar nas atividades ilegais. Dando um mergulho mais frontal na economia normativa, devemos concluir expressando o sonho que fa\u00e7a essas iniciativas de universaliza\u00e7\u00e3o prosperar e tamb\u00e9m que uma social-democracia de novos contornos sepulte para sempre o pensamento defensor do estado m\u00ednimo.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Duilio de Avila Berni e Adalmir Marquetti, respectivamente, professor aposentado da FCE\/UFRGS e professor da PUCRS<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"fifu_image_url":"","fifu_image_alt":"","footnotes":"","_links_to":"","_links_to_target":""},"categories":[438],"tags":[445],"class_list":["post-16665","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-analise","tag-artigo"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/fce\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/16665","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/fce\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/fce\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/fce\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/fce\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=16665"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/fce\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/16665\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/fce\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=16665"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/fce\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=16665"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/fce\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=16665"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}