{"id":16742,"date":"2020-04-13T13:23:39","date_gmt":"2020-04-13T16:23:39","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ufrgs.br\/fce\/?p=16742"},"modified":"2020-04-22T17:22:25","modified_gmt":"2020-04-22T20:22:25","slug":"eua-versus-china-sera-a-covid-19-determinante-para-definicoes-geopoliticas-internacionais","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufrgs.br\/fce\/eua-versus-china-sera-a-covid-19-determinante-para-definicoes-geopoliticas-internacionais\/","title":{"rendered":"EUA versus China: ser\u00e1 a Covid-19 determinante para defini\u00e7\u00f5es geopol\u00edticas internacionais?"},"content":{"rendered":"<p><em>Por Ricardo Dathein, professor da Faculdade de Ci\u00eancias Econ\u00f4micas da UFRGS<\/em><\/p>\n<p>A partir do governo Trump acentuou-se a disputa econ\u00f4mica e geopol\u00edtica entre EUA e China. Agora, durante a pandemia causada pelo Coronav\u00edrus, essa quest\u00e3o se recoloca em novo patamar. O desempenho econ\u00f4mico da China, apesar de em geral ainda n\u00e3o alcan\u00e7ar o dos EUA, apresenta tend\u00eancia de aproxima\u00e7\u00e3o ou talvez at\u00e9 ultrapassagem. Tendo em vista a hist\u00f3ria milenar de pot\u00eancia da China, \u00e9 natural que haja temores nos EUA. Nesse caso, parece que se transita de um vi\u00e9s de coopera\u00e7\u00e3o para outro de disputa interestatal, predominantemente.<\/p>\n<p>A China tem um sistema de planejamento que possui bases hist\u00f3ricas, mesmo antes da revolu\u00e7\u00e3o de 1949. Ap\u00f3s a abertura da economia ao mercado, a partir de 1978, esse sistema de planejamento continuou presente e forte, sempre com foco no longo prazo. Os planos quinquenais iniciaram-se em 1953 e em 2020 se conclui o d\u00e9cimo terceiro plano (2016-2020), o qual possui como principal objetivo a cria\u00e7\u00e3o de uma \u201csociedade moderadamente pr\u00f3spera\u201d, com focos em inova\u00e7\u00e3o, meio ambiente (e \u201ctecnologia ambiental\u201d), bem-estar social (\u201ccompartilhar os frutos do crescimento econ\u00f4mico\u201d) e coopera\u00e7\u00e3o internacional.<\/p>\n<p>Nos anos 1990, o governo chin\u00eas resolveu estimular a forma\u00e7\u00e3o de grandes conglomerados de empresas. Em 1991, selecionaram-se 57 empresas estatais, chamados de <em>trial groups<\/em>, ampliando-se em 1994 para 100 e em 1997 para 120 firmas-piloto, entre as maiores em cada setor, com o objetivo de as transformar em conglomerados, compondo o que foi chamado de <em>national team<\/em>, ou campe\u00f5es nacionais.<\/p>\n<p>A partir de 1999, o governo chin\u00eas lan\u00e7ou a estrat\u00e9gia <em>Going Global<\/em>, para promover investimentos no exterior. O pa\u00eds havia acumulado um grande volume de reservas cambiais e a estrat\u00e9gia foi usar parte dessas reservas para adquirir ativos no exterior. A internacionaliza\u00e7\u00e3o ou a transforma\u00e7\u00e3o de grandes empresas chinesas em multinacionais foi amplamente bem-sucedida, incluindo o reconhecimento de marcas.<\/p>\n<p>No contexto do 13\u00ba Plano Quinquenal, foi lan\u00e7ado o plano <em>Made in China 2025<\/em>, visando modernizar a ind\u00fastria (deixando o pa\u00eds de ser apenas a \u201cf\u00e1brica mundial\u201d) e ampliar sua participa\u00e7\u00e3o nas cadeias globais de produ\u00e7\u00e3o, com a preocupa\u00e7\u00e3o de que as tecnologias consideradas nacionalmente vitais n\u00e3o possuem uma base dom\u00e9stica suficiente. O foco \u00e9 em alta tecnologia, como farmac\u00eautica, automotiva, aeroespacial, semicondutores, rob\u00f3tica e tecnologias da informa\u00e7\u00e3o, com compromisso de investimentos equivalentes a US$ 300 bilh\u00f5es.<\/p>\n<p>Em 2013, foi lan\u00e7ada a \u201cIniciativa Cintur\u00e3o e Rota\u201d\u00a0(<em>Belt and Road Initiative<\/em>), ou\u00a0Cintur\u00e3o Econ\u00f4mico da Rota da Seda Terrestre e a Rota da Seda Mar\u00edtima do S\u00e9culo 21, com grandes implica\u00e7\u00f5es geopol\u00edticas e econ\u00f4micas. Estimativas sugerem que esse pode ser um dos maiores projetos de infraestrutura e investimento da hist\u00f3ria. A conclus\u00e3o da estrat\u00e9gia \u00e9 prevista para 2049,\u00a0no 100\u00ba anivers\u00e1rio da Rep\u00fablica Popular da China.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m se destaca, como diferencial da China, a preocupa\u00e7\u00e3o com a cria\u00e7\u00e3o de institui\u00e7\u00f5es voltadas para o financiamento de longo prazo, com a exist\u00eancia de bancos de desenvolvimento, incluindo o <em>China Development Bank<\/em>, o <em>Agricultural Development Bank of China<\/em> e o <em>Exim Bank of China<\/em>. H\u00e1, nesse mesmo sentido, tamb\u00e9m iniciativas internacionais, como o <em>New Development Bank<\/em> e o <em>Asian Infrastructure Investment Bank<\/em>, ampliando recursos para investimentos de infraestrutura.<\/p>\n<p>O avan\u00e7o econ\u00f4mico e estrat\u00e9gico da China no contexto internacional frente aos EUA pode ser ilustrado por seus dados econ\u00f4micos. O PIB da China<a href=\"#_edn1\" name=\"_ednref1\">[1]<\/a>, em d\u00f3lares correntes, correspondia em 1980 a 11% do PIB dos EUA. A partir de meados dos anos 2000 essa rela\u00e7\u00e3o cresceu substancialmente, chegando a estimados 66% em 2019. O PIB dos EUA em 2019 foi de US$ 21 trilh\u00f5es, e o da China, equivalente a US$ 14 trilh\u00f5es.<a href=\"#_edn2\" name=\"_ednref2\">[2]<\/a> A taxa m\u00e9dia de crescimento do PIB dos EUA entre 1980 e 2019, de 2,9%, \u00e9 \u00f3tima, considerando-se que \u00e9 um pa\u00eds desenvolvido. No entanto, ela fica bem abaixo da m\u00e9dia da China, de 9,7%. Em termos de paridade de poder de compra, o PIB chin\u00eas ultrapassou o dos EUA em 2013, passando de 2% do PIB mundial em 1980 para 19% em 2019, enquanto para os EUA esse valor diminuiu de 22% para 15% nos mesmos anos. J\u00e1 a renda per capita da China, em d\u00f3lares constantes, era apenas 3% da dos EUA em 1980, subindo para 31% em 2019, com crescimento m\u00e9dio anual de quase 9%, contra 2% dos EUA.<\/p>\n<p>O forte crescimento chin\u00eas pode ser explicado por dois componentes, o aumento do total de horas de trabalho (o qual produz um aumento de mais valia absoluta) e o aumento da produtividade do trabalho (o componente mais valia relativa).<a href=\"#_edn3\" name=\"_ednref3\">[3]<\/a> Em 2019, na China, houve estimados 1.675 bilh\u00f5es de horas trabalhadas, contra 285 bilh\u00f5es nos EUA. Ou seja, em 2019, houve seis vezes mais horas trabalhadas na China, enquanto em 1980 eram cinco vezes mais. A taxa m\u00e9dia de crescimento foi de 1,5% ao ano na China e de 1,1% nos EUA, de 1980 a 2019. Por esse fator, a capacidade produtiva na China \u00e9 maior e cresceu mais.<\/p>\n<p>O outro fator gerador de maior produto, a produtividade do trabalho, tamb\u00e9m cresceu muito na China, mas seu n\u00edvel ainda \u00e9 bem inferior em rela\u00e7\u00e3o ao dos EUA. Em 1980, a produtividade hor\u00e1ria na China era de apenas 2% da dos EUA, enquanto em 2019 era de 22%. Ent\u00e3o, apesar de o n\u00famero de horas de trabalho na China ser muito maior, sua produtividade ainda \u00e9 substancialmente menor. A taxa de crescimento m\u00e9dia dessa produtividade na China foi de 8,1% ao ano entre 1980 e 2019, enquanto para os EUA foi de 1,8% ao ano.<\/p>\n<p>Com o investimento produtivo dos excedentes gerados pelo trabalho, a partir das horas efetivamente trabalhadas e da produtividade, a China conseguir ampliar seu estoque de capital a uma m\u00e9dia de 9,6% ao ano, entre 1980 e 2017. Para os EUA, esse crescimento foi de 2,3% ao ano.<a href=\"#_edn4\" name=\"_ednref4\">[4]<\/a><\/p>\n<p>A composi\u00e7\u00e3o do PIB em termos do Consumo, Investimento, Exporta\u00e7\u00f5es e Importa\u00e7\u00f5es mostra, para os EUA, uma tend\u00eancia de crescimento da parcela do Consumo, uma tend\u00eancia de menores Investimentos (principalmente no per\u00edodo p\u00f3s crise de 2008) e uma amplia\u00e7\u00e3o maior das Importa\u00e7\u00f5es em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s Exporta\u00e7\u00f5es, formando importante saldo negativo nas contas externas.<\/p>\n<p>Para a China, h\u00e1 forte tend\u00eancia de redu\u00e7\u00e3o da participa\u00e7\u00e3o do Consumo agregado e, em dire\u00e7\u00e3o oposta, forte amplia\u00e7\u00e3o dos Investimentos, a partir dos excedentes gerados pela amplia\u00e7\u00e3o da quantidade e qualidade do trabalho. Tamb\u00e9m cresceu muito a participa\u00e7\u00e3o das Exporta\u00e7\u00f5es e das Importa\u00e7\u00f5es, com saldo positivo. A China tem, portanto, um crescimento baseado em investimentos e exporta\u00e7\u00f5es, em certo sentido oposto ao padr\u00e3o dos EUA.<\/p>\n<p>A China ampliou sua parcela do valor agregado industrial mundial de cerca de 3% em 1990 para 25% em 2018, enquanto os EUA reduziram essa participa\u00e7\u00e3o de cerca de 20% para 15%.<a href=\"#_edn5\" name=\"_ednref5\">[5]<\/a> Os dois pa\u00edses, portanto, somados, possuem 40% do produto industrial mundial. O n\u00famero dos EUA, 15%, apesar de ter diminu\u00eddo, ainda \u00e9 muito grande para um pa\u00eds desenvolvido, com altos custos. Por outro lado, deve-se considerar que o capital dos EUA continua sendo propriet\u00e1rio de parcela substancial do capital industrial mundial (inclusive o que produz na China), como empresas multinacionais ou participa\u00e7\u00f5es acion\u00e1rias, ou empresas dependentes de cadeias globais de valor comandadas por empresas dos EUA. Ou seja, o capital industrial mundial continua sendo fortemente baseado nos EUA. Desse modo, a ideia de desindustrializa\u00e7\u00e3o dos EUA deve ser muito relativizada. Em termos de participa\u00e7\u00e3o no PIB, o produto manufatureiro chin\u00eas cresceu muito, de 23% em 1990 para 31% em 2018. Para os EUA, a participa\u00e7\u00e3o foi mais est\u00e1vel, pr\u00f3xima de 12%, com uma redu\u00e7\u00e3o de um ponto percentual ap\u00f3s 2008.<\/p>\n<p>Outro indicador de avan\u00e7o chin\u00eas \u00e9 o \u00cdndice de Complexidade Econ\u00f4mica<a href=\"#_edn6\" name=\"_ednref6\">[6]<\/a>, do Atlas da Complexidade Econ\u00f4mica. Esse indicador mostra que, em 1995, a China possu\u00eda um \u00edndice de apenas 0,30, enquanto o \u00edndice dos EUA era de 1,76. Em 2017, o \u00edndice da China tinha evolu\u00eddo para 1,30, enquanto o dos EUA tinha se reduzido para 1,47, mas ainda era superior ao da China.<\/p>\n<p>Existe uma vasta literatura econ\u00f4mica que interpreta o setor industrial como tendo um papel especial, de \u201cmotor\u201d do crescimento, partindo das chamadas \u201cleis de Kaldor\u201d e segundo argumentos emp\u00edricos e te\u00f3ricos. Nesse sentido, quanto maior a taxa de crescimento do setor industrial, maior tende a ser o crescimento dos outros setores e, portanto, do PIB como um todo; maior tende a ser a taxa de crescimento da produtividade do pr\u00f3prio setor industrial; e maior a taxa de crescimento da produtividade dos outros setores. E o que diferencia o setor secund\u00e1rio \u00e9 que essas correla\u00e7\u00f5es s\u00e3o maiores que as determinadas pelo crescimento dos setores prim\u00e1rio e terci\u00e1rio sobre os demais. A ind\u00fastria tem esses efeitos positivos ao crescer, mas se o setor decrescer ou ocorrer processo de desindustrializa\u00e7\u00e3o, os efeitos funcionam ao contr\u00e1rio, ou seja, \u201cpuxando\u201d a economia como um todo para baixo. Portanto, as \u201cleis de Kaldor\u201d funcionam para cima ou para baixo, para expans\u00e3o ou para contra\u00e7\u00e3o, determinando um efeito estrutural (n\u00e3o c\u00edclico).<\/p>\n<p>Esses efeitos ocorrem, segundo Adam Szirmai<a href=\"#_edn7\" name=\"_ednref7\">[7]<\/a>, entre outros autores, porque o setor industrial possui caracter\u00edsticas especiais, como maiores n\u00edveis de produtividade e maiores taxas de crescimento de produtividade, em regra.<a href=\"#_edn8\" name=\"_ednref8\">[8]<\/a> O setor industrial apresenta maiores oportunidades para a acumula\u00e7\u00e3o de capital e possui maior intensidade de capital, comparativamente aos setores prim\u00e1rio e terci\u00e1rio. As manufaturas possuem tamb\u00e9m, em geral, maiores economias de escopo e de escala est\u00e1ticas e din\u00e2micas. As inova\u00e7\u00f5es tecnol\u00f3gicas (e as oportunidades de inova\u00e7\u00f5es tecnol\u00f3gicas) s\u00e3o fortemente concentradas no setor industrial (principalmente em alguns de seus subsetores) e em grande parte se difundem desse setor para os outros.<a href=\"#_edn9\" name=\"_ednref9\">[9]<\/a> As oportunidades de encadeamentos produtivos (forma\u00e7\u00e3o de cadeias produtivas) e os efeitos de transbordamentos (externalidades de investimentos em conhecimento e tecnologias) s\u00e3o tamb\u00e9m maiores no setor industrial. As elasticidades da demanda por produtos industriais s\u00e3o maiores que as dos outros setores, proporcionando oportunidades de crescimento <em>export-led<\/em> mais consistentes no longo prazo. Em termos de possibilidades para o desenvolvimento regional mais homog\u00eaneo, a ind\u00fastria tamb\u00e9m oferece melhores oportunidades. Por fim, no processo de \u201cservitiza\u00e7\u00e3o\u201d da ind\u00fastria, esse setor permite os encadeamentos com setores de servi\u00e7os de alta qualifica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Sobre o setor de servi\u00e7os, mesmo tendo se modernizado muito, ainda \u00e9 composto de substanciais parcelas de baixa produtividade, servindo de alternativa de sobreviv\u00eancia da m\u00e3o de obra n\u00e3o empregada nos outros setores. Por isso, em si, n\u00e3o \u00e9 impulsionador satisfat\u00f3rio. E sobre o setor prim\u00e1rio, mesmo que seja amplamente moderno (o que \u00e9 o caso de poucos pa\u00edses), representa parcela pequena do PIB e emprega pouco, n\u00e3o possuindo suficientes efeitos propulsores para a economia como um todo.<\/p>\n<p>Quanto aos impactos do mercado externo sobre o crescimento econ\u00f4mico, o papel das manufaturas \u00e9 fundamental. A participa\u00e7\u00e3o das exporta\u00e7\u00f5es de produtos das ind\u00fastrias de transforma\u00e7\u00e3o representa desde meados dos anos 1980 cerca de 70% das exporta\u00e7\u00f5es mundiais.<a href=\"#_edn10\" name=\"_ednref10\">[10]<\/a> Houve redu\u00e7\u00e3o nos anos 2000, aparentemente um efeito c\u00edclico, mas posteriormente retornou-se aos n\u00fameros pr\u00f3ximos dos 70%. A redu\u00e7\u00e3o da participa\u00e7\u00e3o dos anos 2000 correspondeu ao per\u00edodo no qual houve aumento significativo da parcela das exporta\u00e7\u00f5es de combust\u00edveis e minerais, com posterior revers\u00e3o. Essa alta participa\u00e7\u00e3o das exporta\u00e7\u00f5es manufatureiras tamb\u00e9m enfraquece a tese da menor import\u00e2ncia do setor industrial para o crescimento econ\u00f4mico.<\/p>\n<p>A China expandiu sua participa\u00e7\u00e3o nas exporta\u00e7\u00f5es manufatureiras mundiais, partindo de um patamar muito baixo e chegando a cerca de 19% em 2015. No entanto, ap\u00f3s 2015 essas participa\u00e7\u00f5es romperam sua tend\u00eancia anterior. Como o crescimento chin\u00eas tem como um de seus principais \u201cmotores\u201d as exporta\u00e7\u00f5es, esses dados mostram a origem do seu menor dinamismo nos \u00faltimos anos.<\/p>\n<p>A China tamb\u00e9m ampliou muito suas exporta\u00e7\u00f5es de produtos ICTs (bens de tecnologias de informa\u00e7\u00f5es e comunica\u00e7\u00f5es).<a href=\"#_edn11\" name=\"_ednref11\">[11]<\/a> Partindo de 18% das suas exporta\u00e7\u00f5es totais de bens em 2000, elevou essa participa\u00e7\u00e3o no in\u00edcio dos anos 2000 para mais de 30%, com redu\u00e7\u00e3o posterior at\u00e9 27% em 2017, mas aparentemente mantendo uma certa estabilidade entre 25% e 30%. Os EUA, de outra parte, reduziram essa participa\u00e7\u00e3o de 20% em 2000 para 10% em 2017, tendo essa queda ocorrido mais fortemente at\u00e9 2008, mantendo depois certo patamar pr\u00f3ximo de 10%.<\/p>\n<p>Segundo dados do Banco Mundial, a participa\u00e7\u00e3o das exporta\u00e7\u00f5es de produtos de alta tecnologia<a href=\"#_edn12\" name=\"_ednref12\">[12]<\/a> no total das exporta\u00e7\u00f5es de manufaturas chinesas foi, entre 2007 e 2017, em m\u00e9dia 31%, permanecendo mais ou menos nesse patamar no per\u00edodo. Para os EUA, essa participa\u00e7\u00e3o reduziu-se de 31% em 2007 para 19% em 2018. Em d\u00f3lares correntes, as exporta\u00e7\u00f5es chinesas de produtos de alta tecnologia cresceram de US$ 343 bilh\u00f5es em 2007 para US$ 654 bilh\u00f5es em 2017, enquanto para os EUA nesse \u00faltimo ano esse valor foi de US$ 157 bilh\u00f5es.<\/p>\n<p>Portanto, foram muito intensos os efeitos kaldorianos <em>export-led<\/em> e tecnol\u00f3gicos (ou de efici\u00eancia din\u00e2mica keynesiana e schumpeteriana, somados) impulsionando o desempenho chin\u00eas.<\/p>\n<p>Um dado tamb\u00e9m muito relevante no desempenho da economia chinesa \u00e9 o crescimento das suas grandes empresas e o processo de sua internacionaliza\u00e7\u00e3o.<a href=\"#_edn13\" name=\"_ednref13\">[13]<\/a> No ano de 1995, a China possu\u00eda apenas duas empresas entre as 500 maiores do mundo, contra 148 dos EUA. Para este, o n\u00famero aumentou at\u00e9 196 empresas em 2002, o que coincide com o auge da chamada \u201cnova economia\u201d (o surgimento dos grandes grupos da \u00e1rea de inform\u00e1tica). Ap\u00f3s essa etapa, houve redu\u00e7\u00e3o para os EUA e amplia\u00e7\u00e3o para a China, chegando a 2019 quase empatados, com 121 empresas dos EUA e 119 da China.<a href=\"#_edn14\" name=\"_ednref14\">[14]<\/a> Ou seja, das 500 maiores empresas do mundo, 240 empresas pertencem a esses dois pa\u00edses. A China tamb\u00e9m passou a deter, em 2019, 23 das maiores 100 empresas, 10 dentre as 50 maiores e 3 entre as 10 maiores.<\/p>\n<p>As grandes empresas possuem muitas vantagens para o desenvolvimento econ\u00f4mico, pois usufruem dos benef\u00edcios das economias de escala e de escopo, t\u00eam em geral maiores produtividades e rentabilidades, s\u00e3o as mais capazes de investir em inova\u00e7\u00f5es<a href=\"#_edn15\" name=\"_ednref15\">[15]<\/a>, possuem as capacidades para se tornarem grandes exportadoras, para abrirem mercados externos ou para se tornarem multinacionais, podem controlar cadeias globais de valor e possuem capacidade financeira para fazer grandes investimentos e atrair os melhores profissionais. Al\u00e9m disso, um determinante do desenvolvimento de um pa\u00eds \u00e9 a presen\u00e7a de grandes empresas nacionais. Ou seja, o desenvolvimento \u00e9 um processo fundamentalmente nacional.<\/p>\n<p>Por fim, ressalta-se a grande amplia\u00e7\u00e3o dos gastos militares chineses, com implica\u00e7\u00f5es geopol\u00edticas e industriais. A diferen\u00e7a com o gasto dos EUA ainda \u00e9 grande, mas estreitou muito.<a href=\"#_edn16\" name=\"_ednref16\">[16]<\/a> Em 2018, o gasto militar dos EUA foi de US$ 634 bilh\u00f5es (3,2% do PIB), contra equivalentes US$ 239 bilh\u00f5es da China (1,9% do PIB). Isso representou para a China 38% do gasto dos EUA, quando foi de apenas 3% em 1989, com um crescimento real m\u00e9dio de 9% ao ano. No caso dos EUA, h\u00e1 fortes oscila\u00e7\u00f5es, mas n\u00e3o muita diferen\u00e7a entre o in\u00edcio e o final do per\u00edodo. Com essa forte amplia\u00e7\u00e3o de seus gastos militares, a China formou tamb\u00e9m uma importante base industrial militar, impulsionando seu crescimento econ\u00f4mico.<\/p>\n<p>A partir das iniciativas estrat\u00e9gicas da China e da contextualiza\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica, comparativamente entre EUA e China, coloca-se a quest\u00e3o de como a Covid-19 influenciar\u00e1 a geopol\u00edtica internacional.<\/p>\n<p>No atual epis\u00f3dio da pandemia causada pelo Coronav\u00edrus parece que a China tem mais a oferecer a poss\u00edveis aliados que os EUA. Esse \u00faltimo pa\u00eds comporta-se como um imp\u00e9rio explorador, que at\u00e9 mesmo \u201crouba\u201d equipamentos m\u00e9dicos de outros pa\u00edses. Ao contr\u00e1rio, a China oferece ajuda, inclusive para pa\u00edses tradicionalmente alinhados aos EUA. Esse pa\u00eds tamb\u00e9m foca suas a\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas em aspectos produtivos (investimentos em infraestrutura, por exemplo), enquanto os EUA possuem uma l\u00f3gica de atua\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica muito mais dominada por interesses do capital financeiro. Desse modo, a China se qualifica como pa\u00eds cooperativo, assim como antes j\u00e1 se colocava como defensor do livre com\u00e9rcio internacional (contrapondo-se a medidas comerciais agressivas dos EUA) e na iniciativa da \u201cRota da Seda\u201d. Esse tipo de busca de hegemonia \u00e9 normalmente mais proveitoso no longo prazo, em rela\u00e7\u00e3o ao comportamento agressivo e demandante de submiss\u00e3o.<\/p>\n<p>A capacidade de planejamento de longo prazo aparece tamb\u00e9m como mais efetiva em momentos de crise como o da pandemia. Assim, pode-se questionar sobre a superioridade de uma economia de planejamento em rela\u00e7\u00e3o a uma economia de mercado, ainda mais de um mercado dominado por capitais especulativos e n\u00e3o por interesses produtivos. No epis\u00f3dio da pandemia, parece que a China foi mais bem-sucedida na sua rea\u00e7\u00e3o, na sua capacidade de produ\u00e7\u00e3o de equipamentos e mobiliza\u00e7\u00e3o de recursos.<\/p>\n<p>Coloca-se, desse modo, uma disputa entre o \u201cConsenso de Washington\u201d e o \u201cConsenso de Pequim\u201d. Uma hip\u00f3tese \u00e9 da exist\u00eancia, em um lado, de um imp\u00e9rio em decad\u00eancia, e, de outro, de uma pot\u00eancia em ascens\u00e3o. No entanto, os EUA ainda possuem grande margem de vantagem e de lideran\u00e7a, e tem apresentado forte capacidade de inova\u00e7\u00e3o e de recupera\u00e7\u00e3o, quando confrontado.<\/p>\n<p>Para um pa\u00eds como o Brasil, sendo um <em>global player<\/em> em seu com\u00e9rcio internacional e podendo exercer alguma influ\u00eancia diplom\u00e1tica, parece que a melhor op\u00e7\u00e3o seria o n\u00e3o alinhamento autom\u00e1tico com os Estados Unidos, assim como tamb\u00e9m com a China. Ao contr\u00e1rio, deveria manter sua soberania e uma posi\u00e7\u00e3o equidistante e amig\u00e1vel. A experi\u00eancia da atual pandemia parece dar ainda mais raz\u00e3o a essa posi\u00e7\u00e3o tradicional da diplomacia brasileira. Infelizmente, a extrema direita pol\u00edtica e a maioria dos militares, aparentemente, optaram nesse momento por um alinhamento que pode produzir grandes custos presentes e futuros.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref1\" name=\"_edn1\">[1]<\/a> Sempre sem considerar Hong Kong, Macau e Taiwan.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref2\" name=\"_edn2\">[2]<\/a> Segundo o Fundo Monet\u00e1rio Internacional. IMF World Economic Outlook. Oct. 2019 (<a href=\"https:\/\/www.imf.org\/external\/pubs\/ft\/weo\/2019\/02\/weodata\/index.aspx\">https:\/\/www.imf.org\/external\/pubs\/ft\/weo\/2019\/02\/weodata\/index.aspx<\/a>).<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref3\" name=\"_edn3\">[3]<\/a> Conforme os dados de The Conference Board Total Economy Database, April 2019 (<a href=\"https:\/\/www.conference-board.org\/data\/economydatabase\">https:\/\/www.conference-board.org\/data\/economydatabase<\/a>).<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref4\" name=\"_edn4\">[4]<\/a> C\u00e1lculos a partir da Penn World Table, version 9.1 (<a href=\"http:\/\/www.ggdc.net\/pwt\">www.ggdc.net\/pwt<\/a>).<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref5\" name=\"_edn5\">[5]<\/a> De acordo com a UNIDO (<a href=\"https:\/\/stat.unido.org\/database\/MVA%202019,%20Manufacturing\">https:\/\/stat.unido.org\/database\/MVA%202019,%20Manufacturing<\/a>).<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref6\" name=\"_edn6\">[6]<\/a> Segundo o Atlas da Complexidade (<a href=\"https:\/\/atlas.cid.harvard.edu\/rankings\/2017\">https:\/\/atlas.cid.harvard.edu\/rankings\/2017<\/a>), a complexidade econ\u00f4mica \u00e9 \u201cA measure of the knowledge in a society as expressed in the products it makes. The economic complexity of a country is calculated based on the\u00a0<strong>diversity<\/strong>\u00a0of exports a country produces and their\u00a0<strong>ubiquity<\/strong>, or the number of the countries able to produce them (and those countries\u2019 complexity). Countries that are able to sustain a diverse range of productive know-how, including sophisticated, unique know-how, are found to be able to produce a wide diversity of goods, including complex products that few other countries can make.\u201d (<a href=\"https:\/\/atlas.cid.harvard.edu\/glossary\">https:\/\/atlas.cid.harvard.edu\/glossary<\/a>).<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref7\" name=\"_edn7\">[7]<\/a>[7] SZIRMAI, Adam. Industrialisation as an engine of growth in developing countries, 1950-2005. <strong>Structural change and economic dynamics<\/strong>, n. 23, 2012.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref8\" name=\"_edn8\">[8]<\/a> O Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (IEDI), em sua nota \u201cDestaque IEDI\u201d de 02\/03\/2002, cita estudo da UNIDO (United Nations Industrial Development Organization), cobrindo o per\u00edodo 1991-2018, que mostra um crescimento da produtividade do trabalho manufatureiro de 83% (ou 2,3% ao ano, em m\u00e9dia) para o mundo, contra 48% (ou 1,5% ao ano) para a economia como um todo.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref9\" name=\"_edn9\">[9]<\/a> Segundo a Carta IEDI n. 858, de 02.07.2018, \u201cO\u00a0<em>Analytical Business Enterprise Research and Development<\/em>\u00a0da OCDE avalia que a ind\u00fastria de transforma\u00e7\u00e3o responde por nada menos do que 70% dos gastos empresarias em P&amp;D. Em servi\u00e7os e na agropecu\u00e1ria estes percentuais s\u00e3o menores, de 27,7% e 0,2%, respectivamente.\u201d Os dados s\u00e3o de 2013, 2014 ou 2015, segundo disponibilidade, cobrindo 26 pa\u00edses. Al\u00e9m disso, \u201cdas 2.500 empresas que mais investem em P&amp;D no mundo, segundo o \u201c<em>EU Industrial R&amp;D Investment Scoreboard de 2016<\/em>\u201d [&#8230;], aproximadamente 75% dessas empresas (1.838) est\u00e3o concentradas em apenas nove setores industriais.\u201d<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref10\" name=\"_edn10\">[10]<\/a> Segundo a Organiza\u00e7\u00e3o Mundial do Com\u00e9rcio (<a href=\"https:\/\/timeseries.wto.org\/\">https:\/\/timeseries.wto.org\/<\/a>).<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref11\" name=\"_edn11\">[11]<\/a> De acordo com o Banco Mundial (<a href=\"https:\/\/data.worldbank.org\/indicator\">https:\/\/data.worldbank.org\/indicator<\/a>), \u201cInformation and communication technology goods exports include computers and peripheral equipment, communication equipment, consumer electronic equipment, electronic components, and other information and technology goods (miscellaneous).\u201d Dados com base em \u201cUnited Nations Conference on Trade and Development&#8217;s UNCTADstat database at http:\/\/unctadstat.unctad.org\/ReportFolders\/reportFolders.aspx.\u201d<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref12\" name=\"_edn12\">[12]<\/a> Segundo o Banco Mundial, \u201cHigh-technology exports are products with high R&amp;D intensity, such as in aerospace, computers, pharmaceuticals, scientific instruments, and electrical machinery.\u201d (<a href=\"https:\/\/data.worldbank.org\/indicator\">https:\/\/data.worldbank.org\/indicator<\/a>). A fonte original desses dados do Banco Mundial \u00e9 \u201cUnited Nations, Comtrade database through the WITS platform.\u201d<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref13\" name=\"_edn13\">[13]<\/a> No contexto da estrat\u00e9gia \u201cGoing Global\u201d, o fluxo de Investimentos Externos Diretos (IED) da China passou de US$ 0,9 bilh\u00e3o em 2000 para US$ 129,8 bilh\u00f5es em 2018, enquanto seu estoque de IED no exterior passou de US$ 27,8 bilh\u00f5es para US$ 1,9 trilh\u00e3o no mesmo per\u00edodo (UNCTAD, <a href=\"https:\/\/unctadstat.unctad.org\/wds\/TableViewer\/tableView.aspx\">https:\/\/unctadstat.unctad.org\/wds\/TableViewer\/tableView.aspx<\/a>).<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref14\" name=\"_edn14\">[14]<\/a> Segundo Fortune Global 500 (<a href=\"https:\/\/fortune.com\/global500\/2019\/search\/\">https:\/\/fortune.com\/global500\/2019\/search\/<\/a>).<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref15\" name=\"_edn15\">[15]<\/a> Por exemplo, segundo Hiratuka e Sarti (Transforma\u00e7\u00f5es na estrutura produtiva global, desindustrializa\u00e7\u00e3o e desenvolvimento industrial no Brasil, Revista de Economia Pol\u00edtica, v. 37, n. 1 (146), p. 189-207, jan.-mar.\/2017), a partir de dados de \u201cEU Industrial Scoreboard e National Science Foundation\u201d, as mil maiores empresas do mundo fizeram 43,5% dos investimentos totais do mundo em P&amp;D em 2011, enquanto para as 100 maiores esse percentual foi de 26,0%. Ou seja, h\u00e1 forte concentra\u00e7\u00e3o desses gastos.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref16\" name=\"_edn16\">[16]<\/a> Segundo SIPRI Military Expenditure Database (<a href=\"https:\/\/www.sipri.org\/databases\/milex\">https:\/\/www.sipri.org\/databases\/milex<\/a>).<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Ricardo Dathein, professor da Faculdade de Ci\u00eancias Econ\u00f4micas da UFRGS<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"fifu_image_url":"","fifu_image_alt":"","footnotes":"","_links_to":"","_links_to_target":""},"categories":[438],"tags":[445],"class_list":["post-16742","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-analise","tag-artigo"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/fce\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/16742","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/fce\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/fce\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/fce\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/fce\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=16742"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/fce\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/16742\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/fce\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=16742"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/fce\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=16742"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/fce\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=16742"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}