{"id":16819,"date":"2020-04-16T16:24:14","date_gmt":"2020-04-16T19:24:14","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ufrgs.br\/fce\/?p=16819"},"modified":"2020-04-22T17:20:09","modified_gmt":"2020-04-22T20:20:09","slug":"economia-e-epidemiologia-caminhando-de-maos-dadas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufrgs.br\/fce\/economia-e-epidemiologia-caminhando-de-maos-dadas\/","title":{"rendered":"Economia e epidemiologia: caminhando de m\u00e3os dadas"},"content":{"rendered":"<p><em>Por Giacomo Balbinotto Neto, professor do Programa de P\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o em Economia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (PPGE\/UFRGS), e Araceli Hubert, estudante de Ci\u00eancias Econ\u00f4micas da FCE\/UFRGS<\/em><\/p>\n<p>Doen\u00e7as infecciosas est\u00e3o entre as dez maiores causas de mortes no mundo. Muitos sistemas de sa\u00fade, especialmente em pa\u00edses pobres n\u00e3o est\u00e3o preparados para lidar com estas doen\u00e7as. A sobrecarga dos sistemas de sa\u00fade acontece, normalmente, devido ao grande n\u00famero de indiv\u00edduos afetados e \u00e0s dificuldades em prover preven\u00e7\u00e3o adequada, diagn\u00f3stico e cuidados de sa\u00fade (WHO, 2018 a).<\/p>\n<p>Maioria dos pa\u00edses afetados por doen\u00e7as transmiss\u00edveis ainda encontra dificuldades para controlar epidemias. Em 2017, foi estimado que 10 milh\u00f5es de pessoas contra\u00edram tuberculose (WHO, 2018 b) e mais de 9 milh\u00f5es de pessoas com HIV n\u00e3o sabem que est\u00e3o infectadas e, por isso, n\u00e3o est\u00e3o recebendo tratamento (WHO, 2019). A \u00faltima estimativa feita sobre fardo que estas doen\u00e7as causam, como HIV e tuberculose, revela que elas n\u00e3o est\u00e3o diminuindo e os n\u00fameros continuam altos.<\/p>\n<p>Ainda que doen\u00e7as transmiss\u00edveis de grande impacto sejam um grande desafio nos pa\u00edses mais pobres, elas tamb\u00e9m s\u00e3o prevalentes em muitos pa\u00edses de m\u00e9dia renda. Terminar com epidemias requer mudan\u00e7as nos sistemas de sa\u00fade, mas tamb\u00e9m, necessita alcan\u00e7ar al\u00e9m do setor da sa\u00fade para, assim, lidar com a gest\u00e3o dos fatores de risco e determinantes das doen\u00e7as (WHO, 2018 a).<\/p>\n<p>Doen\u00e7as infecciosas s\u00e3o uma das maiores causas de mortalidade e morbidade no mundo, tentativas de quantificar o fardo epidemiol\u00f3gico e econ\u00f4mico de certas doen\u00e7as, que afetam em grande peso principalmente pa\u00edses pobres, ainda s\u00e3o complicadas. Os dados de efetividade e custo-efetividade de interven\u00e7\u00f5es em epidemias s\u00e3o limitados (Worrall <em>et al.<\/em>, 2004).<\/p>\n<p>A economia tem um papel importante na decis\u00e3o de melhores m\u00e9todos para combater epidemias. A import\u00e2ncia se d\u00e1 na compreens\u00e3o dos padr\u00f5es de ocorr\u00eancia destas doen\u00e7as e a avalia\u00e7\u00e3o de interven\u00e7\u00f5es p\u00fablicas no contexto de uma sociedade com indiv\u00edduos que fazem o melhor que podem dadas as suas restri\u00e7\u00f5es. A economia pode, ent\u00e3o, prover teorias que explicam mais fen\u00f4menos e avaliam mais precisamente esfor\u00e7os de controle de doen\u00e7as (Philipson, 2000).<\/p>\n<p>Entende-se por <strong>Epidemiologia <\/strong>o estudo dos padr\u00f5es da propaga\u00e7\u00e3o das doen\u00e7as. Contudo, a Epidemiologia tamb\u00e9m envolve alguns aspectos econ\u00f4micos.\u00a0 A principal contribui\u00e7\u00e3o da economia para a Epidemiologia \u00e9 o reconhecimento de que as pessoas modificam seu comportamento em resposta a possibilidade de uma doen\u00e7a. A teoria econ\u00f4mica mostra como os comportamentos econ\u00f4micos s\u00e3o capazes de alterar o curso de uma epidemia.<\/p>\n<p>A <strong>epidemiologia econ\u00f4mica<\/strong> surge inicialmente com um foco da rela\u00e7\u00e3o entre comportamento preventivo e preval\u00eancia de doen\u00e7as. Mais recentemente, foi discutida no que se refere \u00e0s causas econ\u00f4micas e consequ\u00eancias epidemiol\u00f3gicas do n\u00famero e tipo de contato que as pessoas fazem. Isto \u00e9, os fatores econ\u00f4micos por tr\u00e1s do contato e tomada de decis\u00f5es que fazem parte do mecanismo de transmiss\u00e3o de doen\u00e7as. Esta abordagem proporciona um maior entendimento da din\u00e2mica de doen\u00e7as epid\u00eamicas e um conjunto de formas de gest\u00e3o de doen\u00e7as que tem como alvo o contato ou a probabilidade de o contato levar a infec\u00e7\u00f5es (Perrings <em>et al<\/em>., 2014). \u00a0Segundo <em>Mark Gersovitz,\u00a0Jeffrey S. Hammer (2003):<\/em><\/p>\n<p><em>The assumption of rational choice helps in understanding how people respond to infectious diseases. People maximize their well-being by choosing levels of prevention and therapy subject to the constraints they face. Objectives and constraints are numerous, necessitating tradeoffs. For example, this approach predicts how people respond to changes in the risk of infection and to the availability of diagnostic tests. The combination of individual rationality with epidemiological models of infection dynamics predicts whether individual choices about infectious disease prevention and therapies produce the best possible social outcomes. If not, individuals&#8217; choices generate rationales for government interventions to influence the levels of preventive and therapeutic activities. Optimal policy usually means accepting endemic infection, but at a level lowered by a coordinated package of interventions. Economics combined with epidemiology provides qualitative guidance on the design of such packages, including immunization programs.<\/em><\/p>\n<p>O entendimento de como as pessoas reagem a propaga\u00e7\u00e3o de uma doen\u00e7a tem consequ\u00eancias para a medi\u00e7\u00e3o acurada dos custos da doen\u00e7a, da previs\u00e3o de como as doen\u00e7as se propagam e para a estrutura\u00e7\u00e3o de pol\u00edticas que efetivamente limitam os custos e os sofrimento gerado por uma doen\u00e7a.<\/p>\n<p>Atividades de autoprote\u00e7\u00e3o, tais como evitar a visita a amigos doentes e estar em dia com as imuniza\u00e7\u00f5es, s\u00e3o lugares comuns. Em muitas situa\u00e7\u00f5es, que envolvem tanto doen\u00e7as infecciosas e n\u00e3o infecciosas, as pessoas est\u00e3o dispostas a tomar medidas custosas para evitar as doen\u00e7as. Compreender quando e porque as pessoas se engajam na autoprote\u00e7\u00e3o \u00e9 crucial para a estrutura\u00e7\u00e3o de modos de combate a doen\u00e7a.<\/p>\n<p>O princ\u00edpio chave \u00e9 que as pessoas ter\u00e3o uma maior demanda por autoprote\u00e7\u00e3o quando a exposi\u00e7\u00e3o a uma doen\u00e7a \u00e9 mais custosa. Uma maneira de pensarmos sobre uma doen\u00e7a \u00e9 ver a mesma como sendo um tipo de imposto. Estar doente resulta numa perda de produtividade que \u00e9 dispendiosa para o pr\u00f3prio indiv\u00edduo, mesmo que n\u00e3o acarrete perdas financeiras. Do mesmo modo que um imposto o qual todos pagamos com certeza, a doen\u00e7a somente afeta diretamente aqueles que se tornam doentes. Mas tal como um imposto, as pessoas ir\u00e3o tomar medidas para evitar ter que pagar o imposto por se tornarem doentes. A ideia da doen\u00e7a como sendo um imposto pode ser vista como sendo que a exposi\u00e7\u00e3o a qualquer doen\u00e7a como sendo um tipo de bem taxado. Dado \u201co imposto acarretado pela doen\u00e7a\u201d, os consumidores podem mudar seu comportamento para evitar ter que pagar o imposto. A exist\u00eancia de uma doen\u00e7a afeta n\u00e3o somente quem a possui, mas tamb\u00e9m as pessoas que mudam seu comportamento para evit\u00e1-la. Assim, qualquer mudan\u00e7a com rela\u00e7\u00e3o as atividades desejadas para as menos desejadas na tentativa de evitar a doen\u00e7a constitui-se no que n\u00f3s chamamos de <em>excess burden <\/em>daquela atividade.<\/p>\n<p>Custos epidemiol\u00f3gicos referem-se aos custos diretos associados a uma doen\u00e7a. Eles consistem nas consequ\u00eancias financeiras e n\u00e3o financeiras para uma pessoa com a doen\u00e7a, tais como a perda de sal\u00e1rios e sofrimento f\u00edsico. \u00a0J\u00e1 o <em>Excess burden <\/em>s\u00e3o os custos associados com as atividades que as pessoas tomaram a fim de evitar uma doen\u00e7a. Custos econ\u00f4micos totais referem-se, assim, a soma dos custos epidemiol\u00f3gicos e o <em>excess burde<\/em>n de uma doen\u00e7a.<\/p>\n<p>Os custos epidemiol\u00f3gicos e o <em>excess burden <\/em>de uma doen\u00e7a dependem tanto de sua severidade como da contamina\u00e7\u00e3o. \u00a0Por exemplo: embora a gripe comum possa ser amplamente disseminada, seus custos epidemiol\u00f3gicos para toda a popula\u00e7\u00e3o s\u00e3o baixos. O v\u00edrus do Ebola, ao contr\u00e1rio, \u00e9 fatal e contagioso, podendo matar a vasta maioria das pessoas infectadas em alguns dias. Contudo o n\u00famero de casos em todo o mundo \u00e9 pequeno. Ent\u00e3o, os custos epidemiol\u00f3gicos da gripe comum e do Ebola podem ser ambos baixos, mas por raz\u00f5es muito diferentes. No caso da gripe comum, a maioria das pessoas tomam algumas precau\u00e7\u00f5es, mas poucos tomam precau\u00e7\u00f5es extremas. \u00a0Portanto, o <em>excess burden <\/em>da gripe comum \u00e9 baixo, porque o risco de pegar uma gripe n\u00e3o motiva as pessoas a mudar muito seu comportamento e atitudes com rela\u00e7\u00e3o a preven\u00e7\u00e3o. J\u00e1 em regi\u00f5es da \u00c1frica onde o Ebola surgiu, a WHO e os governos locais estabeleceram uma quarentena de toda uma vila onde h\u00e1 casos de Ebola. \u00a0As graves consequ\u00eancias de ser contaminado pelo v\u00edrus Ebola motivaram mudan\u00e7as dram\u00e1ticas no comportamento para evitar a infec\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>De acordo com Gersovitz e Hammer (2004), a abordagem econ\u00f4mica de doen\u00e7as infecciosas se d\u00e1, em seu princ\u00edpio, em uma intui\u00e7\u00e3o na qual as epidemias e doen\u00e7as infecciosas s\u00e3o manifesta\u00e7\u00f5es do princ\u00edpio da externalidade, que pode ser definido como o fato de haver consequ\u00eancias para terceiros que n\u00e3o s\u00e3o levadas em conta por quem toma decis\u00f5es. Ademais, a epidemiologia prov\u00ea uma serie de modelos de doen\u00e7as transmiss\u00edveis e a economia providencia m\u00e9todos de avaliar custos e benef\u00edcios de interven\u00e7\u00f5es na sa\u00fade e m\u00e9todos de otimiza\u00e7\u00e3o din\u00e2mica para guiar as pol\u00edticas.<\/p>\n<p>Tomando como princ\u00edpio que epidemias podem ser analisadas como manifesta\u00e7\u00f5es de externalidades, de acordo com Gersovitz e Hammer (2004), s\u00e3o analisados dois tipos de externalidades: primeiramente, pessoas infectadas podem infectar outras pessoas que infectam outras e assim por diante, sendo a fonte do que \u00e9 chamado de externalidade da <em>infec\u00e7\u00e3o pura. <\/em>Esta externalidade surge na quest\u00e3o da escolha de quanto um indiv\u00edduo se esfor\u00e7a para se prevenir, n\u00e3o levando em conta os custos alheios dos que se infectam como consequ\u00eancia. Em segundo lugar temos a <em>externalidade da preven\u00e7\u00e3o pura<\/em> que surge devido \u00e0s a\u00e7\u00f5es preventivas de outros indiv\u00edduos que podem afetar diretamente a probabilidade que outros se infectem.<\/p>\n<p>A no\u00e7\u00e3o de como doen\u00e7as se propagam j\u00e1 foi compreendida h\u00e1 muito tempo, por\u00e9m, somente recentemente, foi realmente entendido como o comportamento humano \u00e9 crucial para este processo acontecer (Folland <em>et al<\/em>., 2013).<\/p>\n<p>Contato de pessoa para pessoa conduz \u00e0s din\u00e2micas das doen\u00e7as humanas. Pessoas valorizam contatos, ent\u00e3o est\u00e3o dispostas a aceitar riscos para obter benef\u00edcios relacionados. Os custos e benef\u00edcios que configuram os <em>trade-offs<\/em> de comportamento e, consequentemente, o curso da epidemia est\u00e3o, maioria das vezes, apenas implicitamente incorporados em modelos epidemiol\u00f3gicos. Resultados indicam que a inclus\u00e3o de comportamento adaptativo humano modifica significativamente o curso predito de epidemias e que esta inclus\u00e3o tem implica\u00e7\u00f5es nos par\u00e2metros estimativos e na interpreta\u00e7\u00e3o de pol\u00edticas p\u00fablicas (Fenichel et al., 2011).<\/p>\n<p>Apesar de doen\u00e7as infecciosas representarem uma grande parte da causa de mortalidade mundial, n\u00e3o existe um n\u00famero consider\u00e1vel de pesquisas analisando as doen\u00e7as infecciosas de uma perspectiva econ\u00f4mica. Contudo, a avalia\u00e7\u00e3o de medidas de sa\u00fade p\u00fablica sob um ponto de vista econ\u00f4mico \u00e9 particularmente importante.<\/p>\n<p>Os <strong>modelos de epidemiologia econ\u00f4mica<\/strong> estendem os modelos epidemiol\u00f3gicos compartimentais cl\u00e1ssicos, tal como o modelo SIR, que dividem a popula\u00e7\u00e3o em compartimentos definidos pela sa\u00fade e pelo status demogr\u00e1fico. Os modelos cl\u00e1ssicos concentram-se na raz\u00e3o reprodutiva b\u00e1sica da doen\u00e7a, R<sub>0<\/sub> &#8211; o n\u00famero de casos secund\u00e1rios em uma popula\u00e7\u00e3o, totalmente suscet\u00edvel e livre de doen\u00e7as que resulta da introdu\u00e7\u00e3o inicial de pat\u00f3genos &#8211; organismo capaz de produzir doen\u00e7as infecciosas aos seus hospedeiros (Perrings <em>et al<\/em>., 2014). O objetivo da modelagem epidemiol\u00f3gica \u00e9 a de prover aos formuladores de pol\u00edticas p\u00fablicas em sa\u00fade uma base racional para a estrutura\u00e7\u00e3o de pol\u00edticas para o controle da doen\u00e7a, bem como fornecer estimativas de seus custos e impacto or\u00e7ament\u00e1rio.<\/p>\n<p>A epidemiologia econ\u00f4mica enfatiza a possibilidade de que a demanda por autoprote\u00e7\u00e3o de uma doen\u00e7a possa ser sens\u00edvel a preval\u00eancia daquela doen\u00e7a \u2013 a propor\u00e7\u00e3o ou a percentagem de uma popula\u00e7\u00e3o que esteja sofrendo dela em um dado ponto do tempo.<\/p>\n<p>O <strong>modelo SIR<\/strong> mostra como uma doen\u00e7a evolui ao longo do tempo. Estes modelos nos ajudam a compreender quando uma popula\u00e7\u00e3o \u00e9 vulner\u00e1vel, quando uma epidemia \u00e9 virulenta, e quando seus efeitos provavelmente diminuem. Eles tamb\u00e9m nos ajudam a medir os efeitos das vacina\u00e7\u00f5es e das interven\u00e7\u00f5es de sa\u00fade p\u00fablica tais como subs\u00eddios as vacina\u00e7\u00f5es. O modelo SIR prov\u00ea uma estrutura adequada para n\u00f3s pensarmos sobre os efeitos rec\u00edprocos da rela\u00e7\u00e3o entre a preval\u00eancia e a autoprote\u00e7\u00e3o de uma doen\u00e7a. Neste modelo, os membros de uma popula\u00e7\u00e3o s\u00e3o classificados em tr\u00eas grupos: (i) suscet\u00edveis; (ii) infectados; (iii) recuperados.<\/p>\n<p>Nos modelos mais simples, R<sub>0<\/sub> \u00e9 o produto de tr\u00eas fatores: a taxa de contato, a probabilidade condicional de transmiss\u00e3o por contato e a dura\u00e7\u00e3o do per\u00edodo infeccioso. Ele \u00e9 usado para indicar se a preval\u00eancia da infec\u00e7\u00e3o aumentar\u00e1 ou diminuir\u00e1. Quando R<sub>0 <\/sub>&gt; 1 o pat\u00f3geno pode se espalhar, quando R<sub>0<\/sub> &lt; 1, n\u00e3o. A taxa reprodutiva b\u00e1sica, ou variantes, como o n\u00famero de reprodu\u00e7\u00e3o efetivo (que mede a transmiss\u00e3o em uma popula\u00e7\u00e3o que pode ser apenas parcialmente suscet\u00edvel) e o n\u00famero de reprodu\u00e7\u00e3o de controle (que mede a transmiss\u00e3o em uma popula\u00e7\u00e3o suscet\u00edvel com as medidas de controle implementadas), s\u00e3o usadas para informar sobre o gerenciamento de doen\u00e7as (Brauer e Castillo-Chavez 2013). A abordagem da economia da epidemiologia trata o n\u00famero de reprodu\u00e7\u00e3o em fun\u00e7\u00e3o das decis\u00f5es que sustentam o contato entre indiv\u00edduos suscet\u00edveis e infectados. Assim, isto abre um conjunto diferente de op\u00e7\u00f5es de gest\u00e3o de doen\u00e7as.<\/p>\n<p>A abordagem econ\u00f4mica da epidemiologia foca na estrat\u00e9gia \u00f3tima para evitar doen\u00e7as e como ocorre o <em>feedback<\/em> desta estrat\u00e9gia dentro da propaga\u00e7\u00e3o de doen\u00e7as infecciosas. A abordagem tamb\u00e9m considera as consequ\u00eancias da gest\u00e3o de risco de doen\u00e7as para o desenvolvimento econ\u00f4mico e crescimento. Uma caracter\u00edstica comum de modelos da epidemiologia econ\u00f4mica \u00e9 o fator comportamental que afeta e \u00e9 afetado pelo risco da doen\u00e7a envolvido em decis\u00f5es de se expor. O risco da doen\u00e7a sendo a probabilidade de infec\u00e7\u00e3o multiplicada pelo custo da infec\u00e7\u00e3o (Perrings <em>et al<\/em>., 2014).<\/p>\n<p>As escolhas feitas pelas pessoas alteram as taxas de transmiss\u00e3o de doen\u00e7as infecciosas e mudam a din\u00e2mica epidemiol\u00f3gica. Conclui-se, ent\u00e3o, que a din\u00e2mica da doen\u00e7a \u00e9 sens\u00edvel tanto ao custo da doen\u00e7a quanto ao custo da preven\u00e7\u00e3o da doen\u00e7a. Se o custo da doen\u00e7a \u00e9 muito baixo, h\u00e1 pouco incentivo para evit\u00e1-la, e a din\u00e2mica da doen\u00e7a ser\u00e1 a associada a decis\u00f5es de exposi\u00e7\u00e3o. Se o custo da doen\u00e7a for muito alto, as pessoas investir\u00e3o recursos substanciais na preven\u00e7\u00e3o de doen\u00e7as. A din\u00e2mica da doen\u00e7a tamb\u00e9m \u00e9 sens\u00edvel aos benef\u00edcios do contato. Os riscos s\u00e3o trocados por estes benef\u00edcios. Se houver muito a ganhar com o contato, com a exposi\u00e7\u00e3o, riscos muito maiores ser\u00e3o aceitos (Fenichel <em>et al<\/em>., 2010). H\u00e1 o caso onde indiv\u00edduos podem demandar situa\u00e7\u00f5es de risco, como por exemplo, exposi\u00e7\u00e3o a doen\u00e7as sexualmente transmiss\u00edveis. Nesta situa\u00e7\u00e3o, os indiv\u00edduos podem dar mais valor ao contato com outros do que \u00e0 sua prote\u00e7\u00e3o, um risco que pode ser bem informado ou n\u00e3o. Quando bem informados, os indiv\u00edduos buscam maximizar sua utilidade e, mesmo assim, o comportamento pode levar a um surto epid\u00eamico (Geoffard e Philipson, 1996).<\/p>\n<p>Um ponto crucial que deve ser elucidado no que diz respeito a decis\u00f5es de n\u00e3o se expor, \u00e9 o quanto isso \u00e9 poss\u00edvel para cada indiv\u00edduo. Em pa\u00edses com seguridade social mais avan\u00e7adas e que respondem mais rapidamente a crises, a parcela da popula\u00e7\u00e3o mais pobre tem a oportunidade de n\u00e3o se expor e, com isso, pode tomar a decis\u00e3o de diminuir seu risco de contrair e propagar doen\u00e7as. Quando governos se delongam em assegurar renda \u00e0queles que mais precisam, o isolamento social, ou diminui\u00e7\u00e3o do risco de se expor, n\u00e3o parece vi\u00e1vel a muitos. Como j\u00e1 exemplificado, a mudan\u00e7a da din\u00e2mica da doen\u00e7a \u00e9 extremamente ligada a resposta do governo, sendo ele respons\u00e1vel por entender por que alguns indiv\u00edduos ou parcelas da popula\u00e7\u00e3o correm o risco de se expor a doen\u00e7as e como mitigar a propaga\u00e7\u00e3o da doen\u00e7a a partir disto.<\/p>\n<p>A abordagem dos modelos utilizados na epidemiologia econ\u00f4mica proporciona uma previs\u00e3o aprimorada e tem o potencial de reduzir custo social do gerenciamento de doen\u00e7as em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s abordagens cl\u00e1ssicas. Permite \u00e0s autoridades de sa\u00fade p\u00fablica ir al\u00e9m dos m\u00e9todos tradicionais de controle, como vacina\u00e7\u00e3o, tratamento ou distanciamento social. Ela propicia o uso de incentivos econ\u00f4micos que mudam o curso da epidemia, alterando o contato pessoal e as decis\u00f5es de se expor a infectados (Chowell <em>et al<\/em>., 2009).<\/p>\n<p>No que concerne o comportamento de epidemias, Philipson (2000) enfatiza a intera\u00e7\u00e3o central entre a extens\u00e3o da doen\u00e7a, que \u00e9 diminu\u00edda pela demanda por preven\u00e7\u00e3o, e a demanda por preven\u00e7\u00e3o em si, que \u00e9 aumentada pela extens\u00e3o da doen\u00e7a. No cerne da an\u00e1lise est\u00e1 o aumento da preval\u00eancia de doen\u00e7as infecciosas, ou seja, a parcela da popula\u00e7\u00e3o infectada que induz o crescimento na preven\u00e7\u00e3o privada. A an\u00e1lise epidemiol\u00f3gica certamente discute como v\u00e1rios padr\u00f5es de comportamento afetam a ocorr\u00eancia da doen\u00e7a, por\u00e9m ela n\u00e3o analisa as implica\u00e7\u00f5es de como o comportamento muda em resposta aos novos incentivos criados pelo crescimento de uma doen\u00e7a, nem analisa os efeitos dessas mudan\u00e7as na conveni\u00eancia de medidas de sa\u00fade p\u00fablica.<\/p>\n<p>O aspecto crucial para o <strong>estudo de epidemias racionais<\/strong> \u00e9, portanto, o que se chama de elasticidade-preval\u00eancia da demanda privada por preven\u00e7\u00e3o contra doen\u00e7as. Ela representa o grau em que a preven\u00e7\u00e3o aumenta em resposta ao surto de doen\u00e7a. Os meios pelos quais as medidas preventivas aumentam podem diferir entre as doen\u00e7as. Por exemplo, a elasticidade para doen\u00e7as evit\u00e1veis \u200b\u200bpor vacina pode representar o n\u00famero de vacina\u00e7\u00f5es adicionais induzidas por cada nova infec\u00e7\u00e3o, enquanto que para doen\u00e7as sexualmente transmiss\u00edveis pode representar o aumento na correspond\u00eancia de parceiros sexuais que t\u00eam o mesmo status de infec\u00e7\u00e3o (Philipson, 1999). Este tipo de comportamento el\u00e1stico pode ter duas implica\u00e7\u00f5es: o crescimento de doen\u00e7as infecciosas \u00e9 autolimitado, j\u00e1 que induz comportamento preventivo; e, j\u00e1 que o decl\u00ednio de uma doen\u00e7a desencoraja preven\u00e7\u00e3o, inicialmente esfor\u00e7os p\u00fablicos tornam progressivamente mais dif\u00edcil a erradica\u00e7\u00e3o de doen\u00e7as infecciosas.<\/p>\n<p>Podemos ver, portanto, que \u00e9 de extrema import\u00e2ncia o entendimento do comportamento humano no que concerne a propaga\u00e7\u00e3o de epidemias. Fenichel <em>et al<\/em>. (2010), por exemplo, reconhece que o comportamento adaptativo significa explicitamente a incorpora\u00e7\u00e3o de respostas comportamentais a riscos de doen\u00e7as e outros incentivos em modelos epidemiol\u00f3gicos. De acordo com os autores, os modelos utilizados para epidemiologia n\u00e3o utilizam respostas comportamentais a riscos de contrair doen\u00e7as. \u00c9 esperado que indiv\u00edduos agindo em seu pr\u00f3prio interesse respondam a riscos de doen\u00e7as protegendo a si pr\u00f3prios de uma poss\u00edvel infec\u00e7\u00e3o. \u00c9 improv\u00e1vel que o contato entre indiv\u00edduos se interrompa de acordo com Fenichel <em>et al<\/em>. (2010), mas \u00e9 poss\u00edvel equilibrar os benef\u00edcios e custos esperados de contatos adicionais. Essas respostas comportamentais retornam ao processo de transmiss\u00e3o da doen\u00e7a e alteram a din\u00e2mica epidemiol\u00f3gica e os riscos futuros da doen\u00e7a. De acordo com Brito <em>et al.<\/em> (1990), o risco de contrair doen\u00e7as simultaneamente afeta e \u00e9 afetado pela decis\u00e3o dos agentes, criando, desta forma, um <em>feedback <\/em>do risco \u2013 n\u00edveis de infec\u00e7\u00e3o levam o comportamento a moldar a propaga\u00e7\u00e3o das doen\u00e7as.\u00a0 Para o autor, economia da epidemiologia tem o papel de analisar o comportamento de escolha de indiv\u00edduos em resposta a doen\u00e7as. \u00c9 assumido que indiv\u00edduos fa\u00e7am decis\u00f5es para maximizar sua utilidade e bem-estar. O peso da utilidade esperada \u00e9 associado a decis\u00f5es que incluem a possibilidade de infec\u00e7\u00f5es futuras quando tomadas certas decis\u00f5es.<\/p>\n<p>O comportamento predominante el\u00e1stico, isto \u00e9, o comportamento protetor que \u00e9 visto cada vez mais \u00e0 medida que uma doen\u00e7a se torna mais prevalente, foi observado, por exemplo, no contexto do sarampo (Philipson, 1996). Na revis\u00e3o feita por Funk<em> et al.<\/em> (2010), estudos de modelagem baseados na teoria dos jogos mostraram que a din\u00e2mica do comportamento racional e da preval\u00eancia de doen\u00e7as pode levar a oscila\u00e7\u00f5es com surtos ap\u00f3s aumentos na cobertura vacinal e subsequentes depress\u00f5es epid\u00eamicas. \u00c9 o caso quando se sup\u00f5e que as decis\u00f5es de vacina\u00e7\u00e3o sejam tomadas imitando outras, bem como quando as decis\u00f5es se baseiam na preval\u00eancia passada de uma doen\u00e7a.<\/p>\n<p>Para Funk <em>et al.<\/em> (2010), \u00e9 \u00fatil reconhecer que existem dois diferentes processos. O comportamento humano \u00e9 baseado em atitudes, cren\u00e7as, opini\u00f5es e consci\u00eancia sobre uma doen\u00e7a. Todos estes fatores podem mudar com o tempo, tanto em indiv\u00edduos quanto na popula\u00e7\u00e3o como um todo. Existem diversas formas de modelar como certos comportamentos mudam com o tempo. De acordo com os autores, diversos modelos fazem uma suposi\u00e7\u00e3o sobre a <em>fonte <\/em>da informa\u00e7\u00e3o e o <em>tipo<\/em> de informa\u00e7\u00e3o na qual as pessoas baseiam suas decis\u00f5es, que, eventualmente, ir\u00e3o resultar em uma mudan\u00e7a comportamental.<\/p>\n<p>Em um estudo realizado sobre a campanha de vacina\u00e7\u00e3o para febre amarela no Brasil, por exemplo, (Coelho e Code\u00e7o, 2009) foi analisado o impacto da opini\u00e3o p\u00fablica nos resultados da campanha e a dificuldade de lidar com eventos de surto. Como exemplo, os autores citam que nenhum comunicado de imprensa oficial foi considerado, pois sempre havia quest\u00f5es pol\u00edticas envolvidas e desconfian\u00e7a nas autoridades. Este exemplo mostra a complexidade de modelar e prever o sucesso das estrat\u00e9gias de conten\u00e7\u00e3o de doen\u00e7as.<\/p>\n<p>Epidemiologistas e economistas reconhecem cada vez mais que a heterogeneidade dos indiv\u00edduos e a tomada de decis\u00f5es s\u00e3o essenciais para determinar como as epidemias evoluem e como as interven\u00e7\u00f5es pol\u00edticas afetam essa evolu\u00e7\u00e3o. Economistas desenvolveram modelos para descrever como os indiv\u00edduos se envolvem em comportamento adaptativo ou estrat\u00e9gico, incluindo tratamento e vacina\u00e7\u00e3o (Francis, 1997, Geoffard e Philipson, 1996, Philipson, 2000), redu\u00e7\u00f5es no comportamento sexual de risco (Auld, 2003, Kremer, 1996), comportamento migrat\u00f3rio (Mesnard e Seabright, 2009), e mitiga\u00e7\u00e3o de riscos gen\u00e9ricos atrav\u00e9s da redu\u00e7\u00e3o de contatos sociais (Chen et al., 2011, Fenichel et al., 2011). Um componente fundamental dos modelos com comportamento estrat\u00e9gico \u00e9 que o atual estado de sa\u00fade de um indiv\u00edduo influencia seus incentivos para se engajar em diferentes comportamentos (Auld, 2003, Fenichel et al., 2011).<\/p>\n<p>Existe grande potencial para pensar em assimetrias informacionais no contexto de doen\u00e7as infeciosas, pois a forma como os indiv\u00edduos respondem e reagem as amea\u00e7a da doen\u00e7a depende de sua percep\u00e7\u00e3o de risco, que por sua vez \u00e9 influenciada por informa\u00e7\u00f5es p\u00fablicas e privadas. Informa\u00e7\u00f5es p\u00fablicas referem-se principalmente a preval\u00eancia de uma doen\u00e7a, que por sua vez pode ser amplamente divulgada pela m\u00eddia. Os indiv\u00edduos combinam essas informa\u00e7\u00f5es com suas pr\u00f3prias fontes privadas de informa\u00e7\u00e3o e cren\u00e7as para avaliar sua prov\u00e1vel exposi\u00e7\u00e3o \u00e0 doen\u00e7a, que por sua vez determina sua estrat\u00e9gia de preven\u00e7\u00e3o. Por exemplo, indiv\u00edduos que pensam que vivem em uma \u00e1rea de baixa preval\u00eancia da doen\u00e7a, estariam relativamente menos propensos a se proteger. No entanto, a qualidade das informa\u00e7\u00f5es sobre preval\u00eancia local pode ser tendenciosa, seja porque poucos m\u00e9dicos sabem o suficiente sobre a doen\u00e7a, visto que ela \u00e9 nova e desconhecida, ou porque informa\u00e7\u00f5es sobre o risco da doen\u00e7a podem n\u00e3o estar dispon\u00edveis para os cidad\u00e3os comuns.<\/p>\n<p>Em resumo, a abordagem da economia da epidemiologia abre novas op\u00e7\u00f5es para a previs\u00e3o e o gerenciamento de epidemias. Ao melhorar nossa compreens\u00e3o do comportamento do contato, a abordagem est\u00e1 fortalecendo a capacidade de projetar o curso futuro da doen\u00e7a. Essa forma de an\u00e1lise ajuda a identificar as escolhas privadas que melhor atendem ao interesse p\u00fablico e os incentivos necess\u00e1rios para levar as pessoas a fazerem essas escolhas. Assim, pode-se concluir que h\u00e1 uma necessidade de incorporar-se as escolhas comportamentais em modelos matem\u00e1ticos de dissemina\u00e7\u00e3o de doen\u00e7as. Isso \u00e9 crucial se quisermos melhorar a precis\u00e3o das previs\u00f5es do curso e do custo de uma epidemia e desenvolver pol\u00edticas p\u00fabicas adequadas e eficientes. A economia tem muita experi\u00eancia em pensar em como as pessoas respondem ao risco, seja por maior risco em outras \u00e1reas de sua vida (seguros, aplica\u00e7\u00f5es financeiras, etc.) ou pela diminui\u00e7\u00e3o do risco em outros lugares. Uma estrutura unificada para pensar sobre essas respostas ao risco poderia ser combinada com os modelos epidemiol\u00f3gicos de doen\u00e7as infecciosas para uma melhor compreens\u00e3o de como as doen\u00e7as e os seres humanos interagem.<\/p>\n<p>A abordagem econ\u00f4mica das doen\u00e7as infecciosas est\u00e1 em sua inf\u00e2ncia tanto do ponto de vista te\u00f3rico como emp\u00edrico, um tanto estranhamente porque muitos economistas h\u00e1 muito t\u00eam a intui\u00e7\u00e3o de que epidemias e doen\u00e7as infecciosas s\u00e3o manifesta\u00e7\u00f5es fundamentais do princ\u00edpio de uma externalidade negativa, em si um conceito central na economia. No entanto, s\u00f3 recentemente os economistas come\u00e7aram a olhar para essas quest\u00f5es. Contudo, com a recente crise causada pela COVID 19, isto ir\u00e1 mudar, pois a epidemiologia econ\u00f4mica emergiu como um significativo campo de pesquisa multidisciplinar de extrema relev\u00e2ncia, tanto do ponto de vista te\u00f3rico, emp\u00edrico e para a formula\u00e7\u00e3o de pol\u00edticas p\u00fablicas baseadas em evid\u00eancias.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Refer\u00eancias bibliogr\u00e1ficas<\/strong><\/p>\n<p>BRAUER F, CASTILLO-CHAVEZ C. <strong>Mathematical Models for Communicable Diseases<\/strong>. Philadelphia: Society for Industrial and Applied Mathematics, 2013.<\/p>\n<p>BRITO D. et al. <strong>Externalities and compulsory vaccinations.<\/strong> Journal of Public Economics, 45, 69-90, Agosto 1990.<\/p>\n<p>COELHO FC, CODE\u00c7O CT. <strong>Dynamic Modeling of Vaccinating Behavior as a Function of Individual Beliefs.<\/strong> PLoS Comput Biol 5(7): e1000425, 10 julho 2009. 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