{"id":17129,"date":"2020-04-24T16:11:06","date_gmt":"2020-04-24T19:11:06","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ufrgs.br\/fce\/?p=17129"},"modified":"2022-12-01T16:31:35","modified_gmt":"2022-12-01T19:31:35","slug":"bolsonaro-e-o-coronavirus-o-custo-do-isolamento-diplomatico-num-momento-de-crise","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufrgs.br\/fce\/bolsonaro-e-o-coronavirus-o-custo-do-isolamento-diplomatico-num-momento-de-crise\/","title":{"rendered":"Bolsonaro e o coronav\u00edrus: o custo do isolamento diplom\u00e1tico num momento de crise"},"content":{"rendered":"<p><em>Por Andr\u00e9 Luiz Reis da Silva, professor de Rela\u00e7\u00f5es Internacionais da FCE\/UFRGS<\/em><\/p>\n<p>O primeiro caso de coronav\u00edrus foi confirmado no Brasil em 26 de fevereiro. Em 26 de mar\u00e7o, o Brasil j\u00e1 contabilizava cerca de tr\u00eas mil casos confirmados. Em 22 de abril, o n\u00famero de casos passava dos 45 mil, com quase tr\u00eas mil mortes confirmadas.\u00a0 Neste per\u00edodo, a pol\u00edtica externa brasileira manteve a mesma posi\u00e7\u00e3o, de alinhamento com a ideologia do presidente norte-americano Donald Trump, de cr\u00edticas e provoca\u00e7\u00f5es \u00e0 China e de negacionismo quanto ao poss\u00edvel impacto em n\u00famero de casos e mortalidade. Depois que o pr\u00f3prio presidente Trump (assim como outros lideres, como Obrador no M\u00e9xico e Boris Jonhson na Inglaterra) reviu esta posi\u00e7\u00e3o e vem trabalhando pol\u00edticas de isolamento mais amplas, Bolsonaro tem experimentado um certo isolamento.<\/p>\n<p>O negacionismo da crise do coronav\u00edrus tem como origem os l\u00edderes da extrema direita, assentada numa ideologia \u201cantiglobalista\u201d e sintetizada numa dupla desconfian\u00e7a: com organismos internacionais e com a China. Eles veem uma amea\u00e7a em qualquer \u00f3rg\u00e3o da ONU, como a OMS, neste momento. Entretanto, o pr\u00f3prio estrategista conservador americano Steve Bannon, interlocutor e refer\u00eancia ideol\u00f3gica da fam\u00edlia Bolsonaro no Brasil, vinha defendendo medidas de isolamento social para os Estados Unidos e ficou inclusive surpreso com a manuten\u00e7\u00e3o da posi\u00e7\u00e3o brasileira. E Bolsonaro, a cada dia, foi dobrando a aposta. Reiteradamente, Bolsonaro manifesta desconhecimento e desprezo pela atividade cient\u00edfica, divulga informa\u00e7\u00f5es distorcidas e mant\u00e9m um comportamento de ignorar ou ironizar recomenda\u00e7\u00f5es de \u201cisolamento social\u201d.<\/p>\n<p>Enquanto isso, o chanceler brasileiro Ernesto Ara\u00fajo publicou, em seu Blog, no dia 22 de abril, um artigo intitulado \u201ccomunavirus\u201d. Neste artigo, a principal preocupa\u00e7\u00e3o do chanceler \u00e9 o \u201cv\u00edrus ideol\u00f3gico\u201d do comunismo, que pode se aproveitar do coronav\u00edrus para expandir seu \u201cprojeto globalista\u201d. De acordo com Ara\u00fajo<em>, \u201cO v\u00edrus aparece, de fato, como imensa oportunidade para acelerar o projeto globalista. Este j\u00e1 se vinha executando por meio do climatismo ou alarmismo clim\u00e1tico, da ideologia de g\u00eanero, do dogmatismo politicamente correto, do imigracionismo, do racialismo ou reorganiza\u00e7\u00e3o da sociedade pelo princ\u00edpio da ra\u00e7a, do antinacionalismo, do cientificismo. S\u00e3o instrumentos eficientes, mas a pandemia, colocando indiv\u00edduos e sociedades diante do p\u00e2nico da morte iminente, representa a exponencializa\u00e7\u00e3o de todos eles. A pretexto da pandemia, o novo comunismo trata de construir um mundo sem na\u00e7\u00f5es, sem liberdade, sem esp\u00edrito, dirigido por uma ag\u00eancia central de &#8220;solidariedade&#8221; encarregada de vigiar e punir.<\/em>\u201d<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\">[1]<\/a> No contexto da crise pand\u00eamica, com enormes desafios, a preocupa\u00e7\u00e3o central do chanceler brasileiro \u00e9 com o comunismo.<\/p>\n<p>O governo brasileiro tenta, inclusive, reproduzir o dilema norte-americano coopera\u00e7\u00e3o\/competi\u00e7\u00e3o com a China.\u00a0 Nesse contexto, o Brasil conseguiu criar dois incidentes diplom\u00e1ticos gratuitos com a China. Um primeiro, com Eduardo Bolsonaro publicando confusas mensagens contra a China, contestado pela embaixada da China no Brasil e agravado por uma desastrada nota do ministro das Rela\u00e7\u00f5es Exteriores brasileiro. O segundo, por uma ironia, tamb\u00e9m de racioc\u00ednio e de reda\u00e7\u00e3o confusa, do ministro da Educa\u00e7\u00e3o Abraham Weintraub, repelida pela embaixada chinesa como \u201cracista\u201d. Duas crises gratuitas que deveriam ter sido evitadas em qualquer per\u00edodo, mas que ganham maior gravidade com a centralidade da China, tanto na produ\u00e7\u00e3o de insumos m\u00e9dicos, como na sustenta\u00e7\u00e3o da pauta de com\u00e9rcio exterior brasileira.<\/p>\n<p>O presidente Bolsonaro claramente j\u00e1 est\u00e1 tentando encontrar culpados pelo fracasso de sua lideran\u00e7a, tanto para combater a doen\u00e7a, quanto para mitigar as dificuldades econ\u00f4micas. Nos c\u00edrculos diplom\u00e1ticos e na imprensa internacional, as palavras s\u00e3o pouco elogiosas ao presidente brasileiro. Com essa pol\u00edtica, ao passo em que critica internamente o \u201cisolamento social\u201d, Bolsonaro est\u00e1 experimentando um isolamento pol\u00edtico no Brasil e no exterior. O resultado disso tudo \u00e9 isolacionismo brasileiro, afastamento da China e outros parceiros, e baixa capacidade de influenciar concerta\u00e7\u00f5es regionais e globais no manejo da crise.<\/p>\n<p>No \u00e2mbito multilateral, o Brasil tamb\u00e9m tem se mostrado um ator distante e opaco, seguindo de forma geral os interesses norte-americanos. O Brasil seguiu os EUA ao n\u00e3o endossar uma resolu\u00e7\u00e3o da Assembleia Geral da ONU, apoiada por 179 pa\u00edses, que rogava por coopera\u00e7\u00e3o internacional para combater a pandemia.<\/p>\n<p>Essa pol\u00edtica isolacionista pode tamb\u00e9m ter implica\u00e7\u00f5es no com\u00e9rcio exterior brasileiro: 1) afastamento pol\u00edtico de importantes compradores, como China; 2) problemas de exporta\u00e7\u00e3o, resultantes de descontrole sanit\u00e1rio; 3) isolamento nas articula\u00e7\u00f5es multilaterais de defesa comercial. As expectativas s\u00e3o de uma redu\u00e7\u00e3o do PIB global e do com\u00e9rcio exterior a curto e m\u00e9dio prazo, o que traz como previs\u00edvel a eleva\u00e7\u00e3o da disputa comercial e dificuldades adicionais de exporta\u00e7\u00e3o (ajustes em cotas, medidas sanit\u00e1rias, prefer\u00eancias). Os pa\u00edses que det\u00eam maior poder econ\u00f4mico e pol\u00edtico tendem a dar as cartas nas regras e negocia\u00e7\u00f5es comerciais, num jogo duro que exige do Brasil uma forte articula\u00e7\u00e3o diplom\u00e1tica para colocar \u00e0 mesa seus interesses.<\/p>\n<p>O enfraquecimento e esvaziamento das institui\u00e7\u00f5es regionais tamb\u00e9m est\u00e3o cobrando seu pre\u00e7o, com a aus\u00eancia de uma clara, forte e determinada articula\u00e7\u00e3o regional (em especial do Mercosul). N\u00e3o interessa ao Brasil a fragiliza\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica e sanit\u00e1ria dos vizinhos e \u00e9 necess\u00e1rio um papel de lideran\u00e7a para resguardar nossos interesses estrat\u00e9gicos na regi\u00e3o. As cadeias internacionais de valor tendem a se regionalizar neste contexto, para garantir mais seguran\u00e7a log\u00edstica.<\/p>\n<p>A conten\u00e7\u00e3o da pandemia e a reconstru\u00e7\u00e3o da economia regional e global nos pr\u00f3ximos meses e anos exigir\u00e3o da diplomacia brasileira a intensifica\u00e7\u00e3o da coopera\u00e7\u00e3o, em especial a coopera\u00e7\u00e3o cient\u00edfica e tecnol\u00f3gica na \u00e1rea de sa\u00fade, mas tamb\u00e9m nos seus aspectos pol\u00edticos e econ\u00f4mico-comerciais. Exigir\u00e1 do Brasil tamb\u00e9m ter uma compreens\u00e3o clara das mudan\u00e7as no sistema internacional e suas fric\u00e7\u00f5es geopol\u00edticas, para se posicionar corretamente e defender os interesses do Pa\u00eds.<\/p>\n<p>Abaixo est\u00e3o listadas algumas tarefas urgentes para a diplomacia brasileira:<\/p>\n<ol>\n<li>O Brasil, como uma <strong>pot\u00eancia regional<\/strong>, com fronteiras com quase todos os pa\u00edses da Am\u00e9rica do Sul, deveria estar articulando uma concerta\u00e7\u00e3o regional, tanto para combater a dissemina\u00e7\u00e3o do v\u00edrus quanto para mitigar seus efeitos, em especial sobre a economia regional. O Mercosul precisa trabalhar a\u00e7\u00f5es conjuntas de mitiga\u00e7\u00e3o da crise sanit\u00e1ria e seus reflexos no com\u00e9rcio internacional.<\/li>\n<li>O Brasil, como uma <strong>pot\u00eancia emergente<\/strong>, deveria estar engajado multilateralmente nas discuss\u00f5es globais sobre a crise. As institui\u00e7\u00f5es multilaterais e regimes internacionais devem ser espa\u00e7os de articula\u00e7\u00e3o e busca de consensos para a solu\u00e7\u00e3o da crise. O Brasil tem sua carga de responsabilidade pelas suas dimens\u00f5es e proje\u00e7\u00e3o num sistema crescentemente multipolar. Da mesma forma, os BRICS podem ser testados na sua coes\u00e3o exatamente em um momento como esse.<\/li>\n<li>O Brasil, como uma <strong>pot\u00eancia intermediaria<\/strong>, deveria estar inserido em m\u00faltiplos pontos nodais de coopera\u00e7\u00e3o, tanto com os pa\u00edses desenvolvidos, quanto com os pa\u00edses mais pobres. A coopera\u00e7\u00e3o Sul-Sul do Brasil na \u00e1rea de sa\u00fade, em especial em rela\u00e7\u00e3o aos pa\u00edses africanos, \u00e9 um patrim\u00f4nio que o Brasil pode aproveitar. A articula\u00e7\u00e3o IBAS (\u00cdndia, Brasil e \u00c1frica do Sul) teve origem em uma positiva coopera\u00e7\u00e3o em sa\u00fade e pode ser reativada neste contexto. A coopera\u00e7\u00e3o cient\u00edfica ganha centralidade neste processo.<\/li>\n<\/ol>\n<p>Para finalizar, a diplomacia brasileira est\u00e1 atuando num patamar muito abaixo das suas capacidades e das necessidades do pa\u00eds, que continua consumindo seu patrim\u00f4nio diplom\u00e1tico e fragilizando sua inser\u00e7\u00e3o internacional, num r\u00e1pido processo de isolamento. Tal postura poder\u00e1 ter efeitos altamente nocivos para o pa\u00eds no per\u00edodo sombrio que se avizinha.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a> Ver ARAUJO, Ernesto. Chegou o comunav\u00edrus. Blog Metapol\u00edtica.\u00a0 <a href=\"https:\/\/www.metapoliticabrasil.com\/post\/chegou-o-comunav%C3%ADrus\">https:\/\/www.metapoliticabrasil.com\/post\/chegou-o-comunav%C3%ADrus<\/a>.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Andr\u00e9 Luiz Reis da Silva, professor de Rela\u00e7\u00f5es Internacionais da FCE\/UFRGS<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"fifu_image_url":"","fifu_image_alt":"","footnotes":"","_links_to":"","_links_to_target":""},"categories":[438],"tags":[445],"class_list":["post-17129","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-analise","tag-artigo"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/fce\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/17129","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/fce\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/fce\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/fce\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/fce\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=17129"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/fce\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/17129\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/fce\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=17129"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/fce\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=17129"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/fce\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=17129"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}