{"id":17583,"date":"2020-05-25T15:11:07","date_gmt":"2020-05-25T18:11:07","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ufrgs.br\/fce\/?p=17583"},"modified":"2020-06-02T14:20:09","modified_gmt":"2020-06-02T17:20:09","slug":"e-sempre-mais-facil-acreditar-no-curandeiro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufrgs.br\/fce\/e-sempre-mais-facil-acreditar-no-curandeiro\/","title":{"rendered":"\u00c9 sempre mais f\u00e1cil acreditar no curandeiro"},"content":{"rendered":"<div class=\"entry-summary\">\n<p><em>Por Marco Ant\u00f4nio dos Santos Martins, professor do Departamento de Ci\u00eancias Cont\u00e1beis e Atuariais da FCE\/UFRGS<\/em><\/p>\n<\/div>\n<p>Esta semana lembrei de uma destas prof\u00edcuas conversas de cafezinho, na qual um m\u00e9dico, com excelente capacidade de gest\u00e3o, contava que, em uma long\u00ednqua \u00e9poca da hist\u00f3ria, a pol\u00edcia de Paris estabeleceu uma grande persegui\u00e7\u00e3o aos curandeiros, pessoas sem forma\u00e7\u00e3o m\u00e9dica, que exerciam, de forma ilegal, a profiss\u00e3o de m\u00e9dico. Ap\u00f3s muito esfor\u00e7o, a pol\u00edcia parisiense conseguiu prender o curandeiro mais famoso da cidade e, para surpresa geral, ele confessou que possu\u00eda um diploma de m\u00e9dico, mas que atuava como curandeiro porque \u00e9 sempre mais f\u00e1cil encontrar pessoas que acreditam em curandeiros do que em m\u00e9dicos.<\/p>\n<p>Diante de uma conjuntura em que o Brasil contabiliza mais de 20.000 mortos por Covid-19, o Minist\u00e9rio da Sa\u00fade recomendou que o uso do medicamento cloroquina fosse ampliado para os casos de pacientes leves (at\u00e9 ent\u00e3o, seu uso era permitido para casos graves). A recomenda\u00e7\u00e3o surge em um momento em que v\u00e1rios estudos cient\u00edficos, realizados com uso do medicamento em pacientes com Covid-19, demonstram resultados inconclusivos. Este \u00e9 apenas mais um acontecimento capaz de exemplificar o verdadeiro tratamento dispensado, nas \u00faltimas d\u00e9cadas, ao conhecimento cient\u00edfico no Brasil, onde o improviso e a &#8220;teoria do achismo&#8221; prevalecem sobre o planejamento e a ci\u00eancia, sendo sempre mais f\u00e1cil acreditar no curandeiro de plant\u00e3o. Nesse sentido, cabe citar Leonardo Da Vinci: &#8220;<em>Os que se encantam com a pr\u00e1tica sem a ci\u00eancia s\u00e3o como timoneiros que entram no navio sem tim\u00e3o nem b\u00fassola, nunca tendo certeza do seu destino&#8221;<\/em><em>. <\/em><\/p>\n<p>Em meio a discuss\u00f5es completamente sem foco, o Brasil j\u00e1 \u00e9 reconhecido no mundo como o novo epicentro do v\u00edrus. Segundo o Minist\u00e9rio da Sa\u00fade, o coronav\u00edrus j\u00e1 chegou a 58,7% dos cerca de 5,5 mil munic\u00edpios brasileiros e provocou mortes em 1.220, ou seja, 21,9% do total. Nesse contexto, observa-se que algumas das principais cidades do Pa\u00eds continuam empenhadas em controlar o avan\u00e7o da doen\u00e7a, com destaque para a cidade de S\u00e3o Paulo, que vem tentando tomar diversas medidas para aumentar o isolamento social, como a antecipa\u00e7\u00e3o de feriados.<\/p>\n<p>Por outro lado, o estado do Rio Grande do Sul permanece como um dos exemplos positivos no gerenciamento da pandemia, com o governo estadual orientando suas decis\u00f5es a partir de uma modelagem de monitoramento regional apoiada em informa\u00e7\u00f5es geradas por pesquisas cient\u00edficas e com elevado grau de comprometimento da sociedade. Nesta semana, o Estado come\u00e7a a relaxar as medidas de isolamento, com reabertura dos shoppings, restaurantes e academias de gin\u00e1stica, com o compromisso de persistir com o monitoramento regional para aumentar ou diminuir o grau de isolamento social conforme a evolu\u00e7\u00e3o da doen\u00e7a e seus impactos sobre a estrutura de sa\u00fade.<\/p>\n<p>Enquanto a cloroquina ocupava as aten\u00e7\u00f5es de Bras\u00edlia, o mercado financeiro voltava suas aten\u00e7\u00f5es para a evolu\u00e7\u00e3o das pesquisas sobre a vacina contra a Covid-19. Na segunda-feira, os resultados promissores de uma poss\u00edvel vacina desenvolvida pela farmac\u00eautica Moderna fizeram as bolsas de valores experimentarem forte valoriza\u00e7\u00e3o pelo mundo, com o Ibovespa encerrando o dia em 81.194 pontos, com valoriza\u00e7\u00e3o de 4,69%. Ap\u00f3s alguma apreens\u00e3o na ter\u00e7a, o \u00edndice volta a se valorizar na quarta e quinta, com a sinaliza\u00e7\u00e3o de retomada das economias americana e chinesa. O Ibovespa fechou a quinta-feira em 83.087 pontos, acumulando a alta de 7,05% na semana.<\/p>\n<p>O d\u00f3lar comercial tamb\u00e9m acompanhou o bom humor do mercado, fechando em R$ 5,5811, com uma desvaloriza\u00e7\u00e3o de 4,40% na semana. Al\u00e9m disso, a reuni\u00e3o entre o Presidente e os governadores, em que ficaram acertados o aux\u00edlio aos estados e munic\u00edpios com o congelamento dos sal\u00e1rios dos funcion\u00e1rios p\u00fablicos e a sinaliza\u00e7\u00e3o de um poss\u00edvel alinhamento do Pal\u00e1cio do Planalto com o Congresso, no que se refere aos aux\u00edlios precisarem estar apoiados no compromisso da responsabilidade fiscal de m\u00e9dio prazo, contribuiu para o bom \u00e2nimo dos investidores.<\/p>\n<p>No \u00faltimo preg\u00e3o da semana, o mercado aproveitou o aumento das tens\u00f5es entre Estados Unidos e China por conta de um projeto de lei do governo chin\u00eas que pretende impor nova lei de seguran\u00e7a nacional a Hong Kong, o que aumentaria o controle do Partido Comunista Chin\u00eas sobre a cidade semiauton\u00f4ma, para realizar lucros. Al\u00e9m disso, aumentaram as preocupa\u00e7\u00f5es com a divulga\u00e7\u00e3o da \u00edntegra do v\u00eddeo da reuni\u00e3o ministerial de 22 de abril (reuni\u00e3o em que o ex-ministro S\u00e9rgio Moro afirma ter sido pressionado para realizar trocas na Pol\u00edcia Federal), prevista para ser liberada ao final da tarde de sexta-feira. Com este cen\u00e1rio, o Ibovespa fechou a 82.173 pontos, com perdas de 1,02% no dia, mas com uma valoriza\u00e7\u00e3o de 5,95% na semana e de 2,07% no m\u00eas. O d\u00f3lar comercial, por sua vez, fechou em R$ 5,5842, com desvaloriza\u00e7\u00e3o de 4,35%, voltando aos patamares da primeira semana do m\u00eas.<\/p>\n<p>A pr\u00f3xima semana chega cheia de expectativas, pois, ao que parece, o sil\u00eancio que reinava em Bras\u00edlia ser\u00e1 substitu\u00eddo pelas fortes repercuss\u00f5es a respeito do v\u00eddeo da reuni\u00e3o ministerial de 22 de abril. Na pr\u00f3pria sexta-feira \u00e0 noite, trechos do v\u00eddeo j\u00e1 agitavam os notici\u00e1rios, com os analistas do mercado financeiro tentando identificar o quanto o v\u00eddeo ir\u00e1 contaminar o ambiente pol\u00edtico e o quanto dessa contamina\u00e7\u00e3o ir\u00e1 afetar a precifica\u00e7\u00e3o dos ativos.<\/p>\n<p>S\u00f3 para lembrar, o mercado financeiro tamb\u00e9m tem seus &#8220;curandeiros&#8221;: sempre \u00e9 mais f\u00e1cil encontrar pessoas dispostas a acreditar naqueles que prometem altos rendimentos sem mostrar os riscos do que naqueles que explicam as possibilidades de ganhos associadas aos devidos riscos. Em linhas gerais, o curandeiro promete solu\u00e7\u00f5es f\u00e1ceis e baratas, j\u00e1 a ci\u00eancia \u00e9 custosa, pois exige muito investimento e pesquisa.<\/p>\n<p>Por fim, cabe destacar o ensinamento do jornalista e cr\u00edtico social norte-americano H. L. Mencken<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\"><strong>[1]<\/strong><\/a><strong> <em>&#8220;<\/em><\/strong><em>Para todo problema complexo<\/em><em>, existe sempre uma solu\u00e7\u00e3o simples, elegante e completamente errada&#8221;.<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a> Henry Louis Mencken, tamb\u00e9m conhecido como\u00a0H. L. Mencken\u00a0(Baltimore,\u00a0Maryland,\u00a012\/09\/1880 \u2013 29\/01\/1956, foi um\u00a0jornalista\u00a0e cr\u00edtico social\u00a0norte-americano. Mencken \u00e9 conhecido por escrever\u00a0<em>The American Language<\/em>, um estudo de como a l\u00edngua inglesa \u00e9 falada nos\u00a0Estados Unidos. Ele comentou amplamente na cena\u00a0social,\u00a0literatura,\u00a0m\u00fasica, pol\u00edticos proeminentes, pseudo-especialistas.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Marco Ant\u00f4nio dos Santos Martins, professor do Departamento de Ci\u00eancias Cont\u00e1beis e Atuariais da UFRGS<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"fifu_image_url":"","fifu_image_alt":"","footnotes":"","_links_to":"","_links_to_target":""},"categories":[438],"tags":[445],"class_list":["post-17583","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-analise","tag-artigo"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/fce\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/17583","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/fce\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/fce\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/fce\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/fce\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=17583"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/fce\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/17583\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/fce\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=17583"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/fce\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=17583"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/fce\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=17583"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}