{"id":17665,"date":"2020-06-01T12:05:56","date_gmt":"2020-06-01T15:05:56","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ufrgs.br\/fce\/?p=17665"},"modified":"2022-12-01T16:31:35","modified_gmt":"2022-12-01T19:31:35","slug":"liberalismo-bolsonarismo-e-nazismo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufrgs.br\/fce\/liberalismo-bolsonarismo-e-nazismo\/","title":{"rendered":"Liberalismo, Bolsonarismo e Nazismo"},"content":{"rendered":"<p><em>Por Luiz Augusto Estrella Faria, professor titular de Economia e Rela\u00e7\u00f5es Internacionais da UFRGS<\/em><\/p>\n<p>O liberalismo econ\u00f4mico sempre se apresentou como um elemento indispens\u00e1vel do que chamamos hoje democracia. Nas duas \u00faltimas d\u00e9cadas do s\u00e9culo XX, essa reivindica\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica assumiu a forma do neoliberalismo e se apresentou para o mundo ocidental como a configura\u00e7\u00e3o \u00faltima do regime pol\u00edtico que poderia triunfar sobre o autoritarismo comunista. E esse triunfo aconteceu, pois hoje apenas Cuba, Cor\u00e9ia do Norte e China est\u00e3o organizadas politicamente na forma de regimes que de alguma forma se reivindicam \u201ccomunistas\u201d.<\/p>\n<p>Era de se esperar que a democracia, o governo do povo, para o povo e pelo povo, tivesse triunfado, tornando realidade as consignas da Revolu\u00e7\u00e3o Francesa de liberdade, fraternidade e igualdade. Entretanto, nada disso aconteceu. A desigualdade social e econ\u00f4mica aumentou, a fraternidade deu lugar ao culto do individualismo e a liberdade foi sendo cada vez mais restrita por pol\u00edticas de governo autorit\u00e1rias promotoras de uma falsa liberdade econ\u00f4mica s\u00f3 acess\u00edvel aos muito ricos. A contradi\u00e7\u00e3o social entre ricos e pobres e entre as na\u00e7\u00f5es s\u00f3 fez aumentar e a concentra\u00e7\u00e3o do poder cada vez mais favorece a consolida\u00e7\u00e3o de uma elite plutocr\u00e1tica que decide todas as pol\u00edticas p\u00fablicas. O que gerou esse casamento aparentemente antag\u00f4nico entre neoliberalismo e autoritarismo? Vamos voltar \u00e0s origens, que s\u00e3o reveladoras.<\/p>\n<p>O caso pioneiro de implanta\u00e7\u00e3o do modelo econ\u00f4mico neoliberal foi o Chile da ditadura do corrupto Pinochet, iniciada em 1973. Enquanto os militares golpistas tratavam de exterminar fisicamente seus advers\u00e1rios numa orgia macabra de sangue, tortura e morte, um grupo de economistas formado na Universidade de Chicago e seguidores de Milton Friedman levava adiante o plano de transformar todos os bens outrora p\u00fablicos em mercadoria. Sa\u00fade, educa\u00e7\u00e3o, previd\u00eancia, cultura passaram a ser fornecidos por empresas e vendidos em troca de moeda para quem pudesse pagar. Privatiza\u00e7\u00f5es, desregula\u00e7\u00e3o e redu\u00e7\u00e3o da prote\u00e7\u00e3o ao trabalho e aos mais vulner\u00e1veis vieram junto. A renda concentrou-se e a pobreza cresceu, conforme os objetivos do plano.<\/p>\n<p>Na sequ\u00eancia, o neoliberalismo triunfa no centro do capitalismo sob o comando de dois governantes, se n\u00e3o sanguin\u00e1rios, igualmente autorit\u00e1rios: Margaret Thatcher e Ronald Reagan. Redu\u00e7\u00e3o de direitos sociais, mercantiliza\u00e7\u00e3o de bens p\u00fablicos e concentra\u00e7\u00e3o da renda foram seus objetivos, assim como no Chile. A preserva\u00e7\u00e3o da democracia formal foi poss\u00edvel pela institui\u00e7\u00e3o de governos majorit\u00e1rios que esmagaram todas as for\u00e7as sociais que se puseram em oposi\u00e7\u00e3o a suas pol\u00edticas por meio de uma reforma do Estado a qual eliminou qualquer possibilidade de equilibro contramajorit\u00e1rio.<\/p>\n<p>Se essa foi a forma original do neoliberalismo, nada pode fazer com que estranhemos ser a estrat\u00e9gia econ\u00f4mica de um governo neonazista como o de Bolsonaro no Brasil de hoje. Mas fica a quest\u00e3o: se o liberalismo apareceu no s\u00e9culo XVIII como defensor de todas as liberdades, n\u00e3o apenas a dita econ\u00f4mica, por que essa simbiose com o autoritarismo no triunfo de sua forma contempor\u00e2nea, a neoliberal? Esta pergunta s\u00f3 pode ser respondida depois de uma outra. O que os economistas entendem por liberdade econ\u00f4mica \u00e9 realmente uma liberdade como o direito de ir e vir ou o de opini\u00e3o? O que defendo aqui \u00e9 que n\u00e3o, e \u00e9 por isso que a liberdade econ\u00f4mica conviveu t\u00e3o bem com o nazismo, com a ditadura de Pinochet, como hoje convive com o bolsonarismo.<\/p>\n<p>O liberalismo nasceu propondo uma sociedade de iguais contra a divis\u00e3o de classes do feudalismo. Sua utopia irrealiz\u00e1vel, como ensinou Karl Polanyi, foi o projeto de construir a igualdade social por meio do livre mercado. Essa suposta liberdade deixaria ao m\u00e9rito individual a \u00fanica causa da felicidade humana. \u00c9 a ideia da cortina de John Rawls que igualaria a todos. Essa no\u00e7\u00e3o tem dois problemas. Primeiro, o ponto de partida individual \u00e9 diferente, pois h\u00e1 m\u00e9ritos herdados. E, segundo, o que fazer com os de menor m\u00e9rito? Em rela\u00e7\u00e3o ao primeiro problema, Rawls n\u00e3o tem resposta, pois implica em questionar a pr\u00f3pria ideia de propriedade privada e do direito de heran\u00e7a. Quanto ao segundo problema, o pr\u00f3prio Milton Friedman advogava um seguro social como fun\u00e7\u00e3o do Estado. Nos dois casos, a desigualdade se perpetua. De um lado os herdeiros de m\u00e9ritos (riqueza, propriedade) e, de outro, os de pouco m\u00e9rito, dependentes de alguma forma de emprego ou de seguro social para sobreviver. Os primeiros podem tudo e os outros nada. Em resumo, o livre mercado acaba com a liberdade do indiv\u00edduo, pois suas escolhas se resumem a um conjunto pequeno de possibilidades independentes de sua vontade e pr\u00e9-estabelecidas. Quem herdou capital precisa comprar trabalho para valorizar o seu capital e quem n\u00e3o herdou nada precisa vender seu trabalho para viver. N\u00e3o h\u00e1 escolha alguma.<\/p>\n<p>Antes da liberdade, o que o neoliberalismo, assim como o nazifascismo, prop\u00f5e \u00e9 uma sociedade homog\u00eanea. Por isso vimos, na famosa reuni\u00e3o dos palavr\u00f5es, v\u00e1rios ministros de Bolsonaro manifestando sua inconformidade com povos ind\u00edgenas, quilombolas ou ciganos e pregando que o povo brasileiro \u00e9 um s\u00f3. Diferente do liberalismo cl\u00e1ssico \u2013 que pensava uma sociedade dividida em classes, capitalistas, trabalhadores, donos de terra \u2013, para o neoliberalismo existem apenas indiv\u00edduos id\u00eanticos e homot\u00e9ticos, o homem econ\u00f4mico racional que de t\u00e3o semelhante pode ser matematicamente substitu\u00eddo por um \u00fanico agente representativo na formaliza\u00e7\u00e3o da teoria econ\u00f4mica. Na ideologia nazifascista, a sociedade homog\u00eanea \u00e9 um vir a ser que precisa ser consumado por a\u00e7\u00e3o do Estado. O livre mercado dos neoliberais tamb\u00e9m s\u00f3 pode ser alcan\u00e7ado por a\u00e7\u00e3o do Estado. Nesse \u00faltimo caso, o papel do Estado \u00e9 ampliar a liberdade do capital e subordinar e oprimir o trabalho. O que resulta, entretanto, \u00e9 o contr\u00e1rio da homogeneidade, \u00e9 o aumento da desigualdade e da pobreza contrastada com o crescimento da riqueza de poucos. Por seu lado, o nazifascismo visa a homogeneizar a sociedade pela elimina\u00e7\u00e3o das diferen\u00e7as: o exterm\u00ednio de judeus, comunistas ou ciganos no holocausto; \u201cfuzilar esses petralhas\u201d. Na busca da utopia de uma sociedade de iguais com um \u00fanico povo e o Estado garantidor dessa unidade, a vers\u00e3o nazi-liberal do capitalismo produz mais desigualdade e menos liberdade em seu c\u00edrculo vicioso que pretende eliminar as diferen\u00e7as produzindo mais diferen\u00e7a.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Luiz Augusto Estrella Faria, professor de Economia e Rela\u00e7\u00f5es Internacionais da UFRGS<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"fifu_image_url":"","fifu_image_alt":"","footnotes":"","_links_to":"","_links_to_target":""},"categories":[438],"tags":[445],"class_list":["post-17665","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-analise","tag-artigo"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/fce\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/17665","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/fce\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/fce\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/fce\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/fce\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=17665"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/fce\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/17665\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/fce\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=17665"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/fce\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=17665"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/fce\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=17665"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}