{"id":17870,"date":"2020-06-15T16:42:23","date_gmt":"2020-06-15T19:42:23","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ufrgs.br\/fce\/?p=17870"},"modified":"2020-06-15T16:48:58","modified_gmt":"2020-06-15T19:48:58","slug":"e-possivel-voltar-a-normalidade-a-economia-global-em-um-contexto-pos-pandemia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufrgs.br\/fce\/e-possivel-voltar-a-normalidade-a-economia-global-em-um-contexto-pos-pandemia\/","title":{"rendered":"\u00c9 poss\u00edvel voltar \u00e0 normalidade? A economia global em um contexto p\u00f3s-pandemia"},"content":{"rendered":"<p><em>Por Andr\u00e9 Moreira Cunha e Andr\u00e9s Ferrari, professores do Departamento de Economia e Rela\u00e7\u00f5es Internacionais da UFRGS<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"padding-left: 40px;\"><strong><em>\u201cThe COVID-19 pandemic is a global health crisis without precedent in living memory. It has triggered the most severe economic recession in nearly a century and is causing enormous damage to people\u2019s health, jobs and well-being.\u201d<\/em><\/strong><em> &#8211; <\/em><em>OECD Economic Outlook, June 2020. <\/em><\/p>\n<p style=\"padding-left: 40px;\"><strong><em>\u201cBy \u2018uncertain\u2019 knowledge, let me explain, I do not mean merely to distinguish what is known for certain from what is only probable. The game of roulette is not subject, in this sense, to uncertainty&#8230; The sense in which I am using the term is that in which the prospect of a European war is uncertain, or the price of copper and the rate of interest twenty years hence&#8230; About these matters there is no scientific basis on which to form any calculable probability whatever. <\/em><\/strong><strong><em>We simply do not know.\u201d &#8211; <\/em><\/strong><em>John Maynard Keynes, 1937<\/em><a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\"><em><strong>[1]<\/strong><\/em><\/a><em>. <\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Os efeitos da pandemia da Covid-19 j\u00e1 se manifestam de forma contundente sobre o desempenho da economia global. E, mais importante, projetam uma sombra de incertezas radicais sobre o futuro. S\u00e3o muitas as d\u00favidas associadas \u00e0 busca de normalidade, supondo-se que esta seja poss\u00edvel. Enquanto h\u00e1 pa\u00edses que parecem ter deixado para tr\u00e1s as fases mais cr\u00edticas da pandemia, em outros se acelera a contagem do n\u00famero de contaminados e de \u00f3bitos. H\u00e1, ainda, o temor sobre uma segunda rodada de cont\u00e1gios e a esperan\u00e7a no desenvolvimento de novos tratamentos e vacinas.<\/p>\n<p>Para al\u00e9m dos temas sanit\u00e1rios, emerge o complexo leque de fen\u00f4menos pol\u00edticos e econ\u00f4micos, dom\u00e9sticos e internacionais, que se inter-relacionam e, assim, condicionam os tomadores de decis\u00e3o. Poucas s\u00e3o as certezas dispon\u00edveis, ao passo que se multiplicam as especula\u00e7\u00f5es sobre como a economia, a pol\u00edtica, a cultura e as rela\u00e7\u00f5es sociais ir\u00e3o se transformar em decorr\u00eancia da pandemia. Mais do que nunca, segue v\u00e1lida a observa\u00e7\u00e3o de Keynes sobre a natureza das incertezas que cercam o mundo das decis\u00f5es econ\u00f4micas.<\/p>\n<p>Mas o que sabemos at\u00e9 o momento? Por um lado, h\u00e1 pouca diverg\u00eancia sobre o fato de que a economia global n\u00e3o se apresentava em condi\u00e7\u00f5es de s\u00f3lida recupera\u00e7\u00e3o nos anos que se seguiram \u00e0 crise financeira global (CFG, 2007-2009). As evid\u00eancias dispon\u00edveis indicam que, na \u00faltima d\u00e9cada, houve um desempenho relativamente pior em termos de crescimento da renda <em>per capita<\/em>, de amplia\u00e7\u00e3o de investimentos produtivos, de ganhos de produtividade ou de gera\u00e7\u00e3o de empregos, dentre outras manifesta\u00e7\u00f5es da economia real<a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\">[2]<\/a>. Tal caracter\u00edstica ganha relevo quando o per\u00edodo recente \u00e9 comparado com outros epis\u00f3dios de <em>boom and bust<\/em>, particularmente no caso das economias de alta renda (EAR).<\/p>\n<p>Ademais, no plano financeiro os desequil\u00edbrios eram marcantes, especialmente o ac\u00famulo crescente de d\u00edvidas por empresas, fam\u00edlias e governos<a href=\"#_ftn3\" name=\"_ftnref3\">[3]<\/a>. No caso dos governos das EAR, a amplia\u00e7\u00e3o da d\u00edvida p\u00fablica foi, como regra geral, um subproduto dos esfor\u00e7os para saneamento dos respectivos sistemas financeiros e a atenua\u00e7\u00e3o dos efeitos reais da CFG. Da mesma forma, a redu\u00e7\u00e3o da mobilidade social ascendente para a maioria da sociedade e o ac\u00famulo de privil\u00e9gios e prote\u00e7\u00f5es aos estratos superiores de renda, particularmente aos rentistas, produziram frustra\u00e7\u00f5es crescentes nas democracias liberais. Governos nacionalistas e populistas ganharam espa\u00e7o e passaram a repudiar os arranjos multilaterais criados no p\u00f3s-guerra. O processo de globaliza\u00e7\u00e3o, tido como irrevers\u00edvel, deu sinais de fadiga<a href=\"#_ftn4\" name=\"_ftnref4\">[4]<\/a>.<\/p>\n<p>Na sequ\u00eancia apontamos alguns dos condicionantes recentes e de proje\u00e7\u00f5es para o desempenho da economia global. Busca-se, assim, atualizar temas previamente tratados por n\u00f3s e por outros analistas<a href=\"#_ftn5\" name=\"_ftnref5\">[5]<\/a>, sem a pretens\u00e3o de esgotar seus desdobramentos e implica\u00e7\u00f5es. Trata-se, portanto, de explorar, ainda que de forma preliminar, algumas dimens\u00f5es da complexa realidade contempor\u00e2nea, e que dever\u00e3o ser objeto de an\u00e1lise mais detalhada em trabalhos futuros. Assim, merecem destaque os seguintes aspectos:<\/p>\n<ol>\n<li><strong>Recupera\u00e7\u00e3o inst\u00e1vel e assim\u00e9trica no n\u00edvel de atividades<\/strong>. Como nos anos que se seguiram \u00e0 CFG, a recupera\u00e7\u00e3o no n\u00edvel de atividades dever\u00e1 ser assim\u00e9trica, tanto em termos de desempenho das diferentes economias, quanto dos setores dentro de cada economia. Para o Banco Mundial (Global Economic Prospects, June 2020), a contra\u00e7\u00e3o do PIB global ser\u00e1 de -5,2% em 2020, com varia\u00e7\u00e3o de -7% nas economias maduras e -2,5% nos pa\u00edses de renda m\u00e9dia e baixa. Se as proje\u00e7\u00f5es do Banco Mundial (BM) se confirmarem, 2020 ser\u00e1 o ano com o maior n\u00famero de pa\u00edses experimentando contra\u00e7\u00f5es no n\u00edvel de atividades desde 1870. Para 2021, o BM projeta crescimento de 4,2% para a economia global. Outras estimativas tamb\u00e9m sugerem forte queda em 2020 e recupera\u00e7\u00e3o moderada em 2021. A OCDE, por exemplo, trabalha distintas possibilidades de desempenho das economias, que se diferenciam em fun\u00e7\u00e3o das perspectivas de agravamento ou n\u00e3o da pandemia. Nesse sentido, a varia\u00e7\u00e3o da renda global poderia oscilar entre -6% a.a. a -7,6% a.a. (OECD Economic Outlook, June 2020).<\/li>\n<li><strong>Com\u00e9rcio Global em Queda<\/strong>. A pandemia da Covid-19 atingiu fortemente o setor de servi\u00e7os, que representa a maior parcela da renda nacional pelo lado da composi\u00e7\u00e3o setorial. Da mesma forma, a potencial fragmenta\u00e7\u00e3o nas cadeias globais de valor e a menor intensidade do com\u00e9rcio internacional criar\u00e3o dificuldades para a retomada da produ\u00e7\u00e3o industrial. De acordo com o BM, o volume de exporta\u00e7\u00f5es dever\u00e1 se contrair em mais de 15%. Com a demanda externa enfraquecida e o comprometimento da capacidade de gastar das fam\u00edlias, as economias ter\u00e3o dificuldades em manter trajet\u00f3rias robustas de recupera\u00e7\u00e3o sem um importante n\u00edvel de ativismo estatal.<\/li>\n<li><strong>O Perfil da Retomada<\/strong>. Portanto, a quest\u00e3o central aqui \u00e9 menos com respeito \u00e0 retomada de curto prazo que, em tese, poderia ter um formato em \u201cV\u201d em algumas economias. O n\u00f3 g\u00f3rdio ser\u00e1 a sua sustentabilidade ao longo do tempo<a href=\"#_ftn6\" name=\"_ftnref6\">[6]<\/a> e as heran\u00e7as de desequil\u00edbrios adicionais. Recupera\u00e7\u00f5es mais lentas em forma de \u201cU\u201d, retomadas com repiques negativos (\u201cW\u201d) ou uma queda prolongada na tend\u00eancia de crescimento (\u201cL\u201d) s\u00e3o possibilidades ainda em tela, a depender da situa\u00e7\u00e3o epidemiol\u00f3gica e social, bem como da rea\u00e7\u00e3o mais ou menos efetiva dos governos<a href=\"#_ftn7\" name=\"_ftnref7\">[7]<\/a>.<\/li>\n<li><strong>Os est\u00edmulos oficiais s\u00e3o recordes, por\u00e9m seus resultados permanecem incertos<\/strong>. At\u00e9 o final de maio, os governos de pa\u00edses avan\u00e7ados e em desenvolvimento haviam anunciado aportes da ordem de US$ 10 trilh\u00f5es para dar sustenta\u00e7\u00e3o \u00e0s suas economias<a href=\"#_ftn8\" name=\"_ftnref8\">[8]<\/a>. Como propor\u00e7\u00e3o das respectivas rendas nacionais, tal montante equivale, especialmente para as EARs, ao dobro dos est\u00edmulos p\u00f3s-crise financeira global (CFG, 2007-2009). Como era de se esperar, as EARs apoiam relativamente mais as suas economias e sociedades<a href=\"#_ftn9\" name=\"_ftnref9\">[9]<\/a>. Por\u00e9m, e a despeito desse esfor\u00e7o, ainda n\u00e3o est\u00e1 claro se as medidas governamentais ser\u00e3o suficientes para reativar as economias. H\u00e1 evid\u00eancias, particularmente no caso dos EUA, de que os recursos direcionados para as fam\u00edlias n\u00e3o est\u00e3o se traduzindo integralmente em aumento de gastos em consumo de bens e servi\u00e7os finais<a href=\"#_ftn10\" name=\"_ftnref10\">[10]<\/a>. Os dados at\u00e9 abril sugerem o aumento na demanda precaucional por poupan\u00e7a<a href=\"#_ftn11\" name=\"_ftnref11\">[11]<\/a>. Por isso mesmo, o debate em torno dos investimentos p\u00fablicos dever\u00e1 ganhar maior espa\u00e7o. A amplia\u00e7\u00e3o da incerteza tende a reduzir a disposi\u00e7\u00e3o das fam\u00edlias gastarem, especialmente em bens dur\u00e1veis ou na aquisi\u00e7\u00e3o de im\u00f3veis. Para compensar a queda abrupta na demanda, haver\u00e1 maior press\u00e3o para o uso do gasto p\u00fablico em infraestrutura e outras \u00e1reas que ampliem o estoque de capital f\u00edsico e humano. Fazer isso com efici\u00eancia, tempestividade e com base em arranjos financeiros vi\u00e1veis no longo prazo poder\u00e1 ser decisivo na retomada. Para tanto, a correta articula\u00e7\u00e3o entre Estados e mercados se faz necess\u00e1ria. O predom\u00ednio das ideologias antiestatais n\u00e3o contribuir\u00e1 para fortalecer os elos de complementaridade entre investimentos p\u00fablicos e privados<a href=\"#_ftn12\" name=\"_ftnref12\">[12]<\/a>.<\/li>\n<li><strong>N\u00e3o est\u00e1 dada a capacidade de as economias retomarem patamares mais robustos e sustent\u00e1veis de expans\u00e3o da renda <em>per capita<\/em> nos pr\u00f3ximos anos<\/strong>. Kose <em>et al<\/em>. (2020, <em>op cit.<\/em>) demonstraram que o per\u00edodo p\u00f3s-CFG caracterizou-se pelo mais fr\u00e1gil dos epis\u00f3dios de recupera\u00e7\u00e3o p\u00f3s-recess\u00e3o do p\u00f3s-guerra, especialmente dentre as EARs. Como as condi\u00e7\u00f5es reais, financeiras e pol\u00edticas correntes s\u00e3o relativamente mais fr\u00e1geis do que aquelas experimentadas h\u00e1 pouco mais de uma d\u00e9cada, torna-se plaus\u00edvel assumir-se um cen\u00e1rio de menor dinamismo e de maior instabilidade no ritmo de crescimento econ\u00f4mico. Para evitar esse horizonte, o esfor\u00e7o global de coordena\u00e7\u00e3o pol\u00edtica dever\u00e1 ser ampliado para reverter as tend\u00eancias de \u201cfechamento das economias\u201d e garantir a eleva\u00e7\u00e3o de investimentos produtivos e em recursos humanos, especialmente os de origem p\u00fablica, posto que o setor privado est\u00e1 constrangido por problemas como a elevada capacidade ociosa, os n\u00edveis altos de endividamento e a rentabilidade reduzida.<\/li>\n<li><strong>N\u00e3o existem press\u00f5es inflacion\u00e1rias no curto prazo<\/strong>. A pandemia da Covid-19 representou, simultaneamente, um choque negativo de demanda, que gera press\u00f5es deflacion\u00e1rias; e outro, tamb\u00e9m negativo, de oferta, que opera no sentido contr\u00e1rio. No curto prazo, a tend\u00eancia \u00e9 de predom\u00ednio das for\u00e7as deflacion\u00e1rias. Nas economias maduras, os Bancos Centrais ampliam a liquidez de forma recorde em termos de volume e intensidade, sem que as expectativas inflacion\u00e1rias sejam contaminadas. Nos Estados Unidos, na Europa e no Jap\u00e3o os n\u00facleos dos \u00edndices de pre\u00e7o ao consumidor e as expectativas sobre a infla\u00e7\u00e3o futura seguem sistematicamente abaixo de 2% a.a. ou flertam com patamares pr\u00f3ximos ou abaixo de 0% a.a<a href=\"#_ftn13\" name=\"_ftnref13\">[13]<\/a>. Da mesma forma, os pre\u00e7os internacionais de <em>commodities<\/em> energ\u00e9ticas, minerais e agr\u00edcolas encontram-se em patamares abaixo das tend\u00eancias recentes<a href=\"#_ftn14\" name=\"_ftnref14\">[14]<\/a>. Todavia, n\u00e3o est\u00e1 claro qual ser\u00e1 o comportamento de mais longo prazo dos pre\u00e7os, tendo em vista a combina\u00e7\u00e3o entre os choques negativos de oferta e os est\u00edmulos monet\u00e1rios excepcionais. Na d\u00e9cada que se seguiu \u00e0 CFG, a infla\u00e7\u00e3o foi surpreendentemente baixa, dada a forte expans\u00e3o no balan\u00e7o dos bancos centrais. N\u00e3o se deve assumir como dada a proje\u00e7\u00e3o futura desta mesma realidade, certamente n\u00e3o para todas as economias.<\/li>\n<li><strong>Os mercados financeiros se movem pelos est\u00edmulos monet\u00e1rios<\/strong><a href=\"#_ftn15\" name=\"_ftnref15\"><sup>[15]<\/sup><\/a>. Ap\u00f3s forte contra\u00e7\u00e3o em mar\u00e7o e abril, os mercados acion\u00e1rios e de d\u00edvida apresentaram importante recupera\u00e7\u00e3o a partir de maio<a href=\"#_ftn16\" name=\"_ftnref16\"><sup>[16]<\/sup><\/a>. Os est\u00edmulos fiscais e monet\u00e1rios e as perspectivas de supera\u00e7\u00e3o da fase mais dura do isolamento social contribuem para o desempenho recente. Particular aten\u00e7\u00e3o deve ser dada \u00e0 a\u00e7\u00e3o contundente dos bancos centrais (BCs) das economias maduras, que retomaram suas pol\u00edticas n\u00e3o convencionais em volumes e intensidades maiores do que as realizadas na sequ\u00eancia da CFG. A compra de ativos ex\u00f3ticos, como ETFs, e de a\u00e7\u00f5es passou a ser rotina na atua\u00e7\u00e3o governamental, inclusive dos BCs. Todavia, esse tipo de pol\u00edtica rep\u00f5e para o futuro o ajuste de contas sobre os desequil\u00edbrios entre estoques e fluxos; e pre\u00e7os e valor intr\u00ednseco dos ativos. N\u00e3o s\u00e3o desprez\u00edveis as d\u00favidas sobre a rela\u00e7\u00e3o entre a capacidade de gera\u00e7\u00e3o de lucros das empresas e a solv\u00eancia de empresas e governos, que parecem se distanciar do movimento recente de valoriza\u00e7\u00e3o das a\u00e7\u00f5es, t\u00edtulos de d\u00edvidas e outros ativos.<\/li>\n<li><strong>Novas tecnologias e os dilemas do mundo do trabalho<\/strong>. O uso de tecnologias combinadas da revolu\u00e7\u00e3o digital, como a rob\u00f3tica e a intelig\u00eancia artificial (IA), j\u00e1 trazia o potencial de acelerar as transforma\u00e7\u00f5es no mundo do trabalho<a href=\"#_ftn17\" name=\"_ftnref17\">[17]<\/a>. Com a pandemia, a intelig\u00eancia artificial ganhou maior proemin\u00eancia como solu\u00e7\u00e3o para as dificuldades de organiza\u00e7\u00e3o dos neg\u00f3cios em tempos de distanciamento social. Quanto mais eficiente for o seu uso, menos prov\u00e1vel ser\u00e1 o retorno a uma realidade onde os problemas cotidianos eram resolvidos primordialmente pela intera\u00e7\u00e3o entre seres humanos. Como j\u00e1 anunciavam os estudos dedicados a este tema<a href=\"#_ftn18\" name=\"_ftnref18\">[18]<\/a>, os rob\u00f4s e a IA n\u00e3o v\u00e3o substituir somente os trabalhadores do \u201cch\u00e3o das f\u00e1bricas\u201d, o que implica desafios renovados quanto ao desenho de pol\u00edticas p\u00fablicas voltadas \u00e0 qualifica\u00e7\u00e3o e prote\u00e7\u00e3o dos recursos humanos. Esses aspectos que j\u00e1 se colocavam como prioridades em uma realidade marcada pela desigualdade no acesso \u00e0s redes mais robustas de prote\u00e7\u00e3o social, possivelmente se tornar\u00e3o ainda mais relevantes no mundo p\u00f3s-Covid-19. A potencial redund\u00e2ncia na utiliza\u00e7\u00e3o da for\u00e7a de trabalho na realidade p\u00f3s-pandemia pode refor\u00e7ar os problemas derivados da fragilidade na recupera\u00e7\u00e3o do ritmo de crescimento da renda e do emprego observada depois de 2009. Afinal de contas, m\u00e1quinas n\u00e3o ficam doentes, n\u00e3o protestam por melhores condi\u00e7\u00f5es de trabalho e prescindem de est\u00edmulos subjetivos para ampliar a produ\u00e7\u00e3o. Nos anos que se seguiram \u00e0 crise financeira global, foi marcante a redu\u00e7\u00e3o na elasticidade renda do emprego<a href=\"#_ftn19\" name=\"_ftnref19\">[19]<\/a>.<\/li>\n<li><strong>Estados fracos e desorganizados aprofundam os problemas<a href=\"#_ftn20\" name=\"_ftnref20\">[20]<\/a>. <\/strong>A pandemia da Covid-19 pressiona ao limite as capacidades estatais nas mais diversas \u00e1reas. As respostas governamentais mais efetivas minimizam as perdas desnecess\u00e1rias de vidas, empresas e empregos, bem como aceleram a retomada das atividades econ\u00f4micas e sociais. Por outro lado, lideran\u00e7as incapazes de compreender as complexidades da crise em curso e que se movem com antolhos moldados por preconceitos ideol\u00f3gicos n\u00e3o s\u00e3o capazes de proteger as suas sociedades<a href=\"#_ftn21\" name=\"_ftnref21\">[21]<\/a>. Nas \u00faltimas quatro d\u00e9cadas, os principais pa\u00edses do ocidente reduziram a capacidade de atua\u00e7\u00e3o dos seus Estados na expectativa de que o setor privado seria capaz de prover todos os bens e servi\u00e7os necess\u00e1rios \u00e0 reprodu\u00e7\u00e3o est\u00e1vel e segura da vida social. Todavia, o resultado desta estrat\u00e9gia est\u00e1 longe de ser animador. O crescimento econ\u00f4mico reduziu-se a cada d\u00e9cada e se multiplicaram os problemas associados ao aumento nas desigualdades distributivas, comprometimento do meio ambiente e perda de confian\u00e7a das popula\u00e7\u00f5es em seus sistemas pol\u00edticos, para citar alguns. Por isso mesmo, aqueles pa\u00edses que, a despeito do predom\u00ednio da ideologia neoliberal, preservaram alguma densidade em seus servi\u00e7os p\u00fablicos de sa\u00fade, pesquisa cient\u00edfica, seguridade social, etc. parecem ter tido maior sucesso relativo na redu\u00e7\u00e3o dos efeitos sanit\u00e1rios, econ\u00f4micos e sociais da pandemia.<\/li>\n<li><strong>A Geopol\u00edtica da crise.<\/strong> Antes da pandemia, as tens\u00f5es entre os distintos polos de poder no mundo, particularmente entre Estados Unidos e China, j\u00e1 criavam dificuldades de coordena\u00e7\u00e3o das a\u00e7\u00f5es governamentais para o enfrentamento dos problemas globais, particularmente o mais relevante deles: as mudan\u00e7as clim\u00e1ticas. A pandemia, por sua pr\u00f3pria natureza, n\u00e3o respeita fronteiras ou ideologias. Seria natural o caminho de se buscar maior coopera\u00e7\u00e3o internacional para mitigar os seus efeitos. Todavia, no curto prazo os conflitos \u2013 dom\u00e9sticos e internacionais \u2013 est\u00e3o se exacerbando, o que introduz elementos adicionais de incerteza para a eventual recupera\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica.<\/li>\n<\/ol>\n<p>Assim, como alerta Daron Acemoglu<a href=\"#_ftn22\" name=\"_ftnref22\">[22]<\/a>, o enfrentamento dos desafios contempor\u00e2neos coloca as sociedades diante de escolhas dif\u00edceis. Por um lado, podem ganhar for\u00e7a as tend\u00eancias de centraliza\u00e7\u00e3o de poder, privado ou estatal, o que, em sua perspectiva, comprometeria os fundamentos da ordem democr\u00e1tica. Por outro lado, haveria o caminho de renovar a vitalidade e a efici\u00eancia das institui\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas e pol\u00edticas<a href=\"#_ftn23\" name=\"_ftnref23\">[23]<\/a>. Em nossa pr\u00f3pria vis\u00e3o, n\u00e3o est\u00e3o claras, at\u00e9 aqui, quais tend\u00eancias prevalecer\u00e3o.<\/p>\n<p>Como enfatizado na ep\u00edgrafe de Keynes, h\u00e1 padr\u00f5es calcul\u00e1veis de incerteza (ou, melhor, de \u201criscos\u201d) e que envolvem a reprodu\u00e7\u00e3o social em condi\u00e7\u00f5es de relativa normalidade. Todavia, vivemos uma era marcada pela radicaliza\u00e7\u00e3o dos n\u00edveis de incerteza. Para o grande economista ingl\u00eas, mesmo nesses momentos h\u00e1 que se atuar sobre a realidade e transform\u00e1-la no sentido da constru\u00e7\u00e3o de uma \u201csociedade melhor\u201d. \u00c9 isto o que nos sugere Acemoglu. Sua inspira\u00e7\u00e3o reformista se funda na experi\u00eancia concreta do Estado de Bem-Estar Social (EBES), que surgiu em meio aos conflitos sociais derivados das transforma\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas e sociais do final do s\u00e9culo XIX na Europa, e ganhou for\u00e7a depois da Segunda Guerra Mundial. Foi um tempo de incertezas radicais, uma era de guerras, pandemias, revolu\u00e7\u00f5es pol\u00edticas e crises econ\u00f4micas. Seus contempor\u00e2neos oscilaram entre a ades\u00e3o a distintos tipos de totalitarismo e a busca por formas mais racionais de realiza\u00e7\u00e3o da promessa iluminista de constru\u00e7\u00e3o de sociedades livres e progressistas.<\/p>\n<p>O EBES, em suas m\u00faltiplas variantes, foi a resposta concreta que permitiu reformar o capitalismo em bases mais inclusivas<a href=\"#_ftn24\" name=\"_ftnref24\">[24]<\/a>. Sua reinven\u00e7\u00e3o no mundo contempor\u00e2neo \u00e9 uma alternativa poss\u00edvel, mas n\u00e3o necessariamente prov\u00e1vel. At\u00e9 porque, conhecemos apenas os par\u00e2metros hist\u00f3ricos que permitiram a sua emerg\u00eancia, desenvolvimento e perda de vitalidade. Com base nisto, podemos sugerir que sem um EBES robusto e eficiente as tens\u00f5es sociais j\u00e1 existentes antes da pandemia tender\u00e3o a crescer. Diante dos conflitos atuais e de problemas ainda mais desafiadores, como o aquecimento global, torna-se vital moderar as tend\u00eancias desagregadoras das for\u00e7as de mercados, no sentido apontado por Polanyi em sua \u201cA Grande Transforma\u00e7\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p>Para tanto, nos parece ser relevante identificar quais tend\u00eancias econ\u00f4micas est\u00e3o em conforma\u00e7\u00e3o para o mundo p\u00f3s-pandemia, de modo a contribuir para que tomadores de decis\u00e3o atuem na mitiga\u00e7\u00e3o de seus efeitos potencialmente negativos sobre as nossas sociedades. No contexto dos pa\u00edses do Cone Sul, deve-se atentar para as consequ\u00eancias mais imediatas da redu\u00e7\u00e3o nos fluxos globais de com\u00e9rcio e capitais, bem como para a menor mobilidade de pessoas. Em um mundo ideal, os governos locais poderiam trabalhar para potencializar o uso do mercado regional de forma compensat\u00f3ria \u00e0 perda de dinamismo da economia global. Tal alternativa n\u00e3o viria em detrimento do fortalecimento de outros v\u00ednculos internacionais, mas como uma resposta estrat\u00e9gica a um ambiente de maior fragmenta\u00e7\u00e3o comercial e de agravamento nos conflitos geopol\u00edticos. Em tempos de tamanha incerteza, n\u00e3o seria do interesse dos nossos pa\u00edses a ado\u00e7\u00e3o de quaisquer formas de alinhamento autom\u00e1tico aos poderes centrais em conflito. Da mesma forma, n\u00e3o parece ser racional abdicar da pot\u00eancia dos nossos pr\u00f3prios mercados e recursos.<\/p>\n<p>Aceitar a natureza incerta da realidade atual e manter a capacidade pragm\u00e1tica de adapta\u00e7\u00e3o seriam bons pontos de partida para uma estrat\u00e9gia de enfrentamento da crise em curso. J\u00e1 temos informa\u00e7\u00f5es suficientes para saber que a realidade p\u00f3s-pandemia ser\u00e1 diferente do \u201cvelho normal\u201d. E isto deveria ser lastro suficiente para motivar a\u00e7\u00f5es consequentes na constru\u00e7\u00e3o do futuro.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a> Ver: The General Theory of Employment, The Quarterly Journal of Economics, Volume 51, Issue 2, February, 1937.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\">[2]<\/a> Ver: Laurence Summers \u201cAccepting the Reality of Secular Stagnation\u201d, Finance and Development, June, 2020; IMF World Economic Outlook, cap\u00edtulo 2, Outubro de 2018; Kose, M. A. et al. \u201cGlobal Recessions\u201d, Policy Research Working Paper\u00a0 9172, World Bank, March 2020.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref3\" name=\"_ftn3\">[3]<\/a> Uma revis\u00e3o ampla e atualizada das evid\u00eancias est\u00e1 em Kose, A. W et al. \u201cGlobal Waves of Debt: causes and consequences\u201d, World Bank, 2020.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref4\" name=\"_ftn4\">[4]<\/a> De acordo com Ian Bremmer, presidente do Eurasia Group: \u201cOs \u00faltimos meses n\u00e3o t\u00eam sido f\u00e1ceis. Mas a pandemia atual pode muito bem vir a ser o tipo de crise que o mundo j\u00e1 antecipava e do qual realmente precisa. O mundo est\u00e1 quebrado. A ordem global vigente desde a Segunda Guerra Mundial est\u00e1 em frangalhos, e ningu\u00e9m sabe o que vai vir a seguir; a coopera\u00e7\u00e3o global est\u00e1 no ponto mais baixo na mem\u00f3ria das pessoas vivas hoje. O capitalismo n\u00e3o est\u00e1 funcionando para pessoas demais, fato evidenciado pelos \u00edndices de desigualdade sempre crescentes. A democracia representativa, tampouco; cada vez mais os controles do poder v\u00eam sendo tomados por interesses especiais, os governos se mostram incapazes de responder \u00e0s mudan\u00e7as e demandas sociais, e as redes de seguran\u00e7a social n\u00e3o conseguem resgatar as pessoas\u201d. (<a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/colunas\/ian-bremmer\/2020\/06\/pandemia-do-novo-coronavirus-pode-ser-a-crise-que-o-mundo-precisava.shtml\">https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/colunas\/ian-bremmer\/2020\/06\/pandemia-do-novo-coronavirus-pode-ser-a-crise-que-o-mundo-precisava.shtml<\/a>)<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref5\" name=\"_ftn5\">[5]<\/a> Ver, em especial, os trabalhos disponibilizados no blog da Faculdade de Ci\u00eancias Econ\u00f4micas da UFRGS: <a href=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/fce\/category\/analise\/\">https:\/\/www.ufrgs.br\/fce\/category\/analise\/<\/a>.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref6\" name=\"_ftn6\">[6]<\/a> Ver: \u201cV-U-L-nerability: How will we emerge from the Great Lockdown?, KPMG, June 3, 2020.; World Bank, Global Economic Prospects, June, 2020; \u201cMonthly briefing on the world economic situation and prospects\u201d, United Nations Economic Analysis No. 138 | 1 June 2020.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref7\" name=\"_ftn7\">[7]<\/a> \u201cThe ultimate path of the recovery depends mostly on the trajectory of the virus, the economic and social behavior of populations, and the extent of continued government support. A \u201cV\u201d outcome is highly unlikely \u2026\u201d (KPMG, op cit.)<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref8\" name=\"_ftn8\">[8]<\/a> Detalhes em: \u201cThe $10 trillion rescue: How governments can deliver impact\u201d, June 2020 (<a href=\"https:\/\/www.mckinsey.com\/industries\/public-sector\/our-insights\/the-10-trillion-dollar-rescue-how-governments-can-deliver-impact\">https:\/\/www.mckinsey.com\/industries\/public-sector\/our-insights\/the-10-trillion-dollar-rescue-how-governments-can-deliver-impact<\/a>); IIF Green Weekly Insight Financing a Sustainable Recovery (<a href=\"https:\/\/www.iif.com\/Portals\/0\/Files\/content\/2_200604%20Weekly%20Insight_vf.pdf\">https:\/\/www.iif.com\/Portals\/0\/Files\/content\/2_200604%20Weekly%20Insight_vf.pdf<\/a>); \u201cCoronavirus Macro Policy Responses Unprecedented\u201d, FitchRatings, June 03, 2020.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref9\" name=\"_ftn9\">[9]<\/a> \u201cMacro policy responses to the coronavirus pandemic have already reached historically unprecedented levels and could still be expanded further\u2026. Nevertheless, responses have been strikingly uneven across the Fitch-20 countries. Most developed markets have adopted large fiscal packages including sovereign credit guarantees, launched new credit facilities and revived, expanded or introduced quantitative easing. Meanwhile responses in many emerging markets have been less aggressive \u2026\u201d (FitchRatings, op cit.).<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref10\" name=\"_ftn10\">[10]<\/a> \u201cSomething very unusual and interesting happened in April in the United States. Personal income grew at the fastest pace on record, while consumer spending fell at the fastest pace on record.\u00a0 Evidently, the massive outlays by the Federal government led to a surge in personal income, but that money was mostly saved rather than spent. Thus, government borrowing was used to fund an increase in consumer wealth. As such, the government programs did not stimulate economic activity. Rather, they provided households with a financial cushion\u2026\u201d (Weekly global economic update | Deloitte Insights, June 01, 2020).<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref11\" name=\"_ftn11\">[11]<\/a> Ver: <a href=\"https:\/\/www.cnbc.com\/2020\/05\/29\/us-savings-rate-hits-record-33percent-as-coronavirus-causes-americans-to-stockpile-cash-curb-spending.html\">https:\/\/www.cnbc.com\/2020\/05\/29\/us-savings-rate-hits-record-33percent-as-coronavirus-causes-americans-to-stockpile-cash-curb-spending.html<\/a><\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref12\" name=\"_ftn12\">[12]<\/a> A tese de doutorado de Sabrina Bredow, defendida no PPGE-UFRGS, revisa a literatura pertinente e traz evid\u00eancias de que o investimento p\u00fablico gerou efeitos positivos sobre o setor privado no caso do Brasil nos anos 2000 (ver: Bredow, S. M. S. 2020. Investimento P\u00fablico e Privado no Brasil: uma investiga\u00e7\u00e3o sobre a rela\u00e7\u00e3o de complementaridade).<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref13\" name=\"_ftn13\">[13]<\/a> Ver: <a href=\"https:\/\/www.yardeni.com\/pub\/infltrglb_bb.pdf\">https:\/\/www.yardeni.com\/pub\/infltrglb_bb.pdf<\/a>. Em abril, a infla\u00e7\u00e3o dos pa\u00edses da OCDE estava em 0,9% a.a. e 0,4% a.a. nos pa\u00edses do G7.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref14\" name=\"_ftn14\">[14]<\/a> Evid\u00eancias em: <a href=\"https:\/\/www.yardeni.com\/pub\/commodityprices.pdf\">https:\/\/www.yardeni.com\/pub\/commodityprices.pdf<\/a>. \u00a0Sobre o comportamento das expectativas inflacion\u00e1rias ver Richhild Moessner and El\u0151d Tak\u00e1ts, \u201cHow well-anchored are long-term inflation expectations?\u201d, BIS Working Papers No 869. June 2020. Os autores mostram que as pol\u00edticas de afrouxamento quantitativo p\u00f3s-CFG n\u00e3o afetaram negativamente as expectativas inflacion\u00e1rias. Ademais, notaram duas assimetrias importantes: desvios altistas da infla\u00e7\u00e3o com respeito \u00e0s metas dos BCs contaminam mais as expectativas do que os desvios baixistas; e pa\u00edses maduros apresentam expectativas mais ancoradas nos fundamentos do que pa\u00edses emergentes.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref15\" name=\"_ftn15\">[15]<\/a> Ver: \u201cRecord-Fast Money Growth Eases Market Anxiety\u201d, Moody\u2019s Analytics, May 28, 2020. J\u00e1 s\u00e3o cerca de US$ 6 trilh\u00f5es injetados nas maiores economias do mundo, principalmente nos EUA, Jap\u00e3o e \u00e1rea do Euro. De acordo com a FitchRatings: \u201cCentral bank responses have been similarly impressive &#8211; with new quantitative easing (QE) asset purchases expected to reach 20% of GDP in the US, 9% in the UK and Canada, and more than 7% in the eurozone &#8211; and a wide array of new credit facilities. The ECB could also further increase its bond-buying programme.\u201d (Coronavirus Fiscal Easing Announcements Exceed 7% of World, 03 Jun, 2020). \u00a0A evolu\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica com atualiza\u00e7\u00e3o mensal dos dados est\u00e1 em: <a href=\"https:\/\/www.yardeni.com\/pub\/peacockfedecbassets.pdf\">https:\/\/www.yardeni.com\/pub\/peacockfedecbassets.pdf<\/a>.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref16\" name=\"_ftn16\">[16]<\/a> \u201cDeveloped market economies, which came to a sudden stop during the pandemic lockdown period of March and April, entered the recovery phase in May \u2026 The MSCI All Country World Index finished up 4.1%. Stocks were supported by the gradual reopening of economies. Also lifting equities: positive headlines about the start of early-stage COVID-19 vaccine trials, more fiscal and monetary stimulus announcements and the growing sense among market participants that central bank actions might revive the \u201cTINA\u201d mindset\u2014 \u201cThere Is No Alternative\u201d refers to the sense that with government bond yields so low, investors have little choice but to invest in equities. The equities rally, in the context of collapsing earnings estimates, pushed valuations to new highs, especially in the U.S., where the 12-month forward P\/E ratio now sits at 21.7x\u201d (Morgan Stanley, Multi-Asset Solutions Weekly Strategy Report, June 8, 2020).<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref17\" name=\"_ftn17\">[17]<\/a> Ver tamb\u00e9m: Anton Korinek, Joseph E. Stiglitz \u201cArtificial Intelligence and Its Implications for Income Distribution and Unemployment\u201d, NBER Working Paper No. 24174, December 2017; Daron Acemoglu, Pascual Restrepo, \u201cArtificial Intelligence, Automation and Work\u201d, NBER Working Paper No. 24196, January 2018.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref18\" name=\"_ftn18\">[18]<\/a> No World Development Report de 2019 (The Changing Nature of Work), o Banco Mundial j\u00e1 enfatizava que: \u201cAdjusting to the changing nature of work also requires rethinking the social contract. We need new ways to invest in people and to protect them, regardless of their employment status. Yet four out of five people in developing countries have never known what it means to live with social protection. With 2 billion people already working in the informal sector unprotected by stable wage employment, social safety nets, or the benefits of education new working patterns are adding to a dilemma that predates the latest innovations. This Report challenges governments to take better care of their citizens and calls for a universal, guaranteed minimum level of social protection. It can be done with the right reforms, such as ending unhelpful subsidies; improving labor market regulations; and, globally, overhauling taxation policies. Investing in human capital is not just a concern for ministers of health and education; it should also be a top priority for heads of state and ministers of finance.\u201d (p. viii).<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref19\" name=\"_ftn19\">[19]<\/a> Sobre o debate e as evid\u00eancias ver, dentre outros: ECB Economic Bulletin, Issue 6 \/ 2016, \u201cThe employment-GDP relationship since the crisis\u201d; Autor, D., Salommns, A. \u201cIs automation labor-displacing? Productivity growth, employment, and the labor share\u201d, NBER Working Paper 24871, July, 2018.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref20\" name=\"_ftn20\">[20]<\/a> De acordo com o intelectual conservador Francis Fukuyama: \u201cIt is already clear why some countries have done better than others in dealing with the crisis so far, and there is every reason to think those trends will continue. It is not a matter of regime type. Some democracies have performed well, but others have not, and the same is true for autocracies. The factors responsible for successful pandemic responses have been state capacity, social trust, and leadership. Countries with all three\u2014a competent state apparatus, a government that citizens trust and listen to, and effective leaders\u2014have performed impressively, limiting the damage they have suffered. Countries with dysfunctional states, polarized societies, or poor leadership have done badly, leaving their citizens and economies exposed and vulnerable.\u201d (The Pandemic and Political Order, Foreign Affairs &#8211; <a href=\"https:\/\/www.foreignaffairs.com\/articles\/world\/2020-06-09\/pandemic-and-political-order\">https:\/\/www.foreignaffairs.com\/articles\/world\/2020-06-09\/pandemic-and-political-order<\/a>)<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref21\" name=\"_ftn21\">[21]<\/a> \u201cGiven the importance of strong state action to slow the pandemic, it will be hard to argue, as Reagan did in his first inaugural address, that \u201cgovernment is not the solution to our problem; government is the problem.\u201d Nor will anybody be able to make a plausible case that the private sector and philanthropy can substitute for a competent state during a national emergency\u201d (Fukuyama, op cit.)<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref22\" name=\"_ftn22\">[22]<\/a> The Post-COVID State, Project Syndicate, Jun 5, 2020.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref23\" name=\"_ftn23\">[23]<\/a> Fukuyama afirma algo no mesmo sentido: \u201cOver the years to come, the pandemic could lead to the United States\u2019 relative decline, the continued erosion of the liberal international order, and a resurgence of fascism around the globe. It could also lead to a rebirth of liberal democracy, a system that has confounded skeptics many times, showing remarkable powers of resilience and renewal. Elements of both visions will emerge, in different places. Unfortunately, unless current trends change dramatically, the general forecast is gloomy.\u201d (op cit.)<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref24\" name=\"_ftn24\">[24]<\/a> \u201cThere is growing agreement today that we need better, more accountable institutions, as well as a more equitable way of sharing the gains from technological progress and globalization. Voices from the left and the right argue, not unreasonably, that the game is rigged to benefit a small but powerful and well-connected cohort at the top of the income and wealth pyramid \u2026 At a time of unparalleled polarization, crumbling democratic norms, and dwindling institutional capacity, a reformed and renewed welfare state is a tall order indeed. But like the WWII generation, we have no other choice but to try. (Acemoglu, op cit.). Perspectiva semelhante pode ser vista em Piketty (Capital and Ideology), Stiglitz (People, Power, and Profits: Progressive Capitalism for an Age of Discontent), Krugman (Arguing with Zombies: Economics, Politics, and the Fight for a Better Future), Robert Reich (The System: Who Rigged It, How We Fix It), Milanovic (Capitalism, Alone: The Future of the System That Rules the World), dentre outros.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Andr\u00e9 Moreira Cunha e Andr\u00e9s Ferrari, professores do Departamento de Economia e Rela\u00e7\u00f5es Internacionais da UFRGS<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"fifu_image_url":"","fifu_image_alt":"","footnotes":"","_links_to":"","_links_to_target":""},"categories":[438],"tags":[445],"class_list":["post-17870","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-analise","tag-artigo"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/fce\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/17870","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/fce\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/fce\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/fce\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/fce\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=17870"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/fce\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/17870\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/fce\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=17870"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/fce\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=17870"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/fce\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=17870"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}