{"id":18439,"date":"2020-07-13T15:04:52","date_gmt":"2020-07-13T18:04:52","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ufrgs.br\/fce\/?p=18439"},"modified":"2020-07-14T14:09:32","modified_gmt":"2020-07-14T17:09:32","slug":"consequencias-imediatas-da-pandemia-no-mercado-de-trabalho-brasileiro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufrgs.br\/fce\/consequencias-imediatas-da-pandemia-no-mercado-de-trabalho-brasileiro\/","title":{"rendered":"Consequ\u00eancias imediatas da pandemia no mercado de trabalho brasileiro"},"content":{"rendered":"<p><i style=\"font-size: 1rem;\">Por Carlos Henrique Horn, professor da Faculdade de Ci\u00eancias Econ\u00f4micas, e Virg\u00ednia Rolla Donoso, economista e colaboradora do site DMT em Debate\u00a0<\/i><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">A divulga\u00e7\u00e3o de estat\u00edsticas e relat\u00f3rios de an\u00e1lise sobre o desempenho do mercado de trabalho no primeiro semestre de 2020 mostra que as consequ\u00eancias da pandemia da Covid-19 foram piores do que as inicialmente projetadas. O Monitor da Organiza\u00e7\u00e3o Internacional do Trabalho para a Covid-19, publicado em 30 de junho, refere-se a uma \u201cescala sem precedentes de ruptura global\u201d.<\/span><span style=\"font-weight: 400;\"> Estima-se que, no segundo trimestre, houve um decl\u00ednio de 14,0% nas horas trabalhadas no mundo (ante uma previs\u00e3o de 10,7% ao final de maio), o que representaria 400 milh\u00f5es de postos de trabalho em tempo integral. Em perspectiva, a OIT considera improv\u00e1vel que uma eventual recupera\u00e7\u00e3o da economia no segundo semestre seja suficiente para a revers\u00e3o integral deste quadro ainda no ano em curso. Mesmo no cen\u00e1rio otimista, em que o n\u00famero de horas cres\u00e7a acima da tend\u00eancia de longo prazo, esse n\u00famero ainda ficaria, no \u00faltimo trimestre, 1,2% abaixo de seu n\u00edvel no mesmo per\u00edodo do ano anterior.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">No Brasil, as estimativas da Pesquisa Nacional por Amostra de Domic\u00edlios Cont\u00ednua (Pnad C) do IBGE, referentes ao trimestre de mar\u00e7o a maio de 2020, tamb\u00e9m atestam que os efeitos da crise sanit\u00e1ria sobre o mercado de trabalho se\u00a0 manifestaram rapidamente e com extrema intensidade. Dado que a declara\u00e7\u00e3o do estado de calamidade no pa\u00eds aconteceu em meados de mar\u00e7o, as estat\u00edsticas da Pnad C desse trimestre j\u00e1 se mostram indicadas para aferir a extens\u00e3o do impacto imediato da crise.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">A crise econ\u00f4mica decorrente da pandemia abrange um duplo choque. H\u00e1 um choque de oferta relacionado \u00e0 redu\u00e7\u00e3o dos n\u00edveis de produ\u00e7\u00e3o em virtude das medidas de afastamento f\u00edsico, combinado a um choque de demanda associado \u00e0 perda de renda causada pelas descontinuidades na produ\u00e7\u00e3o e ao fechamento de postos de trabalho. A conflu\u00eancia de ambos os choques elevou a incerteza e comprimiu o consumo e o investimento. As previs\u00f5es sobre o desempenho do n\u00edvel de atividade apontam para o pior ano da economia brasileira em oito d\u00e9cadas.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Em tal cen\u00e1rio de contra\u00e7\u00e3o da atividade e de incertezas, as consequ\u00eancias sobre o mercado de trabalho ser\u00e3o profundas e, provavelmente, bem mais graves do que as observadas nas recess\u00f5es anteriores. Ao se contrastarem os dados do desempenho do mercado de trabalho sob a combina\u00e7\u00e3o de choques da pandemia com os da mais recente diminui\u00e7\u00e3o da atividade ocorrida no bi\u00eanio 2015-16, s\u00e3o not\u00e1veis as diferen\u00e7as de intensidade e de formas de acomoda\u00e7\u00e3o diante do encolhimento no n\u00edvel de emprego. Mais ainda, no caso brasileiro, as consequ\u00eancias da pandemia se sobrep\u00f5em, de certa maneira, \u00e0s da recess\u00e3o anterior, uma vez que a lenta recupera\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica do tri\u00eanio 2017-19 n\u00e3o foi capaz de melhorar substancialmente as condi\u00e7\u00f5es ocupacionais da for\u00e7a de trabalho. Examinamos, neste texto, as mudan\u00e7as no mercado de trabalho brasileiro p\u00f3s pandemia, comparando-as com o modo da rea\u00e7\u00e3o \u00e0 recess\u00e3o econ\u00f4mica de 2015-16, e colocando-as em perspectiva ao referir a trajet\u00f3ria de indicadores desse mercado desde 2014, o ano que antecedeu \u00e0 recess\u00e3o.<\/span><\/p>\n<p><b>Principais fluxos do mercado de trabalho na pandemia (2020) e na recess\u00e3o (2015-16)\u00a0<\/b><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Crises econ\u00f4micas s\u00e3o usualmente acompanhadas\u00a0 da perda de postos de trabalho. Durante a recess\u00e3o econ\u00f4mica de 2015-16,\u00a0 ao observarmos o que ocorreu entre o pico da ocupa\u00e7\u00e3o antes de a mesma entrar em trajet\u00f3ria declinante (dezembro de 2014) e o vale da ocupa\u00e7\u00e3o antes de se retomar o crescimento (mar\u00e7o de 2017), houve uma redu\u00e7\u00e3o de 3.817 mil pessoas ocupadas no pa\u00eds (varia\u00e7\u00e3o de -4,1%). J\u00e1 em 2020, sob o impacto da crise sanit\u00e1ria, a perda de postos de trabalho foi mais do que o dobro, atingindo 7.774 mil pessoas, entre os trimestres sucessivos de dez.-fev. e mar.-maio. . O n\u00edvel de ocupa\u00e7\u00e3o despencou 8,3% num curt\u00edssimo intervalo de tempo.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">O colapso da ocupa\u00e7\u00e3o foi o principal efeito da pandemia e sobre ele cabem algumas perguntas: para onde se dirigiram as pessoas que perderam sua ocupa\u00e7\u00e3o? Quais as formas de ocupa\u00e7\u00e3o mais atingidas pela crise? Que setores de atividade se mostraram especialmente sens\u00edveis aos choques de oferta e demanda?<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">A primeira pergunta \u2013 para onde se dirigiram as pessoas que perderam sua ocupa\u00e7\u00e3o? \u2013 recebe diferentes respostas conforme se trate da recess\u00e3o de 2015-16 ou da crise da Covid-19. No bi\u00eanio recessivo, a perda de ocupa\u00e7\u00e3o resultou em forte crescimento no n\u00edvel e na taxa de desemprego. N\u00e3o apenas os indiv\u00edduos que perderam o emprego permaneceram no mercado de trabalho em busca de nova ocupa\u00e7\u00e3o, como novos entrantes nesse mercado ajudaram a aumentar o n\u00famero de desocupados em 7.696 mil pessoas entre dezembro de 2014 e mar\u00e7o de 2017. Com isso, a taxa de desocupa\u00e7\u00e3o passou de 6,5% para 13,7% da for\u00e7a de trabalho. Conquanto tomemos como pontos de refer\u00eancia os trimestres de pico e vale da ocupa\u00e7\u00e3o em meio ao ajuste recessivo, vale assinalar que as mudan\u00e7as no mercado de trabalho n\u00e3o foram bruscas, uma vez que o n\u00edvel m\u00e9dio de ocupa\u00e7\u00e3o em 2015 ainda se manteve acima do n\u00edvel m\u00e9dio de 2014, vindo a declinar mais fortemente apenas em 2016. O aumento na desocupa\u00e7\u00e3o, assim, deveu-se mais aos novos entrantes na for\u00e7a de trabalho, no primeiro ano, e \u00e0 combina\u00e7\u00e3o de ambos os efeitos \u2013 redu\u00e7\u00e3o na ocupa\u00e7\u00e3o e ingresso de pessoas na for\u00e7a de trabalho \u2013 no segundo ano da recess\u00e3o.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">As mudan\u00e7as ocorridas em face da crise sanit\u00e1ria foram bastante diversas. Houve uma ruptura imediata e de enorme alcance no n\u00edvel de ocupa\u00e7\u00e3o. As quase oito milh\u00f5es de pessoas que perderam ocupa\u00e7\u00e3o e renda do trabalho, por seu turno, retiraram-se do mercado de trabalho. N\u00e3o houve, com efeito, crescimento significativo no n\u00famero de desocupados \u2013 o aumento foi estimado em 367 mil pessoas na Pnad C \u2013, nem na taxa de desocupa\u00e7\u00e3o, que evoluiu de 11,6% para 12,9% entre os trimestres sucessivos. Para que uma pessoa seja classificada na condi\u00e7\u00e3o de desocupada, n\u00e3o basta que esteja sem trabalho, necessitando ainda mostrar que realiza procura efetiva de trabalho. Se todas as pessoas que perderam ocupa\u00e7\u00e3o tivessem permanecido na for\u00e7a de trabalho em busca de novo trabalho, a taxa de desocupa\u00e7\u00e3o teria atingido 19,0% da for\u00e7a de trabalho no trimestre encerrado em maio de 2020. O fato de mais de 90% das pessoas que perderam o emprego n\u00e3o terem permanecido no mercado, <\/span><span style=\"font-weight: 400;\">deixando<\/span><span style=\"font-weight: 400;\"> de participar da for\u00e7a de trabalho, \u00e9 a outra caracter\u00edstica saliente dos resultados imediatos da crise sanit\u00e1ria.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Com efeito, a pandemia da Covid-19 impactou o mercado de trabalho de um modo diferente e mais intenso do que a recess\u00e3o econ\u00f4mica de 2015-16. A vultosa redu\u00e7\u00e3o no n\u00edvel de ocupa\u00e7\u00e3o, no momento imediatamente ap\u00f3s a declara\u00e7\u00e3o do estado de calamidade e a ado\u00e7\u00e3o de regras de distanciamento f\u00edsico, resultou menos num aumento na desocupa\u00e7\u00e3o, mas principalmente na massiva sa\u00edda de pessoas da for\u00e7a de trabalho. Com isso, a taxa de participa\u00e7\u00e3o recuou 4,9 pontos de percentagem, passando de 61,7% para 56,8% da popula\u00e7\u00e3o em idade de trabalhar, o que, por sua dimens\u00e3o, configura uma in\u00e9dita queda na taxa de participa\u00e7\u00e3o em t\u00e3o curto intervalo.<\/span><\/p>\n<p><b>A queda no n\u00edvel de ocupa\u00e7\u00e3o sob a \u00f3tica das formas de ocupa\u00e7\u00e3o<\/b><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">A crise sanit\u00e1ria atingiu com diferente intensidade os ocupados segundo a forma da sua ocupa\u00e7\u00e3o. Como regra geral, foram mais afetados grupos cuja inser\u00e7\u00e3o na atividade produtiva se caracteriza por condi\u00e7\u00f5es de trabalho relativamente piores. A correla\u00e7\u00e3o entre a varia\u00e7\u00e3o no n\u00famero de ocupados conforme a forma da ocupa\u00e7\u00e3o e o rendimento m\u00e9dio habitualmente recebido no trabalho principal, por exemplo, mostra que quanto menor for esse rendimento por forma de ocupa\u00e7\u00e3o, mais intenso ter\u00e1 sido o impacto negativo da pandemia sobre o n\u00edvel da ocupa\u00e7\u00e3o.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">O grupo com maior redu\u00e7\u00e3o no n\u00famero de ocupados foi o dos empregados no setor privado sem registro de contrato na carteira de trabalho, cujo contingente diminuiu em 2.426 mil pessoas (-20,8%). Na sequ\u00eancia, aparecem os grupos dos\u00a0 trabalhadores dom\u00e9sticos (com e sem carteira) e dos trabalhadores por conta pr\u00f3pria sem CNPJ. Esses quatro grupos, que correspondiam a 39,5% do n\u00famero total de ocupados antes da pandemia, contribu\u00edram para explicar tr\u00eas quartos da queda imediata no n\u00edvel de ocupa\u00e7\u00e3o.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">O modo como se distribuiu o impacto imediato da pandemia da Covid-19 sobre diferentes grupos da estrutura ocupacional foi substancialmente diferente do que se observou ao longo da recess\u00e3o econ\u00f4mica de 2015-16. Naquela conjuntura, os dois grupos de relev\u00e2ncia mais afetados pela contra\u00e7\u00e3o da atividade foram os empregados no setor privado com carteira de trabalho assinada e os empregados no setor p\u00fablico, com redu\u00e7\u00f5es de 8,4% e 6,3%, respectivamente, no n\u00famero de ocupados entre o pico e o vale do n\u00edvel geral de ocupa\u00e7\u00e3o. No presente contexto, os empregados no setor privado com carteira foram negativamente atingidos (queda de 7,5% na ocupa\u00e7\u00e3o), mas n\u00e3o constituem um dos grupos mais fortemente afetados, enquanto o n\u00edvel de emprego no setor p\u00fablico sequer registrou diminui\u00e7\u00e3o.<\/span><\/p>\n<p><b>A queda no n\u00edvel de ocupa\u00e7\u00e3o nos grupamentos de atividade<\/b><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Tamb\u00e9m quando se desagrega o desempenho dos n\u00edveis de ocupa\u00e7\u00e3o por setor de atividade econ\u00f4mica, observam-se diferen\u00e7as nos impactos da pandemia. Dentre os grupamentos com que a Pnad C classifica a inser\u00e7\u00e3o laboral na atividade, os mais afetados foram \u201cAlojamento e alimenta\u00e7\u00e3o\u201d, \u201cServi\u00e7os dom\u00e9sticos\u201d, \u201cConstru\u00e7\u00e3o\u201d e \u201cOutros servi\u00e7os\u201d. Em conjunto, esses setores, que representavam 25,0% do total de ocupados antes da pandemia, explicam 53,2% da contra\u00e7\u00e3o do emprego no primeiro trimestre da crise sanit\u00e1ria. Merecem aten\u00e7\u00e3o, ainda, as elevadas varia\u00e7\u00f5es nos setores de \u201cCom\u00e9rcio\u201d (-11,1%) e da \u201cInd\u00fastria geral\u201d (-10,1%). Em termos absolutos, a atividade comercial e de repara\u00e7\u00e3o de ve\u00edculos perdeu quase dois milh\u00f5es de postos de trabalho em meio \u00e0 pandemia.\u00a0\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Enquanto na crise sanit\u00e1ria corrente, o encolhimento no n\u00edvel de emprego atingiu praticamente todos os setores de atividade, o mesmo n\u00e3o aconteceu durante a recess\u00e3o de 2015-16. Naquela crise, considerados os trimestres de pico e vale da ocupa\u00e7\u00e3o, n\u00e3o houve queda no n\u00famero de ocupados nos setores de \u201cAlojamento e alimenta\u00e7\u00e3o\u201d, \u201cTransporte, armazenagem e correio\u201d, \u201cServi\u00e7os dom\u00e9sticos\u201d e \u201cOutros servi\u00e7os\u201d, ou se registrou pequena contra\u00e7\u00e3o nos setores \u201cCom\u00e9rcio e repara\u00e7\u00e3o de ve\u00edculos\u201d e \u201cAdministra\u00e7\u00e3o p\u00fablica e outros\u201d. Ao longo dessa recess\u00e3o, o impacto sobre o mercado de trabalho concentrou-se fortemente sobre os setores da ind\u00fastria geral e da constru\u00e7\u00e3o, que responderam, conjuntamente, por 77,3% da diminui\u00e7\u00e3o no n\u00edvel de emprego.<\/span><\/p>\n<p><b>Desocupa\u00e7\u00e3o e subutiliza\u00e7\u00e3o da for\u00e7a de trabalho<\/b><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">O impacto da crise sanit\u00e1ria sobre a taxa de desocupa\u00e7\u00e3o, conforme advertimos em an\u00e1lise anterior, n\u00e3o foi t\u00e3o significativo quanto havia sido durante a recess\u00e3o de 2015-16.<\/span><span style=\"font-weight: 400;\"> Naquele per\u00edodo, considerando-se o intervalo entre o pico (dezembro de 2014) e o vale (mar\u00e7o de 2017) do n\u00edvel de ocupa\u00e7\u00e3o, o n\u00famero de desocupados no mercado de trabalho aumentou 120,1%, fazendo com que a taxa de desocupa\u00e7\u00e3o saltasse de 6,5% para 13,7% da for\u00e7a de trabalho. Desde ent\u00e3o, e at\u00e9 recentemente, tanto o n\u00famero de desempregados, quanto a taxa de desemprego, tra\u00e7aram um caminho de lenta redu\u00e7\u00e3o em vista da fraca recupera\u00e7\u00e3o da atividade econ\u00f4mica. J\u00e1 no contexto da pandemia da Covid-19, o n\u00famero de desocupados cresceu apenas 3,0% e a taxa de desocupa\u00e7\u00e3o passou de 11,6% para 12,9% da for\u00e7a de trabalho entre os trimestres encerrados, respectivamente, em fevereiro e maio.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">O IBGE vem divulgando regularmente indicadores que ampliam o conceito de subutiliza\u00e7\u00e3o da for\u00e7a de trabalho.<\/span><span style=\"font-weight: 400;\"> Al\u00e9m da medida usual de desocupa\u00e7\u00e3o, consideram-se as seguintes condi\u00e7\u00f5es de subutiliza\u00e7\u00e3o da for\u00e7a de trabalho:<\/span><\/p>\n<ol>\n<li style=\"font-weight: 400;\"><span style=\"font-weight: 400;\">Subocupa\u00e7\u00e3o por insufici\u00eancia de horas trabalhadas, quando as pessoas que trabalham habitualmente menos do que 40 horas declaram que gostariam e estariam dispon\u00edveis para trabalhar mais horas;<\/span><\/li>\n<li style=\"font-weight: 400;\"><span style=\"font-weight: 400;\">For\u00e7a de trabalho potencial, que re\u00fane dois subgrupos, o das pessoas que realizaram busca efetiva por trabalho, mas n\u00e3o mais se encontravam dispon\u00edveis para trabalhar, e o das pessoas que n\u00e3o realizaram busca efetiva por trabalho, mas declaram que gostariam e estariam dispon\u00edveis para trabalhar.<\/span><\/li>\n<\/ol>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">No quadro da crise sanit\u00e1ria, esses dois contingentes tiveram comportamento d\u00edspar, pois enquanto a for\u00e7a de trabalho potencial aumentou em 3.918 mil pessoas (49,2%), o n\u00famero de subocupados por insufici\u00eancia de horas diminuiu em 697 mil pessoas (-10,7%). A expans\u00e3o da for\u00e7a de trabalho potencial equivale a pouco mais de metade do contingente de pessoas que perderam sua ocupa\u00e7\u00e3o e sa\u00edram do mercado de trabalho na pandemia. O conjunto dos indicadores de subutiliza\u00e7\u00e3o revela a intensidade do ajustamento b\u00e1sico nesta conjuntura: a extrema contra\u00e7\u00e3o do n\u00edvel de ocupa\u00e7\u00e3o teve como contrapartida uma sa\u00edda massiva de pessoas do mercado de trabalho \u2013 quer seja por avaliar que n\u00e3o conseguiriam novo posto de trabalho ou realizar uma atividade enquanto perdurassem as medidas de afastamento f\u00edsico, quer seja porque decidiram permanecer provisoriamente afastadas a fim de se precaver da doen\u00e7a, sobretudo se dispusessem de reserva financeira para se manter durante certo tempo. Dos que sa\u00edram da for\u00e7a de trabalho, pouco mais da metade revelava alguma inten\u00e7\u00e3o de trabalhar (donde, constitu\u00edam a chamada for\u00e7a de trabalho potencial).<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Uma medida de s\u00edntese do comportamento desses tr\u00eas grupamentos \u00e9 a taxa composta de subutiliza\u00e7\u00e3o da for\u00e7a de trabalho, que afere o total de pessoas em condi\u00e7\u00f5es de subutiliza\u00e7\u00e3o como uma propor\u00e7\u00e3o da for\u00e7a de trabalho ampliada, ou seja, como uma propor\u00e7\u00e3o da soma da for\u00e7a de trabalho usualmente medida (ocupados e desocupados) com a for\u00e7a de trabalho potencial. Essa taxa aumentou substancialmente durante o bi\u00eanio recessivo de 2015-16, manteve-se relativamente est\u00e1vel e em patamar elevado at\u00e9 o in\u00edcio de 2020 e registrou novo salto em virtude da pandemia. Na m\u00e9dia de 2014, a taxa composta de subutiliza\u00e7\u00e3o foi de 18,4% da for\u00e7a de trabalho ampliada; no trimestre de mar\u00e7o a maio de 2020, atingiu 27,5%, o que correspondia a mais de 30 milh\u00f5es de pessoas que revelavam, efetivamente ou apenas mediante declara\u00e7\u00e3o de inten\u00e7\u00e3o, seu prop\u00f3sito de trabalhar ou de ampliar as horas de trabalho.<\/span><\/p>\n<p><b>Considera\u00e7\u00f5es finais<\/b><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">As consequ\u00eancias imediatas da pandemia sobre o mercado de trabalho brasileiro foram extraordin\u00e1rias e de longo alcance, com perda de 7.774 mil postos de trabalho. Em compara\u00e7\u00e3o com a crise mais recente, a da recess\u00e3o econ\u00f4mica de 2015-16, essas consequ\u00eancias foram mais agudas e largamente distribu\u00eddas em termos de formas de ocupa\u00e7\u00e3o e grupamentos de atividade, como tratamos de ilustrar neste texto. Al\u00e9m do forte efeito negativo sobre a ocupa\u00e7\u00e3o, outro resultado incomum na conjuntura presente \u00e9 que a queda no n\u00edvel de emprego teve como contrapartida, n\u00e3o um aumento expressivo na taxa de desemprego, mas sim uma queda magistral na taxa de participa\u00e7\u00e3o da for\u00e7a de trabalho. Diante de uma severa restri\u00e7\u00e3o para a atividade produtiva, os trabalhadores se retiraram do mercado de trabalho, ainda que essa sa\u00edda deva ser considerada como provis\u00f3ria e uma revers\u00e3o igualmente intensa deva ocorrer t\u00e3o logo se restaurem as condi\u00e7\u00f5es sanit\u00e1rias para o exerc\u00edcio mais amplo da atividade. Quando isto ocorrer, n\u00e3o \u00e9 improv\u00e1vel, inclusive, que o retorno de pessoas para a for\u00e7a de trabalho resulte, a depender do ritmo de reabsor\u00e7\u00e3o na atividade produtiva, em algum grau de aumento na taxa de desemprego.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Uma quest\u00e3o evidentemente crucial, sobre a qual pairam incertezas, \u00e9 a do momento em que se verificar\u00e3o condi\u00e7\u00f5es para a atividade econ\u00f4mica mais ampla. A demora para que se restaurem essas condi\u00e7\u00f5es implicar\u00e1 consequ\u00eancias dram\u00e1ticas para milh\u00f5es de pessoas. Como se constata com base nos dados da Pnad C, os contingentes de trabalhadores relativamente mais atingidos foram aqueles com pior inser\u00e7\u00e3o ocupacional \u2013 a maioria dos quais sem registro de contrato na carteira e com menores rendimentos. Uma consider\u00e1vel parcela desses trabalhadores, muito provavelmente, n\u00e3o disp\u00f5e de reservas monet\u00e1rias ou apoio familiar para sobreviverem sem ocupa\u00e7\u00e3o remunerada por longos per\u00edodos. N\u00e3o s\u00e3o, tampouco, eleg\u00edveis para mecanismos da rede de prote\u00e7\u00e3o social como o seguro desemprego, dependendo, neste momento, exclusivamente do aux\u00edlio emergencial aprovado no Congresso Nacional. Esse aux\u00edlio, todavia, ser\u00e1 pago por curto per\u00edodo, menor do que se requer em face da gravidade do quadro sanit\u00e1rio e est\u00e1 sujeito, no momento em que este texto \u00e9 redigido, a manifesta\u00e7\u00f5es contr\u00e1rias quanto \u00e0 sua extens\u00e3o ou valor.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">O quadro geral, portanto, \u00e9 bem mais grave do que o de uma contra\u00e7\u00e3o c\u00edclica da economia ou mesmo de uma crise por instabilidade s\u00fabita. N\u00e3o havendo possibilidade de realizar atividade produtiva e sem saber o quanto perdurar\u00e1 no tempo a crise sanit\u00e1ria, nem as condi\u00e7\u00f5es da recupera\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica ap\u00f3s a remo\u00e7\u00e3o das restri\u00e7\u00f5es, a economia brasileira h\u00e1 de vivenciar uma r\u00e1pida e intensa eleva\u00e7\u00e3o nos n\u00edveis da pobreza. Esta consequ\u00eancia deveria bastar para a ado\u00e7\u00e3o de pol\u00edticas p\u00fablicas efetivas em defesa da popula\u00e7\u00e3o.\u00a0<\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Carlos Henrique Horn, professor do Departamento de Economia e Internacionais, e Virg\u00ednia Rolla Donoso, economista e colaboradora do site DMT em Debate<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"fifu_image_url":"","fifu_image_alt":"","footnotes":"","_links_to":"","_links_to_target":""},"categories":[438],"tags":[445],"class_list":["post-18439","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-analise","tag-artigo"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/fce\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/18439","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/fce\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/fce\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/fce\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/fce\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=18439"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/fce\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/18439\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/fce\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=18439"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/fce\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=18439"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/fce\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=18439"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}