{"id":18664,"date":"2020-08-03T14:56:57","date_gmt":"2020-08-03T17:56:57","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ufrgs.br\/fce\/?p=18664"},"modified":"2020-08-11T15:03:16","modified_gmt":"2020-08-11T18:03:16","slug":"criptomercados-o-iuane-digital-e-o-futuro-do-dolar","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufrgs.br\/fce\/criptomercados-o-iuane-digital-e-o-futuro-do-dolar\/","title":{"rendered":"Criptomercados, o Iuane Digital e o Futuro do D\u00f3lar"},"content":{"rendered":"<p><em>Por Luiza Peruffo, Andr\u00e9s Ferrari e Andr\u00e9 Moreira Cunha, professores do Departamento de Economia e Rela\u00e7\u00f5es Internacionais da UFRGS<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong><em>A Ilus\u00e3o Libert\u00e1ria em um Mundo de Estados<\/em><\/strong><\/p>\n<p>H\u00e1 mais ou menos 400<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\">[1]<\/a> anos, a humanidade se organiza em torno de Estados. Simplificadamente, isto significa que existe uma divis\u00e3o real do territ\u00f3rio do globo \u2013 as fronteiras \u2013 que demarcam onde termina um Estado e come\u00e7a o outro. N\u00e3o existem espa\u00e7os vazios; pelo contr\u00e1rio, existem muitas disputas de mais de um Estado sobre o mesmo territ\u00f3rio. Estas disputas s\u00e3o resultado dos interesses de indiv\u00edduos que, por quaisquer raz\u00f5es, se percebem como sendo parte de um mesmo grupo com direito a um determinado territ\u00f3rio. Quanto melhor estes grupos se organizam, especialmente atrav\u00e9s de narrativas que justificam a sua uni\u00e3o e que servem para atrair mais adeptos ao grupo, mais fortes eles se tornam, potencialmente contribuindo para a demarca\u00e7\u00e3o de um territ\u00f3rio para chamar de seu.<\/p>\n<p>Perceber que a humanidade se organiza atrav\u00e9s de Estados \u00e9 essencial para entender o que est\u00e1 em jogo em disputas de poder que, de alguma forma, envolvem os monop\u00f3lios do Estado e o seu territ\u00f3rio. Para continuar existindo, o Estado precisa garantir a preserva\u00e7\u00e3o de seu territ\u00f3rio, de maneira que o ex\u00e9rcito (ou a \u201cfor\u00e7a\u201d, de maneira mais ampla) \u00e9 um monop\u00f3lio do Estado. Similarmente, o Estado precisa que os indiv\u00edduos que moram naquele territ\u00f3rio se identifiquem enquanto parte daquele grupo e ajudem a fortalec\u00ea-lo. Sob este arranjo de Estados, quando um ser humano nasce, ele \u00e9 automaticamente parte de um grupo, o que lhe confere os direitos e deveres de ter nascido em um determinado territ\u00f3rio. Este indiv\u00edduo passa a fazer parte do grupo que habita certa regi\u00e3o do globo, que tem uma bandeira, um hino e folclores que formam a sua identidade. Esse indiv\u00edduo faz parte de uma hist\u00f3ria ao nascer, e \u00e9 poss\u00edvel que tenha que colocar sua pr\u00f3pria vida \u00e0 servi\u00e7o dela se assim o Estado convocar.<\/p>\n<p>Um dos monop\u00f3lios do Estado \u00e9 o curso for\u00e7ado da moeda que ele emite. A moeda em si tamb\u00e9m \u00e9 uma forma de organiza\u00e7\u00e3o da humanidade; um \u201cmito coletivo\u201d, para usar a express\u00e3o de Yuval Harari em seu \u201c<em>Sapiens: A Brief History of Humankind<\/em>\u201d (2011). Conceitualmente, uma moeda \u00e9 algo que serve como unidade de conta, meio de troca e reserva de valor. O que faz com que este \u201calgo\u201d possa desempenhar estas fun\u00e7\u00f5es \u00e9 a exist\u00eancia de uma rede de agentes que <u>acredite<\/u> que determinado instrumento tem e continuar\u00e1 tendo valor e aceitabilidade no futuro. No mundo das ideias, tanto faz se o emissor deste \u201calgo\u201d \u00e9 um Estado ou um agente privado. Na pr\u00e1tica, contudo, o fato que o Estado tem o poder de obrigar os agentes a usar a moeda que ele emite e garante, pelo menos dentro do seu territ\u00f3rio, faz com que as moedas emitidas por Estados tenham poder desproporcional em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s moedas emitidas por quem quer que n\u00e3o tenha um territ\u00f3rio. Afinal, junto com a bandeira, o hino e o folclore, o rec\u00e9m-nascido tamb\u00e9m ganha a obriga\u00e7\u00e3o de pagar impostos, que s\u00f3 podem ser pagos na forma que o Estado determina \u2013 usualmente a sua pr\u00f3pria moeda.<\/p>\n<p>O poder raramente \u00e9 incontestado. O fato de vivermos sob uma organiza\u00e7\u00e3o em torno de Estados n\u00e3o significa que esta \u00e9 a melhor ou a \u00fanica forma de a humanidade se organizar. Como qualquer conjunto de regras, essa organiza\u00e7\u00e3o beneficia uns e prejudica outros. Existem disputas de grupos de interesse e ideias alternativas sobre como poder\u00edamos nos organizar enquanto seres humanos que se manifestam de diversas formas. No caso dos Estados e das moedas, este conflito \u00e9 claramente evidenciado na onda recente de moedas digitais privadas que prometem eliminar o monop\u00f3lio monet\u00e1rio do Estado.<\/p>\n<p>O Bitcoin, atualmente a mais popular das moedas digitais privadas, traz para a superf\u00edcie as entranhas das disputas de poder que cercam os mitos e narrativas envolvendo Estados e moedas. O Bitcoin d\u00e1 vida ao velho sonho libert\u00e1rio de retirar do Estado o poder de monop\u00f3lio da emiss\u00e3o monet\u00e1ria. Ele representa a possibilidade dos indiv\u00edduos se libertarem das amarras impostas a eles quando nascem. Na leitura do ganhador do Pr\u00eamio Nobel Robert J. Shiller (2019)<a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\">[2]<\/a>, \u201ca narrativa do Bitcoin \u00e9 uma narrativa motivadora para a classe cosmopolita ao redor do mundo, para pessoas que aspiram fazer parte desta classe, e para aqueles que se identificam com a tecnologia avan\u00e7ada\u201d. Apostar no sucesso do Bitcoin (comprando Bitcoins, para ficar claro) \u00e9, em larga medida, querer fazer parte do grupo vencedor desta narrativa que exclui (ou substitui em grande parte) o monop\u00f3lio monet\u00e1rio estatal. Por um lado, o sucesso desta narrativa em angariar membros est\u00e1 relacionado com a insatisfa\u00e7\u00e3o de um grupo significativo de indiv\u00edduos com os problemas do <em>status quo<\/em>. Por outro lado, \u00e9 certo que nem toda a compra de Bitcoin envolve um c\u00e1lculo pol\u00edtico consciente: muitos agentes compram Bitcoins simplesmente porque o ativo apreciou no passado e eles acreditam que vai continuar apreciando no futuro. Nesse sentido, o Bitcoin \u00e9 tamb\u00e9m uma manifesta\u00e7\u00e3o t\u00edpica dos frenesis financeiros; das \u201cmanias, p\u00e2nicos e <em>crashes<\/em>\u201d descritos por Charles Kindleberger. De qualquer maneira, a aposta na aprecia\u00e7\u00e3o e na aceitabilidade do Bitcoin no longo prazo \u00e9 em si uma manifesta\u00e7\u00e3o das cren\u00e7as (conscientes ou n\u00e3o) dos indiv\u00edduos que compram e ret\u00eam o ativo.<\/p>\n<p>Tudo isso fica ainda mais interessante quando o governo chin\u00eas incorpora as novas tecnologias digitais surgidas no setor privado para lan\u00e7ar a primeira moeda estatal digital<a href=\"#_ftn3\" name=\"_ftnref3\">[3]<\/a>. Em uma tacada, a China ao mesmo tempo desafia o espa\u00e7o das moedas digitais privadas e do d\u00f3lar americano, que por qualquer medida \u00e9 a moeda mais utilizada ao redor do mundo. As ambi\u00e7\u00f5es da China de internacionalizar a sua moeda e transformar o atual Sistema Monet\u00e1rio e Financeiro Internacional (SMFI) centrado no d\u00f3lar n\u00e3o \u00e9 nenhum segredo e muito menos um desejo exclusivo dos chineses. No entanto, por diversos motivos, a China \u00e9 provavelmente o \u00fanico Estado atualmente com capacidade de desafiar a posi\u00e7\u00e3o do d\u00f3lar. O movimento pioneiro da China em lan\u00e7ar o iuane digital potencialmente coloca a moeda chinesa em uma posi\u00e7\u00e3o privilegiada para ocupar espa\u00e7os que o d\u00f3lar ainda n\u00e3o ocupa e que ela, sendo a \u00fanica moeda estatal no formato digital at\u00e9 o momento, tem uma vantagem conceitual em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s diversas moedas privadas digitais.<\/p>\n<p>\u00c0 luz desses desenvolvimentos recentes, cabe questionar o impacto do iuane digital para o ordenamento do SMFI em pelo menos duas dimens\u00f5es: (i) na concorr\u00eancia com os criptoativos privados, particularmente as <em>stablecoins<\/em> e (ii) em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 posi\u00e7\u00e3o hegem\u00f4nica do d\u00f3lar estadunidense no plano global. Esta an\u00e1lise parte do entendimento que vivemos em um mundo de Estados que disputam poder entre si, no qual suas moedas s\u00e3o simultaneamente uma manifesta\u00e7\u00e3o e uma fonte de poder. Em paralelo, os agentes privados, apesar de n\u00e3o estarem na mesma liga da competi\u00e7\u00e3o pelo poder monet\u00e1rio, representam uma for\u00e7a capaz de alterar as prefer\u00eancias da sociedade e, assim, impactar o resultado da disputa entre os Estados.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong><em>O Iuane Digital e o Avan\u00e7o Privado nas Finan\u00e7as Digitais<\/em><\/strong><\/p>\n<p>Para al\u00e9m do seu tamanho corrente \u2013 US$ 250 bilh\u00f5es em capitaliza\u00e7\u00e3o dos seus cerca de 5.100 instrumentos<a href=\"#_ftn4\" name=\"_ftnref4\">[4]<\/a> \u2013, que equivale a apenas 0,6% do valor de mercado das empresas listadas em bolsa de valores ao t\u00e9rmino de 2019<a href=\"#_ftn5\" name=\"_ftnref5\">[5]<\/a>, os criptoativos s\u00e3o importantes por aquilo que representam enquanto potencial de transforma\u00e7\u00e3o nas rela\u00e7\u00f5es financeiras dom\u00e9sticas e internacionais em tempos de r\u00e1pida muta\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica. H\u00e1 pouco mais de uma d\u00e9cada, as criptomoedas deram seus primeiros passos, quando em agosto 2008 foi registrado o dom\u00ednio de internet \u201cbitcoin.org\u201d e, em novembro do mesmo ano, um indiv\u00edduo supostamente chamado Satoshi Nakamoto lan\u00e7ou o <em>paper<\/em> \u201cBitcoin: A peer-to-peer Electronic Cash System\u201d<a href=\"#_ftn6\" name=\"_ftnref6\">[6]<\/a>, que explicava o funcionamento do novo sistema de pagamentos originalmente idealizado para ser privado, digital e descentralizado. As primeiras transfer\u00eancias em Bitcoins (BTC) datam do in\u00edcio de 2009. Desde ent\u00e3o, essa inova\u00e7\u00e3o financeira se expandiu rapidamente. Atualmente \u00e9 mais adequado falar-se de um criptomercado caracterizado pelo conv\u00edvio de distintos instrumentos.<a href=\"#_ftn7\" name=\"_ftnref7\">[7]<\/a> Com isso, as criptomoedas originais evolu\u00edram para a constitui\u00e7\u00e3o de um universo ampliado de criptoativos.<\/p>\n<p>Contrariando as expectativas libert\u00e1rias e a narrativa que circunda as moedas privadas, os Estados t\u00eam usufru\u00eddo da sua prerrogativa territorial para regular os criptomercados atrav\u00e9s de seus bancos centrais e demais ag\u00eancias estatais<a href=\"#_ftn8\" name=\"_ftnref8\">[8]<\/a>. De acordo com o <em>Bank for International Settlements <\/em>(BIS), as inova\u00e7\u00f5es privadas nos sistemas de pagamentos e nos instrumentos utilizados para viabilizar a transfer\u00eancia de bens, servi\u00e7os e ativos financeiros, tais como as criptomoedas, s\u00e3o bem-vindas. Por\u00e9m, segue o BIS, somente os entes estatais, especialmente os bancos centrais, teriam o poder de conferir estabilidade aos padr\u00f5es monet\u00e1rios<a href=\"#_ftn9\" name=\"_ftnref9\">[9]<\/a>. Para o BIS, \u201co Banco Central desempenha um papel fundamental ao garantir a confian\u00e7a no dinheiro, um bem p\u00fablico essencial para a economia em geral, enquanto o setor privado lidera na inova\u00e7\u00e3o a servi\u00e7o do p\u00fablico. O Banco Central fornece o melhor meio seguro para liquidar transa\u00e7\u00f5es de atacado e varejo, enquanto os bancos comerciais fornecem a maior parte dos instrumentos de pagamento de varejo\u201d (BIS, 2020, op cit., p. 67, tradu\u00e7\u00e3o livre do original em ingl\u00eas).<\/p>\n<p>Para o BIS, as moedas digitais dos bancos centrais poder\u00e3o representar um refor\u00e7o positivo no mundo das finan\u00e7as digitais, n\u00e3o s\u00f3 por dar estabilidade ao sistema como por representar um padr\u00e3o m\u00ednimo de qualidade na presta\u00e7\u00e3o de servi\u00e7os de pagamentos diante de atores privados que pretendam atuar neste segmento<a href=\"#_ftn10\" name=\"_ftnref10\">[10]<\/a>. Nesse sentido, \u00e9 poss\u00edvel que o iuane digital possa contribuir para o avan\u00e7o privado nas finan\u00e7as digitais. H\u00e1 um aspecto positivo claro que sinaliza nesta dire\u00e7\u00e3o, derivado da ideia de economias em rede: quanto mais agentes utilizam certo padr\u00e3o tecnol\u00f3gico ou de consumo, por exemplo, mais usu\u00e1rios em potencial s\u00e3o por ele atra\u00eddos. O iuane digital pode contribuir para a dissemina\u00e7\u00e3o das novas tecnologias que d\u00e3o sustenta\u00e7\u00e3o \u00e0s moedas digitais privadas, o que vai tornando os usu\u00e1rios mais adaptados aos novos meios de pagamentos digitais, suas plataformas de transfer\u00eancia, softwares de utiliza\u00e7\u00e3o e assim por diante. Em tese isso poderia ajudar a alavancar os criptoativos.<\/p>\n<p>Ao mesmo tempo, o iuane digital reafirma o car\u00e1ter estatal da moeda, o que pode inviabilizar a pretens\u00e3o de tornar instrumentos privados em moedas propriamente ditas. O car\u00e1ter descentralizado, n\u00e3o transparente e sem contrapartes tornou as criptomoedas originais como o Bitcoin excessivamente vol\u00e1teis e fr\u00e1geis diante da perspectiva de seu uso em atividades il\u00edcitas. Estudo recente do Parlamento Europeu reporta que metade das transa\u00e7\u00f5es anuais com Bitcoins poderia estar associada a algum pagamento suspeito<a href=\"#_ftn11\" name=\"_ftnref11\">[11]<\/a>. Por decorr\u00eancia, uma moeda estatal digital s\u00f3lida o suficiente para projetar seguran\u00e7a e liquidez concorreria diretamente com os novos instrumentos privados denominados de <em>stablecoins<\/em>. Moedas digitais que se enquadram nesta categoria como o Tether (USDT), o Multi-collateral DAI (DAI) e o Gemini Dollar t\u00eam uma capitaliza\u00e7\u00e3o t\u00edmida diante do Bitcoin. No final de julho de 2020, o volume de Bitcoin era de US$ 202 bilh\u00f5es, ao passo que a soma das tr\u00eas <em>stablecoins<\/em> j\u00e1 mencionadas era de apenas US$ 11 bilh\u00f5es. Para se colocar em perspectiva, a pesquisa trienal do BIS sobre mercado cambial registrou transa\u00e7\u00f5es di\u00e1rias de iuane de US$ 280 bilh\u00f5es em 2019, o que j\u00e1 excede todo o estoque de criptoativos<a href=\"#_ftn12\" name=\"_ftnref12\">[12]<\/a>. J\u00e1 o projeto da moeda digital do Facebook, a Libra, teria o potencial de avan\u00e7ar no terreno aberto pelas <em>stablecoins<\/em>, dada a sua ampla base de usu\u00e1rios em n\u00edvel internacional<a href=\"#_ftn13\" name=\"_ftnref13\">[13]<\/a>.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong><em>Ruptura no Sistema Monet\u00e1rio e Financeiro Internacional?<\/em><\/strong><\/p>\n<p>A perspectiva de ruptura com o atual SMFI est\u00e1, em s\u00edntese, relacionada com a ideia de que o d\u00f3lar deixar\u00e1 de ser a principal moeda de refer\u00eancia internacional. A hip\u00f3tese de que esta ruptura n\u00e3o deve ser precipitada pela nova moeda digital chinesa est\u00e1 baseada no entendimento de que mudan\u00e7as no SMFI s\u00e3o muito lentas e que a moeda que ocupa a \u201clideran\u00e7a\u201d entre as moedas tem a in\u00e9rcia a seu favor. Desde que o d\u00f3lar assumiu esta posi\u00e7\u00e3o de principal moeda internacional, foram in\u00fameras as especula\u00e7\u00f5es de que \u201cem breve\u201d o d\u00f3lar perderia esta posi\u00e7\u00e3o ou passaria a dividi-la com outras moedas. O economista canadense Robert Triffin apontava para as fragilidades da rela\u00e7\u00e3o entre o d\u00f3lar e o ouro nos anos 1960. Com a ruptura do regime de c\u00e2mbio fixo derivado do Acordo de Bretton Woods, no in\u00edcio dos anos 1970, imaginava-se que o d\u00f3lar perderia a sua for\u00e7a global, percep\u00e7\u00e3o que foi refor\u00e7ada com a internacionaliza\u00e7\u00e3o do marco e do iene nos anos 1980.<\/p>\n<p>A ruptura do padr\u00e3o d\u00f3lar-ouro no governo Nixon ensejou o estabelecimento da flutua\u00e7\u00e3o \u2013 livre ou administrada \u2013 no valor das principais moedas. O lastro real, em ouro, deixou de existir. O mercado de moedas passou a se comportar de forma muito mais pr\u00f3xima dos demais segmentos financeiros. Ali\u00e1s, isso n\u00e3o representou uma novidade, pois a flutua\u00e7\u00e3o cambial foi intensa nos anos que se seguiram \u00e0 ruptura do padr\u00e3o-ouro original, particularmente entre a Primeira Guerra Mundial e meados de 1925-1926. Com o lan\u00e7amento do euro no final dos anos 1990 e, mais recentemente, com a crise financeira global de 2008, tal perspectiva foi renovada.<\/p>\n<p>A ascens\u00e3o da China no s\u00e9culo XXI est\u00e1 no centro dos debates sobre a conforma\u00e7\u00e3o da ordem econ\u00f4mica e pol\u00edtica global contempor\u00e2nea e futura. Tanto na \u00e1rea da pol\u00edtica internacional, quanto na economia internacional, questiona-se se o SMFI seguir\u00e1 com a hegemonia do d\u00f3lar ou se outras moedas (euro, iuane, etc.) poder\u00e3o contestar esta situa\u00e7\u00e3o. Mais recentemente, o avan\u00e7o chin\u00eas em \u00e1reas de fronteira tecnol\u00f3gica tornou o debate ainda mais intenso.<\/p>\n<p>Avaliamos que ainda n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel vislumbrar tal ruptura. Ela \u00e9 poss\u00edvel, mas improv\u00e1vel no futuro pr\u00f3ximo. A moeda chinesa, digital ou n\u00e3o, ainda est\u00e1 longe de ser uma amea\u00e7a \u00e0 hegemonia do d\u00f3lar, na medida em que quase metade do giro di\u00e1rio do mercado cambial \u2013 US$ 6,6 trilh\u00f5es, em abril de 2019<a href=\"#_ftn14\" name=\"_ftnref14\">[14]<\/a> \u2013 apresenta a moeda estadunidense em uma de suas contrapartes. Da mesma forma, cerca de dois ter\u00e7os dos ativos de reserva, 40% dos pagamentos internacionais e metade dos contratos de com\u00e9rcio est\u00e3o denominados em d\u00f3lares<a href=\"#_ftn15\" name=\"_ftnref15\">[15]<\/a>. Ademais, os estudos do BIS reafirmam o fato de que em momentos de crise, cresce a demanda pela moeda estadunidense e, principalmente, pelos ativos emitidos por seu Tesouro Federal e principais empresas.<\/p>\n<p>Do ponto de vista pol\u00edtico e social, vemos que os Estados Unidos (EUA) est\u00e3o em um momento vulner\u00e1vel, com lideran\u00e7as que tentam retirar o protagonismo do pa\u00eds no plano internacional em nome de um nacionalismo de vi\u00e9s populista. Isso era a regra pol\u00edtica pr\u00e9-Segunda Guerra Mundial. E pode vir a ser o novo \u201cvelho normal\u201d. Por isso mesmo, a l\u00edder alem\u00e3, Angela Merkel, apontou que precisamos come\u00e7ar a refletir sobre como ser\u00e1 um mundo onde os EUA n\u00e3o desejam mais liderar<a href=\"#_ftn16\" name=\"_ftnref16\">[16]<\/a>, pelo menos n\u00e3o da forma consagrada nos \u00faltimos 70 anos. Assim, o iuane digital e, mais importante, o seu potencial avan\u00e7o, n\u00e3o seria necessariamente uma demonstra\u00e7\u00e3o da for\u00e7a chinesa \u2013 que existe, mas ainda se coloca em um patamar inferior \u2013 mas, talvez, um reflexo adicional da vulnerabilidade atual dos EUA. O lastro real das moedas contempor\u00e2neas \u00e9 o poder estatal em um sentido amplo. A perda de vigor pol\u00edtico dos EUA e de sua capacidade de proje\u00e7\u00e3o \u201cbranda\u201d pode corroer a teia invis\u00edvel de rela\u00e7\u00f5es que sustenta a posi\u00e7\u00e3o global d\u00f3lar. Veja que o produto dos EUA corresponde a um quinto do total global, ao passo que o d\u00f3lar representa ao redor de 60% dos pagamentos e ativos.<\/p>\n<p>Assim, ainda que por diversos motivos a moeda chinesa provavelmente represente o rival mais perigoso que o d\u00f3lar j\u00e1 enfrentou, estamos apenas no in\u00edcio do que pode vir a ser uma mudan\u00e7a no sistema. Nesse sentido, a forma da moeda (f\u00edsica ou digital) \u00e9 secund\u00e1ria para explicar uma potencial ruptura. De qualquer forma, parece que a China deu um passo \u00e0 frente dos EUA ao lan\u00e7ar a primeira moeda digital estatal, o que eventualmente pode significar que ela vai ocupar alguns espa\u00e7os que o d\u00f3lar n\u00e3o tem como ocupar.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong><em>Um Futuro Incerto, Mas Ainda de Estados<\/em><\/strong><\/p>\n<p>Com base nos elementos estruturais, econ\u00f4micos e pol\u00edticos do presente, parece ser razo\u00e1vel vislumbrar um cen\u00e1rio no qual os criptoativos, em geral, e as moedas privadas digitais, particularmente as <em>stablecoins<\/em> possam atuar em nichos espec\u00edficos, tanto como meios de pagamentos referenciados \u00e0s moedas estatais, particularmente o d\u00f3lar, quanto, principalmente, como ativos financeiros. No entanto, a aus\u00eancia do poder coercitivo \u00e9 um limite claro para a expans\u00e3o do uso de criptoativos como o Bitcoin enquanto moeda. Nesse sentido, a nova moeda chinesa entra com uma vantagem expl\u00edcita para competir com as moedas privadas em \u00e2mbito digital.<\/p>\n<p>Em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 posi\u00e7\u00e3o hegem\u00f4nica do d\u00f3lar estadunidense no plano global, nossa avalia\u00e7\u00e3o \u00e9 que o impacto do iuane digital para o ordenamento do SMFI vai depender muito da rea\u00e7\u00e3o estadunidense com rela\u00e7\u00e3o \u00e0 perda potencial do d\u00f3lar enquanto instrumento de poder. Se por um lado, a China se beneficia da escala global e da crescente internacionaliza\u00e7\u00e3o de sua economia, por outro ela pode ter sua trajet\u00f3ria afetada negativamente pelos conflitos geopol\u00edticos em curso com os Estados Unidos, que possui uma ampla vantagem para barrar eventuais concorrentes.<\/p>\n<p>Finalmente, \u00e9 preciso evitar an\u00e1lises pautadas no \u201ccurto-prazismo\u201d caracter\u00edsticas do mercado financeiro. Ao perceber a moeda enquanto manifesta\u00e7\u00e3o do poder coercitivo que \u00e9 exclusivo dos Estados e reconhecer que estes ainda representam a unidade b\u00e1sica do sistema internacional, colocamos em perspectiva a capacidade de agentes privados contrarrestarem seu dom\u00ednio. Da mesma forma, n\u00e3o \u00e9 novidade a insatisfa\u00e7\u00e3o com o papel ocupado pelo d\u00f3lar e os desejos de diluir sua influ\u00eancia no SMFI. Ainda que haja espa\u00e7o para o avan\u00e7o gradual de concorrentes, especialmente o iuane digital, em nossa perspectiva, as moedas estatais prevalecer\u00e3o em um horizonte temporal mais dilatado e o d\u00f3lar seguir\u00e1 influente mesmo que ocorra um decl\u00ednio relativo da economia estadunidense.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a> 372 anos para sermos precisos, considerando como marco o Tratado de Vestf\u00e1lia assinado em 1648.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\">[2]<\/a> Ver \u201cNarrative Economics: How Stories Go Viral and Drive Major Economic Events\u201d, Robert J. Shiller, Princeton University Press (2019, p. 7). Tradu\u00e7\u00e3o nossa.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref3\" name=\"_ftn3\">[3]<\/a> Ver \u201cChina aims to launch the world\u2019s first official digital currency\u201d, <em>The Economist<\/em>, Apr 23rd 2020.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref4\" name=\"_ftn4\">[4]<\/a> Posi\u00e7\u00e3o em mar\u00e7o de 2020. Detalhes em European Parliament &#8211; Policy Department for Economic, Scientific and Quality of Life Policies, \u201cCrypto-assets: Key developments, regulatory concerns and responses\u201d, March, 2020 (<a href=\"https:\/\/www.europarl.europa.eu\/RegData\/etudes\/STUD\/2020\/648779\/IPOL_STU(2020)648779_EN.pdf\">https:\/\/www.europarl.europa.eu\/RegData\/etudes\/STUD\/2020\/648779\/IPOL_STU(2020)648779_EN.pdf<\/a>). Para dados atualizados diariamente ver: <a href=\"https:\/\/coinmarketcap.com\">https:\/\/coinmarketcap.com<\/a>.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref5\" name=\"_ftn5\">[5]<\/a> De acordo com estimativas do Banco Mundial este estoque era de US$ 43.271 bilh\u00f5es para o conjunto da economia global em 2019. Ver: <a href=\"https:\/\/data.worldbank.org\/\">https:\/\/data.worldbank.org\/<\/a>.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref6\" name=\"_ftn6\">[6]<\/a> Ver <a href=\"https:\/\/bitcoin.org\/bitcoin.pdf\">https:\/\/bitcoin.org\/bitcoin.pdf<\/a>, \u00faltimo acesso em 27 de julho de 2020.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref7\" name=\"_ftn7\">[7]<\/a> O European Parliament (op citi.) faz um balan\u00e7o sobre distintos conceitos de criptoativos empregados por especialistas em aspectos legais e financeiras, ag\u00eancias reguladoras e acad\u00eamicos. Assim, seriam criptoativos todos os ativos financeiros privados e digitais que: (i) utiliza a tecnologia DLT (<em>Distributed Ledger Technologies<\/em> ou Tecnologia Distribu\u00edda de Livro-raz\u00e3o, em tradu\u00e7\u00e3o livre para o portugu\u00eas) e a criptografia para fins de registro e distribui\u00e7\u00e3o; (ii) n\u00e3o \u00e9 emitido ou garantido por nenhum ente estatal, particularmente bancos centrais; e (iii) pode ser utilizado como meio de pagamento para a aquisi\u00e7\u00e3o de bens e servi\u00e7os ou como ve\u00edculo de investimento. Eles englobam: 1) as criptmoedas originais, de emiss\u00e3o descentralizada, n\u00e3o identificada e sem lastro ou contrapartida, como o Bitcoin; 2) os <em>tokens<\/em> que representam, por meio digital, a propriedade de ativos espec\u00edficos; 3) as moedas digitais est\u00e1veis (<em>stablecoins<\/em>) que surgiram recentemente para tentar reverter a vis\u00e3o de que as criptomoedas s\u00e3o instrumentos pouco transparentes, muito vol\u00e1teis e, por isso, n\u00e3o confi\u00e1veis; as <em>stablecoins<\/em> t\u00eam emissores identificados e contrapartidas; e 4) as moedas digitais dos bancos centrais (CBDC \u2013 Central Bank Digital Currency).<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref8\" name=\"_ftn8\">[8]<\/a> Ver: European Parliament op cit.; International Organization of Securities Commissions (IOSCO), \u201cIssues, Risks and Regulatory Considerations Relating to Crypto-Asset Trading Platforms &#8211; Final Report\u201d, February 2020 (<a href=\"https:\/\/www.iosco.org\/library\/pubdocs\/pdf\/IOSCOPD649.pdf\">https:\/\/www.iosco.org\/library\/pubdocs\/pdf\/IOSCOPD649.pdf<\/a>); BIS Annual Report 2020, chapter III \u201cCentral banks and payments in the digital era\u201d (<a href=\"https:\/\/www.bis.org\/publ\/arpdf\/ar2020e.htm\">https:\/\/www.bis.org\/publ\/arpdf\/ar2020e.htm<\/a>).<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref9\" name=\"_ftn9\">[9]<\/a> No passado, a concorr\u00eancia entre moedas privadas produziu instabilidade financeira, o que redundou em um relativo consenso sobre a necessidade de manuten\u00e7\u00e3o do seu car\u00e1ter estatal e regulado. De acordo com o presidente do FED de St. Louis, James Bullard: \u201cCryptocurrencies are creating drift toward a non-uniform currency in the U.S., a state of affairs that has existed historically but was disliked and eventually replaced \u2026 Currencies have to be reliable and hold their value \u2026 This is probably why government backing has been important historically, combined with a stable monetary policy that promotes stability of the currency.\u201d (Public and Private Currency Competition, July, 19, 2019 &#8211; <a href=\"https:\/\/www.stlouisfed.org\/from-the-president\/speeches-and-presentations\/2019\/public-and-private-currency-competition\">https:\/\/www.stlouisfed.org\/from-the-president\/speeches-and-presentations\/2019\/public-and-private-currency-competition<\/a>)<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref10\" name=\"_ftn10\">[10]<\/a> \u201cCBDCs could offer a new, safe, trusted and widely accessible digital means of payment. But the impact could go much further, as they could foster competition among private sector intermediaries, set high standards for safety, and act as a catalyst for continued innovation in payments, finance and commerce at large\u201d (BIS, 2020, pp. 67-68). Ver tamb\u00e9m \u201cImpending arrival \u2013 a sequel to the survey on central bank digital currency\u201d por Codruta Boar, Henry Holden and Amber Wadsworth, BIS Papers, 2017, January 2020.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref11\" name=\"_ftn11\">[11]<\/a> \u201cThe illegal activity includes, amongst others, the buying and selling of illegal goods or services online in darknet marketplaces, money laundering, evasion of capital controls, payments in ransomware attacks and thefts. In this context, cryptocurrencies function mostly as a payment instrument. Remarkable is that almost half of all (yearly) transactions in Bitcoin can be linked to illegal activity according to Australian researchers who employed specific algorithms to analyse transaction data. As the crypto-market is still dominated by Bitcoin, with a dominance in terms of total market capitalisation exceeding 63% ($159 billion), this is an important observation.\u201d (European Parliament, 2020, op citi, p. 8).<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref12\" name=\"_ftn12\">[12]<\/a> O BIS considera que a internacionaliza\u00e7\u00e3o recente da moeda chinesa se d\u00e1 em um ritmo abaixo do seu potencial: \u201cThe average daily turnover of the Chinese renminbi (RMB) surpassed $280 billion per day in April 2019, yet it remained only the world&#8217;s eighth most traded currency \u2026 The share of RMB in global FX trading rose by less than between previous Triennial Surveys, to 4.3% in 2019, because of subdued growth in offshore RMB (CNH) trading. RMB turnover remains lower than expected based on real economy indicators, such as trade volume and GDP per capita. The deviation can be explained by financial drivers, such as restrictions on financial capital flows.\u201d (https:\/\/www.bis.org\/publ\/qtrpdf\/r_qt1912w.htm)<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref13\" name=\"_ftn13\">[13]<\/a> No final do primeiro trimestre de 2020, havia 2,6 bilh\u00f5es de usu\u00e1rios ativos nesta rede social. Ver: <a href=\"https:\/\/www.statista.com\/statistics\/264810\/number-of-monthly-active-facebook-users-worldwide\/\">https:\/\/www.statista.com\/statistics\/264810\/number-of-monthly-active-facebook-users-worldwide\/<\/a>, acesso em 30 de julho de 2020.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref14\" name=\"_ftn14\">[14]<\/a> VEr: <a href=\"https:\/\/www.bis.org\/publ\/qtrpdf\/r_qt1912f.htm\">https:\/\/www.bis.org\/publ\/qtrpdf\/r_qt1912f.htm<\/a><\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref15\" name=\"_ftn15\">[15]<\/a> Ver BIS &#8211; \u201cUS dollar funding: an international perspective\u201d, CGFS Papers, No 65, June 2020 (<a href=\"https:\/\/www.bis.org\/publ\/cgfs65.htm\">https:\/\/www.bis.org\/publ\/cgfs65.htm<\/a>).<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref16\" name=\"_ftn16\">[16]<\/a> Ver: <a href=\"https:\/\/www.theguardian.com\/world\/2020\/jun\/26\/do-not-assume-us-still-aspires-to-be-world-leader-merkel-warns\">https:\/\/www.theguardian.com\/world\/2020\/jun\/26\/do-not-assume-us-still-aspires-to-be-world-leader-merkel-warns<\/a>.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Luiza Peruffo, Andr\u00e9s Ferrari e Andr\u00e9 Moreira Cunha, professores do Departamento de Economia e Rela\u00e7\u00f5es Internacionais da UFRGS<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"fifu_image_url":"","fifu_image_alt":"","footnotes":"","_links_to":"","_links_to_target":""},"categories":[438],"tags":[445],"class_list":["post-18664","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-analise","tag-artigo"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/fce\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/18664","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/fce\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/fce\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/fce\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/fce\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=18664"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/fce\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/18664\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/fce\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=18664"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/fce\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=18664"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/fce\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=18664"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}