{"id":20905,"date":"2021-01-28T13:41:59","date_gmt":"2021-01-28T16:41:59","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ufrgs.br\/fce\/?p=20905"},"modified":"2021-01-28T13:41:59","modified_gmt":"2021-01-28T16:41:59","slug":"cuidado-morfina","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufrgs.br\/fce\/cuidado-morfina\/","title":{"rendered":"Cuidado: morfina"},"content":{"rendered":"<p><em>Por Marco Ant\u00f4nio dos Santos Martins, professor do Departamento de Ci\u00eancias Cont\u00e1beis e Atuariais da Faculdade de Ci\u00eancias Econ\u00f4micas da UFRGS<\/em><\/p>\n<p>Em tempos de guerra, as dificuldades s\u00e3o muitas. Uma delas \u00e9 prover tratamento m\u00e9dico eficaz aos soldados feridos ou v\u00edtimas das doen\u00e7as disseminadas em campo de batalha, em condi\u00e7\u00f5es prec\u00e1rias, com poucos recursos materiais e humanos. Historicamente, os pa\u00edses envolvidos em conflitos investem pesadamente no desenvolvimento de novos tratamentos e na produ\u00e7\u00e3o maci\u00e7a de medicamentos, como as transfus\u00f5es de sangue e o uso da penicilina, da quinina, da vacina contra o tifo e da morfina, que tiveram grande aplica\u00e7\u00e3o durante a Segunda Guerra Mundial.<\/p>\n<p>A\u00a0morfina\u00a0\u00e9 um f\u00e1rmaco-narc\u00f3tico de alto poder analg\u00e9sico usado para aliviar\u00a0dores\u00a0severas. Pertencente ao grupo dos opioides, foi isolado pela primeira vez em 1804 por\u00a0Friedrich Sert\u00fcrner, que come\u00e7ou a distribuir a droga em\u00a01817. A morfina passou a ser comercializada em 1827 pela\u00a0Merck, que \u00e0 \u00e9poca era uma pequena empresa qu\u00edmica. O nome da subst\u00e2ncia tem origem no\u00a0deus grego\u00a0dos sonhos (Morfeu). Depois do invento da agulha hipod\u00e9rmica, as inje\u00e7\u00f5es de morfina passaram a ser indispens\u00e1veis para a realiza\u00e7\u00e3o de interven\u00e7\u00f5es cir\u00fargicas. No entanto, o uso excessivo e prolongado do medicamento gera forte depend\u00eancia qu\u00edmica, com consequ\u00eancias nefastas e fatais.<\/p>\n<p>A sociedade brasileira travou durante d\u00e9cadas uma ingl\u00f3ria guerra com a infla\u00e7\u00e3o. \u00a0<em>\u201cA experi\u00eancia brasileira com \u2018infla\u00e7\u00e3o alta\u2019, de acordo com a defini\u00e7\u00e3o de Stanley Fischer (mais de 100% anuais), \u00e9 a segunda mais duradoura dentre todos os casos documentados no p\u00f3s-guerra: mais de quinze anos, ou exatos 182 meses contados a partir de agosto de 1981. Durante as quatros d\u00e9cadas anteriores, era costume designar a infla\u00e7\u00e3o brasileira, de forma respeitosa, de \u2018cr\u00f4nica\u2019<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\"><strong>[1]<\/strong><\/a>\u201d.<\/em><\/p>\n<p>O fracasso dos sucessivos governos, ministros e planos econ\u00f4micos em vencer a guerra contra a alta generalizada dos pre\u00e7os tornou a infla\u00e7\u00e3o um \u00edcone do cotidiano nacional, com direito a mascote: o drag\u00e3o da infla\u00e7\u00e3o. O pa\u00eds se tornou uma respeitad\u00edssima refer\u00eancia internacional na constru\u00e7\u00e3o de mecanismos de indexa\u00e7\u00e3o e corre\u00e7\u00e3o monet\u00e1ria capazes de permitir que a economia funcionasse com taxas de infla\u00e7\u00e3o elevadas, acreditando que a exist\u00eancia de um mecanismo que eliminasse os riscos da perda do poder de compra da moeda estimularia os agentes econ\u00f4micos a alongar os prazos contratuais.<\/p>\n<p>Os mecanismos de indexa\u00e7\u00e3o come\u00e7aram a ganhar amplitude a partir de 1964, popularizando o termo \u201ccorre\u00e7\u00e3o monet\u00e1ria\u201d.\u00a0 Como uma das primeiras medidas nessa dire\u00e7\u00e3o, foi promulgada, em 17 de julho de 1964, a Lei n\u00ba 4.357, que estabeleceu os princ\u00edpios b\u00e1sicos da corre\u00e7\u00e3o dos d\u00e9bitos fiscais e criou a Obriga\u00e7\u00e3o Reajust\u00e1vel do Tesouro Nacional (ORTN). Mais tarde, a ORTN foi substitu\u00edda por uma sucess\u00e3o de unidades de contas indexadas: Obriga\u00e7\u00e3o do Tesouro Nacional (OTN), OTN fiscal, B\u00f4nus do Tesouro Nacional, Unidade Fiscal de Refer\u00eancia (Ufir), Unidade de Refer\u00eancia de Pre\u00e7os (URP) e Unidade Real de Valor (URV), introduzida em 1\u00ba de mar\u00e7o de 1994 e que se constituiu no indexador do Plano Real.<\/p>\n<p>A indexa\u00e7\u00e3o generalizada dos instrumentos contratuais utilizados na economia brasileira permitiu a longa conviv\u00eancia com a infla\u00e7\u00e3o e acabou por se constituir em um instrumento que alimentava o processo inflacion\u00e1rio, exigindo mecanismos de indexa\u00e7\u00e3o cada vez mais sofisticados e em prazos cada vez menores, a ponto de instalarmos a corre\u00e7\u00e3o di\u00e1ria da quase totalidade dos contratos, com uma extrema depend\u00eancia dos indexadores, numa esp\u00e9cie de &#8220;morfina inflacion\u00e1ria&#8221;.<\/p>\n<p>Com o Plano Real perto de completar 27 anos, as institui\u00e7\u00f5es brasileiras constru\u00edram mecanismos eficientes para controlar a infla\u00e7\u00e3o, com a sociedade demonstrando certa intoler\u00e2ncia com a alta de pre\u00e7os. No entanto, h\u00e1 presen\u00e7a de in\u00fameros instrumentos contratuais com cl\u00e1usula de corre\u00e7\u00e3o monet\u00e1ria, incluindo os t\u00edtulos da d\u00edvida p\u00fablica (NTN-Bs), indicando que a confian\u00e7a na moeda aumentou, mas n\u00e3o a ponto de os investidores abandonarem os mecanismos de prote\u00e7\u00e3o contra a infla\u00e7\u00e3o, principalmente quando se vislumbra um horizonte temporal maior.<\/p>\n<p>Nesta semana, a 236\u00aa reuni\u00e3o do Comit\u00ea de Pol\u00edtica Monet\u00e1ria (Copom) decidiu, por unanimidade, manter a taxa Selic em 2,00% a.a., de maneira que os aplicadores do CDI v\u00e3o permanecer sendo remunerados com taxas de juros reais negativas. O Copom ressaltou em seu comunicado que:<\/p>\n<p><em>\u201c<\/em><em>Em seu cen\u00e1rio b\u00e1sico para a infla\u00e7\u00e3o, permanecem fatores de risco em ambas as dire\u00e7\u00f5es. <\/em><\/p>\n<p><em>Por um lado, o n\u00edvel de ociosidade pode produzir trajet\u00f3ria de infla\u00e7\u00e3o abaixo do esperado, notadamente quando essa ociosidade est\u00e1 concentrada no setor de servi\u00e7os. Esse risco se intensifica caso uma revers\u00e3o mais lenta dos efeitos da pandemia prolongue o ambiente de elevada incerteza e de aumento da poupan\u00e7a precaucional.<\/em><\/p>\n<p><em>Por outro lado, um prolongamento das pol\u00edticas fiscais de resposta \u00e0 pandemia que piore a trajet\u00f3ria fiscal do pa\u00eds, ou frustra\u00e7\u00f5es em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 continuidade das reformas, podem elevar os pr\u00eamios de risco. O risco fiscal elevado segue criando uma assimetria altista no balan\u00e7o de riscos, ou seja, com trajet\u00f3rias para a infla\u00e7\u00e3o acima do projetado no horizonte relevante para a pol\u00edtica monet\u00e1ria.<\/em><\/p>\n<p><em>O Copom avalia que perseverar no processo de reformas e ajustes necess\u00e1rios na economia brasileira \u00e9 essencial para permitir a recupera\u00e7\u00e3o sustent\u00e1vel da economia. O Comit\u00ea ressalta, ainda, que questionamentos sobre a continuidade das reformas e altera\u00e7\u00f5es de car\u00e1ter permanente no processo de ajuste das contas p\u00fablicas podem elevar a taxa de juros estrutural da economia.\u201d<\/em><\/p>\n<p>Dentro dessa realidade, os investidores est\u00e3o atentos aos pr\u00f3ximos movimentos de pol\u00edtica monet\u00e1ria e parecem n\u00e3o hesitar em lan\u00e7ar m\u00e3o de mecanismos de prote\u00e7\u00e3o, mesmo sabendo que a &#8220;morfina&#8221; para as dores inflacion\u00e1rias vicia e pode gerar nefastos efeitos colaterais no m\u00e9dio prazo, sendo t\u00e3o perigosos como aquele f\u00e1rmaco-narc\u00f3tico utilizado indiscriminadamente nas guerras.<\/p>\n<p>Assim, cabe aos formuladores de pol\u00edtica econ\u00f4mica sinalizar ao mercado suas inten\u00e7\u00f5es de atuar com efic\u00e1cia sobre os choques ex\u00f3genos nos pre\u00e7os, bem como reafirmar seu compromisso sobre o equil\u00edbrio fiscal.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a> FRANCO, Gustavo H. B. A moeda e a Lei: uma hist\u00f3ria monet\u00e1ria brasileira 1933 \u2013 2013. 1\u00aa. Edi\u00e7\u00e3o. Rio de Janeiro: Zahar, 2017.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Marco Ant\u00f4nio dos Santos Martins, professor do Departamento de Ci\u00eancias Cont\u00e1beis e Atuariais da Faculdade de Ci\u00eancias Econ\u00f4micas da UFRGS<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"fifu_image_url":"","fifu_image_alt":"","footnotes":"","_links_to":"","_links_to_target":""},"categories":[438],"tags":[445],"class_list":["post-20905","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-analise","tag-artigo"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/fce\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/20905","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/fce\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/fce\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/fce\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/fce\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=20905"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/fce\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/20905\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/fce\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=20905"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/fce\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=20905"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/fce\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=20905"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}