{"id":21748,"date":"2021-04-07T15:45:48","date_gmt":"2021-04-07T18:45:48","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ufrgs.br\/fce\/?p=21748"},"modified":"2022-12-01T16:31:03","modified_gmt":"2022-12-01T19:31:03","slug":"os-militares-no-desgoverno-bolsonaro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufrgs.br\/fce\/os-militares-no-desgoverno-bolsonaro\/","title":{"rendered":"Os militares no desgoverno Bolsonaro"},"content":{"rendered":"<div class=\"entry-summary\">\n<p><em>Por Luiz Augusto Estrella Faria, professor do Departamento de Economia e Rela\u00e7\u00f5es Internacionais da UFRGS<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<\/div>\n<p>Quando Jair Bolsonaro estava por ser exclu\u00eddo do Ex\u00e9rcito em raz\u00e3o de ter conspirado com outro capit\u00e3o para perpetrar atentados terroristas, e depois de ter praticado no inqu\u00e9rito militar a que respondia aquilo que viria ser uma de suas caracter\u00edsticas, a mentira, o Centro de Comunica\u00e7\u00e3o Social daquela for\u00e7a publicou, em um boletim distribu\u00eddo aos membros da organiza\u00e7\u00e3o, as seguintes palavras a respeito dos dois inculpados: &#8220;Tornaram-se, assim, estranhos ao meio em que vivem e sujeitos tanto \u00e0 rejei\u00e7\u00e3o de seus pares como a serem considerados indignos para a carreira das armas. Na guerra, j\u00e1 plena de adversidades, n\u00e3o se pode admitir a desonra e a deslealdade que est\u00e3o do lado inimigo, jamais do lado amigo.&#8221;<\/p>\n<p>\u00c9 da pr\u00f3pria natureza da guerra, e uma virtude desejada do bom comandante, a capacidade de enganar, atrai\u00e7oar, iludir, dissimular, dissuadir, blefar e amea\u00e7ar o inimigo. Napole\u00e3o, C\u00e9sar e Alexandre foram mestres nessas habilidades, que s\u00e3o pedagogicamente incutidas na forma\u00e7\u00e3o de todo o guerreiro. Por outro lado, o companheirismo e a lealdade, ao lado da disciplina, s\u00e3o fundamentos de toda organiza\u00e7\u00e3o militar onde a confian\u00e7a nos camaradas de armas \u00e9 a garantia da pr\u00f3pria vida. Essa dial\u00e9tica lealdade e trai\u00e7\u00e3o \u00e9 inerente a maneira de ser de quem tenha forma\u00e7\u00e3o nos assuntos da guerra.<\/p>\n<p>Ter isso em mente permite entender o que se passou entre os comandantes do Ex\u00e9rcito Brasileiro durante os governos de Lula e Dilma e que os levou \u00e0 trai\u00e7\u00e3o, ao se aliarem a uma conspira\u00e7\u00e3o para sabotar e, ao final, depor a presidenta. A interpreta\u00e7\u00e3o mais apressada e, portanto, superficial, disseminada inclusive por militares que conspiraram, aponta uma \u201cinconformidade\u201d com a Comiss\u00e3o da Verdade como raz\u00e3o do mal-estar com o governo de ent\u00e3o. Faz parte da t\u00e1tica jogar pechas desairosas sobre o inimigo, no caso a m\u00e1cula do \u201crevanchismo\u201d. Mas isso foi uma justificativa, n\u00e3o a raz\u00e3o da sedi\u00e7\u00e3o militar. Para saber por que esse grupo de generais liderado por Vilas Boas agiu dessa maneira, \u00e9 preciso conhecer um pouco mais da sua vis\u00e3o estrat\u00e9gica em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 miss\u00e3o que t\u00eam: defender a Na\u00e7\u00e3o de amea\u00e7as. Infelizmente, referir-se \u00e0 Estrat\u00e9gia Nacional de Defesa aprovada pelo Congresso Nacional em 2013 e que deveria ser sua diretriz de opera\u00e7\u00e3o de nada serve, porque suas motiva\u00e7\u00f5es foram bem outras.<\/p>\n<p>\u00c9 preciso, ent\u00e3o, olhar em outra dire\u00e7\u00e3o para sabermos quais s\u00e3o as ideias desses generais, ideias essas que presidem sua a\u00e7\u00e3o supostamente em defesa da p\u00e1tria brasileira. Os conspiradores contra os governos do PT v\u00eam todos de uma gera\u00e7\u00e3o que teve sua forma\u00e7\u00e3o b\u00e1sica em institui\u00e7\u00f5es de ensino militar na d\u00e9cada de 1970 at\u00e9 come\u00e7o dos anos 1980. Nessa \u00e9poca, o que se aprendia na AMAN e nas demais institui\u00e7\u00f5es de ensino militar tinha a dupla marca da Guerra Fria e da ditadura. Na percep\u00e7\u00e3o de ent\u00e3o, a defesa do Brasil deveria se organizar no enfrentamento de duas amea\u00e7as, a cobi\u00e7a pela Amaz\u00f4nia e, principalmente, o comunismo. A forma\u00e7\u00e3o dada aos militares do Ex\u00e9rcito, embora n\u00e3o deixasse de instru\u00ed-los na doutrina da guerra convencional, estava voltada para o combate na selva e para a guerra revolucion\u00e1ria.<\/p>\n<p>O aprendizado dessa doutrina est\u00e1 presente no reacionarismo preponderante entre esses oficiais. Defender a Amaz\u00f4nia significa, para eles, ocup\u00e1-la fisicamente atrav\u00e9s, n\u00e3o apenas pela presen\u00e7a de bases das for\u00e7as armadas mas, principalmente, no estabelecimento em seu territ\u00f3rio de atividades econ\u00f4micas que fixem popula\u00e7\u00f5es n\u00e3o ind\u00edgenas na regi\u00e3o. Em sua vis\u00e3o canhestra, os brasileiros origin\u00e1rios s\u00e3o considerados \u201cn\u00e3o integrados\u201d ao que imaginam ser a Na\u00e7\u00e3o e, portanto, coopt\u00e1veis por interesses estrangeiros. Da\u00ed sua toler\u00e2ncia com o desmatamento, o garimpo e outras atividades destruidoras do meio ambiente, para n\u00e3o falar de iniciativas megaloman\u00edacas como foi a Transamaz\u00f4nica. E \u00e9 por essa vis\u00e3o tosca que se op\u00f5e at\u00e9 hoje \u00e0 demarca\u00e7\u00e3o de terras ind\u00edgenas como prev\u00ea a Constitui\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O outro inimigo, o comunismo, \u00e9 raz\u00e3o de uma dubiedade da pr\u00f3pria auto imagem dos militares, que n\u00e3o sabem bem se devem se ater \u00e0 defesa externa ou se s\u00e3o pol\u00edcia. Uma vez que imaginam que o inimigo estaria infiltrado entre os brasileiros, sentem-se chamados a agir na seguran\u00e7a interna. A redemocratiza\u00e7\u00e3o que legalizou a atividade pol\u00edtica dos partidos de esquerda e o desaparecimento do comunismo da cena internacional n\u00e3o levaram a uma reconsidera\u00e7\u00e3o dessa esquizofrenia seguran\u00e7a-defesa. Ao contr\u00e1rio, o reacionarismo t\u00e3o firmemente inculcado na forma\u00e7\u00e3o desses comandantes os levou a abra\u00e7arem a ideologia delirante da extrema direita norte-americana e suas fantasias sobre o \u201cmarxismo cultural\u201d e tamb\u00e9m \u00e0 necessidade de travarem contra este uma guerra cultural. Vem da\u00ed sua prioridade dada ao desenvolvimento de capacidades de guerra h\u00edbrida para as for\u00e7as armadas e o alinhamento com as op\u00e7\u00f5es estrat\u00e9gicas dos EUA, pa\u00eds onde um grande contingente de oficiais brasileiros fez e, segue fazendo, est\u00e1gios e atividades de especializa\u00e7\u00e3o e forma\u00e7\u00e3o complementar.<\/p>\n<p>Ali\u00e1s, a influ\u00eancia norte-americana s\u00f3 fez aumentar a esquizofrenia defesa-seguran\u00e7a interna. Para os EUA, o papel das for\u00e7as armadas latino-americanas \u00e9 exclusivamente o de pol\u00edcia, j\u00e1 que a defesa do que eles chamam \u201chemisf\u00e9rio ocidental\u201d \u00e9 sua atribui\u00e7\u00e3o exclusiva. Por essa raz\u00e3o, sua press\u00e3o para que nossos militares se transformem em for\u00e7as de seguran\u00e7a melhor armadas e equipadas do que as pol\u00edcias convencionais, como j\u00e1 conseguiram fazer na Col\u00f4mbia e no M\u00e9xico. E, tamb\u00e9m por essa mesma raz\u00e3o, a cria\u00e7\u00e3o do Conselho de Defesa da Unasul e sua miss\u00e3o de criar doutrina e estrat\u00e9gia pr\u00f3prias e independente dos EUA era absolutamente inaceit\u00e1vel. Uma das primeiras a\u00e7\u00f5es de Bolsonaro foi acabar com a Unasul.<\/p>\n<p>A ideologia de extrema direita abra\u00e7ada pela maioria dos comandantes e sua fantasia de combater o marxismo cultural orientou sua participa\u00e7\u00e3o na conspira\u00e7\u00e3o para derrubar o PT do governo. Jair Bolsonaro apareceu para eles com uma esp\u00e9cie de cavalo de Tr\u00f3ia capaz de conduzi-los ao poder pela via eleitoral. Seus crimes pregressos foram perdoados e essa figura sinistra, misto de buf\u00e3o e monstro, passou a ter franqueada para si as portas dos quart\u00e9is. Da mesma forma, a quadrilha de Curitiba e sua escandalosa campanha para destruir a pol\u00edtica, principalmente as lideran\u00e7as da esquerda, foi apoiada com entusiasmo por representar mais um movimento dessa guerra assim\u00e9trica.<\/p>\n<p>Algu\u00e9m poderia perguntar se n\u00e3o causava constrangimento a esses generais o fato de estarem traindo sua comandante-em-chefe, a presidenta Dilma. A resposta \u00e9 n\u00e3o, porque para esses senhores Dilma era, na verdade, o inimigo para quem vale \u201ca desonra e a deslealdade\u201d. Vilas Boas n\u00e3o teve nenhum pudor em revelar sua trai\u00e7\u00e3o, pois, na sua convic\u00e7\u00e3o, estava legitimamente buscando a derrota do inimigo, a esquerda e o PT.<\/p>\n<p>Este \u00e9 o ponto central da quest\u00e3o militar hoje. Esses profissionais v\u00eam sendo treinados para considerar uma grande parcela da popula\u00e7\u00e3o brasileira, as pessoas que compartilham as ideias da esquerda, como inimigos da Na\u00e7\u00e3o. A narrativa que justifica essa vis\u00e3o esdr\u00faxula (quem \u00e9 de esquerda n\u00e3o \u00e9 brasileiro) nasceu da falsifica\u00e7\u00e3o da hist\u00f3ria nacional em dois momentos importantes. Primeiro, o levante militar de 1935, uma rebeli\u00e3o fracassada dirigida por militares oriundos do tenentismo e apoiados pelos comunistas contra o governo autorit\u00e1rio de Vargas. Seus prop\u00f3sitos eram nacionalistas e democr\u00e1ticos, como declarado por um de seus l\u00edderes, o capit\u00e3o Agildo Barata Ribeiro. Em lugar do epis\u00f3dio hist\u00f3rico, \u00e9 difundida at\u00e9 hoje no meio castrense a vers\u00e3o de uma trai\u00e7\u00e3o fratricida instigada por estrangeiros.<\/p>\n<p>O segundo mito respons\u00e1vel pela ideologia desses militares foi a proposta das Reformas de Base de Jo\u00e3o Goulart. Seu projeto de solicitar ao Congresso mudan\u00e7as nas leis que regulavam a propriedade da terra, o uso do solo urbano, o ensino e as universidades, as normas tribut\u00e1rias e outras iniciativas voltadas \u00e0 maior democratiza\u00e7\u00e3o da vida nacional e \u00e0 redistribui\u00e7\u00e3o de renda e riqueza, foi taxado de comunista e antinacional, justificando o golpe de 1964 e a ditadura por este inaugurada, longeva de 21 anos. A mesma ditadura acabou por extinguir toda a possibilidade de debate no interior das for\u00e7as armadas ao excluir de suas fileiras mais de 6 mil militares legalistas que se opuseram ao golpe, muitos deles com ideias de esquerda. Restou unicamente a vis\u00e3o unidimensional da direita, no m\u00e1ximo com a nuance de sua linha-dura. \u00c9 interessante notar que a Constitui\u00e7\u00e3o de 1988 incorporou em seus princ\u00edpios e nos objetivos da Na\u00e7\u00e3o brasileira o conte\u00fado quase completo das reformas de Jango.<\/p>\n<p>Al\u00e9m desses epis\u00f3dios hist\u00f3ricos, uma das mais aberrantes lendas da extrema-direita brasileira foi a que taxou os governos do PT como comunistas. Numa vers\u00e3o extremada de sua ideologia delirante, o projeto pol\u00edtico da esquerda no poder seria a antessala de um plano que iria muito al\u00e9m das t\u00edmidas reformas efetivadas ou propostas com intuito de melhorar as condi\u00e7\u00f5es de vida dos mais pobres, impulsionar o crescimento da economia brasileira e ocupar um espa\u00e7o mais relevante no concerto internacional. Na impress\u00e3o fantasiosa desses militares, incapazes de perceber a arraigada posi\u00e7\u00e3o nacionalista da esquerda, haveria, isto sim, o prop\u00f3sito dissimulado de subordinar o Brasil \u00e0 pequena Cuba ou \u00e0 China e R\u00fassia.<\/p>\n<p>Armados por esse tipo de ide\u00e1rio de escassa racionalidade e nenhuma correspond\u00eancia com o mundo real, nossos briosos comandantes montaram no cavalo encilhado do capit\u00e3o insubordinado e mentiroso e assumiram o governo do pa\u00eds para&#8230; Para que mesmo?<\/p>\n<p>Essa \u00e9 a trag\u00e9dia do Brasil. Eles n\u00e3o t\u00eam a menor ideia do que \u00e9 ou deveria ser um caminho para o desenvolvimento nacional. A estreiteza de sua forma\u00e7\u00e3o intelectual, associada ao deslumbramento com os EUA, n\u00e3o \u00e9 capaz de produzir nenhuma ideia minimamente coerente capaz de definir algum des\u00edgnio para o futuro do nosso pa\u00eds. Por isso n\u00e3o apenas concordam com as diretrizes de Guedes, cujo horizonte \u00e9 o mercado financeiro: facilitar gordos neg\u00f3cios aos bancos e fundos de investimento. N\u00e3o conseguem ver na destrui\u00e7\u00e3o da Petrobras, da engenharia nacional ou do nosso programa nuclear perpetrados pela Lava-jato e pelo governo o aniquilamento de um projeto de desenvolvimento nacional. E tamb\u00e9m por essa miopia pol\u00edtica se acomodam \u00e0 condi\u00e7\u00e3o de destruidores do pouco de ordem democr\u00e1tica que vinha sendo implantado no pa\u00eds. Acabaram se tornando meros servi\u00e7ais dos interesses da oligarquia financeira daqui e de alhures, que lucra com privatiza\u00e7\u00f5es, com concess\u00f5es de recursos naturais e com o assalto ao or\u00e7amento p\u00fablico. O governo a que servem cada vez gasta menos com o bem estar do povo e reserva mais dinheiro do or\u00e7amento para pagar juros aos rentistas. Quando o Brasil voltar \u00e0 democracia, nossos militares precisar\u00e3o ser severamente reeducados.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Luiz Augusto Estrella Faria, professor do Departamento de Economia e Rela\u00e7\u00f5es Internacionais da UFRGS<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"fifu_image_url":"","fifu_image_alt":"","footnotes":"","_links_to":"","_links_to_target":""},"categories":[438],"tags":[445],"class_list":["post-21748","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-analise","tag-artigo"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/fce\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/21748","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/fce\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/fce\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/fce\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/fce\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=21748"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/fce\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/21748\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/fce\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=21748"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/fce\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=21748"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/fce\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=21748"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}