{"id":23618,"date":"2021-08-05T13:31:13","date_gmt":"2021-08-05T16:31:13","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ufrgs.br\/fce\/?p=23618"},"modified":"2021-08-05T14:54:00","modified_gmt":"2021-08-05T17:54:00","slug":"as-nuvens-no-horizonte-da-economia-global","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufrgs.br\/fce\/as-nuvens-no-horizonte-da-economia-global\/","title":{"rendered":"As nuvens no horizonte da economia global"},"content":{"rendered":"<p><em>Por Andr\u00e9 Moreira Cunha e Andr\u00e9s Ferrari, professores do Departamento de Economia e Rela\u00e7\u00f5es Internacionais da UFRGS<\/em><\/p>\n<p><strong>Os Rumos da Economia Global<\/strong><\/p>\n<p>No final de julho, o Fundo Monet\u00e1rio Internacional (FMI) atualizou sua an\u00e1lise sobre o desempenho recente e as perspectivas da economia global<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\">[1]<\/a>. Para o Fundo, a recupera\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica n\u00e3o est\u00e1 garantida nem mesmo para os pa\u00edses que avan\u00e7aram no processo de imuniza\u00e7\u00e3o de suas popula\u00e7\u00f5es mediante a vacina\u00e7\u00e3o. Foi mantida a proje\u00e7\u00e3o de abril para o crescimento do produto interno bruto (PIB) global em 2021: +6%. Trata-se, pelo menos at\u00e9 aqui, de uma \u201crecupera\u00e7\u00e3o em V\u201d, dada a queda de -3,2% em 2020. Os efeitos econ\u00f4micos da pandemia s\u00f3 n\u00e3o foram piores em fun\u00e7\u00e3o do apoio fiscal e monet\u00e1rio maci\u00e7o, especialmente nos pa\u00edses centrais. Nesses, os est\u00edmulos totais foram, em m\u00e9dia, equivalentes a 25% do PIB, bem maiores do que os verificados nos pa\u00edses emergentes (7% do PIB) e de baixa renda (2% do PIB)<a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\">[2]<\/a>.<\/p>\n<p>A despeito de manter a proje\u00e7\u00e3o geral para o PIB global, o Fundo reduziu em -0,4 p.p. a estimativa de expans\u00e3o dos pa\u00edses emergentes e em desenvolvimento (PEEDs) e ampliou em +0,5 p.p. a varia\u00e7\u00e3o esperada na renda dos pa\u00edses avan\u00e7ados. Para algumas economias, as revis\u00f5es baixistas foram mais intensas: \u00cdndia (-3,0 p.p.), conjunto da \u00c1sia em desenvolvimento (-1,1 p.p.), pa\u00edses da ASEAN (-0,6 p.p), Jap\u00e3o (-0,5 p.p.), China (-0,3 p.p.) e Espanha (-0,2 p.p.). J\u00e1 as altas mais relevantes foram: EUA (+0,5 p. p.), \u00e1rea do Euro (+0,6 p.p.), Am\u00e9rica Latina (+1,2 p.p.), Canad\u00e1 (+1,3 p.p.) e Reino Unido (+1,7 p.p.).<\/p>\n<p>As diferentes perspectivas de curto prazo refletem as diverg\u00eancias nos processos locais de enfretamento da crise sanit\u00e1ria e de seus efeitos econ\u00f4micos. Os economistas do FMI estimam que as popula\u00e7\u00f5es dos pa\u00edses avan\u00e7ados ter\u00e3o uma perda m\u00e9dia anual de 2,8% na renda por habitante entre 2020 e 2022, ao se comparar o desempenho corrente com o pr\u00e9-pandemia. No caso dos PEEDs (com exce\u00e7\u00e3o da China) essa perda seria ainda maior: 6,3%. O pior resultado desse segundo conjunto de pa\u00edses refletiria diferen\u00e7as em termos de ritmo de imuniza\u00e7\u00e3o e de capacidade de implementa\u00e7\u00e3o de medidas fiscais contrac\u00edclicas e discricion\u00e1rias.<\/p>\n<p>Nos pa\u00edses de alta renda, cerca de 40% da popula\u00e7\u00e3o estava imunizada no final de julho; nos emergentes, 11%; nos de baixa renda, 1,2%; e para o conjunto da popula\u00e7\u00e3o mundial, somente 13,2%. No plano fiscal, as economias avan\u00e7adas t\u00eam planos de expans\u00e3o de gastos da ordem de US$ 4,6 trilh\u00f5es em 2021 e nos anos subsequentes. J\u00e1 importantes economias emergentes limitaram seus est\u00edmulos fiscais ao ano de 2020 e come\u00e7aram um movimento altista em suas taxas de juros. Os estragos dessa combina\u00e7\u00e3o s\u00f3 n\u00e3o s\u00e3o maiores, pois a alta nos pre\u00e7os das <em>commodities<\/em> criou uma janela de oportunidades para os pa\u00edses produtores e exportadores de recursos naturais.<\/p>\n<p>Os avan\u00e7os assim\u00e9tricos e inst\u00e1veis da vacina\u00e7\u00e3o em n\u00edvel global podem favorecer o surgimento e a dissemina\u00e7\u00e3o de variantes mais agressivas do coronav\u00edrus. A an\u00e1lise do Fundo sugere que para consolidar a recupera\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica seria vital atingir um n\u00edvel de imuniza\u00e7\u00e3o de 40% da popula\u00e7\u00e3o mundial at\u00e9 o final de 2021, e de mais de 60% at\u00e9 metade de 2022. Para tanto, estima-se a necessidade de se investir US$ 50 bilh\u00f5es em tratamento e preven\u00e7\u00e3o via vacina\u00e7\u00e3o. Ademais, nos pr\u00f3ximos meses, pelo menos um bilh\u00e3o de doses de vacinas teriam de ser compartilhadas pelos pa\u00edses que hoje possuem excedentes de produ\u00e7\u00e3o e estoque. A prioridade deveria ser dada ao avan\u00e7o na prote\u00e7\u00e3o dos pa\u00edses de renda baixa e m\u00e9dia. Aquele valor representa uma pequena fra\u00e7\u00e3o (1,5%) da perda cumulativa do produto global estimada at\u00e9 2025: US$ 4,5 trilh\u00f5es o que equivale a tr\u00eas economias brasileiras, tomando-se como refer\u00eancia o PIB em d\u00f3lares correntes de 2020.<\/p>\n<p>A discrep\u00e2ncia entre os benef\u00edcios de reduzir tais perdas e os custos associados \u00e0 imuniza\u00e7\u00e3o mais intensa em n\u00edvel internacional deveria estimular um processo mais ativo de coopera\u00e7\u00e3o. \u00d3rg\u00e3os multilaterais como o FMI, o Banco Mundial, a Organiza\u00e7\u00e3o Mundial da Sa\u00fade e a Organiza\u00e7\u00e3o Mundial do Com\u00e9rcio est\u00e3o empreendendo esfor\u00e7os conjuntos para promover a agenda multilateral de enfrentamento dos problemas sanit\u00e1rios e socioecon\u00f4micos derivados da pandemia<a href=\"#_ftn3\" name=\"_ftnref3\">[3]<\/a>. Preven\u00e7\u00e3o, vacina\u00e7\u00e3o e apoio financeiro aos segmentos sociais mais vulner\u00e1veis s\u00e3o pontos centrais das iniciativas oficiais, acad\u00eamicas e de organiza\u00e7\u00f5es n\u00e3o governamentais como a \u201cLancet COVID-19 Commission\u201d<a href=\"#_ftn4\" name=\"_ftnref4\">[4]<\/a>. Ainda assim, os governos nacionais dos principais poderem globais seguem em atrito, ao passo que suas popula\u00e7\u00f5es em muitos casos sequer aderem \u00e0s pol\u00edticas dom\u00e9sticas de imuniza\u00e7\u00e3o. A racionalidade cient\u00edfica, o autointeresse e o apelo \u00e0 solidariedade n\u00e3o parecem mobilizar muitos indiv\u00edduos e seus governantes.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>O Socialismo para os Ricos e o Capitalismo para os Pobres<\/strong><\/p>\n<p>A pandemia da COVID-19 aprofundou os problemas de esgar\u00e7amento do tecido social em muitos pa\u00edses, bem como as desigualdades globais de acesso \u00e0 prote\u00e7\u00e3o social e ao trabalho digno. O recente relat\u00f3rio da OCDE \u2013 \u201cDesigualdade na Riqueza das Fam\u00edlias e sua Inseguran\u00e7a Financeira\u201d<a href=\"#_ftn5\" name=\"_ftnref5\">[5]<\/a> (julho de 2021) \u2013 traz evid\u00eancias nesse sentido para os seus pa\u00edses membros. Suas conclus\u00f5es principais foram: (i) os 10% mais ricos det\u00eam quase a metade do estoque de riqueza, parcela que se ampliou desde 2010; (ii) metade das fam\u00edlias dos pa\u00edses de alta renda possuem um estoque de riqueza l\u00edquida que tende a zero e, portanto, n\u00e3o est\u00e3o em condi\u00e7\u00f5es de garantir sua seguran\u00e7a financeira; (iii) em 2018, os 10% mais pobres nestes pa\u00edses estavam com d\u00edvidas excessivas e em patamares superiores aos observados antes da crise financeira global (2007-2019); e (iv) no contexto da pandemia, metade das fam\u00edlias n\u00e3o tinha recursos para sobreviver sem algum tipo de apoio externo, posto que sua poupan\u00e7a l\u00edquida n\u00e3o garantia mais do que tr\u00eas semanas de cobertura das despesas.<\/p>\n<p>A Organiza\u00e7\u00e3o Internacional do Trabalho possui uma base de dados ampla sobre o acesso \u00e0 prote\u00e7\u00e3o social em v\u00e1rias dimens\u00f5es. Em 2019, dos 7,7 bilh\u00f5es de habitantes do planeta, 47% possu\u00edam acesso a pelo menos um tipo de benef\u00edcio social e 66% estavam vinculados a algum tipo de programa de sa\u00fade. Por decorr\u00eancia, 4 bilh\u00f5es de pessoas n\u00e3o tinham qualquer prote\u00e7\u00e3o social e 2,6 bilh\u00f5es n\u00e3o tinham acesso \u00e0 sa\u00fade. Todavia, a distribui\u00e7\u00e3o desse acesso \u00e9 profundamente desigual. Nos pa\u00edses europeus de alta renda, no Canad\u00e1, Jap\u00e3o e Oceania, a cobertura das pol\u00edticas sociais atinge mais de 80% das popula\u00e7\u00f5es e o acesso \u00e0 sa\u00fade supera 90%. Nos EUA, tais indicadores s\u00e3o um pouco menores e na \u00c1frica vislumbra-se a realidade oposta, com indicadores de 17% e 24%. Os pa\u00edses de renda baixa do Sul e do Sudeste da \u00c1sia e do Oriente M\u00e9dio apresentam indicadores que oscilam entre 10% e 40%. E na Am\u00e9rica Latina, h\u00e1 realidades distintas, com coberturas mais extensas na Argentina, Brasil, Uruguai, Chile e M\u00e9xico, com n\u00edveis pr\u00f3ximos dos estadunidenses; e outros, como Bol\u00edvia e Paraguai, com uma realidade que se aproxima da \u00c1frica ou do Sul da \u00c1sia.<\/p>\n<p>Esse quadro de desigualdade e de fragilidade para a maior parte da humanidade se agravou com a pandemia. O Departamento de Assuntos Econ\u00f4micos e Sociais da ONU (UNDESA) j\u00e1 havia alertado para o fato de que: \u201cUma recupera\u00e7\u00e3o plena da crise pand\u00eamica n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel sem que sejam tratados [os temas] da seguran\u00e7a econ\u00f4mica e da redu\u00e7\u00e3o da desigualdade.\u201d<a href=\"#_ftn6\" name=\"_ftnref6\">[6]<\/a>. Os dados mais recentes sobre os \u201cObjetivos de Desenvolvimento Sustent\u00e1vel 2030\u201d<a href=\"#_ftn7\" name=\"_ftnref7\">[7]<\/a> mostram que, antes da pandemia, 2 bilh\u00f5es de trabalhadores no mundo tinham v\u00ednculos prec\u00e1rios e que n\u00e3o garantiam acesso \u00e0 prote\u00e7\u00e3o social. Isso equivalia a 60% das ocupa\u00e7\u00f5es. Desse contingente, a ONU estima que 1,6 bilh\u00e3o de pessoas foi negativamente afetada pelo isolamento social e perdeu a capacidade pr\u00e9via de gera\u00e7\u00e3o de renda.<\/p>\n<p>Em 2019, 20% dos jovens do mundo n\u00e3o estavam ocupados ou estudando. N\u00e3o \u00e0 toa, as proje\u00e7\u00f5es correntes indicam a amplia\u00e7\u00e3o nos indicadores de desigualdade distributiva em 6% nos pa\u00edses emergentes e em desenvolvimento. A fome e a inseguran\u00e7a alimentar j\u00e1 estavam em alta no mundo desde 2014. Em 2019, 660 milh\u00f5es de pessoas (8,9% da popula\u00e7\u00e3o global) passavam fome. Em m\u00e9dia, no per\u00edodo 2014-2019, o contingente de famintos cresceu em 60 milh\u00f5es por ano. J\u00e1 a inseguran\u00e7a alimentar passou de 22,4% dos habitantes do planeta em 2015, para 25,9% em 2019. Antes da pandemia, 2 bilh\u00f5es de pessoas viviam sem saber se o acesso \u00e0 alimenta\u00e7\u00e3o estava garantido. Com a pandemia, esse quadro piorou dada a queda na renda, a ruptura de cadeias de suprimento e a alta de pre\u00e7os dos alimentos. Pelo menos esse \u00e9 o cen\u00e1rio vislumbrado pelos pesquisadores do FMI, que sugerem que as cicatrizes deixadas pela pandemia poder\u00e3o comprometer a meta de acabar com a fome global at\u00e9 2030<a href=\"#_ftn8\" name=\"_ftnref8\">[8]<\/a>.<\/p>\n<p><strong><em>\u00a0<\/em><\/strong><\/p>\n<p><strong>Um Mundo em Contesta\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p>A realidade adversa descrita anteriormente em muito antecede os desafios postos pela pandemia. Ela \u00e9 tribut\u00e1ria de um processo de longo prazo de ado\u00e7\u00e3o de pol\u00edticas neoliberais, as quais fragilizaram as redes de prote\u00e7\u00e3o social e a seguran\u00e7a do trabalho. Nos \u00faltimos quarenta anos, a m\u00e3o vis\u00edvel dos Estados Nacionais protegeu os ricos da tributa\u00e7\u00e3o e ofereceu padr\u00f5es favor\u00e1veis de regula\u00e7\u00e3o. Como costumava dizer Martin Luther King Jr., mesmo antes da chegada de Thatcher e Reagan ao poder, trata-se de garantir \u201co socialismo para os ricos e o capitalismo para os pobres\u201d<a href=\"#_ftn9\" name=\"_ftnref9\">[9]<\/a>. Na mesma perspectiva, Piketty \u2013 \u201cCapital e Ideologia\u201d (2020) \u2013 sugeriu que a legitima\u00e7\u00e3o deste modelo societal passa pela dissemina\u00e7\u00e3o da vis\u00e3o de que o sucesso e o fracasso s\u00e3o atributos intr\u00ednsecos dos indiv\u00edduos.<\/p>\n<p>A ideologia neoliberal prega a meritocracia e destr\u00f3i os mecanismos sociais de mobilidade ascendente. Incapazes de obter sucesso material ou mesmo de prover a si as condi\u00e7\u00f5es elementares de sobreviv\u00eancia f\u00edsica e ps\u00edquica nas modernas sociedades de mercado, os indiv\u00edduos se tornam presas f\u00e1ceis dos discursos pol\u00edticos simplificadores, preconceituosos e violentos. Nesses marcos, poder\u00e1 ilus\u00f3ria a esperan\u00e7a de que a pandemia daria fim aos governos \u201cpopulistas\u201d e, assim, garantiria a renova\u00e7\u00e3o das burocracias eficientes e das pol\u00edticas democr\u00e1ticas<a href=\"#_ftn10\" name=\"_ftnref10\">[10]<\/a>. O baixo dinamismo econ\u00f4mico e a perda de capacidade estatal em muitos pa\u00edses podem esmagar ainda mais as camadas n\u00e3o propriet\u00e1rias, renovando o convite \u00e0 polariza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica.<\/p>\n<p>A inseguran\u00e7a dos indiv\u00edduos e a instabilidade social s\u00e3o fatores de risco para a economia e a pol\u00edtica internacional. Pelo menos \u00e9 isso o que sugere o Conselho Nacional de Intelig\u00eancia dos Estados Unidos (National Intelligence Council, NIC) em suas an\u00e1lises prospectivas. Em 2017, com o t\u00edtulo \u201cOs Paradoxos do Progresso\u201d<a href=\"#_ftn11\" name=\"_ftnref11\">[11]<\/a>, o NIC j\u00e1 alertava que, na era das redes sociais e com o avan\u00e7o das novas tecnologias derivadas da revolu\u00e7\u00e3o digital e da intelig\u00eancia artificial, seria poss\u00edvel potencializar determinadas agendas pol\u00edticas e identit\u00e1rias, particularmente as iliberais. As frustra\u00e7\u00f5es das popula\u00e7\u00f5es das economias de alta renda j\u00e1 eram marcantes nos anos que se seguiram \u00e0 crise financeira global (2007-2009). A queda na renda, a perda de v\u00ednculos s\u00f3lidos e est\u00e1veis nos mercados de trabalho e a perspectiva de que o futuro seria ainda mais dif\u00edcil abriram as portas da radicaliza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e o questionamento das institui\u00e7\u00f5es tradicionais e das pol\u00edticas de integra\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica, pol\u00edtica e social.<\/p>\n<p>Os desafios de se governar sociedades polarizadas e frustradas seriam cada vez maiores. Para al\u00e9m disso, os problemas securit\u00e1rios, ambientais e econ\u00f4micos tamb\u00e9m se revelariam mais complexos. Em todas essas dimens\u00f5es, a tens\u00e3o entre a necessidade de maior coopera\u00e7\u00e3o internacional e o rep\u00fadio das popula\u00e7\u00f5es locais ao \u201cglobalismo\u201d tenderiam a marcar as d\u00e9cadas subsequentes. Em 2021, o NIC manteve esse cen\u00e1rio b\u00e1sico de conflitos e de limita\u00e7\u00f5es para se governar nos marcos convencionais.<\/p>\n<p>O \u201cTend\u00eancias Globais 2040 \u2013 um mundo mais contestado\u201d<a href=\"#_ftn12\" name=\"_ftnref12\">[12]<\/a> analisa quatro for\u00e7as estruturais a delinear os cen\u00e1rios para as pr\u00f3ximas d\u00e9cadas: a demografia, as mudan\u00e7as clim\u00e1ticas, a evolu\u00e7\u00e3o da economia global e as inova\u00e7\u00f5es tecnol\u00f3gicas. Tais elementos se complementam e se refor\u00e7am no contexto da \u201chiperglobaliza\u00e7\u00e3o\u201d, na medida em que a elevada interconectividade nas mais diversas \u00e1reas permite com que choques se propagem com grande velocidade e profundidade nas distintas sociedades.<\/p>\n<p>As v\u00e1rias crises financeiras do passado recente, a pandemia da COVID-19 e os eventos clim\u00e1ticos extremos s\u00e3o exemplos nesse sentido. Da mesma forma, as novas tecnologias (rob\u00f3tica, intelig\u00eancia artificial, gen\u00e9tica, etc.) est\u00e3o revolucionando os padr\u00f5es de produ\u00e7\u00e3o, de consumo e de dissemina\u00e7\u00e3o de informa\u00e7\u00f5es em ritmo e profundidade que dificultam a adapta\u00e7\u00e3o de indiv\u00edduos e institui\u00e7\u00f5es. A inseguran\u00e7a no plano individual e as incertezas coletivas tendem a se exacerbar. Por isso mesmo, afirma-se que:<\/p>\n<p>\u201cUma consequ\u00eancia fundamental de maiores desequil\u00edbrios \u00e9 mais contesta\u00e7\u00e3o&#8230; Isso abrange tens\u00f5es crescentes, divis\u00e3o e competi\u00e7\u00e3o nas sociedades, estados e em n\u00edvel internacional. Muitas sociedades est\u00e3o cada vez mais polarizadas entre distintas afilia\u00e7\u00f5es identit\u00e1rias e correm o risco de aprofundar divis\u00f5es. As rela\u00e7\u00f5es entre sociedades e governos estar\u00e3o sob press\u00e3o persistente \u00e0 medida em que os Estados lutam para atender \u00e0s demandas crescentes das popula\u00e7\u00f5es. Como resultado, a pol\u00edtica dentro dos Estados tende a se tornar mais vol\u00e1til e conflitiva, e nenhuma regi\u00e3o, ideologia ou sistema de governan\u00e7a parece imune [\u00e0 contesta\u00e7\u00e3o] ou ter as respostas [a elas]. No n\u00edvel internacional, o ambiente geopol\u00edtico ser\u00e1 de maior disputa &#8211; moldado pelo desafio da China aos Estados Unidos e ao sistema internacional liderado pelo Ocidente\u201d<a href=\"#_ftn13\" name=\"_ftnref13\">[13]<\/a>.<\/p>\n<p>Os cen\u00e1rios do NIC e as proje\u00e7\u00f5es do FMI reafirmam as dificuldades em coordenar as a\u00e7\u00f5es governamentais de conten\u00e7\u00e3o dos efeitos sanit\u00e1rios e econ\u00f4micos da pandemia. A coopera\u00e7\u00e3o internacional seria fundamental, posto que isoladamente os pa\u00edses n\u00e3o conseguem conter eventuais desdobramentos negativos da situa\u00e7\u00e3o corrente. Se essa segue dif\u00edcil, o mesmo se pode dizer sobre os problemas dom\u00e9sticos em pa\u00edses sistemicamente importantes, como os EUA. A meta colocada pela administra\u00e7\u00e3o Biden de vacinar 70% de sua popula\u00e7\u00e3o (com pelo menos uma dose) at\u00e9 4 de julho n\u00e3o foi atingida. Sobram vacinas e falta confian\u00e7a de parte da sociedade na ci\u00eancia, nas institui\u00e7\u00f5es e nos governos. De acordo com as estimativas oficiais, 192 milh\u00f5es de estadunidenses haviam sido contemplados com at\u00e9 uma dose de vacina nos primeiros dias de agosto, o que equivale a pouco menos da metade da popula\u00e7\u00e3o. J\u00e1 as doses de vacinas distribu\u00eddas, nesse mesmo per\u00edodo, atingiram pouco mais de 400 milh\u00f5es. Hoje sobram vacinas, posto que uma parte importante da popula\u00e7\u00e3o se recusa a aderir voluntariamente \u00e0 vacina\u00e7\u00e3o. A m\u00e9dia m\u00f3vel semanal de vacina\u00e7\u00f5es passou de um pico de 3,3 milh\u00f5es de pessoas, no meio de abril, para 662 mil em 2 de agosto<a href=\"#_ftn14\" name=\"_ftnref14\">[14]<\/a>.<\/p>\n<p>As divis\u00f5es pol\u00edticas do pa\u00eds seguem intensas e amea\u00e7am a pr\u00f3pria recupera\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica. Se metade dos adultos estadunidenses est\u00e3o totalmente imunizados, os recortes por faixa et\u00e1ria, etnia, regi\u00e3o, afilia\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, dentre outros, mostram diferen\u00e7as importantes. Assim, por exemplo, a vacina\u00e7\u00e3o em eleitores democratas \u00e9 quase duas vezes maior do que aquela observada dentre os republicanos. Pessoas mais jovens, de minorias \u00e9tnico-raciais e de renda baixa tamb\u00e9m est\u00e3o menos imunizadas<a href=\"#_ftn15\" name=\"_ftnref15\">[15]<\/a>.<\/p>\n<p>As diverg\u00eancias crescentes entre os distintos segmentos das sociedades n\u00e3o \u00e9 um fato isolado do ambiente estadunidense. Ao redor do mundo, especialmente nos pa\u00edses de alta renda e do Hemisf\u00e9rio Norte, onde \u00e9 ver\u00e3o, multiplicam-se as manifesta\u00e7\u00f5es populares contr\u00e1rias \u00e0 obrigatoriedade da vacina\u00e7\u00e3o, aos \u201cpassaportes sanit\u00e1rios\u201d e \u00e0s medidas de isolamento social e\/ou de preven\u00e7\u00e3o, como o uso de m\u00e1scaras<a href=\"#_ftn16\" name=\"_ftnref16\">[16]<\/a>.<\/p>\n<p>Como sugere o NIC, vivemos em um mundo em crescente contesta\u00e7\u00e3o. A pandemia \u00e9 somente um dos desafios coletivos que colocar\u00e3o governos e sociedades \u00e0 prova. As mudan\u00e7as clim\u00e1ticas, as futuras crises financeiras e as novas rupturas sociais derivadas das transforma\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas e tecnol\u00f3gicas em curso tender\u00e3o a aprofundar o sentimento de inseguran\u00e7a das pessoas comuns. O que os estrategistas do NIC n\u00e3o destacam \u00e9 que a menor capacidade em construir solu\u00e7\u00f5es coletivas para os problemas reais do mundo contempor\u00e2neo \u00e9 um claro legado da era neoliberal. Essa se caracterizou por construir pol\u00edticas p\u00fablicas que protegem os interesses dos ricos em detrimento do conjunto das sociedades.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a> World Economic Outlook Update, July 2021 &#8211; https:\/\/www.imf.org\/en\/Publications\/WEO\/Issues\/2021\/07\/27\/world-economic-outlook-update-july-2021<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\">[2]<\/a> Ver: <a href=\"https:\/\/www.imf.org\/en\/Topics\/imf-and-covid19\/Fiscal-Policies-Database-in-Response-to-COVID-19\">https:\/\/www.imf.org\/en\/Topics\/imf-and-covid19\/Fiscal-Policies-Database-in-Response-to-COVID-19<\/a>.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref3\" name=\"_ftn3\">[3]<\/a> Ver: <a href=\"https:\/\/www.imf.org\/en\/Topics\/imf-and-covid19\">https:\/\/www.imf.org\/en\/Topics\/imf-and-covid19<\/a><\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref4\" name=\"_ftn4\">[4]<\/a> Ver: https:\/\/covid19commission.org\/<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref5\" name=\"_ftn5\">[5]<\/a> Ver: <a href=\"https:\/\/www.oecd.org\/wise\/Inequalities-in-Household-Wealth-and-Financial-Insecurity-of-Households-Policy-Brief-July-2021.pdf\">https:\/\/www.oecd.org\/wise\/Inequalities-in-Household-Wealth-and-Financial-Insecurity-of-Households-Policy-Brief-July-2021.pdf<\/a><\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref6\" name=\"_ftn6\">[6]<\/a> Ver: https:\/\/www.un.org\/development\/desa\/dpad\/wp-content\/uploads\/sites\/45\/publication\/PB_95.pdf<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref7\" name=\"_ftn7\">[7]<\/a> Ver: <a href=\"https:\/\/www.un.org\/sustainabledevelopment\/progress-report\/\">https:\/\/www.un.org\/sustainabledevelopment\/progress-report\/<\/a><\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref8\" name=\"_ftn8\">[8]<\/a> Ver: <a href=\"https:\/\/voxeu.org\/article\/food-insecurity-potentially-underrated-collateral-damage-pandemic\">https:\/\/voxeu.org\/article\/food-insecurity-potentially-underrated-collateral-damage-pandemic<\/a>.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref9\" name=\"_ftn9\">[9]<\/a> Ver: <a href=\"https:\/\/cityobservatory.org\/dr-king-socialism-for-the-rich-and-rugged-free-enterprise-capitalism-for-the-poor\/\">https:\/\/cityobservatory.org\/dr-king-socialism-for-the-rich-and-rugged-free-enterprise-capitalism-for-the-poor\/<\/a>. An\u00e1lises mais recentes sobre o tema est\u00e3o em: Zingales, L. \u201cA Capitalism for the People: Recapturing the Lost Genius of American Prosperity\u201d, 2012; Raghuram Rajan, \u201cThe Third Pillar: How Markets and the State Leave the Community Behind\u201d, 2019; Reich, R. \u201cThe System: Who Rigged It, How We Fix It\u201d, 2020.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref10\" name=\"_ftn10\">[10]<\/a> Ver: <a href=\"https:\/\/voxeu.org\/article\/populism-and-covid-19\">https:\/\/voxeu.org\/article\/populism-and-covid-19<\/a>.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref11\" name=\"_ftn11\">[11]<\/a> Ver: <a href=\"https:\/\/www.dni.gov\/index.php\/features\/1685-nic-releases-global-trends-paradox-of-progress\">https:\/\/www.dni.gov\/index.php\/features\/1685-nic-releases-global-trends-paradox-of-progress<\/a>.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref12\" name=\"_ftn12\">[12]<\/a> Ver: <a href=\"https:\/\/www.dni.gov\/index.php\/global-trends-home\">https:\/\/www.dni.gov\/index.php\/global-trends-home<\/a>.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref13\" name=\"_ftn13\">[13]<\/a> Do original: \u201cA key consequence of greater imbalance is greater contestation within communities, states, and the international community. This encompasses rising tensions, division, and competition in societies, states, and at the international level. Many societies are increasingly divided among identity affiliations and at risk of greater fracturing. Relationships between societies and governments will be under persistent strain as states struggle to meet rising demands from populations. As a result, politics within states are likely to grow more volatile and contentious, and no region, ideology, or governance system seems immune or to have the answers. At the international level, the geopolitical environment will be more competitive\u2014shaped by China\u2019s challenge to the United States and Western-led international system.\u201d (A More Contested World, March 2021, p. 3)<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref14\" name=\"_ftn14\">[14]<\/a> Ver: <a href=\"https:\/\/www.washingtonpost.com\/graphics\/2020\/health\/covid-vaccine-states-distribution-doses\/?itid=lk_inline_manual_7\">https:\/\/www.washingtonpost.com\/graphics\/2020\/health\/covid-vaccine-states-distribution-doses\/?itid=lk_inline_manual_7<\/a><\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref15\" name=\"_ftn15\">[15]<\/a> Ver: <a href=\"https:\/\/www.vox.com\/22587443\/covid-19-vaccine-refusal-hesitancy-variant-delta-cases-rate\">https:\/\/www.vox.com\/22587443\/covid-19-vaccine-refusal-hesitancy-variant-delta-cases-rate<\/a>; <a href=\"https:\/\/www.wsj.com\/articles\/divided-we-stand-against-the-newest-covid-19-threat-11627912286\">https:\/\/www.wsj.com\/articles\/divided-we-stand-against-the-newest-covid-19-threat-11627912286<\/a>; <a href=\"https:\/\/www.nytimes.com\/2021\/07\/30\/us\/politics\/vaccines-biden-republicans.html\">https:\/\/www.nytimes.com\/2021\/07\/30\/us\/politics\/vaccines-biden-republicans.html<\/a><\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref16\" name=\"_ftn16\">[16]<\/a> Ver: <a href=\"https:\/\/www.bloomberg.com\/news\/newsletters\/2021-07-27\/covid-thrives-in-a-world-divided-by-vaccines\">https:\/\/www.bloomberg.com\/news\/newsletters\/2021-07-27\/covid-thrives-in-a-world-divided-by-vaccines<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Andr\u00e9 Moreira Cunha e Andr\u00e9s Ferrari, professores do Departamento de Economia e Rela\u00e7\u00f5es Internacionais da UFRGS<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"fifu_image_url":"","fifu_image_alt":"","footnotes":"","_links_to":"","_links_to_target":""},"categories":[438],"tags":[445],"class_list":["post-23618","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-analise","tag-artigo"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/fce\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/23618","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/fce\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/fce\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/fce\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/fce\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=23618"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/fce\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/23618\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/fce\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=23618"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/fce\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=23618"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/fce\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=23618"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}