{"id":24197,"date":"2021-10-05T14:29:30","date_gmt":"2021-10-05T17:29:30","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ufrgs.br\/fce\/?p=24197"},"modified":"2021-10-05T15:01:56","modified_gmt":"2021-10-05T18:01:56","slug":"gestao-sobre-os-fluxos-de-capitais-e-o-caso-da-evergrande","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufrgs.br\/fce\/gestao-sobre-os-fluxos-de-capitais-e-o-caso-da-evergrande\/","title":{"rendered":"Gest\u00e3o sobre os fluxos de capitais e o caso da Evergrande"},"content":{"rendered":"<p><em>Por Mauricio Andrade Weiss, docente do Departamento de Economia e Rela\u00e7\u00f5es Internacionais da UFRGS, e Adriano Vilela Sampaio, professor de Economia na UFF<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Nas \u00faltimas semanas, muito se falou na possibilidade da quebra da gigante chinesa Evergrande se tornar um novo \u201cmomento Lehman\u201d, epis\u00f3dio que marca o in\u00edcio da crise financeira global de 2008.\u00a0 Naquela ocasi\u00e3o, a desregula\u00e7\u00e3o financeira levada a cabo nos anos 1990 permitiu o desenvolvimento, nos EUA, de um enorme mercado de ativos lastreados em hipotecas de alto risco e um conjunto de inova\u00e7\u00f5es financeiras relacionados a eles. A integra\u00e7\u00e3o financeira global, por sua vez, permitiu que esses pap\u00e9is fossem negociados no mundo todo, o que deu car\u00e1ter global a uma crise inicialmente local.<\/p>\n<p>Para compreender os potenciais efeitos da crise da Evergrande no sistema financeiro chin\u00eas e global, deve-se compreender o papel das medidas de gerenciamento de fluxos de capitais (CFMs na sigla em ingl\u00eas) na China.<\/p>\n<p>As CFMs abrangem dois conjuntos de medidas: aquelas que distinguem os fluxos a partir da resid\u00eancia de origem\/destino, ou seja, restri\u00e7\u00f5es ao livre movimento de capitais, chamadas de controles de capitais; e as que n\u00e3o fazem distin\u00e7\u00e3o pela resid\u00eancia e t\u00eam como principal objetivo limitar o risco sist\u00eamico, as chamadas medidas macroprudenciais, que envolvem, entre outros, requerimentos m\u00ednimos de liquidez e limita\u00e7\u00f5es nos tipos e destinos de financiamento<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\">[1]<\/a>.<\/p>\n<p>Dentro do objetivo mais geral de reduzir o risco sist\u00eamico, as medidas macroprudenciais buscam mitigar os efeitos da alta mobilidade dos fluxos, enquanto os controles v\u00e3o \u00e0 raiz do problema, a mobilidade em si. Estudos mostram que atuando em conjunto, tais medidas aumentam o potencial de sucesso<a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\">[2]<\/a>.<\/p>\n<p>Apesar do relaxamento de medidas experimentado nos \u00faltimos anos, a China \u00e9 um dos pa\u00edses que mais adotam CFMs. Pode-se destacar que eram mais estritos sobre a conta financeira, com alguns setores liberalizados para entradas e sa\u00eddas de capital por n\u00e3o residentes, acompanhados por outros de controles bastante r\u00edgidos sobre entradas de capital n\u00e3o residentes, tais como os bancos, seguros e mercado de a\u00e7\u00f5es. Outros controles mais estritos se d\u00e3o sobre o endividamento estrangeiro por residentes, incluindo a denomina\u00e7\u00e3o da moeda e estrutura de vencimento dos ingressos de d\u00edvida; de entradas e sa\u00eddas de residentes; e sobre as taxas de juros dom\u00e9sticas.<\/p>\n<p>A import\u00e2ncia de uma pr\u00e1tica mais abrangente na gest\u00e3o sobre os fluxos de capitais praticadas pela China pode ser observada na compara\u00e7\u00e3o do comportamento da taxa de c\u00e2mbio chinesa com a de outros PEs. O renminbi foi a \u00fanica moeda que n\u00e3o apresentou varia\u00e7\u00e3o significativa na fase mais aguda da crise de 2008 e a que apresentou uma trajet\u00f3ria mais est\u00e1vel no per\u00edodo posterior, inclusive na crise da pandemia.<\/p>\n<p>De acordo com relat\u00f3rios do FMI<a href=\"#_ftn3\" name=\"_ftnref3\">[3]<\/a>, entre 2014 e 2016, a China optou por flexibilizar certas medidas de controle cambiais. Nesse per\u00edodo, o pa\u00eds empenhou grande volume de reservas para tentar conter a deprecia\u00e7\u00e3o de sua moeda, em torno de US$ 1 trilh\u00e3o. Diante disso, optou-se pela retomada de controle de capitais, principalmente restri\u00e7\u00f5es \u00e0s sa\u00eddas. Como resultado dessas medidas e em combina\u00e7\u00e3o com o enfraquecimento do d\u00f3lar, a China conseguiu conter a onda de deprecia\u00e7\u00e3o de sua moeda.<\/p>\n<p>Embora muitos aspectos no que tange \u00e0s CFMs tenham se mantido, n\u00e3o se nega que tenha havido desregula\u00e7\u00f5es no sistema financeiro chin\u00eas nas \u00faltimas d\u00e9cadas. Nesse sentido, h\u00e1 que se destacar a possibilidade que a Evergrande teve em alcan\u00e7ar o passivo de 1,97 trilh\u00e3o de yuans (aproximadamente US$ 300,0 bilh\u00f5es), cerca de 2% do PIB chin\u00eas (<a href=\"https:\/\/www.reuters.com\/business\/how-china-evergrandes-debt-troubles-pose-systemic-risk-2021-09-16\/\">Reuters<\/a>), inclusive por meio de instrumentos financeiros, como os <em>wealth management products, <\/em>os quais s\u00e3o mantidos especialmente por institui\u00e7\u00f5es de varejo (<a href=\"https:\/\/www.reuters.com\/world\/china\/evergrande-begins-repaying-investors-with-discounted-properties-bloomberg-news-2021-09-19\/\">Reuters<\/a>) e t\u00eam potencial de risco sist\u00eamico (<a href=\"https:\/\/www.cnbc.com\/2021\/09\/20\/evergrande-debt-collapse-could-have-domino-effect-on-china-properties.html?__twitter_impression=true&amp;recirc=taboolainternal\">CNBC<\/a>).<\/p>\n<p>Por outro lado, al\u00e9m da China manter mais CFMs, tamb\u00e9m n\u00e3o passou pelo mesmo processo de abertura do sistema financeiro a institui\u00e7\u00f5es estrangeiras, de forma que o sistema banc\u00e1rio al\u00e9m de ser de propriedade local, \u00e9 predominantemente p\u00fablico. Desta forma, mesmo com esse expressivo passivo, por ele ser denominado em sua maioria em renminbi (<a href=\"https:\/\/valor.globo.com\/financas\/noticia\/2021\/09\/20\/crise-da-evergrande-mira-especulao-imobiliria-e-favorece-regulao-diz-professor-da-uerj.ghtml\">Jabbour<\/a>) e atrelado a institui\u00e7\u00f5es financeiras residentes (128 bancos e 121 institui\u00e7\u00f5es n\u00e3o banc\u00e1rias), o potencial impacto para o mercado cambial e para o espraiamento da crise pode ser mitigado pela a\u00e7\u00e3o do Estado.<\/p>\n<p>O que buscamos destacar aqui \u00e9 as CFMs utilizadas pela China podem ter tido papel importante tanto para reduzir os efeitos da crise sobre o mercado dom\u00e9stico e a taxa de c\u00e2mbio, como para que ela n\u00e3o se tornasse uma crise global. A crise financeira global de 2008 pode ser vista como o in\u00edcio de um processo de mudan\u00e7a na teoria e nas pol\u00edticas econ\u00f4micas, em que o otimismo ou <em>wishful thinking<\/em> das pol\u00edticas liberais e da desregula\u00e7\u00e3o financeira foi dando lugar \u00e0 vis\u00e3o da necessidade de um maior papel do Estado. A pandemia da covid-19 refor\u00e7ou essa tend\u00eancia e o epis\u00f3dio da Evergrande parece ter ensinado algumas outras li\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Cabe refletir qu\u00e3o forte teria sido a press\u00e3o cambial se a China mantivesse um mercado de c\u00e2mbio semelhante ao Brasil, cujo mercado futuro &#8211; que \u00e9 mais suscet\u00edvel \u00e0 especula\u00e7\u00e3o &#8211; ultrapassa em muito o tamanho do mercado \u00e0 vista e as regula\u00e7\u00f5es sobre entrada e sa\u00edda de capitais s\u00e3o cada vez mais t\u00eanues. N\u00e3o \u00e9 de se estranhar que pa\u00edses emissores de moeda perif\u00e9rica e financeiramente abertos possam sofrer maior press\u00e3o cambial do que a pr\u00f3pria China.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a> IMF. Key aspects of macroprudential policy, 2013.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\">[2]<\/a> EPSTEIN, G., GRABEL, I., &amp; JOMO, K. Capital management techniques in developing countries: an assessment of experiences from the 1990s and lessons for the future. G-24 Discussion Paper 27, 2004.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref3\" name=\"_ftn3\">[3]<\/a> Annual Report on Exchange Arrangements and Exchange Restrictions de 2014 a 2017.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Mauricio Andrade Weiss, docente do Departamento de Economia e Rela\u00e7\u00f5es Internacionais da UFRGS, e Adriano Vilela Sampaio, professor de Economia na UFF (vers\u00e3o ampliada de artigo publicado na Carta Capital)<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"fifu_image_url":"","fifu_image_alt":"","footnotes":"","_links_to":"","_links_to_target":""},"categories":[438],"tags":[445],"class_list":["post-24197","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-analise","tag-artigo"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/fce\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/24197","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/fce\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/fce\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/fce\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/fce\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=24197"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/fce\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/24197\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/fce\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=24197"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/fce\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=24197"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/fce\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=24197"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}