{"id":24964,"date":"2021-12-08T15:17:48","date_gmt":"2021-12-08T18:17:48","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ufrgs.br\/fce\/?p=24964"},"modified":"2021-12-08T15:17:48","modified_gmt":"2021-12-08T18:17:48","slug":"a-economia-brasileira-em-marcha-a-re","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufrgs.br\/fce\/a-economia-brasileira-em-marcha-a-re\/","title":{"rendered":"A economia brasileira em marcha \u00e0 r\u00e9"},"content":{"rendered":"<p><em>Por Andr\u00e9 Moreira Cunha, professor do Departamento de Economia e Rela\u00e7\u00f5es Internacionais da UFRGS<\/em><\/p>\n<p><strong>A recess\u00e3o t\u00e9cnica n\u00e3o \u00e9 o maior dos nossos problemas&#8230;<\/strong><\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/agenciadenoticias.ibge.gov.br\/agencia-noticias\/2012-agencia-de-noticias\/noticias\/32387-pib-fica-em-0-1-no-terceiro-trimestre-influenciado-por-queda-na-agropecuaria\">O resultado do produto interno bruto (PIB)<\/a> no terceiro trimestre de 2021 confirmou o receio de que a economia brasileira est\u00e1 muito distante de apresentar uma trajet\u00f3ria s\u00f3lida de recupera\u00e7\u00e3o. J\u00e1 s\u00e3o dois trimestres consecutivos de varia\u00e7\u00e3o negativa: -0,4% (2021\/II) e -0,1% (2021\/III). Para os analistas de mercado, tal situa\u00e7\u00e3o configura <a href=\"https:\/\/www.bbc.com\/portuguese\/brasil-59499707\">uma recess\u00e3o t\u00e9cnica<\/a>.<\/p>\n<p>Para o Instituto Brasileiro de Geografia e Estat\u00edstica (IBGE): \u201cApesar da alta de 1,1% nos servi\u00e7os, que respondem por mais de 70% do PIB nacional, o \u00edndice foi influenciado para baixo principalmente por conta da queda de 8,0% na agropecu\u00e1ria e tamb\u00e9m pelo recuo de 9,8% nas exporta\u00e7\u00f5es de bens e servi\u00e7os. J\u00e1 a ind\u00fastria ficou est\u00e1vel (0,0%).\u201d. Adicionalmente, foi revisado o resultado do PIB em 2020: de -4,1% para -3,9%. Como o resultado acumulado em quatro trimestre em 2021\/III indica varia\u00e7\u00e3o de + 3,9%, pode-se inferir que o efeito da pandemia da Covid-19 sobre o n\u00edvel de atividades foi basicamente neutralizado. Vale dizer, a produ\u00e7\u00e3o atual equivale \u00e0 posi\u00e7\u00e3o pr\u00e9-crise. Em condi\u00e7\u00f5es normais, a not\u00edcia poderia ser encarada como positiva. Todavia, o contexto que antecedeu a pandemia j\u00e1 era bastante insatisfat\u00f3rio. Conforme <a href=\"https:\/\/agenciadenoticias.ibge.gov.br\/agencia-noticias\/2012-agencia-de-noticias\/noticias\/32387-pib-fica-em-0-1-no-terceiro-trimestre-influenciado-por-queda-na-agropecuaria\">registra o pr\u00f3prio IBGE<\/a>: \u201cO PIB est\u00e1 no patamar do fim de 2019 e in\u00edcio de 2020, per\u00edodo pr\u00e9-pandemia, e ainda est\u00e1 3,4% abaixo do ponto mais alto da atividade econ\u00f4mica na s\u00e9rie hist\u00f3rica, alcan\u00e7ado no primeiro trimestre de 2014.\u201d. Ou seja, para al\u00e9m de estagnada, a economia est\u00e1 andando em marcha \u00e0 r\u00e9.<\/p>\n<p>A literatura especializada indica que h\u00e1 recess\u00e3o diante de um decl\u00ednio significativo e persistente do n\u00edvel de atividades na economia, o que \u00e9 captado pela an\u00e1lise de mais de um indicador. Nos Estados Unidos, o <a href=\"https:\/\/www.nber.org\/research\/business-cycle-dating\/business-cycle-dating-procedure-frequently-asked-questions\">National Bureau of Economic Research (NBER)<\/a>, acompanha uma s\u00e9rie de indicadores, principalmente: a renda real das fam\u00edlias, o emprego, os gastos em consumo, as vendas no varejo e no atacado e a produ\u00e7\u00e3o industrial. O <a href=\"https:\/\/portalibre.fgv.br\/codace\">Comit\u00ea de Data\u00e7\u00e3o de Ciclos Econ\u00f4micos (CODACE)<\/a>, da FGV, faz algo semelhante para o Brasil.<\/p>\n<p>Definir uma recess\u00e3o envolve olhar para tr\u00e1s e verificar se, de fato, tal queda foi generalizada e suficientemente longa. Uma estrat\u00e9gia alternativa \u00e9 considerar dois trimestres consecutivos de retra\u00e7\u00e3o do PIB. A despeito das tecnicalidades, n\u00e3o parece haver d\u00favidas de que o cen\u00e1rio atual \u00e9 de precariedade. <a href=\"https:\/\/biblioteca.ibge.gov.br\/visualizacao\/periodicos\/3086\/pnacm_2021_set.pdf\">A PNAD com dados do trimestre m\u00f3vel encerrado em setembro de 2021<\/a> revela que a subutiliza\u00e7\u00e3o da for\u00e7a de trabalho atingiu 26,5% da popula\u00e7\u00e3o inserida no mercado de trabalho, ao passo que a renda real caiu -11,1% em termos anualizados.<\/p>\n<p>Em outubro do corrente ano, a <a href=\"https:\/\/agenciadenoticias.ibge.gov.br\/agencia-sala-de-imprensa\/2013-agencia-de-noticias\/releases\/32410-producao-industrial-cai-0-6-em-outubro\">produ\u00e7\u00e3o industrial<\/a> era 7,8% menor do que a do mesmo m\u00eas do ano passado. <a href=\"https:\/\/agenciadenoticias.ibge.gov.br\/agencia-sala-de-imprensa\/2013-agencia-de-noticias\/releases\/32184-em-setembro-vendas-no-varejo-recuam-1-3\">As vendas no varejo<\/a> (restrito e ampliado) ca\u00edram entre -4% e -5% nos \u00faltimos doze meses. No mesmo per\u00edodo, o<a href=\"https:\/\/agenciadenoticias.ibge.gov.br\/agencia-sala-de-imprensa\/2013-agencia-de-noticias\/releases\/32212-setor-de-servicos-recua-0-6-em-setembro\"> \u00a0setor de servi\u00e7os<\/a> apresentou varia\u00e7\u00e3o positiva: +11,4% no volume de vendas; e 6% no faturamento real. Por\u00e9m, h\u00e1 um movimento claro de desacelera\u00e7\u00e3o nas varia\u00e7\u00f5es mensais<a href=\"https:\/\/www.ibge.gov.br\/explica\/inflacao.php\">. A infla\u00e7\u00e3o medida pelo IPCA<\/a> est\u00e1 em 10,6% a.a. e <a href=\"https:\/\/www.bcb.gov.br\/publicacoes\/focus\">as expectativas dos agentes mercado seguem em deteriora\u00e7\u00e3o<\/a>, com revis\u00f5es sistem\u00e1ticas do PIB para baixo e dos pre\u00e7os para cima. No plano social, a pobreza e a mis\u00e9ria aumentam a cada nova rodada de informa\u00e7\u00f5es estat\u00edsticas. De acordo com o IBGE, <a href=\"https:\/\/agenciadenoticias.ibge.gov.br\/agencia-noticias\/2012-agencia-de-noticias\/noticias\/32420-mesmo-com-beneficios-emergenciais-1-em-cada-4-brasileiros-vivia-em-situacao-de-pobreza-em-2020\">um em cada quatro brasileiros estava em situa\u00e7\u00e3o de pobreza<\/a> em 2020, a despeito dos benef\u00edcios sociais recebidos.<\/p>\n<p>N\u00e3o faltam n\u00fameros ruins quando olhamos no retrovisor da economia; ao passo que se avoluma o contingente de pessoas em situa\u00e7\u00e3o de vulnerabilidade social nas ruas dos grandes centros urbanos. A deteriora\u00e7\u00e3o do tecido social \u00e9 por demais vis\u00edvel para ser ignorada, o que remete \u00e0 mem\u00f3ria do come\u00e7o dos anos 1980, <a href=\"https:\/\/data.worldbank.org\/topic\/11\">per\u00edodo em que 1\/3 da popula\u00e7\u00e3o brasileira vivia na pobreza<\/a>.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>&#8230; basta comparar e perceber que o Brasil ficou para tr\u00e1s<\/strong><\/p>\n<p>Nos \u00faltimos quinze anos, a economia global sofreu dois choques extremos e que produziram <a href=\"https:\/\/blogs.worldbank.org\/opendata\/understanding-depth-2020-global-recession-5-charts\">as maiores recess\u00f5es em tempos de paz desde a Grande Depress\u00e3o<\/a>: a crise financeira global (2007-2009) e a pandemia da Covid-19. No primeiro caso, a economia brasileira logrou se recuperar de forma relativamente r\u00e1pida e moderadamente robusta: 21%, em termos acumulados. Os principais destaques positivos foram a forma\u00e7\u00e3o bruta de capital, pelo lado da demanda, e o setor da constru\u00e7\u00e3o, pelo lado da oferta. J\u00e1 a ind\u00fastria de transforma\u00e7\u00e3o n\u00e3o conseguiu recuperar o n\u00edvel pr\u00e9-crise financeira global.<\/p>\n<p>Ainda assim, o pa\u00eds teve um desempenho que ficou aqu\u00e9m dos seus pares regionais. Depois de 2014, a economia brasileira saiu do padr\u00e3o \u201csemiestagna\u00e7\u00e3o\u201d e entrou no de \u201cautodestrui\u00e7\u00e3o\u201d. A renda encolheu nos \u00faltimos sete anos e a capacidade de produzir no futuro encontra limites na anemia dos investimentos, particularmente aqueles realizados por parte do setor p\u00fablico (governo e estatais).<\/p>\n<p><strong> <img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-24966\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/fce\/wp-content\/uploads\/2021\/12\/Artigo-Tabela-1.jpg\" alt=\"\" width=\"961\" height=\"475\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/fce\/wp-content\/uploads\/2021\/12\/Artigo-Tabela-1.jpg 961w, https:\/\/www.ufrgs.br\/fce\/wp-content\/uploads\/2021\/12\/Artigo-Tabela-1-300x148.jpg 300w, https:\/\/www.ufrgs.br\/fce\/wp-content\/uploads\/2021\/12\/Artigo-Tabela-1-768x380.jpg 768w\" sizes=\"(max-width: 961px) 100vw, 961px\" \/><\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A tabela 2 compara o crescimento da renda <em>per capita<\/em> do Brasil com as principais economias da Am\u00e9rica Latina, \u00c1sia, G7 e a m\u00e9dia mundial. Na era \u201cdesenvolvimentista\u201d (1951-1980), o pa\u00eds avan\u00e7ou relativamente mais do que todos os grupos destacados. \u00c9ramos um dos casos de sucesso em termos de moderniza\u00e7\u00e3o produtiva, <a href=\"https:\/\/openknowledge.worldbank.org\/handle\/10986\/6507\">amplamente reconhecido pela literatura<\/a>. O intenso processo de industrializa\u00e7\u00e3o e a r\u00e1pida urbaniza\u00e7\u00e3o tornaram o Brasil a oitava economia do mundo, com <a href=\"https:\/\/centrodeeconomiapolitica.org.br\/repojs\/index.php\/journal\/article\/view\/42\">um parque industrial que era o maior dentre os pa\u00edses emergentes e em desenvolvimento<\/a>. O crescimento elevado n\u00e3o resolveu todos os problemas sociais do pa\u00eds, ou mesmo revelou-se como tendo ra\u00edzes robustas. Ainda assim, havia avan\u00e7os importantes e <a href=\"https:\/\/professor.ufrgs.br\/pedrofonseca\/publications\/o-projeto-desenvolvimentista-no-brasil\">um relativo consenso em torno da busca pelo desenvolvimento<\/a>.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-24967\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/fce\/wp-content\/uploads\/2021\/12\/Artigo-Tabela-2.jpg\" alt=\"\" width=\"633\" height=\"535\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/fce\/wp-content\/uploads\/2021\/12\/Artigo-Tabela-2.jpg 633w, https:\/\/www.ufrgs.br\/fce\/wp-content\/uploads\/2021\/12\/Artigo-Tabela-2-300x254.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 633px) 100vw, 633px\" \/><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A <a href=\"https:\/\/www.federalreservehistory.org\/essays\/latin-american-debt-crisis\">crise da d\u00edvida externa dos anos 1980<\/a>, e a decorrente desorganiza\u00e7\u00e3o fiscal e monet\u00e1ria que lan\u00e7ou o pa\u00eds em uma intensa espiral inflacion\u00e1ria, explicitou a fragilidade do padr\u00e3o de financiamento dos governos do ciclo 1964-1985<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\">[1]<\/a>. Estes n\u00e3o somente colocaram em segundo plano os investimentos sociais necess\u00e1rios para dar sustenta\u00e7\u00e3o ao crescimento no longo prazo, como utilizaram excessivamente a via f\u00e1cil do endividamento externo.<\/p>\n<p>A partir da grave crise herdada daquele per\u00edodo, a nossa participa\u00e7\u00e3o relativa em alguns dos principais agregados globais, mensurados em d\u00f3lares constantes, recuou ou se manteve estagnada. Entre as d\u00e9cadas de 1980 e 2010 tivemos os seguintes indicadores m\u00e9dios: PIB, queda de 2,9% para 2,5%; produ\u00e7\u00e3o industrial, de 3,0% para 1,7%; e forma\u00e7\u00e3o bruta de capital, de 2,5% para 1,8%. As exporta\u00e7\u00f5es de bens e servi\u00e7os (1,0% a 1,1%) e o consumo das fam\u00edlias (2,6% a 2,7%) ficaram est\u00e1veis, ao passo que cresceram a produ\u00e7\u00e3o agropecu\u00e1ria (de 2,1% para 2,4%) e as importa\u00e7\u00f5es de bens e servi\u00e7os (de 0,9% para 1,3%)<a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\">[2]<\/a>.<\/p>\n<p>De 2014 para c\u00e1, observa-se um quadro de n\u00edtida deteriora\u00e7\u00e3o adicional na capacidade de crescimento do pa\u00eds, na medida em que o nosso recuo deixou de ser relativo e passou a ser absoluto. N\u00e3o apenas crescemos menos do que as demais economias, como foi o nosso padr\u00e3o m\u00e9dio entre 1981 e 2014, como passamos a ter taxas m\u00e9dias negativas de varia\u00e7\u00e3o da renda, da produ\u00e7\u00e3o industrial e dos investimentos. Este cen\u00e1rio perturbador coincide com o processo de amplia\u00e7\u00e3o na instabilidade institucional, de desmonte das pol\u00edticas p\u00fablicas de desenvolvimento humano (educa\u00e7\u00e3o, sa\u00fade, regula\u00e7\u00e3o do mercado de trabalho, inclus\u00e3o social), ambiental e tecnol\u00f3gico, e de desestrutura\u00e7\u00e3o de importantes cadeias produtivas e fontes de investimento (construtoras, petr\u00f3leo e g\u00e1s, gera\u00e7\u00e3o de energia el\u00e9trica, etc.).<\/p>\n<p>A pandemia da Covid-19 s\u00f3 agravou a crise que j\u00e1 estava contratada a partir da ado\u00e7\u00e3o da assim-chamada \u201c<a href=\"https:\/\/www.fundacaoulysses.org.br\/wp-content\/uploads\/2016\/11\/UMA-PONTE-PARA-O-FUTURO.pdf\">Ponte para o futuro<\/a>\u201d<a href=\"#_ftn3\" name=\"_ftnref3\">[3]<\/a>. Com o retorno do \u201c<a href=\"https:\/\/www.washingtonpost.com\/business\/2020\/12\/23\/tax-cuts-rich-trickle-down\/\">trickle-down Economics<\/a>\u201d, em sua forma mais radical, a elite pol\u00edtica e empresarial apostou nas pol\u00edticas j\u00e1 experimentadas nos anos 1990, e que n\u00e3o lograram reverter o quadro de semiestagna\u00e7\u00e3o, tanto no Brasil, quanto nas principais economias latino-americanas. A estrat\u00e9gia de \u201cabrir mais a economia, reduzir gastos sociais e impostos\u201d foi adotada em muitos lugares, como no caso destacado do M\u00e9xico p\u00f3s-Acordo do Nafta. Os resultados foram t\u00e3o ruins, sen\u00e3o piores, do que os observados no Brasil. A despeito de tais evid\u00eancias, segue-se apostando naquilo que o economista <a href=\"https:\/\/repositorio.cepal.org\/handle\/11362\/27955\">Fernando Fajnzilber<\/a> chamava de competitividade esp\u00faria, porque baseada na deteriora\u00e7\u00e3o das condi\u00e7\u00f5es de vida da popula\u00e7\u00e3o e n\u00e3o em fontes sustent\u00e1veis de dinamismo, particularmente a capacidade de inovar e de produzir bens e servi\u00e7os sofisticados tecnologicamente.<\/p>\n<p>Agora, mais do que reduzir custos salariais e impostos, trata-se de replicar em solos tropicais a <a href=\"https:\/\/www.vanderbilt.edu\/olli\/class-materials\/2017Winter.WarWeek3.pdf\">estrat\u00e9gia russa de \u201cterra arrasada<\/a>\u201d, qual seja: eliminar a possibilidade de o Estado Nacional adotar pol\u00edticas de indu\u00e7\u00e3o do desenvolvimento socioecon\u00f4mico no futuro por meio da pr\u00f3pria elimina\u00e7\u00e3o dos instrumentos para tanto: os marcos legais derivados da Constitui\u00e7\u00e3o Federal de 1988, particularmente na dimens\u00e3o social; as empresas estatais e as estruturas p\u00fablicas que permitem uma gest\u00e3o racional e baseada em conhecimentos cient\u00edficos.<\/p>\n<p>Enquanto o Brasil insiste em rumar para o s\u00e9culo XIX, <a href=\"https:\/\/www.mckinsey.com\/featured-insights\/future-of-asia\/the-asian-century-two-years-on-a-look-back\">os pa\u00edses mais bem-sucedidos em termos de crescimento<\/a> (ver tabela 2) apostam nos investimentos em educa\u00e7\u00e3o, ci\u00eancia e tecnologia, renova\u00e7\u00e3o da infraestrutura e no fortalecimento de suas empresas nacionais, que se tornaram competitivas globalmente pelo <a href=\"https:\/\/www.oxfordhandbooks.com\/view\/10.1093\/oxfordhb\/9780198862420.001.0001\/oxfordhb-9780198862420\">estabelecimento de rela\u00e7\u00f5es de complementariedade entre \u201cEstados e Mercados\u201d<\/a>. N\u00e3o \u00e0 toa, os sucessivos milagres asi\u00e1ticos surpreendem o mundo, tanto por sua capacidade de sustentar n\u00edveis robustos de expans\u00e3o da renda, por longos per\u00edodos de tempo, como mostram <a href=\"https:\/\/www.imf.org\/en\/Publications\/WP\/Issues\/2019\/03\/26\/The-Return-of-the-Policy-That-Shall-Not-Be-Named-Principles-of-Industrial-Policy-46710\">as pesquisas acad\u00eamicas<\/a> e os <a href=\"https:\/\/www.mckinsey.com\/featured-insights\/innovation-and-growth\/outperformers-high-growth-emerging-economies-and-the-companies-that-propel-them\">estudos de mercado<\/a>, quanto por n\u00e3o aderirem, de forma irrestrita, \u00e0 agenda liberalizante. <a href=\"http:\/\/eprints.lse.ac.uk\/107919\/1\/Hope_economic_consequences_of_major_tax_cuts_published.pdf\">Esta s\u00f3 concentra renda, riqueza e poder pol\u00edtico<\/a>, e compromete as futuras gera\u00e7\u00f5es pelo uso predat\u00f3rio dos recursos naturais e humanos. Na escola anacr\u00f4nica do atraso socioecon\u00f4mico, o Brasil parece querer passar com as melhores notas da turma.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a> \u201cBrazil was one of the first countries to achieve sustained, high growth (its run began in 1950) and the first to lose its momentum (in 1980) \u2026 During its first phase of import substitution, however, Brazil in fact succeeded in diversifying its exports, branching out from coffee into light manufacturing with the help of foreign direct investment. Exports as a percentage of GDP more than doubled from 5 percent in the early-1950s to about 12 percent in the early 1980s \u2026Brazil\u2019s problems began after the first oil shock in 1973, which left the country suffering from inflation and an overhang of debt&#8230; When dollar interest rates spiked after 1979, Brazil plunged into a debt and high inflation crisis from which it took more than a decade to emerge. In the process, Brazil\u2019s exports declined from 12 percent of GDP in the early 1980s to 6 percent in the mid-1990s, losing nearly all of the ground they had gained in the high-growth period\u201d (World Bank, <a href=\"https:\/\/openknowledge.worldbank.org\/bitstream\/handle\/10986\/6507\/449860PUB0Box3101OFFICIAL0USE0ONLY1.pdf?sequence=1&amp;isAllowed=y\">Commission on Growth and Development<\/a>, 2008, p. 21).<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\">[2]<\/a> Estimativas dos autores com base nos dados prim\u00e1rios da ONU (<a href=\"https:\/\/unstats.un.org\/unsd\/snaama\">National Accounts &#8211; Analysis of Main Aggregates<\/a>).<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref3\" name=\"_ftn3\">[3]<\/a> De acordo com o <a href=\"https:\/\/oglobo.globo.com\/opiniao\/ponte-para-um-futuro-incerto-17976525\">jornalista Jos\u00e9 Paulo Kupfer<\/a>, em 6 de novembro de 2015, \u201cO programa econ\u00f4mico \u201cUma ponte para o futuro\u201d, lan\u00e7ado pelo PMDB na semana passada, foi recebido com surpresa geral e entusiasmo em diversos agrupamentos pol\u00edticos e econ\u00f4micos. A surpresa veio da sua divulga\u00e7\u00e3o, sem avisos pr\u00e9vios e discuss\u00f5es preparat\u00f3rias &#8230; O entusiasmo de muitos se deveu ao bem resumido conte\u00fado do documento, quase inteiramente alinhado com propostas liberais j\u00e1 bastante conhecidas e em ampla coincid\u00eancia com proposi\u00e7\u00f5es da oposi\u00e7\u00e3o ao governo do qual o PMDB faz parte, notadamente \u00e0s do PSDB. \u00a0O <a href=\"https:\/\/www.infomoney.com.br\/colunistas\/terraco-economico\/uma-ponte-para-o-futuro-analisando-os-seus-pilares\/\">Portal Infomoney<\/a> registrou que: \u201cO saldo l\u00edquido desta agenda, daqui alguns anos, ser\u00e1 de uma na\u00e7\u00e3o mais rica e democraticamente mais madura.\u201d. A mesma fonte comemorava <a href=\"https:\/\/www.infomoney.com.br\/mercados\/ponte-para-o-futuro-do-pmdb-faz-estatais-e-bancos-disparam-ate-8-e-educacionais-afundarem-na-bolsa\/\">a alta nas a\u00e7\u00f5es de estatais e de bancos p\u00fablicos<\/a> que estavam na mira das privatiza\u00e7\u00f5es.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Andr\u00e9 Moreira Cunha, professor do Departamento de Economia e Rela\u00e7\u00f5es Internacionais da UFRGS<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"fifu_image_url":"","fifu_image_alt":"","footnotes":"","_links_to":"","_links_to_target":""},"categories":[438],"tags":[445],"class_list":["post-24964","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-analise","tag-artigo"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/fce\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/24964","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/fce\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/fce\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/fce\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/fce\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=24964"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/fce\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/24964\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/fce\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=24964"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/fce\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=24964"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/fce\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=24964"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}