{"id":29380,"date":"2023-03-15T16:56:48","date_gmt":"2023-03-15T19:56:48","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ufrgs.br\/fce\/?p=29380"},"modified":"2023-03-16T14:13:14","modified_gmt":"2023-03-16T17:13:14","slug":"o-governo-boric-sem-reforma-tributaria-e-em-desaceleracao-economica","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufrgs.br\/fce\/o-governo-boric-sem-reforma-tributaria-e-em-desaceleracao-economica\/","title":{"rendered":"O Governo Boric: sem reforma tribut\u00e1ria e em desacelera\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica"},"content":{"rendered":"<p><em>Por Andr\u00e9 Moreira Cunha, professor do Departamento de Economia e Rela\u00e7\u00f5es Internacionais da UFRGS<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong><em>\u201cEl neoliberalismo nace y muere en Chile\u201d (<a href=\"https:\/\/www.bbc.com\/mundo\/noticias-america-latina-50194550\">An\u00f4nimo, 2019<\/a>)<\/em><\/strong><\/p>\n<p><strong><em>\u201cFue un golpe brutal\u201d (Marcos Barraza, do comit\u00e9 central do Partido Comunista do Chile \u2013 <\/em><\/strong><a href=\"https:\/\/votamostodos.org\/amargura-y-decepcion-las-explicaciones-en-el-comando-del-apruebo-tras-una-aplastante-derrota\/\"><strong><em>declara\u00e7\u00e3o ap\u00f3s derrota da proposta de nova Constitui\u00e7\u00e3o em plebiscito de 2022<\/em><\/strong><\/a><strong><em>)<\/em><\/strong><\/p>\n<p><strong><em>\u201cLa votaci\u00f3n de hoy ha sido un golpe a la esperanza, pero Chile sabe recuperarse de estas peque\u00f1eces\u201d (Gabriel Boric <\/em><\/strong><a href=\"https:\/\/elpais.com\/chile\/2023-03-09\/gabriel-boric-el-rechazo-de-los-diputados-a-la-reforma-tributaria-es-un-golpe-a-la-esperanza.html\"><strong><em>ao comentar a derrota de sua reforma tribut\u00e1ria<\/em><\/strong><\/a><strong><em>)<\/em><\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong><em>A desacelera\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica no Chile<\/em><\/strong><\/p>\n<p>Em 2022, primeiro ano da gest\u00e3o Boric, a economia chilena experimentou uma desacelera\u00e7\u00e3o mais intensa do que a observada em seu entorno regional e no mundo. As proje\u00e7\u00f5es atuais de institui\u00e7\u00f5es como <a href=\"https:\/\/www.oecd-ilibrary.org\/economics\/oecd-economic-outlook\/volume-2022\/issue-2_f6da2159-en\">OCDE<\/a>, <a href=\"https:\/\/www.cepal.org\/es\/publicaciones\/48574-balance-preliminar-economias-america-latina-caribe-2022\">Cepal<\/a>, <a href=\"https:\/\/www.imf.org\/en\/Publications\/WEO\/weo-database\/2022\/October\">IMF<\/a>, <a href=\"https:\/\/openknowledge.worldbank.org\/bitstream\/handle\/10986\/38030\/GEP-January-2023.pdf\">Banco Mundial<\/a>, para citar algumas, convergem com um cen\u00e1rio de queda do produto interno bruto em 2023 e manuten\u00e7\u00e3o de um ritmo de expans\u00e3o ao redor de 1,1% a.a. para a m\u00e9dia do per\u00edodo 2023-2025. Vale dizer, um quadro de estagna\u00e7\u00e3o quando se considera a evolu\u00e7\u00e3o da renda <em>per capita<\/em>.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/issuu.com\/oecd.publishing\/docs\/chile-economic-outlook-projection-note-november-20\">Para a OCDE tal desempenho negativo se deve a uma combina\u00e7\u00e3o de fatores<\/a>, com destaque para o efeito da acelera\u00e7\u00e3o inflacion\u00e1ria no consumo das fam\u00edlias, o ambiente financeiro mais restritivo, com juros em alta e confian\u00e7a empresarial em baixa, e o t\u00e9rmino de est\u00edmulos fiscais criados no contexto da pandemia da Covid-19. Para fazer com que a infla\u00e7\u00e3o volte a convergir com a meta oficial de 3% a.a. at\u00e9 2024, o Banco Central do Chile possivelmente seguir\u00e1 com o aperto monet\u00e1rio. No plano fiscal, <a href=\"https:\/\/www.lavanguardia.com\/vida\/20230308\/8810950\/camara-diputados-chilena-rechaza-reforma-tributaria-boric.html\">a proposta de reforma tribut\u00e1ria do governo Boric, que estimava gerar 3,6% do PIB em receitas adicionais, n\u00e3o foi aprovada pelo Congresso<\/a>. A medida dependia de 74 votos, mas obteve apenas 73. Em discurso forte, Boric <a href=\"https:\/\/elpais.com\/chile\/2023-03-09\/gabriel-boric-el-rechazo-de-los-diputados-a-la-reforma-tributaria-es-un-golpe-a-la-esperanza.html\">acusa a oposi\u00e7\u00e3o de bloquear as transforma\u00e7\u00f5es demandadas nas ruas em 2019 e 2020<\/a>: \u201cParece que el objetivo de algunos es golpear al Gobierno e impedir los cambios. Pero se equivocan, porque no es principalmente al Gobierno al que golpean o propinan una derrota, sino a millones de chilenos que durante a\u00f1os llevan esperando un pa\u00eds m\u00e1s justo, un sistema de salud que los proteja y no produzca deuda, un pa\u00eds con pensiones dignas\u201d.<\/p>\n<p>A economia internacional n\u00e3o est\u00e1 colaborando com o Chile. O Fundo Monet\u00e1rio Internacional, em seu <a href=\"https:\/\/www.imf.org\/en\/Publications\/WEO\/Issues\/2023\/01\/31\/world-economic-outlook-update-january-2023\">Panorama da Economia Global de janeiro 2023<\/a>, estimou a varia\u00e7\u00e3o do produto mundial em +3,4% (2022), +2,9% (2023) e +3,1% (2024), valores que se situam abaixo da m\u00e9dia do per\u00edodo 2000-2019: +3,8%. A Am\u00e9rica Latina \u00e9 a regi\u00e3o perif\u00e9rica com o pior desempenho relativo para o pr\u00f3ximo bi\u00eanio: +1,9% (2023) e +2,1% (2024), valores que seguem abaixo da m\u00e9dia global e equivalem a menos da metade do ritmo geral dos pa\u00edses emergentes e em desenvolvimento (+4,0% e +4,1%).<\/p>\n<p>Esta tem sido a realidade latino-americana desde a crise da d\u00edvida externa. <a href=\"https:\/\/data.worldbank.org\/indicator\/NY.GDP.PCAP.KD.ZG\">Tomando-se por refer\u00eancia a renda <strong><em>per capita<\/em><\/strong><\/a>, observa-se que, entre os anos 1930 e o come\u00e7o dos anos 1980, as principais economias da regi\u00e3o cresceram sistematicamente acima da m\u00e9dia global. Assim, por exemplo, entre 1961 e 1980, tal diferencial foi de +0,3 p.p. ao ano para o conjunto da Am\u00e9rica Latina. No per\u00edodo 1981-2021, deu-se o contr\u00e1rio e este par\u00e2metro foi de -0,7 p.p. Tal diferencial chega a -5,6 p.p. anuais, em m\u00e9dia, quando a compara\u00e7\u00e3o \u00e9 com os pa\u00edses asi\u00e1ticos mais din\u00e2micos na era da globaliza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O colapso do crescimento econ\u00f4mico na Am\u00e9rica Latina veio acompanhado de enorme volatilidade, com a altern\u00e2ncia de ciclos de r\u00e1pida expans\u00e3o com outros de intensa contra\u00e7\u00e3o. Por decorr\u00eancia, a regi\u00e3o foi perdendo a capacidade de acompanhar o dinamismo comercial e tecnol\u00f3gico verificado em outros pa\u00edses. A sua participa\u00e7\u00e3o na renda global recuou de pouco mais de 8% no come\u00e7o dos anos 1980, para 6,4% em 2021. As exporta\u00e7\u00f5es oscilaram em fun\u00e7\u00e3o do comportamento dos pre\u00e7os das <em>commodities<\/em>, tendo recuado de 5,5%, em m\u00e9dia, no come\u00e7o dos anos 1980, para 3,5% do final dos anos 1990. Com o <em>boom<\/em> naqueles pre\u00e7os nos anos 2000, os produtos vendidos pelos pa\u00edses latino-americanos voltaram a responder por pouco mais de 5% das exporta\u00e7\u00f5es mundiais. Todavia, <a href=\"https:\/\/data.worldbank.org\/indicator\/TX.VAL.TECH.CD\">quando se considera o recorte setorial de manufaturas intensivos em tecnologia<\/a>, a participa\u00e7\u00e3o latino-americana equivale a 3% do montante global.<\/p>\n<p>Nos marcos deste decl\u00ednio relativo<a href=\"https:\/\/www.wider.unu.edu\/publication\/three-decades-neoliberal-economics-chile-0\">, a economia chilena era apontada uma das exce\u00e7\u00f5es de maior proje\u00e7\u00e3o na literatura<\/a><a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\">[1]<\/a>. Sua renda <em>per capita<\/em> cresceu +4,2% a.a. entre 1981 e 2021, +1,1 p.p. acima da m\u00e9dia internacional (+3,0% a.a.). Argentina (+1,8% a.a.), Brasil (+2,1% a.a.), M\u00e9xico (+2,1% a.a.) e Venezuela (2,1% a.a.) mantiveram um ritmo bem inferior, muito aqu\u00e9m do avan\u00e7o observado no resto do mundo. A despeito deste resultado, o Chile continuou a compartilhar dos demais males t\u00edpicos da regi\u00e3o, especialmente no que tange \u00e0 oferta de servi\u00e7os p\u00fablicos como educa\u00e7\u00e3o, sa\u00fade e previd\u00eancia, al\u00e9m da forte concentra\u00e7\u00e3o da renda, da riqueza e do poder pol\u00edtico. O modelo neoliberal consagrado pela Constitui\u00e7\u00e3o de 1980 e herdado do per\u00edodo Pinochet (1973-1990) foi arquitetado de forma estrat\u00e9gica e implementado com viol\u00eancia e radicalidade.<\/p>\n<p>No livro \u201c<a href=\"https:\/\/press.princeton.edu\/books\/hardcover\/9780691208626\/the-chile-project\">The Chile Project<\/a>\u201d, Sebastian Edwards detalha como o Departamento de Estado do governo estadunidense estimulou o treinamento de economistas chilenos na Escola de Chicago, ent\u00e3o liderada por Milton Friedman, economista de proje\u00e7\u00e3o internacional e ide\u00f3logo libert\u00e1rio. <a href=\"https:\/\/www.nationalreview.com\/magazine\/2023\/03\/06\/the-chilean-paradox\/\">Edwards, que foi um dos jovens chilenos formados em Chicago<\/a>, mostra que com a derrubada do governo de Salvador Allende, em 1973, os assim-chamados \u201cChicago Boys\u201d estiveram na linha de frente na implanta\u00e7\u00e3o das pol\u00edticas de desregulamenta\u00e7\u00e3o e de privatiza\u00e7\u00e3o. Com elas o pa\u00eds foi consagrado como um modelo a ser seguido no \u00e2mbito do Consenso de Washington. Ainda assim, a era Pinochet n\u00e3o apresentou nenhum resultado importante em termos de dinamismo econ\u00f4mico<a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\">[2]<\/a>. Pelo contr\u00e1rio, a economia cresceu menos do que m\u00e9dia global e sua estrutura produtiva e pauta exportadora se tornaram ainda mais dependente dos recursos naturais.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong><em>Os desafios de Boric<\/em><\/strong><\/p>\n<p>A despeito de um desempenho superior com respeito aos vizinhos, o caso chileno est\u00e1 longe de configurar um sucesso. <a href=\"https:\/\/www.econ.cam.ac.uk\/research-files\/repec\/cam\/pdf\/cwpe1991.pdf\">Gabriel Palma<\/a>, professor em\u00e9rito da Universidade de Cambridge<a href=\"#_ftn3\" name=\"_ftnref3\">[3]<\/a>, e <a href=\"https:\/\/www.imf.org\/en\/Publications\/WP\/Issues\/2019\/03\/26\/The-Return-of-the-Policy-That-Shall-Not-Be-Named-Principles-of-Industrial-Policy-46710\">Cherif e Hasanov<\/a>, do FMI, analisaram os determinantes do crescimento do Chile em compara\u00e7\u00e3o com as economias mais din\u00e2micas da \u00c1sia e constataram que o modelo chileno se caracterizou varia\u00e7\u00f5es p\u00edfias na produtividade \u2013 do trabalho e total dos fatores \u2013, n\u00edveis menos robustos de investimentos, al\u00e9m da elevada concentra\u00e7\u00e3o da renda e da riqueza, e baixos investimentos p\u00fablicos em sa\u00fade, educa\u00e7\u00e3o e seguridade social. Como resultado, os per\u00edodos de maior prosperidade dependem muito mais de abund\u00e2ncia de liquidez externa e de pre\u00e7os elevados de seus principais recursos naturais, do que de uma din\u00e2mica virtuosa assentada em ganhos de efici\u00eancia.<\/p>\n<p>Com uma estrutura produtiva e de com\u00e9rcio internacional baseada em recursos naturais, <a href=\"https:\/\/data.oecd.org\/rd\/gross-domestic-spending-on-r-d.htm\">o Chile \u00e9 um dos pa\u00edses que menos investe em pesquisa e desenvolvimento tecnol\u00f3gico (P&amp;D)<\/a>. Como propor\u00e7\u00e3o do PIB tal disp\u00eandio atinge a m\u00e9dia de 0,3% na d\u00e9cada de 2010, contra uma m\u00e9dia de 2,4% na OCDE. <a href=\"https:\/\/data.imf.org\/?sk=388dfa60-1d26-4ade-b505-a05a558d9a42&amp;sId=1678207762045\">Os investimentos p\u00fablicos em forma\u00e7\u00e3o bruta de capital<\/a> foram, em m\u00e9dia, de 3% do PIB na d\u00e9cada de 2010, bem abaixo dos 9% verificados nas economias emergentes e em desenvolvimento. Os investimentos totais chegam a 28% do PIB no Chile ante os 31% dos emergentes.<\/p>\n<p>Na \u00e1rea social, os <a href=\"https:\/\/data.oecd.org\/socialexp\/pension-spending.htm#indicator-chart\">gastos p\u00fablicos em previd\u00eancia<\/a> no Chile (3,1% do PIB) equivalem a menos da metade da m\u00e9dia da OCDE (7,7% do PIB). O <a href=\"https:\/\/data.oecd.org\/socialexp\/public-unemployment-spending.htm#indicator-chart\">apoio aos desempregados<\/a> (0,06% do PIB) tamb\u00e9m \u00e9 muito inferior ao conjunto destes pa\u00edses (0,58% do PIB). J\u00e1 os benef\u00edcios sociais \u00e0s fam\u00edlias s\u00e3o de pouco mais de 5% do PIB no Chile, contra a m\u00e9dia da 18% na Uni\u00e3o Europeia. <a href=\"https:\/\/data.oecd.org\/healthres\/health-spending.htm\">Os investimentos obrigat\u00f3rios em sa\u00fade por parte do Estado chileno<\/a> atingem USS 1,6 mil por habitante\/ano, e correspondem a 1\/3 dos disp\u00eandios dos pa\u00edses de alta renda. <a href=\"https:\/\/data.oecd.org\/eduresource\/public-spending-on-education.htm#indicator-chart\">Os investimentos p\u00fablicos em educa\u00e7\u00e3o est\u00e3o na m\u00e9dia da OCDE<\/a>, 3,1% do PIB; j\u00e1 <a href=\"https:\/\/data.oecd.org\/eduresource\/private-spending-on-education.htm#indicator-chart\">os privados (1,6% do PIB) s\u00e3o tr\u00eas vezes maiores com respeito \u00e0quele conjunto de pa\u00edses (0,5% do PIB)<\/a>. <a href=\"https:\/\/data.oecd.org\/eduresource\/education-spending.htm#indicator-chart\">O gasto total por estudante<\/a> que atinge o n\u00edvel superior no Chile \u00e9 de US$ 10,5 mil\/ano contra os US$ 17 mil na m\u00e9dia da OCDE.<\/p>\n<p>Se as proje\u00e7\u00f5es atuais se confirmarem, o governo Boric ser\u00e1 marcado pelo retorno ao padr\u00e3o de crescimento que caracterizou tanto o per\u00edodo Pinochet (1973-1990), quanto as d\u00e9cadas que o antecederam. Entre 1951 e 1990, a renda <em>per capita<\/em> do Chile cresceu sistematicamente abaixo da m\u00e9dia global. Foi na redemocratiza\u00e7\u00e3o, principalmente durante os sucessivos governos da \u201c<a href=\"https:\/\/www.bcn.cl\/historiapolitica\/partidos_politicos\/wiki\/Concertaci%C3%B3n_de_Partidos_por_la_Democracia\">Concertaci\u00f3n de Partidos por la Democracia<\/a>\u201d ou, somente, \u201cConcertaci\u00f3n\u201d, que o pa\u00eds passou a apresentar um desempenho um pouco melhor.<\/p>\n<p>A Concertaci\u00f3n foi uma coaliz\u00e3o de partidos criada em 1988 e que teve um papel central na transi\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica e na gest\u00e3o do pa\u00eds em quatro mandatos sucessivos ap\u00f3s a queda do regime de Pinochet. Com o retorno da direita ao poder a partir da elei\u00e7\u00e3o de Sebasti\u00e1n Pi\u00f1era, em 2009, este arranjo se transformou. Pi\u00f1era obteve dois mandatos presidenciais, 2010-2014 e 2018-2022, entre os quais <a href=\"https:\/\/www.bcn.cl\/historiapolitica\/resenas_biograficas\/wiki\/Michelle_Bachelet_Jeria\">Michelle Bachelet<\/a> (2014-2018) governou por uma segunda vez, agora com um novo arco de alian\u00e7as, na assim-chamada <a href=\"https:\/\/www.bcn.cl\/historiapolitica\/partidos_politicos\/wiki\/Nueva_Mayor%C3%ADa\">Nueva Mayor\u00eda<\/a>. Esta manteve a alian\u00e7a dos principais partidos de centro e centro-esquerda da Concertaci\u00f3n e incorporou grupos como Partido Comunista, a Izquierda Ciudadana e o Movimiento Amplio Social.<\/p>\n<p>Com os protestos contra o governo Pi\u00f1era (2019-2020) e a forma\u00e7\u00e3o de uma nova Assembleia Constituinte (2021) observou-se a perda de for\u00e7a dos partidos e coaliza\u00e7\u00f5es tradicionais, da esquerda e da direta. Candidaturas independentes e da \u201c<a href=\"https:\/\/elpais.com\/internacional\/2022-03-11\/chile-abraza-la-nueva-izquierda-latinoamericana.html\">nova esquerda<\/a>\u201d foram majorit\u00e1rias. A direta de Pi\u00f1era &#8211; movimento \u201cVamos pelo Chile\u201d \u2013 obteve apenas 19% dos votos, com o seu pior resultado na hist\u00f3ria. Os conservadores entraram no processo constituinte sem ter sequer o poder de veto, que demandaria mais de 1\/3 dos votos. A centro-esquerda foi ainda pior: 14% dos votos. J\u00e1 a nova esquerda representada pelos comunistas e pela Frente Ampla (18%) e os movimentos sociais agrupados em torno da Lista do Povo (16%) foram os destaques.<\/p>\n<p>Para culminar esta reorganiza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, Gabriel Boric, do partido <a href=\"https:\/\/www.bcn.cl\/historiapolitica\/partidos_politicos\/wiki\/Partido_Convergencia_Social\"><em>Convergencia Social<\/em><\/a>, cofundador do <a href=\"https:\/\/www.bcn.cl\/historiapolitica\/partidos_politicos\/wiki\/Frente_Amplio\"><em>Frente Amplio<\/em><\/a>, em 2017, foi eleito presidente com base na expans\u00e3o das cr\u00edticas aos limites do modelo neoliberal no Chile e no fortalecimento daquilo que a literatura especializada denomina de <a href=\"https:\/\/www.britannica.com\/topic\/grassroots\">pol\u00edtica identit\u00e1ria<\/a>. Para a decep\u00e7\u00e3o de quem n\u00e3o havia atentado para os alertas de intelectuais como <a href=\"https:\/\/newleftreview.org\/issues\/i217\/articles\/eric-hobsbawm-identity-politics-and-the-left.pdf\">Eric Hobsbawm sobre os riscos da pulveriza\u00e7\u00e3o de pautas no \u00e2mbito do identitarismo<\/a>, a nova esquerda chilena n\u00e3o foi capaz de traduzir o imenso apoio popular que antecedeu \u00e0s elei\u00e7\u00f5es da Assembleia Constituinte e <a href=\"https:\/\/carnegieendowment.org\/2022\/09\/08\/chile-s-rejection-of-new-constitution-is-sign-of-democratic-maturity-pub-87879\">realizar as reformas demandas nas ruas<\/a>. A nova carta foi rejeitada pelo plebiscito de 2022 com <a href=\"https:\/\/www.bbc.com\/news\/world-latin-america-62792025\">62% dos votos<\/a>. \u00c9 importante lembrar que, em 2020, 81% dos eleitores disseram n\u00e3o para a direita e, assim, para a constitui\u00e7\u00e3o de Pinochet e seus resqu\u00edcios neoliberais.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong><em>O ocaso neoliberal e os impasses atuais<\/em><\/strong><\/p>\n<p>Durante os anos 1990 e 2000, o Chile era apresentado como um caso de sucesso da moderniza\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica realizada sob o manto do neoliberalismo. Em 1997, Gary Backer, professor de Chicago e vencedor do pr\u00eamio Nobel em Economia, escreveu o artigo de opini\u00e3o \u201c<a href=\"http:\/\/www.hacer.org\/pdf\/BeckerChicago.pdf\">Latin America Owes a Lot to Its \u2018Chicago Boys\u2019<\/a>\u201d na Business Week, onde afirmava que o sucesso chileno serviu de modelo para os demais pa\u00edses da regi\u00e3o. Estes, mesmo com problemas estruturais de desigualdade e baixos investimentos em \u201ccapital humano\u201d, estariam ent\u00e3o se convertendo em modernas economias de mercado e democracias vigorosas<a href=\"#_ftn4\" name=\"_ftnref4\">[4]<\/a>.<\/p>\n<p>Todavia, a revolu\u00e7\u00e3o neoliberal implementada pelos ex-alunos de Becker perdeu muito (ou todo) do seu suposto brilho um quarto de s\u00e9culo depois daquela singela homenagem. Em 2019 e 2020, pelo menos at\u00e9 a eclos\u00e3o da primeira onda da pandemia da Covid-19, os chilenos foram maci\u00e7amente \u00e0s ruas <a href=\"https:\/\/www.bbc.com\/news\/topics\/c452lzylemmt\">protestar contra os efeitos colaterais de cinquenta anos de neoliberalismo<\/a>. A expectativa era de que uma nova gera\u00e7\u00e3o de lideran\u00e7as, agora mais alinhadas \u00e0 vontade da popula\u00e7\u00e3o e dispostas a remover os entulhos do neoliberalismo, promoveria um novo ciclo de prosperidade. Esta, por sua vez, seria alicer\u00e7ada em mais investimentos sociais e melhor distribui\u00e7\u00e3o de oportunidades no conjunto da sociedade, aos moldes do que apregoa Joseph Stiglitz, outro ganhador do pr\u00eamio Nobel em Economia, mas como posi\u00e7\u00f5es opostas \u00e0s da escola de Chicago.<\/p>\n<p>Em entrevista recente, Stiglitz afirmou que os governos de centro-esquerda se relevaram mais eficientes para gerir os desafios econ\u00f4micos do s\u00e9culo XXI. <a href=\"https:\/\/www.bbc.com\/portuguese\/articles\/c0dlj3nl1xwo\">Para ele, tais governos<\/a> \u201c&#8230; foram eleitos para criar um senso melhor de prosperidade compartilhada [uma outra forma de dizer crescimento inclusivo, que abrange a melhora de vida da parcela mais pobre da popula\u00e7\u00e3o] &#8230; em muitos sentidos, eles se tornaram melhores gestores da economia. Digo isso porque a economia do s\u00e9culo 21 \u00e9 baseada em inova\u00e7\u00e3o, competi\u00e7\u00e3o, alto n\u00edvel de capital humano e boa infraestrutura p\u00fablica.\u201d<\/p>\n<p>Para atingir o padr\u00e3o sugerido por Stiglitz, o Chile precisaria efetivamente mudar sua organiza\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica e social. No informe da OCDE \u201c<a href=\"https:\/\/www.oecd-ilibrary.org\/docserver\/soc_glance-2019-en.pdf?expires=1678196963&amp;id=id&amp;accname=guest&amp;checksum=372AF5A344575BF254BDE93A68DB5488\">Society at a Glance 2019<\/a>\u201d, constata-se que antes da onda de protestos, \u00be da popula\u00e7\u00e3o chilena considerava n\u00e3o receber do Estado a contrapartida justa pelos impostos pagos (p.69). Ademais, 80% entendia que os governos deveriam fazer mais para garantir sua seguran\u00e7a econ\u00f4mica e social (p.70). Tal insatisfa\u00e7\u00e3o ganha amparo nas estat\u00edsticas: enquanto os gastos sociais totais atingiram 20% do PIB na OCDE durante a d\u00e9cada de 2010, no Chile tal cifra foi de somente 13% (p. 104).<\/p>\n<p>Ap\u00f3s um primeiro ano marcado pela rejei\u00e7\u00e3o da proposta de Constitui\u00e7\u00e3o e uma importante perda de dinamismo econ\u00f4mico, com perspectivas de um resultado negativo em 2023 e de baixo crescimento at\u00e9 2025, Gabriel Boric ter\u00e1 pouco tempo para realizar sua agenda de transforma\u00e7\u00f5es e convencer a sociedade de que a nova esquerda chilena ter\u00e1 condi\u00e7\u00f5es de liderar o pa\u00eds. Sem conseguir aprovar sua reforma tribut\u00e1ria e, com isso, obter os recursos potenciais para suas pol\u00edticas sociais, amplia-se a chance de um mandato com muitos discursos fortes e poucos resultados concretos. Se isso vier a ocorrer n\u00e3o ser\u00e1 uma surpresa que emerja uma \u201cnova direita\u201d, que explore outras dimens\u00f5es da pol\u00edtica identit\u00e1ria para preservar a estrutura distributiva que favorece somente as elites.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a> Andr\u00e9s Velasco, que foi Ministro das Finan\u00e7as entre 2006 e 2010, no primeiro mandato de Michele Bachellet, <a href=\"https:\/\/www.wider.unu.edu\/sites\/default\/files\/RP2009-37.pdf\">resumiu assim a vis\u00e3o predominante nos anos 1990 e 2000<\/a>: \u201cThe Chilean development story of the last two-three decades is a mix of reasonable successes in the macro, growth and trade fronts but also of the failure to reduce chronic inequality of income and wealth. In addition, the current growth patterns can have considerable impacts on the environment, natural resources and energy demand. The Chilean development path of the last two decades combines rising GDP per person and increases in material welfare with productive modernization and integration to the world economy. At the same time, however, there are some unpleasant features of the development model: urban insecurity, rising crime, pollution, pressures on natural resources, congestion and social stratification in the access to education, health and pensions.\u201d (p.1)<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\">[2]<\/a> \u201cIn contrast to Norway and most developing economies at the time, Chile followed a literal version of \u201claissez-faire\u201d policy until the early 1980s with disastrous effects &#8230; Over 1970\u201390, it witnessed a sizable loss in terms of market share in manufacturing exports although it started from a relatively high position compared to other developing economies \u2026 Chiles manufacturing per capita grew at a meagre annual rate of 0.35 percent compared to more than 8 percent in Malaysia, for example\u2026 Chile\u2019s relatively steady real GDP growth and macro-stability, its productivity growth has lagged its peers. Chile\u2019s GDP per capita relative to that of the U.S. fluctuated in the range of about 20\u201330 percent since early 1960s until mid-2000s. This could be explained by its focus on natural resources and low sophistication sectors such as agroindustry in contrast to other natural resource producers such as Malaysia, Mexico and Indonesia. They have outpaced Chile by a large margin in terms of export sophistication for the past two decades. More striking, Chile\u2019s total factor productivity has stagnated since 1970.\u201d (<a href=\"https:\/\/www.imf.org\/en\/Publications\/WP\/Issues\/2019\/03\/26\/The-Return-of-the-Policy-That-Shall-Not-Be-Named-Principles-of-Industrial-Policy-46710\">The Return of the Policy that Shall Not Be Named: Principles of Industrial Policy<\/a>, IMF Working Paper No. 19\/74).<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref3\" name=\"_ftn3\">[3]<\/a> \u201cChile\u2019s economy since the return to democracy in 1990 has followed two different cycles: a dynamic one (1990-98) \u2500which had started in 1986\u2500, then a poor one. In the first it grew at 7.2% per annum (p.a.), while in the other (1998-2018) \u2500with \u201csuper-cycle\u201d of commodities, easy borrowing and all\u2500 at half that figure (3.7%). The same is true for income per capita (pc): 5.5% vs. 2.6%. The driver of growth also switched from productivity to employment: while the latter remained stable despite the GDP slowdown (2.5% and 2.3%), productivity collapsed from 4.6% to 1.3%\u201d (\u201cThe Chilean economy since the return to democracy in 1990\u201d p.2)<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref4\" name=\"_ftn4\">[4]<\/a> \u201cAlthough unions and older business families accustomed to special privileges stand ready to promote the old mercantilist policies should Latin economies falter, the changes initiated by the Chicago boys in Chile have spurred an economic and political revolution in Latin America that is unlikely to be reversed. Their teachers are proud of their richly deserved glory.\u201d.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Artigo de\u00a0Andr\u00e9 Moreira Cunha, professor do Departamento de Economia e Rela\u00e7\u00f5es Internacionais da UFRGS<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"fifu_image_url":"","fifu_image_alt":"","footnotes":"","_links_to":"","_links_to_target":""},"categories":[438],"tags":[445],"class_list":["post-29380","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-analise","tag-artigo"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/fce\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/29380","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/fce\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/fce\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/fce\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/fce\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=29380"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/fce\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/29380\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/fce\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=29380"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/fce\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=29380"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/fce\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=29380"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}