{"id":29597,"date":"2023-05-15T15:38:46","date_gmt":"2023-05-15T18:38:46","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ufrgs.br\/fce\/?p=29597"},"modified":"2023-05-15T15:38:46","modified_gmt":"2023-05-15T18:38:46","slug":"os-50-anos-da-teoria-economica-da-economia-da-familia-e-as-contribuicoes-de-gary-becker","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufrgs.br\/fce\/os-50-anos-da-teoria-economica-da-economia-da-familia-e-as-contribuicoes-de-gary-becker\/","title":{"rendered":"Os 50 anos da Teoria Econ\u00f4mica da Economia da Fam\u00edlia e as contribui\u00e7\u00f5es de Gary Becker"},"content":{"rendered":"<p><em>Por Gi\u00e1como Balbinotto Neto, professor do Departamento de Economia e Rela\u00e7\u00f5es Internacionais da UFRGS<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong><em>It all began with Gary Becker.<\/em> Cohen e Wrigth (2011, p.vii)<\/strong><\/p>\n<p>Este ano marca o 50\u00ba anivers\u00e1rio da publica\u00e7\u00e3o da obra seminal de Gary Becker, &#8220;A Teoria Econ\u00f4mica do Casamento&#8221;, publicado pela primeira vez em 1973, o artigo revolucionou a forma como os economistas pensam sobre a fam\u00edlia e as rela\u00e7\u00f5es interpessoais. Becker foi um dos primeiros economistas a aplicar a teoria econ\u00f4mica \u00e0 vida dom\u00e9stica, argumentando que as escolhas feitas pelos membros da fam\u00edlia podem ser entendidas como decis\u00f5es econ\u00f4micas. Ele postulou que os indiv\u00edduos agem de forma racional e buscam maximizar sua utilidade em todas as \u00e1reas de suas vidas, incluindo o casamento e o div\u00f3rcio.<\/p>\n<p>A\u00a0 an\u00e1lise econ\u00f4mica\u00a0 do\u00a0 casamento\u00a0 e\u00a0 do\u00a0 div\u00f3rcio\u00a0 surge\u00a0 e\u00a0 se desenvolve\u00a0 principalmente a partir da primeira metade dos anos 1970, em torno dos trabalhos\u00a0 seminais de\u00a0 Gary Becker\u00a0 (1973,1974) [Pr\u00eamio Nobel de Economia], quando\u00a0 os\u00a0 economistas\u00a0 passam a utilizar a an\u00e1lise econ\u00f4mica para explicar a fam\u00edlia,\u00a0 procurando\u00a0 analisar, a partir de um enfoque essencialmente econ\u00f4mico, por que as pessoas se casam, com quem\u00a0 se\u00a0 casam, quando se casam, se vale a pena casar-se, quantos filhos ter, quando e por que se separam, os aspectos econ\u00f4micos do namoro, do noivado e do amor, as formas de casamento, bem como as implica\u00e7\u00f5es de tais fatos sobre o crescimento populacional, as taxas de crescimento econ\u00f4mico, a demanda\u00a0 por beb\u00eas, por exemplo, entre outros t\u00f3picos.<\/p>\n<p>Segundo Becker (1973, p.814; 1988, p. 1), a abordagem econ\u00f4mica da fam\u00edlia contribui para explicar uma s\u00e9rie de fatos, como o decl\u00ednio das taxas de nascimento, a r\u00e1pida expans\u00e3o da participa\u00e7\u00e3o da for\u00e7a de trabalho feminina no mercado de trabalho, o explosivo avan\u00e7o nas taxas de div\u00f3rcio e as implica\u00e7\u00f5es sobre o crescimento econ\u00f4mico. Al\u00e9m disso, este novo enfoque, tamb\u00e9m chamado \u201ca nova economia da fam\u00edlia\u201d (cf.\u00a0 Blaug,1980, p.297 e Ekelund e Hebert,1990, p.612), n\u00e3o seria apenas uma aplica\u00e7\u00e3o da teoria microecon\u00f4mica tradicional a quest\u00f5es antes vistas principalmente pela sociologia, antropologia e psicologia social, mas tamb\u00e9m um novo enfoque sobre o comportamento racional do consumidor.<\/p>\n<p>Segundo McKenzie e Tullock (1980, p.l39), o enfoque econ\u00f4mico do casamento e do div\u00f3rcio encara a fam\u00edlia como uma unidade de produ\u00e7\u00e3o, como uma empresa que utiliza determinados insumos &#8211; que s\u00e3o comprados tanto dentro como fora dos mercados para satisfazer as necessidades dos seus membros. Ainda segundo eles &#8211; &#8220;o objetivo expl\u00edcito desta abordagem \u00e9 o de destacar a import\u00e2ncia do contrato matrimonial, dos problemas do div\u00f3rcio e das implica\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas do amor, bem como dos princ\u00edpios organizativos da fam\u00edlia.&#8221;<\/p>\n<p>Uma das principais contribui\u00e7\u00f5es de Gary Becker para a teoria do casamento foi sua an\u00e1lise das fun\u00e7\u00f5es do casamento. Ele argumentou que, al\u00e9m do amor e da atra\u00e7\u00e3o, o casamento desempenha fun\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas, como a produ\u00e7\u00e3o e o consumo conjugal de bens e servi\u00e7os, a divis\u00e3o do trabalho dom\u00e9stico e a cria\u00e7\u00e3o de crian\u00e7as. Do ponto de vista econ\u00f4mico, o casamento pode visto como uma rela\u00e7\u00e3o contratual estabelecida entre um homem e uma mulher (casamento monog\u00e2mico), entre um homem e duas ou mais mulheres (casamento polig\u00eanico), entre uma mulher e dois ou mais homens (casamento poli\u00e2ndrico) ou mesmo entre indiv\u00edduos do mesmo sexo (casamento homossexual). Mesmo que tais contratos n\u00e3o estejam &#8220;escritos\u201d, eles s\u00e3o fundamentais em toda e qualquer sociedade, pois como salientou Stigler (I991, p.l97), eles forneceriam a base institucional para a perpetua\u00e7\u00e3o da ra\u00e7a humana.<\/p>\n<p>Para Becker (1973,1981), o casamento pode ser definido como um contrato de longo prazo entre um homem e uma mulher (no caso do casamento monog\u00e2mico), o qual implica que eles ir\u00e3o viver juntos e dividir\u00e3o a mesma casa. Al\u00e9m disso, ele assume que o casamento ir\u00e1 ocorrer se, e somente se, ambos estiverem numa situa\u00e7\u00e3o melhor, isto \u00e9, se aumentarem sua renda e utilidade total (cf. Becker, 1981, p.62-66 e Freiden, 1974). Entretanto, como ele ressalta, tal decis\u00e3o baseia-se na renda ou utilidade total esperada, j\u00e1 que o futuro n\u00e3o \u00e9 conhecido com certeza.<\/p>\n<p>McKenzie\u00a0 e\u00a0 Tullock\u00a0 (1980)\u00a0 tamb\u00e9m\u00a0 definem\u00a0 o\u00a0 casamento\u00a0 em\u00a0 termos\u00a0 contratuais\u00a0 entre\u00a0 os\u00a0 membros\u00a0 do\u00a0 mesmo\u00a0 sexo\u00a0 ou\u00a0 de\u00a0 sexos\u00a0 diferentes,\u00a0 onde\u00a0 \u00e9\u00a0 assumido, impl\u00edcita ou explicitamente, que ambas as partes aceitem as cl\u00e1usulas do contrato e que o respeitem, bem como se estabele\u00e7am\u00a0 regras que reger\u00e3o as decis\u00f5es familiares\u00a0 e\u00a0 as\u00a0 poss\u00edveis\u00a0 modifica\u00e7\u00f5es\u00a0 no\u00a0 contrato,\u00a0 visto\u00a0 que\u00a0 n\u00e3o \u00e9\u00a0 poss\u00edvel prever todas as quest\u00f5es referentes \u00e0 vida familiar que ir\u00e3o ocorrer durante o casamento.<\/p>\n<p>Gary Becker destacou que as escolhas dos indiv\u00edduos com rela\u00e7\u00e3o \u00e0 forma\u00e7\u00e3o (casamento) ou dissolu\u00e7\u00e3o da fam\u00edlia (div\u00f3rcio) deveriam ser consideradas como sendo decis\u00f5es explicitas tomadas por agentes racionais e relacionadas \u00e0 fam\u00edlia, sendo esta descrita como sendo uma unidade econ\u00f4mica (<em>household economy<\/em>). Outro ponto importante foi que neste processo de forma\u00e7\u00e3o de uma fam\u00edlia, tanto os homens como as mulheres competem entre eles por uma esposa ou esposo, sendo que o resultado destas intera\u00e7\u00f5es pode ser analisado em termos de um equil\u00edbrio [cf. Chiappori, 2015, p.8].<\/p>\n<p>Segundo Browning, Chiappori e Weiss (2014, p.58), do ponto de vista econ\u00f4mico, o casamento seria um tipo de parceria (<em>paternship<\/em>) para a produ\u00e7\u00e3o de bens e consumo conjuntos. Contudo, neste caso a produ\u00e7\u00e3o e o consumo s\u00e3o definidos de modo amplo a fim de incluir bens e servi\u00e7os como companhia e filhos. Al\u00e9m disso, no casamento s\u00e3o gerados ganhos, tanto econ\u00f4micos como emocionais.<\/p>\n<p>A teoria econ\u00f4mica da busca do c\u00f4njuge e do namoro est\u00e1 baseada fundamentalmente na teoria econ\u00f4mica da informa\u00e7\u00e3o, como desenvolvida por Stigler (1961). Vejamos primeiro a quest\u00e3o da busca do c\u00f4njuge.\u00a0 Para Becker (1974, p.21) &#8211; &#8220;a decis\u00e3o de casar-se pode ser vista inicialmente como uma atitude de uma pessoa de quando entrar no mercado de casamento e procurar o c\u00f4njuge apropriado\u201d.\u00a0 Dada a decis\u00e3o de entrar no mercado de casamento, ela passar\u00e1 a procurar o c\u00f4njuge que considere ideal, dadas as suas limita\u00e7\u00f5es de recursos e tempo de busca. Como \u00e9 assumido que os indiv\u00edduos s\u00e3o racionais, a procura ir\u00e1 continuar at\u00e9 que o valor esperado de qualquer melhora com rela\u00e7\u00e3o ao par que possa encontrar n\u00e3o seja maior que os custos do seu tempo e de outros insumos gastos nesta procura adicional. Desta teoria econ\u00f4mica da busca do c\u00f4njuge derivam interessantes &#8220;insights&#8221;, entre os quais pode-se destacar os seguintes: (\u00ed) a procura ser\u00e1 mais longa quanto maiores forem os benef\u00edcios da procura adicional (cf.\u00a0 Becker, 1974, p.522); (ii) a procura ser\u00e1 mais longa quanto mais vari\u00e1veis forem os pretendentes potenciais devido aos ganhos esperados de uma experimenta\u00e7\u00e3o adicional. Isto implica que, <em>ceteris paribus,<\/em> o casamento tender\u00e1 a ser mais tarde em sociedades din\u00e2micas, m\u00f3veis e diversificadas, do que em sociedades est\u00e1ticas e homog\u00eaneas (cf.\u00a0 Becker, 1974, p.522); (iii) quanto mais raras forem as caracter\u00edsticas desejadas, mais altos tendem ser os custos da procura, para um dado benef\u00edcio e, portanto, mais tempo demorara a se encontrar o c\u00f4njuge considerado adequado (cf.\u00a0 Becker et alli, 1977, p.522); (iv) quanto maiores forem os benef\u00edcios do casamento, maiores ser\u00e3o os custos que os c\u00f4njuges estar\u00e3o dispostos a incorrer na sele\u00e7\u00e3o, o que implica que, quanto maiores forem os benef\u00edcios em termos de efici\u00eancia obtida na produ\u00e7\u00e3o familiar e quanto maior seja o &#8220;amor&#8221; que se sente pela pessoa com quem se casa, maiores ser\u00e3o os custos, em termos de tempo e esfor\u00e7o que um indiv\u00edduo dedicar\u00e1 \u00e0 busca. Isto n\u00e3o implica que n\u00e3o se cometam erros, mas somente que se incorrer\u00e1 em maiores custos para evit\u00e1-los (cf.\u00a0 McKenzie e Tullock, 1980, p.L51); (v) quanto maiores forem os custos e dificuldades para a obten\u00e7\u00e3o do div\u00f3rcio, maiores ser\u00e3o os custos incorridos na busca do c\u00f4njuge, pois a impossibilidade dele implica que a escolha equivocada lhe acarretar\u00e1 um custo muito maior do que no caso em que fosse poss\u00edvel a dissolu\u00e7\u00e3o (cf. Becker, 1974, p.22).<\/p>\n<p>Outro conceito-chave da teoria de Becker \u00e9 a ideia de &#8220;custo de oportunidade do tempo&#8221;. Ele argumentou que os indiv\u00edduos devem escolher como alocar seu tempo entre atividades remuneradas e n\u00e3o remuneradas, como cuidar da casa e da fam\u00edlia. Essas escolhas podem afetar o bem-estar e o sucesso econ\u00f4mico do indiv\u00edduo e da fam\u00edlia.<\/p>\n<p>Becker tamb\u00e9m desenvolveu a teoria da especializa\u00e7\u00e3o do casal, que afirma que os membros do casal se especializam em tarefas espec\u00edficas para aumentar a efici\u00eancia e a produtividade. Por exemplo, um dos membros pode se especializar em atividades remuneradas, enquanto o outro cuida das tarefas dom\u00e9sticas.<\/p>\n<p>A teoria econ\u00f4mica do casamento de Becker teve e tem um impacto significativo na economia, na sociologia e no direito de fam\u00edlia. Sua aplica\u00e7\u00e3o da teoria econ\u00f4mica \u00e0 vida dom\u00e9stica abriu novos caminhos para a pesquisa sobre a fam\u00edlia e as rela\u00e7\u00f5es interpessoais.<\/p>\n<p>A teoria econ\u00f4mica do div\u00f3rcio foi desenvolvida por Becker et ali (1977). Eles assumem que as pessoas se casam quando a utilidade esperada do casamento excede a utilidade esperada de permanecer solteiro. Assim, em decorr\u00eancia desta hip\u00f3tese, \u00e9 assumido que o casal se separa quando a utilidade esperada do div\u00f3rcio e de um poss\u00edvel casamento com outra pessoa for maior do que permanecer casada com a atual (cf.\u00a0 Becker, 1981, p.294-298).\u00a0 A teoria econ\u00f4mica do div\u00f3rcio \u00e9 desenvolvida dentro de uma estrutura estoc\u00e1stica onde est\u00e3o presentes a incerteza e a informa\u00e7\u00e3o incompleta.\u00a0 Segundo Becker et ali (1977, p. 1143), a incerteza est\u00e1 presente em todas as decis\u00f5es e, entre estas est\u00e1 o casamento. Mesmo depois de um namoro prolongado, as pessoas rec\u00e9m-casadas enfrentam uma tremenda incerteza sobre as suas necessidades e as de seu c\u00f4njuge, da capacidade de ficar juntos, da fecundidade etc. Assim, quando o div\u00f3rcio \u00e9 analisado dentro de uma estrutura estoc\u00e1stica. Ele seria fun\u00e7\u00e3o, basicamente, de dois fatores: (i) dos ganhos esperados do casamento e da (ii) distribni\u00e7\u00e3o de uma vari\u00e1vel que os descreva, os eventos inesperados; de modo que, quanto maiores forem os ganhos esperados do casamento e menor a vari\u00e2ncia dos ganhos inesperados, menor ser\u00e1 a probabilidade de ocorr\u00eancia do div\u00f3rcio. Deste modo, com a introdu\u00e7\u00e3o da incerteza e dos desvios entre as utilidades esperadas, eles reconciliam o fato de que h\u00e1 uma elevada utilidade esperada do casamento &#8220;ex-ante&#8221;, mas uma baixa utilidade esperada &#8220;ex-post&#8221;, quando da dissolu\u00e7\u00e3o dele.<\/p>\n<p>J\u00e1 McKenziee Tullock (1980, p. 141), enfatizam o fato de que o div\u00f3rcio pode ser resultado de um \u201cinvestimento insuficiente\u201d na rela\u00e7\u00e3o conjugal, tendo em vista uma avalia\u00e7\u00e3o equivocada dos recursos que deveriam ser investidos na sua continuidade, ou porque os custos de rever as cl\u00e1usulas do contrato de casamento n\u00e3o compensariam os custos de permanecer casado. Freiden (1974) destaca que o div\u00f3rcio poderia ser interpretado como uma tentativa de corre\u00e7\u00e3o de um &#8220;erro&#8221; cometido na escolha do c\u00f4njuge, estando esta corre\u00e7\u00e3o sujeita a determinados custos, podendo ser estes institucionais, religiosos, psicol\u00f3gicos e econ\u00f4micos.<\/p>\n<p>Os principais resultados da teoria econ\u00f4mica do div\u00f3rcio, seriam, segundo Becker et ali (1977, p.l 1.56-1157), os seguintes: (i) um aumento no valor esperado das vari\u00e1veis relacionadas na escolha do c\u00f4njuge, tais como a renda dos homens e a atratividade da mulher, reduz a probabilidade da ocorr\u00eancia do div\u00f3rcio e\/ou aumenta a probabilidade do recasamento se dissolvido. A raz\u00e3o disto decorre de que os ganhos esperados do casamento ir\u00e3o aumentar na ocorr\u00eancia daquelas vari\u00e1veis; (ii) um grande desvio entre o valor atual e o esperado, tais como as rendas e a fecundidade, aumenta a probabilidade do div\u00f3rcio. A raz\u00e3o \u00e9 que o ganho de se tomar divorciado ou casar-se com outra pessoa aumenta mais que os ganhos de permanecer casado com o mesmo c\u00f4njuge; (iii) um aumento na idade de se casar tende a reduzir a probabilidade da ocorr\u00eancia do div\u00f3rcio. A raz\u00e3o \u00e9 que, quando as pessoas se casam com uma idade considerada avan\u00e7ada, os custos de procura s\u00e3o reduzidos, estando as mesmas relativamente bem-informadas sobre si mesmas e sobre o mercado de casamentos; (iv) um aumento no capital espec\u00edfico ao casamento, como as crian\u00e7as e as pr\u00e1ticas sexuais do c\u00f4njuge reduzem a probabilidade de dissolu\u00e7\u00e3o do casamento. A raz\u00e3o \u00e9 que eles s\u00e3o considerados um capital espec\u00edfico tendo um valor menor em qualquer outro casamento ou quando divorciado; (v) uma grande diferen\u00e7a entre as caracter\u00edsticas dos c\u00f4njuges, tais como intelig\u00eancia, classe social, religi\u00e3o e ra\u00e7a, aumentam a probabilidade de ocorr\u00eancia do div\u00f3rcio e diminuem a probabilidade de recasamento quando divorciado. A raz\u00e3o \u00e9 que tais diferen\u00e7as tende a reduzir os ganhos do casamento; (vi) a probabilidade do div\u00f3rcio tende a declinar com a dura\u00e7\u00e3o do casamento.\u00a0 A raz\u00e3o \u00e9 que o capital espec\u00edfico ao casamento aumenta com a dura\u00e7\u00e3o dele.<\/p>\n<p>Assim, neste ano em que comemoramos os 50 anos da obra seminal de Gary Becker, podemos ter um perspectiva ampla de sua relev\u00e2ncia em termos te\u00f3ricos, emp\u00edricos e para a formula\u00e7\u00e3o de pol\u00edticas p\u00fablicas para a economia e a sociedade contempor\u00e2nea. Al\u00e9m disso, as teorias econ\u00f4micas do casamento, do div\u00f3rcio e do namoro de Gary Becker constituem numa uma demonstra\u00e7\u00e3o da aplicabilidade da teoria econ\u00f4mica a todas as \u00e1reas da vida. Seu legado nos lembra que, mesmo nas rela\u00e7\u00f5es interpessoais, a tomada de decis\u00f5es \u00e9 baseada em escolhas racionais e no desejo de maximizar a utilidade por parte dos agentes envolvidos.<\/p>\n<p>Passados 50 anos de sua publica\u00e7\u00e3o, vemos que o impacto e a relev\u00e2ncia da Teoria Econ\u00f4mica da Fam\u00edlia na Economia s\u00e3o significativos, constituindo-se num campo de pesquisa progressivo, tanto em termos te\u00f3ricos como emp\u00edrico e que fundamenta pol\u00edticas p\u00fablicas. Ela mudou, de forma radical, a forma como os economistas e outros cientistas sociais pensam e veem a fam\u00edlia e a import\u00e2ncia da tomada de decis\u00e3o dentro delas. Ela tamb\u00e9m nos ajuda a informar pol\u00edticas p\u00fablicas relacionados a quest\u00f5es sobre o div\u00f3rcio, cuidados infantis e licen\u00e7as parentais. Ela constitui-se numa contribui\u00e7\u00e3o original e valiosa para a teoria econ\u00f4mica sendo uma parte importante do comportamento econ\u00f4mico, que at\u00e9 os anos 1970 era grandemente negligenciada.<\/p>\n<p>Por fim, como destacado por Chiappori (2015, p.10), os trabalhos\u00a0 de Gary Becker sobre a economia da fam\u00edlia abriram uma nova dire\u00e7\u00e3o em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s pesquisas, tanto te\u00f3rica como emp\u00edrica, e que tem se mantido ativa desde ent\u00e3o. Quando vista em retrospecto, como estamos fazendo aqui, revendo a sua evolu\u00e7\u00e3o nos \u00faltimos 50 anos, vemos que Becker foi um vision\u00e1rio que abriu uma nova \u00e1rea de pesquisa, tal qual ele fez em outras \u00e1reas (discrimina\u00e7\u00e3o, capital humano, fertilidade, crime, sa\u00fade, transplantes). Ele colocou a economia da fam\u00edlia no <em>core<\/em> da an\u00e1lise econ\u00f4mica [Chiappori (2015, p.7)].<\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><strong>Refer\u00eancias <\/strong><\/p>\n<p>Becker, Gary (1973). A Theory of Marriage: Part I. Journal of Political Economy, 81 (4), July\u2013August, 813\u201346<br \/>\n___________________. (1974). A Theory of Marriage: Part II. Journal of Political Economy, 82 (2, Part 2), March\u2013April, S11\u2013S26.<\/p>\n<p>_____________________. (1981). A Treatise on the Family.Cambridge, Harvard University Press.<\/p>\n<p>____________________. (1998). Family. In: Eatwell, J.; Milgate, M e Newman, P. The New Palgrave Dictionary of Economics. London, MacMillan Press Limited.<\/p>\n<p>_____________________. (1992). The Economic Way of Looking at Life. Nobel Lecture, December 9, 1992. [https:\/\/www.nobelprize.org\/uploads\/2018\/06\/becker-lecture.pdf ].<\/p>\n<p>Browning, M., P-A Chiappori and Y. Weiss (2014). 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