{"id":3015,"date":"2015-12-18T12:25:25","date_gmt":"2015-12-18T15:25:25","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ufrgs.br\/fce\/?p=3015"},"modified":"2017-09-21T16:34:42","modified_gmt":"2017-09-21T19:34:42","slug":"acordao-interoceanico","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufrgs.br\/fce\/acordao-interoceanico\/","title":{"rendered":"&#8220;Acord\u00e3o&#8217; Interoce\u00e2nico"},"content":{"rendered":"<p>Os Estados Unidos e mais 12 pa\u00edses fecharam um acordo considerado hist\u00f3rico em termos de possibilidades de trocas comerciais e investimentos mundiais. O Tratado Transpac\u00edfico (TPP), que precisa ser chancelado pelos congressos nacionais dos pa\u00edses signat\u00e1rios, pode formar o maior bloco de com\u00e9rcio do mundo em termos de popula\u00e7\u00e3o consumidora e cifras. Estima-se que 40% da economia global esteja envolvida nesse gigantesco acordo comercial.<\/p>\n<p>Al\u00e9m de incluir a maior pot\u00eancia mundial, fazem parte do TPP Jap\u00e3o, Canad\u00e1, Austr\u00e1lia, Nova Zel\u00e2ndia, Cingapura, Vietn\u00e3, Brunei, Chile, M\u00e9xico e Peru. Com pa\u00edses t\u00e3o distintos em termos de produ\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica ou de oferta de produtos prim\u00e1rios e manufaturados, estima-se que uma nova divis\u00e3o internacional do trabalho pode se formar, cen\u00e1rio mundial em que determinados pa\u00edses assumem pap\u00e9is espec\u00edficos no contexto de globaliza\u00e7\u00e3o. Afora a quest\u00e3o comercial, o Tratado Transpac\u00edfico \u00e9 uma estrat\u00e9gia para diminuir a influ\u00eancia chinesa na \u00c1sia. Al\u00e9m disso, paira a d\u00favida sobre os reflexos de um bloco comercial de tamanha influ\u00eancia sobre economias como a do Brasil.<\/p>\n<p><strong>Expans\u00e3o liberal<\/strong><br \/>\nO Tratado Transpac\u00edfico n\u00e3o vai modificar quest\u00f5es fundamentais, como quais s\u00e3o as na\u00e7\u00f5es detentoras do desenvolvimento tecnol\u00f3gico e quais comercializam os produtos com os maiores valores agregados, conforme o professor de Economia e Rela\u00e7\u00f5es Internacionais da UFRGS Eduardo Filippi. Ele acredita que, nesse contexto, uma nova divis\u00e3o internacional do trabalho est\u00e1 prestes a ser instaurada no sistema comercial mundial.<\/p>\n<p>O arranjo produtivo conhecido como divis\u00e3o internacional do trabalho projetava a distribui\u00e7\u00e3o igualit\u00e1ria dos benef\u00edcios sociais e econ\u00f4micos entre os pa\u00edses, em um cen\u00e1rio em que n\u00e3o seria necess\u00e1ria a instala\u00e7\u00e3o de parques industriais em todo o planeta, conforme destaca o docente. A cren\u00e7a, por\u00e9m, n\u00e3o se concretizou. Apesar disso, um acordo das propor\u00e7\u00f5es do Tratado Transpac\u00edfico mostra a disposi\u00e7\u00e3o dos signat\u00e1rios de refor\u00e7ar seu papel, seja de criadores de tecnologias na \u00e1rea da rob\u00f3tica, seja de produtores de min\u00e9rio de ferro.<br \/>\n\u201cA nova divis\u00e3o do trabalho est\u00e1 baseada no refor\u00e7o das vantagens comparativas de cada um dos pa\u00edses. O instrumento para essas trocas comerciais ser\u00e1 o estabelecimento de umaTarifa Externa Comum (TEC), que vai tornar as trocas muito mais f\u00e1ceis entre os parceiros do Tratado Transpac\u00edfico. A\u00ed vem a d\u00favida sobre como pa\u00edses como o Brasil podem se beneficiar ou n\u00e3o com essas trocas\u201d.<\/p>\n<p>O docente destaca que, al\u00e9m de conter 40% do PIB mundial, o TPP fortalece importantes alian\u00e7as comerciais como a Associa\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es do Sudeste Asi\u00e1tico (Asean) e a Alian\u00e7a do Pac\u00edfico, que re\u00fane Chile, Col\u00f4mbia, M\u00e9xico e Peru. \u201cEssa nova alian\u00e7a transpac\u00edfica \u00e9 um alargamento da Asean e da Alian\u00e7a do Pac\u00edfico, o que vem ao encontro dos interesses norte-americanos de criar uma economia liberal e fazer com que o eixo de atua\u00e7\u00e3o se d\u00ea com essas na\u00e7\u00f5es voltadas ao Pac\u00edfico. Quando vemos a hist\u00f3ria da Am\u00e9rica Latina, o Chile sempre cresceu de costas para o nosso continente e sempre esteve muito voltado para a \u00c1sia. Ainda temos de considerar a Col\u00f4mbia com suas particularidades dom\u00e9sticas (como a interven\u00e7\u00e3o armada dos americanos no combate \u00e0s drogas) e as animosidades com o Equador e a Venezuela. O TPP \u00e9 uma via aberta, uma freeway de trocas e servi\u00e7os\u201d, destaca Filippi.<\/p>\n<p><strong>Cerco \u00e0 Muralha da China<\/strong><br \/>\nO Tratado Transpac\u00edfico tamb\u00e9m \u00e9 uma tentativa estadunidense de conter a expans\u00e3o e hegemonia da China na \u00c1sia. Mestre em Rela\u00e7\u00f5es Internacionais pela UFRJ, Vitor Vieira destaca que os Estados Unidos perderam influ\u00eancia entre os Tigres Asi\u00e1ticos e agora lutam para retom\u00e1-la. \u201cAs crises dos anos 90 fizeram com que os americanos perdessem espa\u00e7o de influ\u00eancia no continente. Quando quebraram as economias asi\u00e1ticas, os bancos internacionais come\u00e7aram a sair desses pa\u00edses, causando reflexos \u00e0 economia americana. Como se tratava de uma crise de confian\u00e7a coletiva sobre os emergentes, os EUA n\u00e3o tinham como financiar a reabilita\u00e7\u00e3o p\u00f3s-crise. Com essa fase j\u00e1 no passado, o TPP \u00e9 uma tentativa de retomar influ\u00eancia econ\u00f4mica americana na regi\u00e3o\u201d, considera.<\/p>\n<p>A Rep\u00fablica Popular da China deu impulso \u00e0 sua expans\u00e3o econ\u00f4mica a partir dos anos 2000 e hoje \u00e9 a principal parceira comercial de pa\u00edses como o Brasil e disputa com o Canad\u00e1 o primeiro lugar em trocas comerciais com os Estados Unidos. O governo de Pequim apostou na integra\u00e7\u00e3o regional e multilateral nos \u00faltimos anos e j\u00e1 faz parte de dez acordos de livre com\u00e9rcio.<\/p>\n<p>Quando criada, no in\u00edcio dos anos 1990, a Coopera\u00e7\u00e3o Econ\u00f4mica \u00c1sia-Pac\u00edfico (APEC) j\u00e1 tinha um vi\u00e9s de tentar conter o gigante asi\u00e1tico. Aquela foi uma tentativa de um Jap\u00e3o que perdia espa\u00e7o para o pa\u00eds comunista. Por\u00e9m, o governo chin\u00eas conseguiu se inserir na APEC e est\u00e1 liderando o bloco que re\u00fane na\u00e7\u00f5es que tamb\u00e9m est\u00e3o no TPP. \u201cNa gest\u00e3o Xi Jinping, a partir de 2013, esse bloco comercial avan\u00e7ou nas negocia\u00e7\u00f5es para o estabelecimento de uma \u00c1rea de Livre Com\u00e9rcio \u00c1sia-Pac\u00edfico. Ou seja, a China vai continuar vendendo para os pa\u00edses do Tratado Transpac\u00edfico, mas sem as regras determinadas pelo acordo firmado em 2015\u201d, destaca Vitor Vieira.<\/p>\n<p>Apesar dessa jogada chinesa, os 12 pa\u00edses que aderiram ao bloco ter\u00e3o aproximadamente 18 mil impostos anulados entre os membros, assim como foram estabelecidas normas ambientais e sobre condi\u00e7\u00f5es de trabalho que implicam perdas diretas para os chineses. O economista e diplomata Marcos Troyjo, no entanto, destaca que o governo de Pequim est\u00e1 se transformando em uma China 2.0.<\/p>\n<p>Essa nova proje\u00e7\u00e3o da na\u00e7\u00e3o chinesa est\u00e1 baseada nos investimentos em infraestrutura realizados em pa\u00edses da \u00c1frica, Am\u00e9rica Latina e sudeste asi\u00e1tico. Al\u00e9m disso, o pa\u00eds est\u00e1 \u00e0 frente de institui\u00e7\u00f5es como o Banco dos BRICS e o Banco de Investimento Asi\u00e1tico como forma de competir com o Banco Mundial, liderado pelos EUA. \u201cSe a China vai sofrer de um lado com as normas do TPP quanto \u00e0 propriedade intelectual, proibi\u00e7\u00e3o de trabalho infantil e normas mais r\u00edgidas quanto \u00e0 quest\u00e3o ambiental, por outro a China 2.0 est\u00e1 especializando sua economia com novos talentos para uma ind\u00fastria de tecnologia e valor agregado. A China ainda \u00e9 competitiva em escala e infraestrutura log\u00edstica.\u201d<\/p>\n<p><strong>E o Brasil?<\/strong><br \/>\nAs primeiras an\u00e1lises a respeito dos impactos de um acordo da dimens\u00e3o do TPP sobre economias exportadoras de commodities n\u00e3o s\u00e3o nada positivas. Nesse xadrez mercadol\u00f3gico, o Brasil seria diretamente atingido. \u201cCertamente o setor exportador brasileiro vai perder competitividade para esses mercados. Vai ser natural que as frutas chilenas e as commodities minerais do Chile sejam compradas pelos parceiros do TPP como mais facilidade do que as frutas brasileiras\u201d, ressalta o professor de rela\u00e7\u00f5es internacionais da Columbia University Marcos Troyjo.<\/p>\n<p>O especialista ainda considera que esse ser\u00e1 mais um fator para a desindustrializa\u00e7\u00e3o do pa\u00eds. \u201cUma empresa da Alemanha, se investir no Brasil, ter\u00e1 um com\u00e9rcio limitado ao mercado interno brasileiro. J\u00e1 a instala\u00e7\u00e3o de uma planta no Peru vai permitir a venda de produtos para os Estados Unidos, Canad\u00e1, Chile. Enfim, o enforque ser\u00e1 global. O Brasil, portanto, n\u00e3o tem condi\u00e7\u00f5es de competir.\u201d<\/p>\n<p>Entretanto, as exporta\u00e7\u00f5es de commodities como soja n\u00e3o devem ser afetadas, conforme o professor Eduardo Filippi. \u201cN\u00e3o consigo ver a China preterindo o Brasil na compra de gr\u00e3os porque n\u00e3o h\u00e1 outro pa\u00eds que produza tanto. A China tem 1,4 bilh\u00e3o de bocas para alimentar; \u00e9, portanto, uma quest\u00e3o de seguran\u00e7a nacional para o governo de Pequim. Estamos falando de mercadorias sem processo industrial, cotadas pela Bolsa de Chicago, e pouco interessa de onde v\u00eam, mas que sejam baratas. N\u00e3o se pode abrir m\u00e3o do Brasil\u201d, sustenta. Em uma proje\u00e7\u00e3o de m\u00e9dio prazo, a economia brasileira deve manter o modelo exportador de gr\u00e3os.<\/p>\n<p><em>*Samantha Klein, jornalista <a href=\"https:\/\/twitter.com\/samklein\">@samklein<\/a><\/em><\/p>\n<p><em>*Reportagem publicada na edi\u00e7\u00e3o de novembro do Jornal da UFRGS<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Com\u00e9rcio \u2013 Tratado do Transpac\u00edfico abre possibilidades para uma nova divis\u00e3o internacional do trabalho <\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":3017,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"fifu_image_url":"","fifu_image_alt":"","footnotes":"","_links_to":"","_links_to_target":""},"categories":[4],"tags":[34,37,30,36,109,35],"class_list":["post-3015","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-noticias","tag-blocos-economicos","tag-comercio-internacional","tag-economia","tag-integracao","tag-relacoes-internacionais","tag-tpp"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/fce\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3015","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/fce\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/fce\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/fce\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/fce\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3015"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/fce\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3015\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/fce\/wp-json\/wp\/v2\/media\/3017"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/fce\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3015"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/fce\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3015"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/fce\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3015"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}