{"id":3221,"date":"2016-02-29T14:40:14","date_gmt":"2016-02-29T17:40:14","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ufrgs.br\/fce\/?p=3221"},"modified":"2025-12-11T09:56:49","modified_gmt":"2025-12-11T12:56:49","slug":"para-o-brasil-crescer-de-forma-sustentavel-exportar-deve-estar-no-plano","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufrgs.br\/fce\/para-o-brasil-crescer-de-forma-sustentavel-exportar-deve-estar-no-plano\/","title":{"rendered":"Para o Brasil crescer de forma sustent\u00e1vel, exportar deve estar no plano"},"content":{"rendered":"<p><em>Por H\u00e9lio Henkin<\/em><\/p>\n<p>Toda vez que a economia brasileira passa por dificuldades, as <strong>exporta\u00e7\u00f5es representam uma fonte potencial para apoiar a recupera\u00e7\u00e3o da atividade produtiva.<\/strong><em><strong>\u00a0<\/strong><\/em>Entretanto, o momento atual \u00e9 apropriado para refletir de forma mais ampla sobre a import\u00e2ncia das vendas externas do Brasil, n\u00e3o apenas como uma necessidade emergencial e ocasional, mas numa perspectiva de longo prazo para a economia do pa\u00eds.<\/p>\n<p>Em diferentes f\u00f3runs de que participo, como o <strong><em>Conselho do Pr\u00eamio Exporta\u00e7\u00e3o do Rio Grande do Sul<\/em> <\/strong>e o <strong><em>Conselho de Com\u00e9rcio Exterior da FIERGS<\/em><\/strong>, h\u00e1 uma persistente e hist\u00f3rica preocupa\u00e7\u00e3o com a quest\u00e3o da exporta\u00e7\u00e3o e das condi\u00e7\u00f5es competitivas das empresas brasileiras para disputar o mercado internacional. Apesar de todo o esfor\u00e7o e aten\u00e7\u00e3o ao tema, o Brasil n\u00e3o conseguiu estabelecer ao longo do tempo uma vis\u00e3o estrat\u00e9gica e cont\u00ednua capaz de ampliar o patamar de inser\u00e7\u00e3o externa da economia brasileira.<\/p>\n<p>Por isso, quero real\u00e7ar aqui a rela\u00e7\u00e3o entre a desejada trajet\u00f3ria de crescimento do PIB e da renda nacional e o desempenho das empresas brasileiras no mercado externo. Mais do que isto, procuro enfatizar que <strong>uma melhor performance exportadora \u00e9 condi\u00e7\u00e3o para um crescimento econ\u00f4mico mais vigoroso e sustent\u00e1vel para a economia brasileira, sem que se gere d\u00e9ficit no Balan\u00e7o de Pagamentos e alta volatilidade cambial.<\/strong><\/p>\n<p>Na s\u00e9rie hist\u00f3rica das contas externas do Brasil, desde o in\u00edcio do s\u00e9culo XX, h\u00e1 somente tr\u00eas per\u00edodos em que a balan\u00e7a de transa\u00e7\u00f5es correntes teve super\u00e1vit por mais de dois anos consecutivos: de 1930 a 1934, de 1941 a 1946 e de 2003 a 2007. De resto, ocorreram predominantemente resultados negativos.<\/p>\n<p>Com rela\u00e7\u00e3o ao Balan\u00e7o de Pagamentos de pa\u00edses em desenvolvimento, como o Brasil, o d\u00e9ficit em conta corrente tem usualmente a cobertura nas contas de capital e financeira, incluindo o ingresso de investimento direto estrangeiro, os chamados investimentos de portf\u00f3lio (de fundos estrangeiros) e os empr\u00e9stimos internacionais. Em geral, considera-se este financiamento do d\u00e9ficit em transa\u00e7\u00f5es correntes como um aporte de \u201cpoupan\u00e7a\u201d externa: ao mesmo tempo em que contribui para os investimentos necess\u00e1rios ao desenvolvimento do pa\u00eds, evita a escassez de c\u00e2mbio que pode advir do d\u00e9ficit em transa\u00e7\u00f5es correntes. Contudo, os investimentos diretos estrangeiros, os investimentos de portf\u00f3lio e os empr\u00e9stimos internacionais t\u00eam como contrapartida futura as remessas de dividendos e o pagamento de juros sobre t\u00edtulos de d\u00edvidas e contratos de empr\u00e9stimos externos.<\/p>\n<p>No caso brasileiro, estas contas tem sido persistentemente negativas, isto \u00e9, h\u00e1 remessas l\u00edquidas ao exterior. Mais do que isto, em valores absolutos, elas superam o saldo da balan\u00e7a comercial brasileira. O saldo negativo acumulado da remessa de dividendos e juros no per\u00edodo 2001-2014 foi <strong>35% superior<\/strong> ao saldo positivo acumulado da balan\u00e7a comercial de mercadorias. Se a esta conta somarmos a de servi\u00e7os, <strong>o saldo negativo acumulado no mesmo per\u00edodo atinge mais do que o dobro do saldo da balan\u00e7a comercial.<\/strong><\/p>\n<p>Um exemplo: no ano de 2014, o d\u00e9ficit na conta de servi\u00e7os e rendas no Brasil alcan\u00e7ou 89 bilh\u00f5es de d\u00f3lares, diante de 225 bilh\u00f5es de d\u00f3lares em exporta\u00e7\u00f5es. Isto significa que as exporta\u00e7\u00f5es brasileiras tendem a ser comprometidas com o pagamento de quase 40% de servi\u00e7os e rendas ao exterior. Sob este \u00e2ngulo, <strong>apenas 60% das exporta\u00e7\u00f5es podem ser destinadas a cobrir o valor das importa\u00e7\u00f5es de bens (mat\u00e9rias-primas, insumos, m\u00e1quinas, bens de consumo).<\/strong> O restante depende do ingresso de capital e empr\u00e9stimos para a sua cobertura cambial.<\/p>\n<p><strong>Portanto, para um dado n\u00edvel de exporta\u00e7\u00f5es, o aumento das importa\u00e7\u00f5es, que acompanha naturalmente o crescimento do PIB no pa\u00eds, requer uma amplia\u00e7\u00e3o do fluxo de capitais e de empr\u00e9stimos na conta de capital, para que tal crescimento seja sustent\u00e1vel e n\u00e3o seja interrompido por escassez de divisas.<\/strong><\/p>\n<p>S\u00f3 que, como os fluxos de capital e de empr\u00e9stimos criam o j\u00e1 citado comprometimento futuro na forma de remessa de dividendos e juros, n\u00e3o \u00e9 esta a melhor forma de assegurar a sustentabilidade do crescimento econ\u00f4mico sob o prisma do equil\u00edbrio do Balan\u00e7o de Pagamentos do pa\u00eds e de uma relativa estabilidade e disponibilidade de divisas (e sem comprometer a longo prazo um n\u00edvel prudente de reservas internacionais, e adequado \u00e0s recomenda\u00e7\u00f5es do Fundo Monet\u00e1rio Internacional).<\/p>\n<p><strong>A melhor forma de assegurar a sustentabilidade do crescimento econ\u00f4mico sob o ponto de vista das restri\u00e7\u00f5es das contas externas \u00e9 manter um crescimento vigoroso e relativamente est\u00e1vel das exporta\u00e7\u00f5es, evitando assim d\u00e9ficits muito elevados na balan\u00e7a de transa\u00e7\u00f5es correntes.<\/strong><\/p>\n<p>No caso brasileiro, a parte mais significativa do dinamismo das exporta\u00e7\u00f5es tem sido proveniente das vendas externas de produtos b\u00e1sicos (agropecu\u00e1rios e de extra\u00e7\u00e3o mineral). Em 2014, as exporta\u00e7\u00f5es deste grupo de produtos foi <strong>10 vezes superior<\/strong> \u00e0s de 1995, enquanto as exporta\u00e7\u00f5es de artigos industrializados atingiu em 2014 apenas <strong>3 vezes<\/strong>o valor de 1995.<\/p>\n<p><strong>Entre 1995-2014, a propor\u00e7\u00e3o de produtos b\u00e1sicos e semimanufaturados nas exporta\u00e7\u00f5es brasileiras aumentou de 43% para 61%, enquanto a propor\u00e7\u00e3o de industrializados caiu de 55% para 35%.<\/strong><\/p>\n<p>Se a performance brasileira nas exporta\u00e7\u00f5es de produtos b\u00e1sicos j\u00e1 \u00e9 din\u00e2mica e responde bem \u00e0 demanda externa, e se uma depend\u00eancia muito alta de movimentos de capitais para financiar o d\u00e9ficit de transa\u00e7\u00f5es correntes tem efeitos colaterais indesej\u00e1veis (como o aumento da remessa de lucros e dividendos e a volatilidade no mercado cambial), ent\u00e3o cabe fazer as seguintes perguntas:<\/p>\n<p><strong>1. Como assegurar um crescimento econ\u00f4mico mais vigoroso para a economia brasileira, sem que se gere o d\u00e9ficit no Balan\u00e7o de Pagamentos e a volatilidade cambial?<\/strong><\/p>\n<p><strong>2. Como evitar que o ajuste externo no Brasil ocorra predominantemente atrav\u00e9s da redu\u00e7\u00e3o das importa\u00e7\u00f5es, com resultado da desacelera\u00e7\u00e3o ou recess\u00e3o econ\u00f4mica, como tem ocorrido desde 2013 e se aprofunda no presente momento?<\/strong><\/p>\n<p>A resposta est\u00e1 na amplia\u00e7\u00e3o das exporta\u00e7\u00f5es em geral, quer em termos de crescimento mais elevado do valor exportado (o que, por si s\u00f3, j\u00e1 gera um est\u00edmulo \u00e0 atividade econ\u00f4mica e \u00e0 gera\u00e7\u00e3o de renda e emprego), quer em termos da participa\u00e7\u00e3o do Brasil nas exporta\u00e7\u00f5es mundiais \u2014 enquanto a participa\u00e7\u00e3o do Brasil no PIB mundial tem oscilado em torno de 3%, a participa\u00e7\u00e3o das exporta\u00e7\u00f5es brasileiras no total do fluxo mundial de exporta\u00e7\u00f5es tem ficado pouco acima de 1% ao longo dos \u00faltimos dez anos.<\/p>\n<p>No caso dos produtos agropecu\u00e1rios e dos min\u00e9rios, em que as exporta\u00e7\u00f5es do Brasil participam em torno de 2% das exporta\u00e7\u00f5es mundiais, \u00e9 necess\u00e1rio manter um ritmo de investimentos em infraestrutura para assegurar as condi\u00e7\u00f5es competitivas que complementam a capacidade produtiva e organizacional j\u00e1 demonstrada pelas empresas, produtores e institui\u00e7\u00f5es de pesquisa ligados a esses setores.<\/p>\n<p><strong>O maior desafio para o Brasil, contudo, \u00e9 ampliar as exporta\u00e7\u00f5es de produtos manufaturados.<\/strong><\/p>\n<p>Tudo indica que h\u00e1 um espa\u00e7o a ser ocupado. A participa\u00e7\u00e3o das exporta\u00e7\u00f5es brasileiras de itens industrializados tem ca\u00eddo ao longo dos \u00faltimos anos, oscilando em torno de<strong> 0,75%<\/strong>das exporta\u00e7\u00f5es mundiais de manufaturados. Enquanto a propor\u00e7\u00e3o desses produtos nas exporta\u00e7\u00f5es totais dos pa\u00edses mais desenvolvidos \u00e9 pr\u00f3xima a<em><strong> 70%,<\/strong><\/em> no Brasil ela \u00e9 pr\u00f3xima a <strong>35%<\/strong> do total! (dados de 2014).<\/p>\n<p>N\u00e3o se trata de uma tarefa f\u00e1cil. No front externo, h\u00e1 uma desacelera\u00e7\u00e3o do crescimento mundial. <strong>Todos<\/strong> os pa\u00edses buscam o mercado externo como alternativa e isso cria um desafio, em termos de concorr\u00eancia, muito maior. No front interno, tamb\u00e9m h\u00e1 fatores que afetam a competitividade da ind\u00fastria, desde a rela\u00e7\u00e3o c\u00e2mbio\/custo salarial at\u00e9 os problemas de log\u00edstica e transporte, entre tantos outros.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, existe a necessidade de um aprimoramento nas condi\u00e7\u00f5es produtivas e organizacionais das empresas e das articula\u00e7\u00f5es ao longo das cadeias produtivas.<\/p>\n<p><strong>As exporta\u00e7\u00f5es n\u00e3o podem ser uma rea\u00e7\u00e3o tempor\u00e1ria \u00e0 queda da demanda no mercado interno.<\/strong><\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em>Ao contr\u00e1rio, elas devem integrar um plano de crescimento das fabricantes de produtos industrializados, que permita a elas atingir escala de produ\u00e7\u00e3o mais vi\u00e1vel economicamente e tornar-se, portanto, mais competitivas no mercado internacional. Al\u00e9m disso, \u00e9 necess\u00e1rio posicionamento estrat\u00e9gico e continuidade do esfor\u00e7o exportador por parte dessas empresas.<\/p>\n<p><strong>O aumento das exporta\u00e7\u00f5es n\u00e3o \u00e9 uma resposta autom\u00e1tica \u00e0 desvaloriza\u00e7\u00e3o cambial, como mostra a experi\u00eancia brasileira. Assim como \u00e9 ilus\u00e3o pensar que a interven\u00e7\u00e3o estatal centralizada e baseada em subs\u00eddios propiciar\u00e1 o salto desejado na inser\u00e7\u00e3o externa.<\/strong><\/p>\n<p>Tampouco uma atitude laissez-faire possibilitar\u00e1 a supera\u00e7\u00e3o dos desafios complexos presentes na competi\u00e7\u00e3o internacional. Tal como ocorre na empresa contempor\u00e2nea, o fomento \u00e0s exporta\u00e7\u00f5es exige planejamento, coordena\u00e7\u00e3o e monitoramento. Sem a coordena\u00e7\u00e3o <strong>cont\u00ednua e eficiente<\/strong> entre a esfera p\u00fablica e privada, que aprimore as condi\u00e7\u00f5es de competitividade no pa\u00eds e, ao mesmo tempo, estimule decis\u00f5es de investimento que combinem compet\u00eancia organizacional e persist\u00eancia no esfor\u00e7o exportador das empresas, ser\u00e1 muito dif\u00edcil para o Brasil alcan\u00e7ar um n\u00edvel de inser\u00e7\u00e3o internacional proporcional ao peso do pa\u00eds na economia mundial. E, sem isso, maiores ser\u00e3o os obst\u00e1culos para o Brasil atingir o ritmo de crescimento econ\u00f4mico necess\u00e1rio \u00e0 melhoria do padr\u00e3o de vida de sua popula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Publicado originalmente no blog <a href=\"http:\/\/wp.clicrbs.com.br\/mundodosnegocios\/2016\/02\/27\/para-o-brasil-crescer-de-forma-sustentavel-exportar-deve-estar-no-plano\/?topo=52,1,1,,171,e171\" target=\"_blank\">Mundo dos Neg\u00f3cios<\/a> da R\u00e1dio Ga\u00facha<\/p>\n<p><em><strong>*H\u00e9lio Henkin \u00e9 Diretor da Faculdade de Ci\u00eancias Econ\u00f4micas da UFRGS e Coordenador do N\u00facleo de Tecnologia, Ind\u00fastria e Economia Internacional (NETIT\/UFRGS). Foi Diretor Superintendente e Diretor T\u00e9cnico do SEBRAE\/RS. \u00c9 membro do Conselho do Pr\u00eamio Exporta\u00e7\u00e3o RS e do Conselho de Com\u00e9rcio Exterior da FIERGS.<\/strong><\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por H\u00e9lio Henkin Toda vez que a economia brasileira passa por dificuldades, as exporta\u00e7\u00f5es representam uma fonte potencial para apoiar a recupera\u00e7\u00e3o da atividade produtiva.\u00a0Entretanto, o momento atual \u00e9 apropriado para refletir de forma mais ampla sobre a import\u00e2ncia das vendas externas do Brasil, n\u00e3o apenas como uma necessidade emergencial e ocasional, mas numa perspectiva de longo prazo para a economia do pa\u00eds. Em diferentes f\u00f3runs de que participo, como o Conselho do Pr\u00eamio Exporta\u00e7\u00e3o do Rio Grande do Sul e o Conselho de Com\u00e9rcio Exterior da FIERGS, h\u00e1 uma persistente e hist\u00f3rica preocupa\u00e7\u00e3o com a quest\u00e3o da exporta\u00e7\u00e3o e das condi\u00e7\u00f5es competitivas das empresas brasileiras para disputar o mercado internacional. Apesar de todo o esfor\u00e7o e aten\u00e7\u00e3o ao tema, o Brasil n\u00e3o conseguiu estabelecer ao longo do tempo uma vis\u00e3o estrat\u00e9gica e cont\u00ednua capaz de ampliar o patamar de inser\u00e7\u00e3o externa da economia brasileira. Por isso, quero real\u00e7ar aqui a rela\u00e7\u00e3o entre a desejada trajet\u00f3ria de crescimento do PIB e da renda nacional e o desempenho das empresas brasileiras no mercado externo. Mais do que isto, procuro enfatizar que uma melhor performance exportadora \u00e9 condi\u00e7\u00e3o para um crescimento econ\u00f4mico mais vigoroso e sustent\u00e1vel para a economia brasileira, sem que se gere d\u00e9ficit no Balan\u00e7o de Pagamentos e alta volatilidade cambial. Na s\u00e9rie hist\u00f3rica das contas externas do Brasil, desde o in\u00edcio do s\u00e9culo XX, h\u00e1 somente tr\u00eas per\u00edodos em que a balan\u00e7a de transa\u00e7\u00f5es correntes teve super\u00e1vit por mais de dois anos consecutivos: de 1930 a 1934, de 1941 a 1946 e de 2003 a 2007. De resto, ocorreram predominantemente resultados negativos. Com rela\u00e7\u00e3o ao Balan\u00e7o de Pagamentos de pa\u00edses em desenvolvimento, como o Brasil, o d\u00e9ficit em conta corrente tem usualmente a cobertura nas contas de capital e financeira, incluindo o ingresso de investimento direto estrangeiro, os chamados investimentos de portf\u00f3lio (de fundos estrangeiros) e os empr\u00e9stimos internacionais. Em geral, considera-se este financiamento do d\u00e9ficit em transa\u00e7\u00f5es correntes como um aporte de \u201cpoupan\u00e7a\u201d externa: ao mesmo tempo em que contribui para os investimentos necess\u00e1rios ao desenvolvimento do pa\u00eds, evita a escassez de c\u00e2mbio que pode advir do d\u00e9ficit em transa\u00e7\u00f5es correntes. Contudo, os investimentos diretos estrangeiros, os investimentos de portf\u00f3lio e os empr\u00e9stimos internacionais t\u00eam como contrapartida futura as remessas de dividendos e o pagamento de juros sobre t\u00edtulos de d\u00edvidas e contratos de empr\u00e9stimos externos. No caso brasileiro, estas contas tem sido persistentemente negativas, isto \u00e9, h\u00e1 remessas l\u00edquidas ao exterior. Mais do que isto, em valores absolutos, elas superam o saldo da balan\u00e7a comercial brasileira. O saldo negativo acumulado da remessa de dividendos e juros no per\u00edodo 2001-2014 foi 35% superior ao saldo positivo acumulado da balan\u00e7a comercial de mercadorias. Se a esta conta somarmos a de servi\u00e7os, o saldo negativo acumulado no mesmo per\u00edodo atinge mais do que o dobro do saldo da balan\u00e7a comercial. Um exemplo: no ano de 2014, o d\u00e9ficit na conta de servi\u00e7os e rendas no Brasil alcan\u00e7ou 89 bilh\u00f5es de d\u00f3lares, diante de 225 bilh\u00f5es de d\u00f3lares em exporta\u00e7\u00f5es. Isto significa que as exporta\u00e7\u00f5es brasileiras tendem a ser comprometidas com o pagamento de quase 40% de servi\u00e7os e rendas ao exterior. Sob este \u00e2ngulo, apenas 60% das exporta\u00e7\u00f5es podem ser destinadas a cobrir o valor das importa\u00e7\u00f5es de bens (mat\u00e9rias-primas, insumos, m\u00e1quinas, bens de consumo). O restante depende do ingresso de capital e empr\u00e9stimos para a sua cobertura cambial. Portanto, para um dado n\u00edvel de exporta\u00e7\u00f5es, o aumento das importa\u00e7\u00f5es, que acompanha naturalmente o crescimento do PIB no pa\u00eds, requer uma amplia\u00e7\u00e3o do fluxo de capitais e de empr\u00e9stimos na conta de capital, para que tal crescimento seja sustent\u00e1vel e n\u00e3o seja interrompido por escassez de divisas. S\u00f3 que, como os fluxos de capital e de empr\u00e9stimos criam o j\u00e1 citado comprometimento futuro na forma de remessa de dividendos e juros, n\u00e3o \u00e9 esta a melhor forma de assegurar a sustentabilidade do crescimento econ\u00f4mico sob o prisma do equil\u00edbrio do Balan\u00e7o de Pagamentos do pa\u00eds e de uma relativa estabilidade e disponibilidade de divisas (e sem comprometer a longo prazo um n\u00edvel prudente de reservas internacionais, e adequado \u00e0s recomenda\u00e7\u00f5es do Fundo Monet\u00e1rio Internacional). A melhor forma de assegurar a sustentabilidade do crescimento econ\u00f4mico sob o ponto de vista das restri\u00e7\u00f5es das contas externas \u00e9 manter um crescimento vigoroso e relativamente est\u00e1vel das exporta\u00e7\u00f5es, evitando assim d\u00e9ficits muito elevados na balan\u00e7a de transa\u00e7\u00f5es correntes. No caso brasileiro, a parte mais significativa do dinamismo das exporta\u00e7\u00f5es tem sido proveniente das vendas externas de produtos b\u00e1sicos (agropecu\u00e1rios e de extra\u00e7\u00e3o mineral). Em 2014, as exporta\u00e7\u00f5es deste grupo de produtos foi 10 vezes superior \u00e0s de 1995, enquanto as exporta\u00e7\u00f5es de artigos industrializados atingiu em 2014 apenas 3 vezeso valor de 1995. Entre 1995-2014, a propor\u00e7\u00e3o de produtos b\u00e1sicos e semimanufaturados nas exporta\u00e7\u00f5es brasileiras aumentou de 43% para 61%, enquanto a propor\u00e7\u00e3o de industrializados caiu de 55% para 35%. Se a performance brasileira nas exporta\u00e7\u00f5es de produtos b\u00e1sicos j\u00e1 \u00e9 din\u00e2mica e responde bem \u00e0 demanda externa, e se uma depend\u00eancia muito alta de movimentos de capitais para financiar o d\u00e9ficit de transa\u00e7\u00f5es correntes tem efeitos colaterais indesej\u00e1veis (como o aumento da remessa de lucros e dividendos e a volatilidade no mercado cambial), ent\u00e3o cabe fazer as seguintes perguntas: 1. Como assegurar um crescimento econ\u00f4mico mais vigoroso para a economia brasileira, sem que se gere o d\u00e9ficit no Balan\u00e7o de Pagamentos e a volatilidade cambial? 2. Como evitar que o ajuste externo no Brasil ocorra predominantemente atrav\u00e9s da redu\u00e7\u00e3o das importa\u00e7\u00f5es, com resultado da desacelera\u00e7\u00e3o ou recess\u00e3o econ\u00f4mica, como tem ocorrido desde 2013 e se aprofunda no presente momento? A resposta est\u00e1 na amplia\u00e7\u00e3o das exporta\u00e7\u00f5es em geral, quer em termos de crescimento mais elevado do valor exportado (o que, por si s\u00f3, j\u00e1 gera um est\u00edmulo \u00e0 atividade econ\u00f4mica e \u00e0 gera\u00e7\u00e3o de renda e emprego), quer em termos da participa\u00e7\u00e3o do Brasil nas exporta\u00e7\u00f5es mundiais \u2014 enquanto a participa\u00e7\u00e3o do Brasil no PIB mundial tem oscilado em torno de 3%, a participa\u00e7\u00e3o das exporta\u00e7\u00f5es brasileiras no total do fluxo mundial<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":3227,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"fifu_image_url":"","fifu_image_alt":"","footnotes":"","_links_to":"","_links_to_target":""},"categories":[4,10],"tags":[30,49,14],"class_list":["post-3221","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-noticias","category-opiniao","tag-economia","tag-economia-mundial","tag-fce"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/fce\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3221","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/fce\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/fce\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/fce\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/fce\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3221"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/fce\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3221\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":39318,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/fce\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3221\/revisions\/39318"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/fce\/wp-json\/wp\/v2\/media\/3227"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/fce\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3221"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/fce\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3221"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/fce\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3221"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}