{"id":40409,"date":"2026-04-06T10:51:01","date_gmt":"2026-04-06T13:51:01","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ufrgs.br\/fce\/?p=40409"},"modified":"2026-04-06T12:40:40","modified_gmt":"2026-04-06T15:40:40","slug":"os-50-anos-da-critica-de-lucas-1976","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufrgs.br\/fce\/os-50-anos-da-critica-de-lucas-1976\/","title":{"rendered":"Os  50 Anos da Cr\u00edtica  de Lucas (1976)"},"content":{"rendered":"<h3>Os 50 Anos da Cr\u00edtica de Lucas (1976)<\/h3>\n<p>Prof. Gi\u00e1como Balbinotto Neto,\u00a0PPGE\/UFRGS-EA<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Neste ano comemoramos os 50 anos de\u00a0 publica\u00e7\u00e3o de um dos mais importantes artigos\u00a0 de Economia do s\u00e9culo\u00a0 XX &#8211; <strong>&#8220;Econometric Policy Evaluation: A Critique&#8221;<\/strong> (conhecido como <strong>Lucas Critique<\/strong>) publicado no <em>Journal of Monetary Economics<\/em> (suplemento), Carnegie-Rochester Conference Series on Public Policy (1976). Este\u00a0 artigo tornou-se um dos marcos na macroeconomia moderna.<\/p>\n<p>Lucas (1976) argumentou que os modelos econom\u00e9tricos tradicionais usados para avalia\u00e7\u00e3o de pol\u00edticas p\u00fablicas (baseados em rela\u00e7\u00f5es hist\u00f3ricas) falham porque as decis\u00f5es dos agentes econ\u00f4micos mudam quando as regras de pol\u00edtica econ\u00f4mica se\u00a0 alteram o \u2013 invalidando, assim, as previs\u00f5es baseadas nos par\u00e2metros fixos dos modelos\u00a0 estimados. Esse trabalho foi fundamental para a revolu\u00e7\u00e3o da <strong>teoria das expectativas racionais<\/strong> e influenciou profundamente a nova macroeconomia cl\u00e1ssica (e o pr\u00f3prio Nobel de Lucas em 1995). Este artigo tornou-se um dos textos mais influentes \u2013 e disruptivos \u2013 da hist\u00f3ria da macroeconomia moderna. Conhecido mundialmente como <strong>Lucas Critique<\/strong>, o trabalho marcou uma ruptura profunda com a forma como pol\u00edticas econ\u00f4micas vinham sendo avaliadas at\u00e9 ent\u00e3o, alterando de maneira duradoura tanto a pesquisa acad\u00eamica quanto o desenho de pol\u00edticas p\u00fablicas.<\/p>\n<p>At\u00e9 meados dos anos 1970, a avalia\u00e7\u00e3o de pol\u00edticas macroecon\u00f4micas baseava-se majoritariamente em <strong>modelos econom\u00e9tricos estimados a partir de dados hist\u00f3ricos<\/strong>. A l\u00f3gica era simples: rela\u00e7\u00f5es observadas no passado, por\u00a0 exemplo \u2013 entre infla\u00e7\u00e3o, desemprego, produto e juros \u2013 poderiam ser projetadas para o futuro, permitindo, ent\u00e3o, simular os efeitos de novas pol\u00edticas monet\u00e1rias ou fiscais. Lucas (1976) demonstrou que essa abordagem era conceitualmente falha. O argumento central da cr\u00edtica de Lucas (1976) \u00e9 direto e poderoso: <strong>os par\u00e2metros desses modelos n\u00e3o s\u00e3o invariantes \u00e0 pol\u00edtica econ\u00f4mica<\/strong>. Quando as regras de pol\u00edtica mudam, os agentes econ\u00f4micos \u2013 consumidores, trabalhadores e empresas \u2013 <strong>ajustam seu comportamento<\/strong>, pois formam expectativas sobre o futuro de maneira racional. Assim, rela\u00e7\u00f5es estat\u00edsticas estimadas sob um determinado regime de pol\u00edtica deixam de valer, e\u00a0 assim, terem utilidade, quando esse regime de pol\u00edticas \u00e9 alterado. Em outras palavras, modelos baseados apenas em regularidades hist\u00f3ricas tornam-se incapazes de prever corretamente os efeitos de novas pol\u00edticas econ\u00f4mica. Essa percep\u00e7\u00e3o teve consequ\u00eancias profundas na\u00a0 formula\u00e7\u00e3o e implementa\u00e7\u00e3o de pol\u00edticas\u00a0 econ\u00f4micas.<\/p>\n<p>A <em>Lucas Critique<\/em> colocou em xeque, grande parte da macroeconomia keynesiana emp\u00edrica do p\u00f3s segunda guerra e impulsionou a chamada <strong>revolu\u00e7\u00e3o das expectativas racionais<\/strong>, da qual Lucas foi um dos principais arquitetos. Isso derrubou o paradigma keynesiano dominante dos grandes modelos macroeconom\u00e9tricos (como o Wharton ou o FRB-MIT) e pavimentou o caminho para a <strong>nova macroeconomia cl\u00e1ssica<\/strong> e, posteriormente, para os modelos <strong>DSGE<\/strong> (<em>Dynamic Stochastic General Equilibrium<\/em>), que dominam a pesquisa e a pr\u00e1tica de pol\u00edtica monet\u00e1ria at\u00e9 hoje.<\/p>\n<p>De acordo com a <em>Lucas Critique<\/em>, a previs\u00e3o de como a economia responder\u00e1 \u00e0s mudan\u00e7as na pol\u00edtica depende das expectativas dos agentes econ\u00f4micos, ou seja, dos seus comportamentos e rea\u00e7\u00f5es diante de novas informa\u00e7\u00f5es. Portanto, as pol\u00edticas econ\u00f4micas que eram efetivas no passado podem n\u00e3o funcionar da mesma forma no futuro, porque as expectativas dos agentes econ\u00f4micos mudam em resposta a novas pol\u00edticas.<\/p>\n<p>Centenas de milhares de cita\u00e7\u00f5es depois (o <em>paper<\/em> \u00e9 um dos mais referenciados na hist\u00f3ria da macroeconomia), a Lucas Critique tornou-se um conceito padr\u00e3o em qualquer curso avan\u00e7ado de macroeconomia. Ela influenciou diretamente o Nobel de Economia concedido a Lucas em 1995, quando a Academia Sueca destacou que ele &#8220;transformou a an\u00e1lise macroecon\u00f4mica e aprofundou nossa compreens\u00e3o da pol\u00edtica econ\u00f4mica&#8221; ao desenvolver e aplicar as expectativas racionais.<\/p>\n<p>Na pr\u00e1tica, a cr\u00edtica de Lucas (1976) moldou como bancos centrais operam: o Federal Reserve, o Banco Central Europeu e o Banco Central do Brasil adotam <em>frameworks <\/em>que incorporam expectativas <em>forward-looking<\/em> e evitam simula\u00e7\u00f5es ing\u00eanuas de &#8220;o que aconteceria se&#8230;&#8221;. Ela tamb\u00e9m explica por que pol\u00edticas anunciadas como &#8220;tempor\u00e1rias&#8221; podem falhar se os agentes as percebem como permanentes, e por que credibilidade e compromisso com regras (como metas de infla\u00e7\u00e3o) s\u00e3o cruciais.<\/p>\n<p>Se os fixadores de sal\u00e1rios acreditarem, por exemplo, que as autoridades monet\u00e1rias estariam comprometidas com uma infla\u00e7\u00e3o mais baixa, eles poderiam esperar que a infla\u00e7\u00e3o fosse mais baixa no futuro que no passado, assim, se eles reduzirem suas expectativas de infla\u00e7\u00e3o, teremos que a infla\u00e7\u00e3o efetiva diminuiria sem a necessidade de uma recess\u00e3o prolongada. A l\u00f3gica do argumento de Lucas (1976) destaca que, se os fixadores de sal\u00e1rio continuassem a formar expectativas de infla\u00e7\u00e3o com base na infla\u00e7\u00e3o do ano anterior, \u03d6e(t) = \u03d6 (t-1), o \u00fanico modo de reduzir a infla\u00e7\u00e3o seria aceitar um desemprego maior por algum tempo. No entanto, se fosse poss\u00edvel convencer os fixadores de sal\u00e1rios de que a infla\u00e7\u00e3o seria de fato menor do que no passado, eles diminuiriam as expectativas de infla\u00e7\u00e3o. Isso por sua vez, reduziria a infla\u00e7\u00e3o efetiva sem qualquer mudan\u00e7a na taxa de desemprego. A cr\u00edtica de Lucas (1976) afirma que n\u00e3o \u00e9 realista supor que os fixadores de sal\u00e1rio n\u00e3o considerariam mudan\u00e7as na pol\u00edtica ao formarem suas expectativas.<\/p>\n<p>Segundo Oliver Blanchard (2011), uma das implica\u00e7\u00f5es da teoria das expectativas racionais\u00a0 era de que os modelos macroecon\u00f4micos existentes n\u00e3o podiam ser usados para ajudar a formular a pol\u00edtica macroecon\u00f4mica. Embora esses modelos reconhecessem que as expectativas afetavam o comportamento, n\u00e3o incorporavam as expectativas de maneira explicita. A partir da cr\u00edtica de Lucas (1976) passou a ser exigido que os modelos macroecon\u00f4micos tivessem uma fundamenta\u00e7\u00e3o microecon\u00f4mica, incorporando as prefer\u00eancias, tecnologia e restri\u00e7\u00f5es expl\u00edcitas, de modo que seus par\u00e2metros permanecessem est\u00e1veis frente a mudan\u00e7as de pol\u00edtica econ\u00f4mica.<\/p>\n<p>O impacto acad\u00eamico da cr\u00edtica de Lucas (1976) foi imediato e duradouro. Ela pavimentou o caminho para o desenvolvimento da <strong>nova macroeconomia cl\u00e1ssica<\/strong>, influenciando posteriormente tamb\u00e9m modelos novo-keynesianos, como os modelos DSGE, que hoje dominam a an\u00e1lise macroecon\u00f4mica em bancos centrais e institui\u00e7\u00f5es internacionais. Mais do que uma disputa te\u00f3rica, o artigo redefiniu o padr\u00e3o de rigor exigido na avalia\u00e7\u00e3o de pol\u00edticas p\u00fablicas.<\/p>\n<p>N\u00e3o foi por acaso ent\u00e3o, que este artigo foi reconhecimento <strong>1995, quando Lucas. recebeu o Pr\u00eamio Nobel de Economia<\/strong>, em grande medida pelo conjunto de contribui\u00e7\u00f5es inauguradas por esse trabalho seminal. Segundo o Comit\u00ea do Pr\u00eamio Nobel &#8211; <em>A cr\u00edtica de Lucas teve uma influ\u00eancia profunda nas recomenda\u00e7\u00f5es de pol\u00edtica econ\u00f4mica. Mudan\u00e7as na pol\u00edtica econ\u00f4mica frequentemente produzem um resultado completamente diferente se os agentes adaptarem suas expectativas \u00e0 nova postura pol\u00edtica. Hoje em dia, ao avaliar as consequ\u00eancias de mudan\u00e7as nos regimes de pol\u00edtica econ\u00f4mica \u2013 por exemplo, um novo sistema de c\u00e2mbio, uma nova pol\u00edtica monet\u00e1ria, uma reforma tribut\u00e1ria ou novas regras para benef\u00edcios de desemprego \u2013 \u00e9 mais ou menos evidente considerar mudan\u00e7as no comportamento dos agentes econ\u00f4micos devido a expectativas revisadas.<\/em><\/p>\n<p>Cinco d\u00e9cadas depois, a <em>Lucas Critique<\/em> continua sendo leitura obrigat\u00f3ria e recomendada em cursos de macroeconomia avan\u00e7ada \u2013 e um lembrete inc\u00f4modo, por\u00e9m essencial, de que pol\u00edticas econ\u00f4micas n\u00e3o operam em um v\u00e1cuo estat\u00edstico, mas em uma economia habitada por agentes que aprendem, antecipam e reagem. Al\u00e9m disso, em um mundo de choques globais, e debates sobre regras vs. discricionariedade, a Cr\u00edtica de Lucas permanece sendo uma li\u00e7\u00e3o atemporal: economistas e <em>policy makers<\/em> n\u00e3o podem ignorar que as pessoas aprendem, antecipam e se adaptam. Ignorar isso n\u00e3o \u00e9 apenas um erro t\u00e9cnico \u2013 \u00e9 uma falha fundamental na previs\u00e3o e na formula\u00e7\u00e3o de pol\u00edticas econ\u00f4micas eficazes. O artigo de 1976 n\u00e3o foi apenas uma cr\u00edtica; foi o catalisador de uma revolu\u00e7\u00e3o metodol\u00f3gica que ainda define a macroeconomia contempor\u00e2nea.<\/p>\n<p>Em resumo, a <em>Lucas Critique <\/em>\u00e9 uma cr\u00edtica fundamental \u00e0 validade dos modelos econom\u00e9tricos e destaca a import\u00e2ncia das expectativas dos agentes econ\u00f4micos na formula\u00e7\u00e3o de pol\u00edticas econ\u00f4micas e na previs\u00e3o do comportamento futuro da economia. Sua leitura cont\u00ednua v\u00e1lida e inspiradora para todos aqueles economistas e formuladores de pol\u00edtica econ\u00f4mica e para os estudantes e pesquisadores de Economia.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Artigo de Gi\u00e1como Balbinotto Neto, docente do Departamento de Economia e Rela\u00e7\u00f5es Internacionais da FCE\/UFRGS<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":40415,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"fifu_image_url":"","fifu_image_alt":"","footnotes":"","_links_to":"","_links_to_target":""},"categories":[438],"tags":[],"class_list":["post-40409","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-analise"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/fce\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/40409","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/fce\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/fce\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/fce\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/fce\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=40409"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/fce\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/40409\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":40410,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/fce\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/40409\/revisions\/40410"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/fce\/wp-json\/wp\/v2\/media\/40415"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/fce\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=40409"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/fce\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=40409"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/fce\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=40409"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}