{"id":40514,"date":"2026-04-13T09:09:25","date_gmt":"2026-04-13T12:09:25","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ufrgs.br\/fce\/?p=40514"},"modified":"2026-04-13T09:09:25","modified_gmt":"2026-04-13T12:09:25","slug":"a-critica-que-venceu-e-o-sistema-que-ela-pariu","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufrgs.br\/fce\/a-critica-que-venceu-e-o-sistema-que-ela-pariu\/","title":{"rendered":"A cr\u00edtica que venceu e o sistema que ela pariu"},"content":{"rendered":"<p><em>Como a Cr\u00edtica de Lucas derrubou os modelos keynesianos ortodoxos e ajudou a construir uma nova forma de ignorar a instabilidade do mundo.<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>H\u00e1 ideias que fincam. Moldam, e por vezes limitam, a forma como passamos a enxergar o mundo.<br \/>\nA chamada Cr\u00edtica de Lucas foi uma dessas ideias.<br \/>\nDiscreta na forma. Demolidora no efeito.<\/p>\n<p>Disse algo simples. N\u00e3o se pode prever o comportamento de uma economia projetando o passado. Quando a pol\u00edtica muda, as pessoas reagem. Quando as pessoas reagem, os par\u00e2metros deixam de obedecer.<br \/>\nFoi o suficiente.<\/p>\n<p>Modelos ru\u00edram. Confian\u00e7as tamb\u00e9m. E, por um momento, a macroeconomia pareceu confrontada com algo que raramente aceita: a instabilidade do pr\u00f3prio objeto que pretende descrever.<\/p>\n<p>Hoje, meio s\u00e9culo depois, celebra-se essa cr\u00edtica.<br \/>\nMas h\u00e1 detalhes que costumam escapar.<\/p>\n<p>Lucas n\u00e3o fragilizou Keynes. Seu proj\u00e9til acertou outro alvo: os modelos da s\u00edntese neocl\u00e1ssica, no jarg\u00e3o de Paul Samuelson, uma constru\u00e7\u00e3o elegante que combinava elementos keynesianos com a disciplina da macroeconomia cl\u00e1ssica.<br \/>\nO que ruiu foi a cren\u00e7a na estabilidade dos par\u00e2metros dos modelos econom\u00e9tricos.<\/p>\n<p>A resposta veio r\u00e1pida e sofisticada.<br \/>\nSe os par\u00e2metros emp\u00edricos n\u00e3o s\u00e3o confi\u00e1veis, \u00e9 preciso buscar algo mais profundo: prefer\u00eancias, tecnologia, restri\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Ali nasce a promessa dos modelos DSGE.<br \/>\nUm mundo coerente. Internamente consistente. Fundado em decis\u00f5es racionais ao longo do tempo.<\/p>\n<p>Mas h\u00e1 um pre\u00e7o.<\/p>\n<p>As prefer\u00eancias tornam-se verdadeiras por constru\u00e7\u00e3o. E, uma vez fixadas, n\u00e3o se movem. O indiv\u00edduo n\u00e3o muda, mesmo quando o presente desaba. \u00c9 como se o Robinson de 20 anos pensasse e reagisse como o de 40.<br \/>\nO mundo se move. Esse par\u00e2metro n\u00e3o.<\/p>\n<p>Para escapar \u00e0 Cr\u00edtica de Lucas, o problema foi reorganizado.<br \/>\nSepararam-se os par\u00e2metros. Alguns poderiam variar. Outros foram elevados \u00e0 condi\u00e7\u00e3o de n\u00facleo est\u00e1vel, estrutural. Ali, sup\u00f5e-se, o comportamento n\u00e3o oscila. Apenas responde.<\/p>\n<p>Mas essa solu\u00e7\u00e3o talvez diga menos sobre o mundo do que sobre a necessidade de estabiliz\u00e1-lo.<\/p>\n<p>Se pol\u00edticas alteram incentivos, e incentivos reorganizam pr\u00e1ticas, n\u00e3o \u00e9 evidente que prefer\u00eancias, h\u00e1bitos e formas de projetar o futuro permane\u00e7am intactos. O que se convencionou chamar de estrutural pode at\u00e9 ser mais lento, mas n\u00e3o imune.<\/p>\n<p>Nesse caso, a Cr\u00edtica de Lucas n\u00e3o desaparece.<br \/>\nDesloca-se.<\/p>\n<p>J\u00e1 n\u00e3o incide sobre os par\u00e2metros vis\u00edveis, mas sobre aqueles que foram tornados invis\u00edveis pela pr\u00f3pria constru\u00e7\u00e3o do modelo.<br \/>\nA inquieta\u00e7\u00e3o permanece. Mudou de lugar.<\/p>\n<p>Porque, no limite, para que o modelo continue funcionando, algo precisa n\u00e3o reagir.<br \/>\nE \u00e9 justamente ali, onde nada deveria mudar, que a cr\u00edtica insiste.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o veio 2008.<\/p>\n<p>A crise chegou como chegam as coisas que n\u00e3o cabem nos modelos. Sem bater na porta.<br \/>\nE houve uma pausa.<\/p>\n<p>Enquanto isso, abordagens baseadas na consist\u00eancia entre estoques e fluxos, os modelos <em>stock-flow consistent<\/em>, j\u00e1 apontavam fragilidades: endividamento crescente, estruturas tensionadas, equil\u00edbrios que dependiam de continuar sendo o que j\u00e1 n\u00e3o eram. N\u00e3o era previs\u00e3o elegante. Era leitura estrutural.<\/p>\n<p>E ela estava l\u00e1.<\/p>\n<p>Robert Solow j\u00e1 havia alertado para o risco de uma macroeconomia elegante demais para um mundo que n\u00e3o se comporta assim. Na mesma dire\u00e7\u00e3o, David Romer percebeu o desconforto crescente: uma disciplina dividida entre modelos que funcionam no papel e evid\u00eancias que insistem em n\u00e3o caber neles.<\/p>\n<p>H\u00e1 uma fratura.<br \/>\nDe um lado, a coer\u00eancia exuberante para os convertidos.<br \/>\nDe outro, o mundo.<\/p>\n<p>Se os par\u00e2metros mudam quando a pol\u00edtica muda, isso ainda n\u00e3o \u00e9 o mais importante.<br \/>\nO mais importante \u00e9 que o sistema se transforma.<\/p>\n<p>E essa transforma\u00e7\u00e3o n\u00e3o ocorre apenas no plano das expectativas. Ela atravessa o jogo entre demanda e oferta e toda a estrutura produtiva. A oferta expande quando h\u00e1 investimento, mas o investimento depende da demanda; a demanda cresce com renda, que depende da produ\u00e7\u00e3o, que responde \u00e0 pr\u00f3pria expectativa de demanda.<\/p>\n<p>Um circuito imperfeito.<br \/>\nPor vezes virtuoso. Por vezes travado.<\/p>\n<p>Nesse mundo, a Cr\u00edtica de Lucas \u00e9 correta? Talvez. Mas \u00e9 insuficiente.<br \/>\nEla diz que os par\u00e2metros mudam.<br \/>\nMas h\u00e1 momentos em que \u00e9 a pr\u00f3pria economia que muda de forma mais profunda do que os modelos conseguem acompanhar.<\/p>\n<p>E, quando isso acontece, o modelo n\u00e3o erra apenas.<br \/>\nEle fica para tr\u00e1s.<\/p>\n<p>H\u00e1 ainda algo mais inc\u00f4modo.<\/p>\n<p>Enquanto a macroeconomia dominante aperfei\u00e7oava seus mecanismos de antecipa\u00e7\u00e3o, foi esvaziando aquilo que, em Keynes, era central: a demanda.<\/p>\n<p>Nos modelos, a economia tende a gravitar.<br \/>\nNa realidade, ela oscila, avan\u00e7a, regride, e, n\u00e3o raro, permanece aqu\u00e9m.<br \/>\nSem for\u00e7a autom\u00e1tica. Sem garantia de converg\u00eancia.<br \/>\nApenas funcionando, \u00e0s vezes por muito tempo, em um equil\u00edbrio que n\u00e3o equilibra nada.<\/p>\n<p>No fim, resta uma ironia estrutural.<\/p>\n<p>A cr\u00edtica de Lucas venceu. Talvez, por enquanto.<br \/>\nMas, ao vencer, ajudou a parir um sistema que precisou reconstruir a estabilidade em outro lugar.<\/p>\n<p>Sai a rigidez dos dados encapsulados nos par\u00e2metros econom\u00e9tricos.<br \/>\nEntra a rigidez das prefer\u00eancias.<br \/>\nSai a instabilidade observada.<br \/>\nEntra a estabilidade suposta.<\/p>\n<p>Seguimos assim.<\/p>\n<p>Celebramos a cr\u00edtica e contornamos suas consequ\u00eancias.<\/p>\n<p>Enquanto, com t\u00e9cnica e eleg\u00e2ncia, tentamos fazer caber em modelos bem alinhados um sistema que insiste em escapar.<\/p>\n<p>No fim, talvez nada seja infal\u00edvel em economia.<\/p>\n<p>Nem mesmo a cr\u00edtica que prometeu corrigir o mundo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Henrique Morrone<\/strong> \u00e9 economista e professor da UFRGS<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<hr \/>\n<p><em>As opini\u00f5es e ideias expressas neste texto s\u00e3o de responsabilidade do(a) autor(a) e n\u00e3o refletem, necessariamente, a posi\u00e7\u00e3o institucional desta Faculdade.<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Artigo de Henrique Morrone, docente do Departamento de Economia e Rela\u00e7\u00f5es Internacionais da FCE\/UFRGS<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":40516,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"fifu_image_url":"","fifu_image_alt":"","footnotes":"","_links_to":"","_links_to_target":""},"categories":[438],"tags":[],"class_list":["post-40514","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-analise"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/fce\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/40514","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/fce\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/fce\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/fce\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/fce\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=40514"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/fce\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/40514\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":40518,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/fce\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/40514\/revisions\/40518"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/fce\/wp-json\/wp\/v2\/media\/40516"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/fce\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=40514"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/fce\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=40514"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/fce\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=40514"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}