{"id":40698,"date":"2026-05-04T10:20:57","date_gmt":"2026-05-04T13:20:57","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ufrgs.br\/fce\/?p=40698"},"modified":"2026-05-04T13:25:47","modified_gmt":"2026-05-04T16:25:47","slug":"produzir-para-aprender-o-motor-oculto-do-crescimento-economico","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufrgs.br\/fce\/produzir-para-aprender-o-motor-oculto-do-crescimento-economico\/","title":{"rendered":"Produzir para aprender: o motor oculto do crescimento econ\u00f4mico"},"content":{"rendered":"<p><em>Por Prof. Giacomo Balbinotto Neto (PPGE\/UFRGS \u2013 EA)<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Por que algumas economias se tornam progressivamente mais produtivas \u00e0 medida que produzem mais, enquanto outras permanecem presas a trajet\u00f3rias de baixo crescimento? A resposta foi antecipada por Kenneth Arrow em 1962: produzir \u00e9, tamb\u00e9m, um processo de aprendizado.<\/p>\n<p>A ideia parece simples, mas representa uma inflex\u00e3o importante na teoria do crescimento. At\u00e9 ent\u00e3o, modelos neocl\u00e1ssicos, como o de Robert Solow, tratavam o progresso tecnol\u00f3gico como ex\u00f3geno \u2014 essencial para explicar o crescimento, mas sem uma origem econ\u00f4mica claramente identificada. Arrow altera esse paradigma ao mostrar que o pr\u00f3prio processo produtivo gera conhecimento.<\/p>\n<p>O mecanismo \u00e9 direto. \u00c0 medida que empresas acumulam experi\u00eancia, trabalhadores tornam-se mais eficientes, processos s\u00e3o aperfei\u00e7oados, erros diminuem e novas solu\u00e7\u00f5es t\u00e9cnicas emergem. O resultado \u00e9 a queda sistem\u00e1tica dos custos unit\u00e1rios \u2014 um fen\u00f4meno conhecido como <em>learning by doing<\/em>. Esse padr\u00e3o foi documentado empiricamente por Theodore Paul Wright na ind\u00fastria aeron\u00e1utica e, desde ent\u00e3o, replicado em diversos setores.<\/p>\n<p>O aspecto mais sofisticado da teoria est\u00e1 nas externalidades. O conhecimento gerado por uma firma n\u00e3o \u00e9 plenamente apropri\u00e1vel e se difunde para o restante da economia \u2014 por mobilidade de trabalhadores, imita\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica e intera\u00e7\u00f5es produtivas. Isso cria uma diverg\u00eancia entre retornos privados e sociais do investimento, levando a um n\u00edvel de investimento inferior ao socialmente desej\u00e1vel.<\/p>\n<p>As implica\u00e7\u00f5es s\u00e3o relevantes. No n\u00edvel da firma, prevalecem rendimentos decrescentes ao capital. No agregado, por\u00e9m, o aprendizado coletivo pode gerar retornos crescentes, uma vez que a produtividade depende da experi\u00eancia acumulada da economia. Essa intui\u00e7\u00e3o antecipa a teoria do crescimento end\u00f3geno, posteriormente desenvolvida por Paul Romer e Robert Lucas.<\/p>\n<p>O caso do Ford Modelo T \u00e9 emblem\u00e1tico. Entre 1909 e 1923, o pre\u00e7o do ve\u00edculo caiu de forma expressiva \u00e0 medida que a produ\u00e7\u00e3o aumentava, refletindo n\u00e3o apenas economias de escala, mas ganhos associados ao aprendizado cont\u00ednuo.<\/p>\n<p>A for\u00e7a dessa abordagem torna-se ainda mais clara quando observamos casos concretos. No Brasil, a experi\u00eancia da Embraer \u00e9 particularmente ilustrativa. A produ\u00e7\u00e3o do avi\u00e3o Bras\u00edlia (EM-120), nos anos 1980, revelou ganhos expressivos de produtividade \u00e0 medida que a produ\u00e7\u00e3o acumulada avan\u00e7ava. Estimativas econom\u00e9tricas indicam redu\u00e7\u00f5es significativas nas horas de trabalho por unidade, refletindo aprendizado organizacional, engenharia incremental e aperfei\u00e7oamento cont\u00ednuo dos processos produtivos.<\/p>\n<p>Esse aprendizado, contudo, n\u00e3o se restringe \u00e0 firma. Ele se difunde para fornecedores, engenheiros e para o sistema produtivo como um todo, ampliando seus efeitos sobre a produtividade agregada.<\/p>\n<p>Fen\u00f4meno semelhante ocorre na \u00e1rea da sa\u00fade. Hospitais e equipes m\u00e9dicas com maior volume de procedimentos tendem a apresentar melhores resultados cl\u00ednicos e maior efici\u00eancia operacional. Em cirurgias complexas \u2014 como transplantes ou procedimentos minimamente invasivos \u2014 a experi\u00eancia acumulada \u00e9 determinante para o desempenho. Aqui, o <em>learning by doing<\/em> n\u00e3o apenas reduz custos, mas melhora resultados e salva vidas.<\/p>\n<p>A atualidade da teoria \u00e9 evidente. Na energia solar, os custos ca\u00edram mais de 80% nas \u00faltimas d\u00e9cadas, em grande parte devido ao aprendizado associado \u00e0 expans\u00e3o da produ\u00e7\u00e3o. Na ind\u00fastria de semicondutores, a redu\u00e7\u00e3o de custos segue padr\u00f5es semelhantes. Na economia digital, plataformas aprendem continuamente com dados \u2014 e transformam esse aprendizado em vantagem competitiva.<\/p>\n<p>Esses elementos ajudam a explicar o retorno recente das pol\u00edticas industriais em economias avan\u00e7adas. Mais do que prote\u00e7\u00e3o, trata-se de acelerar processos de aprendizado que geram ganhos de produtividade de longo prazo.<\/p>\n<p>A contribui\u00e7\u00e3o de Arrow pode ser resumida de forma direta: crescimento econ\u00f4mico \u00e9, em grande medida, um processo de aprendizado coletivo. Economias que produzem mais n\u00e3o apenas acumulam capital \u2014 acumulam conhecimento.<\/p>\n<p>No limite, n\u00e3o s\u00e3o apenas as economias que produzem mais que crescem \u2014 s\u00e3o aquelas que aprendem mais r\u00e1pido.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Artigo de Gi\u00e1como Balbinotto Neto, docente do Departamento de Economia e Rela\u00e7\u00f5es Internacionais da FCE\/UFRGS<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":40700,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"fifu_image_url":"","fifu_image_alt":"","footnotes":"","_links_to":"","_links_to_target":""},"categories":[438],"tags":[],"class_list":["post-40698","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-analise"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/fce\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/40698","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/fce\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/fce\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/fce\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/fce\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=40698"}],"version-history":[{"count":6,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/fce\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/40698\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":40720,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/fce\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/40698\/revisions\/40720"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/fce\/wp-json\/wp\/v2\/media\/40700"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/fce\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=40698"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/fce\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=40698"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/fce\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=40698"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}