{"id":40721,"date":"2026-05-04T10:24:36","date_gmt":"2026-05-04T13:24:36","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ufrgs.br\/fce\/?p=40721"},"modified":"2026-05-04T13:41:23","modified_gmt":"2026-05-04T16:41:23","slug":"distribuicao-funcional-e-mudanca-estrutural-no-brasil-movimento-sem-avanco","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufrgs.br\/fce\/distribuicao-funcional-e-mudanca-estrutural-no-brasil-movimento-sem-avanco\/","title":{"rendered":"Distribui\u00e7\u00e3o funcional e mudan\u00e7a estrutural no Brasil: movimento sem avan\u00e7o"},"content":{"rendered":"<p><b>Henrique Morrone<\/b>\u00a0\u00e9 economista e professor da UFRGS.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<div class=\"v1elementToProof\">Chama a aten\u00e7\u00e3o, para n\u00e3o dizer algo mais inc\u00f4modo, a escassez de trabalhos acad\u00eamicos que investiguem a evolu\u00e7\u00e3o da distribui\u00e7\u00e3o funcional da renda no Brasil articulada \u00e0 sua decomposi\u00e7\u00e3o estrutural. Como se a renda se distribu\u00edsse no vazio, e n\u00e3o no interior de uma estrutura produtiva em constante agita\u00e7\u00e3o.<\/div>\n<div class=\"v1elementToProof\">Mas a distribui\u00e7\u00e3o n\u00e3o paira no ar. Ela carrega o peso da estrutura que a sustenta.<\/div>\n<div class=\"v1elementToProof\">Talvez essa aus\u00eancia n\u00e3o seja apenas um descuido. Talvez diga algo sobre n\u00f3s, e sobre a forma como aprendemos a olhar o problema. A distribui\u00e7\u00e3o aparece com frequ\u00eancia como resultado: uma vari\u00e1vel que sobe ou desce ao sabor de for\u00e7as agregadas \u2014 tecnologia, globaliza\u00e7\u00e3o, institui\u00e7\u00f5es, barganha. Um n\u00famero que reage. Raramente um n\u00famero que se reorganiza.<\/div>\n<div class=\"v1elementToProof\">Mas reorganiza.<\/div>\n<div class=\"v1elementToProof\">E, quando o faz, n\u00e3o \u00e9 na superf\u00edcie.<\/div>\n<div class=\"v1elementToProof\">Entre 2000 e 2020, o Brasil ofereceu um experimento silencioso \u2014 e, por isso mesmo, revelador. O que se v\u00ea, \u00e0 dist\u00e2ncia, \u00e9 um movimento conhecido: a parcela do trabalho cresce nos anos 2000, perde f\u00f4lego e estabiliza em queda na d\u00e9cada seguinte. Um arco que parece caber nas narrativas usuais.<\/div>\n<div class=\"v1elementToProof\">Mas o agregado suaviza o que importa.<\/div>\n<div class=\"v1elementToProof\">O que a decomposi\u00e7\u00e3o revela \u00e9 menos uma trajet\u00f3ria do que um desalinhamento progressivo. N\u00e3o h\u00e1 ruptura s\u00fabita. H\u00e1 descoordena\u00e7\u00f5es que se acumulam, nem sempre silenciosamente, entre sal\u00e1rios, produtividade, pre\u00e7os e estrutura.<\/div>\n<div class=\"v1elementToProof\">No in\u00edcio, a engrenagem ainda encontra um ritmo.<\/div>\n<div class=\"v1elementToProof\">Os sal\u00e1rios reais avan\u00e7am. A produtividade tamb\u00e9m. Nem sempre juntos, mas ainda em rela\u00e7\u00e3o. A parcela do trabalho cresce porque h\u00e1, ainda que de forma imperfeita, uma correspond\u00eancia entre o que se produz e o que se paga. A economia avan\u00e7a, n\u00e3o por uma profunda transforma\u00e7\u00e3o estrutural, mas por um alinhamento provis\u00f3rio.<\/div>\n<div class=\"v1elementToProof\">Era pouco. Mas era suficiente para sustentar a apar\u00eancia de continuidade.<\/div>\n<div class=\"v1elementToProof\">Essa apar\u00eancia n\u00e3o resiste.<\/div>\n<div class=\"v1elementToProof\">A partir da d\u00e9cada seguinte, o que antes era diferen\u00e7a se torna dist\u00e2ncia. A produtividade segue seu curso, ainda que mais lentamente. Os sal\u00e1rios perdem impulso. Em alguns momentos, recuam. A parcela do trabalho n\u00e3o desaba. Ela desacopla.<\/div>\n<div class=\"v1elementToProof\">Deixa de acompanhar.<\/div>\n<div class=\"v1elementToProof\">A distribui\u00e7\u00e3o, nesse ponto, n\u00e3o entra em colapso. Ela muda de base. Passa a depender menos da din\u00e2mica salarial e mais da distribui\u00e7\u00e3o do trabalho entre os setores.<\/div>\n<div class=\"v1elementToProof\">E \u00e9 aqui que a estrutura reaparece, n\u00e3o como pano de fundo, mas como mecanismo.<\/div>\n<div class=\"v1elementToProof\">O trabalho se move. Setores encolhem, outros se expandem. Nada disso \u00e9 novo. O que chama a aten\u00e7\u00e3o \u00e9 a dire\u00e7\u00e3o desse movimento. A m\u00e3o de obra n\u00e3o migra predominantemente para onde a produtividade cresce. Migra para onde h\u00e1 absor\u00e7\u00e3o.<\/div>\n<div class=\"v1elementToProof\">E absor\u00e7\u00e3o, aqui, n\u00e3o \u00e9 sin\u00f4nimo de dinamismo.<\/div>\n<div class=\"v1elementToProof\">Os servi\u00e7os, sobretudo os de baixa produtividade, tornam-se o principal destino. A economia continua se movendo, mas o faz lateralmente, como um caranguejo, que se desloca sem avan\u00e7ar. Como um sistema que, sem for\u00e7a para avan\u00e7ar, redistribui seu peso para n\u00e3o cair.<\/div>\n<div class=\"v1elementToProof\">Essa redistribui\u00e7\u00e3o sustenta, parcialmente, a parcela do trabalho. Setores com maior intensidade laboral ampliam seu peso. Compensam, at\u00e9 certo ponto, a perda de tra\u00e7\u00e3o dos sal\u00e1rios. A distribui\u00e7\u00e3o se preserva \u2014 n\u00e3o porque se fortalece, mas porque se reacomoda.<\/div>\n<div class=\"v1elementToProof\">\u00c9 uma estabilidade que cobra pre\u00e7o.<br \/>\nPor isso, a parcela salarial n\u00e3o oscila de forma cambaleante.<\/div>\n<div class=\"v1elementToProof\">N\u00e3o despenca, mas reduz o horizonte.<\/div>\n<div class=\"v1elementToProof\">A produtividade, nesse arranjo, deixa de sustentar a parcela salarial. Passa, em muitos casos, a operar como um processo paralelo, cujos ganhos n\u00e3o se transmitem integralmente ao trabalho. O que antes era tens\u00e3o administr\u00e1vel torna-se dissocia\u00e7\u00e3o persistente.<\/div>\n<div class=\"v1elementToProof\">E h\u00e1 ainda os pre\u00e7os.<\/div>\n<div class=\"v1elementToProof\">Setores menos produtivos encarecem relativamente. N\u00e3o por efici\u00eancia, mas por sua aus\u00eancia. \u00c9 o mecanismo descrito por Baumol: as atividades estagnadas pressionam os custos e alteram a estrutura de pre\u00e7os. Mas, no caso brasileiro, falta a engrenagem que fecharia o circuito.<\/div>\n<div class=\"v1elementToProof\">Os sal\u00e1rios n\u00e3o convergem.<\/div>\n<div class=\"v1elementToProof\">Os pre\u00e7os sobem quando a produtividade n\u00e3o avan\u00e7a, mas os rendimentos n\u00e3o acompanham uniformemente. O ajuste n\u00e3o ocorre por equaliza\u00e7\u00e3o. Ocorre por compress\u00e3o. A renda real perde densidade e a distribui\u00e7\u00e3o se reorganiza, sem resolver a tens\u00e3o que a atravessa.<\/div>\n<div class=\"v1elementToProof\">Se Baumol aparece como diagn\u00f3stico parcial, Arthur Lewis surge invertido.<\/div>\n<div class=\"v1elementToProof\">No modelo cl\u00e1ssico, o desenvolvimento desloca o trabalho de setores de baixa produtividade para os de alta produtividade. Em nosso mundo bizarro nacional, o deslocamento ocorre sem um destino correspondente. A ind\u00fastria n\u00e3o absorve na escala necess\u00e1ria. O dinamismo n\u00e3o se generaliza. O excedente de trabalho n\u00e3o desaparece.<\/div>\n<div class=\"v1elementToProof\">Ele se reorganiza.<\/div>\n<div class=\"v1elementToProof\">Espraia-se por meio de atividades que sustentam a ocupa\u00e7\u00e3o, mas n\u00e3o ampliam a capacidade produtiva do sistema. N\u00e3o \u00e9 a supera\u00e7\u00e3o do dualismo. \u00c9 sua reconfigura\u00e7\u00e3o.<\/div>\n<div class=\"v1elementToProof\">Um Lewis ao avesso.<\/div>\n<div class=\"v1elementToProof\">Ao se olhar no espelho, a parcela salarial v\u00ea seu reflexo invertido: a parcela dos lucros. Esta, no Brasil, constitui um componente central da taxa de lucro, vari\u00e1vel que orienta a acumula\u00e7\u00e3o de capital e, em \u00faltima inst\u00e2ncia, o pr\u00f3prio crescimento. Sua outra face, menos vis\u00edvel, \u00e9 a produtividade do capital. Quando esta declina, como tem ocorrido de forma persistente, a taxa de lucro passa a depender cada vez mais da compress\u00e3o da parcela salarial.<\/div>\n<div class=\"v1elementToProof\">\u00c9 nesse ponto que as engrenagens institucionais entram em cena. Muitas das mudan\u00e7as institucionais implementadas logo ap\u00f3s a crise de 2015 parecem operar precisamente sobre esse reflexo invertido: n\u00e3o ampliam a produtividade nem reconstroem a base produtiva, mas buscam sustentar a rentabilidade por meio de redistribui\u00e7\u00e3o regressiva. O resultado \u00e9 conhecido. A parcela salarial encolhe para que a dos lucros respire, ainda que por pouco tempo, alimentando a din\u00e2mica de uma acumula\u00e7\u00e3o que permanece dependente e ofegante. Isso tudo pelo menos at\u00e9 2020.<\/div>\n<div class=\"v1elementToProof\">Nesse contexto, a parcela do trabalho deixa de ser apenas um indicador distributivo. Torna-se um sintoma estrutural. Ela expressa n\u00e3o apenas quanto o trabalho recebe, mas tamb\u00e9m onde est\u00e1 inserido, e em que tipo de din\u00e2mica produtiva se ancora.<\/div>\n<div class=\"v1elementToProof\">A economia brasileira, no per\u00edodo de 2000 a 2020, n\u00e3o parou.<\/div>\n<div class=\"v1elementToProof\">Mas tamb\u00e9m n\u00e3o avan\u00e7ou como poderia.<\/div>\n<div class=\"v1elementToProof\">Oscilou em um intervalo estreito. Ajustou-se pelas margens. Reorganizou suas partes sem alterar, de forma decisiva, o seu n\u00facleo. A distribui\u00e7\u00e3o acompanhou esse movimento. Cresceu quando havia f\u00f4lego, estabilizou quando ele faltou, apoiou-se na estrutura quando os sal\u00e1rios j\u00e1 n\u00e3o sustentavam.<\/div>\n<div class=\"v1elementToProof\">O resultado \u00e9 um equil\u00edbrio inst\u00e1vel.<\/div>\n<div class=\"v1elementToProof\">A parcela salarial n\u00e3o colapsa. Mas tampouco encontra uma base s\u00f3lida para crescer. Sustenta-se por deslocamento, n\u00e3o por expans\u00e3o. Pela composi\u00e7\u00e3o, n\u00e3o pelo dinamismo.<\/div>\n<div class=\"v1elementToProof\">E talvez seja justamente por isso que a literatura ainda hesite.<\/div>\n<div class=\"v1elementToProof\">Porque reconhecer esse processo exige abandonar a ideia confort\u00e1vel de que a distribui\u00e7\u00e3o pode ser analisada isoladamente. Exige recoloc\u00e1-la onde sempre esteve, no interior de uma estrutura que produz, absorve, desloca e, por vezes, limita.<\/div>\n<div class=\"v1elementToProof\">A distribui\u00e7\u00e3o n\u00e3o paira no ar.<\/div>\n<div class=\"v1elementToProof\">E quando a estrutura se move sem avan\u00e7ar, ela tamb\u00e9m n\u00e3o vai muito longe. N\u00e3o \u00e9 de se surpreender que eventuais expans\u00f5es recentes das remunera\u00e7\u00f5es sejam acompanhadas por recordes de endividamento das fam\u00edlias num ambiente em que a renda que rasteja, \u00e0s vezes dando passos largos, \u00e9 acompanhada da expans\u00e3o de um cr\u00e9dito, para alguns, abundante e caro.<\/div>\n<div><\/div>\n<div><\/div>\n<div><\/div>\n<div><\/div>\n<div><\/div>\n<div><\/div>\n<div><\/div>\n<div>\n<p>_________________________________________________________________________________________________________<\/p>\n<p><span data-tt=\"{&quot;paragraphStyle&quot;:{&quot;alignment&quot;:4},&quot;fontHints&quot;:2}\">As opini\u00f5es e ideias expressas neste texto s\u00e3o de responsabilidade do(a) autor(a) e n\u00e3o refletem, necessariamente, a posi\u00e7\u00e3o institucional desta Faculdade.<\/span><\/p>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Artigo de Henrique Morrone, docente do Departamento de Economia e Rela\u00e7\u00f5es Internacionais da FCE\/UFRGS<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":40727,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"fifu_image_url":"","fifu_image_alt":"","footnotes":"","_links_to":"","_links_to_target":""},"categories":[438],"tags":[],"class_list":["post-40721","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-analise"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/fce\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/40721","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/fce\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/fce\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/fce\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/fce\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=40721"}],"version-history":[{"count":5,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/fce\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/40721\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":40726,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/fce\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/40721\/revisions\/40726"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/fce\/wp-json\/wp\/v2\/media\/40727"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/fce\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=40721"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/fce\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=40721"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/fce\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=40721"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}