{"id":40962,"date":"2026-06-01T09:59:22","date_gmt":"2026-06-01T12:59:22","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ufrgs.br\/fce\/?p=40962"},"modified":"2026-06-01T09:59:22","modified_gmt":"2026-06-01T12:59:22","slug":"crescimento-sem-limites-o-que-o-modelo-ak-ensina-sobre-investimento-e-produtividade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufrgs.br\/fce\/crescimento-sem-limites-o-que-o-modelo-ak-ensina-sobre-investimento-e-produtividade\/","title":{"rendered":"Crescimento sem limites? O que o modelo AK ensina sobre investimento e produtividade"},"content":{"rendered":"<h3>Crescimento sem limites? O que o modelo AK ensina sobre investimento e produtividade<\/h3>\n<p>Gi\u00e1como Balbinotto Neto PPGE\/UFRGS-EA<\/p>\n<p>O que explica o crescimento sustentado de algumas economias ao longo de d\u00e9cadas? Por que pa\u00edses como Coreia do Sul e China, nas \u00faltimas duas d\u00e9cadas, conseguiram acelerar sua renda per capita, enquanto outros permanecem presos a trajet\u00f3rias de baixo dinamismo?<\/p>\n<p>A resposta passa por uma mudan\u00e7a relevante na teoria econ\u00f4mica a partir dos anos 1980: o surgimento dos modelos de crescimento end\u00f3geno. Entre eles, o modelo AK se destaca pela simplicidade e pela for\u00e7a explicativa.<\/p>\n<p>Durante d\u00e9cadas, o modelo \u00a0neocl\u00e1ssico de Robert Solow dominou a an\u00e1lise do crescimento econ\u00f4mico. Sua principal conclus\u00e3o era clara: a acumula\u00e7\u00e3o de capital, isoladamente, n\u00e3o sustenta crescimento permanente, pois est\u00e1 sujeita a rendimentos decrescentes. O progresso tecnol\u00f3gico \u2014 essencial para o crescimento de longo prazo \u2014 aparecia como fator ex\u00f3geno.<\/p>\n<p>As contribui\u00e7\u00f5es de Paul Romer e Sergio Rebelo mudaram esse diagn\u00f3stico. No modelo AK, o crescimento econ\u00f4mico pode ser gerado internamente, desde que o capital seja entendido de forma ampla: n\u00e3o apenas m\u00e1quinas e infraestrutura, mas tamb\u00e9m educa\u00e7\u00e3o, conhecimento, inova\u00e7\u00e3o e capacidade institucional.<\/p>\n<p>Nesse contexto, o produto cresce proporcionalmente ao capital \u2014 investir n\u00e3o reduz a produtividade marginal. A taxa de crescimento passa a depender da taxa de investimento e da qualidade desse investimento. Em linguagem direta: economias que investem mais \u2014 e melhor \u2014 tendem a crescer mais.<\/p>\n<p>Os dados corroboram essa intui\u00e7\u00e3o. Informa\u00e7\u00f5es da <em>Penn World Table<\/em> \u00a0mostram que, entre 2000 e 2019, economias asi\u00e1ticas com taxas de investimento superiores a 30% do PIB cresceram, em m\u00e9dia, entre 5% e 8% ao ano, enquanto pa\u00edses com investimento pr\u00f3ximo de 20% do PIB, como o Brasil, apresentaram crescimento inferior a 3% ao ano.<\/p>\n<p>A China \u00e9 o caso mais evidente: combinou investimento elevado, r\u00e1pida urbaniza\u00e7\u00e3o e absor\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica. A Coreia do Sul seguiu trajet\u00f3ria semelhante, com forte \u00eanfase em educa\u00e7\u00e3o e inova\u00e7\u00e3o. O Brasil, por outro lado, manteve taxas de investimento relativamente baixas e produtividade estagnada, limitando seu crescimento. O caso brasileiro sugere que o problema n\u00e3o \u00e9 apenas investir menos, mas investir com menor produtividade.<\/p>\n<p>Essa evid\u00eancia est\u00e1 em linha com o modelo AK. O crescimento n\u00e3o depende apenas de acumular capital f\u00edsico, mas de transformar investimento em capacidade produtiva permanente. M\u00e1quinas importam \u2014 mas m\u00e1quinas combinadas com educa\u00e7\u00e3o, inova\u00e7\u00e3o e institui\u00e7\u00f5es inclusivas importam muito mais.<\/p>\n<p>Outra implica\u00e7\u00e3o relevante \u00e9 a aus\u00eancia de converg\u00eancia autom\u00e1tica. Diferentemente do modelo neocl\u00e1ssico, pa\u00edses n\u00e3o tendem necessariamente a alcan\u00e7ar os mais ricos. Economias que investem mais em capital humano e inova\u00e7\u00e3o podem sustentar vantagens ao longo do tempo. O crescimento gera capacidade de investir, e o investimento sustenta o crescimento.<\/p>\n<p>Esse ponto \u00e9 central para pa\u00edses de renda m\u00e9dia. Sem ganhos persistentes de produtividade, educa\u00e7\u00e3o de qualidade e ambiente institucional favor\u00e1vel, o crescimento tende a permanecer baixo. O modelo AK ajuda a entender por que essa armadilha \u00e9 dif\u00edcil de superar.<\/p>\n<p>As implica\u00e7\u00f5es para pol\u00edtica econ\u00f4mica do modelo AK s\u00e3o diretas. Educa\u00e7\u00e3o, pesquisa e desenvolvimento, infraestrutura e qualidade institucional deixam de ser apenas desej\u00e1veis: tornam-se determinantes da taxa de crescimento de longo prazo.<\/p>\n<p>O modelo AK, naturalmente, \u00e9 uma simplifica\u00e7\u00e3o. Nem todo investimento \u00e9 produtivo, e retornos constantes n\u00e3o s\u00e3o observados em todos os contextos. Ainda assim, sua contribui\u00e7\u00e3o \u00e9 clara: o crescimento pode ser explicado por decis\u00f5es internas \u00e0 economia \u2014 e n\u00e3o apenas por choques tecnol\u00f3gicos.<\/p>\n<p>Em uma economia cada vez mais baseada em conhecimento, a li\u00e7\u00e3o permanece atual: crescer n\u00e3o \u00e9 apenas acumular capital f\u00edsico. \u00c9 ampliar continuamente a capacidade de aprender, inovar e investir com efici\u00eancia em um ambiente de institui\u00e7\u00f5es inclusivas.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Artigo de Gi\u00e1como Balbinotto Neto, docente do Departamento de Economia e Rela\u00e7\u00f5es Internacionais da FCE\/UFRGS<\/p>\n","protected":false},"author":8,"featured_media":40963,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"fifu_image_url":"","fifu_image_alt":"","footnotes":"","_links_to":"","_links_to_target":""},"categories":[438],"tags":[],"class_list":["post-40962","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-analise"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/fce\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/40962","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/fce\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/fce\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/fce\/wp-json\/wp\/v2\/users\/8"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/fce\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=40962"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/fce\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/40962\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":40964,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/fce\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/40962\/revisions\/40964"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/fce\/wp-json\/wp\/v2\/media\/40963"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/fce\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=40962"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/fce\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=40962"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/fce\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=40962"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}